Discurso sobre o Reino

Bharata, ao saber da morte do seu pai e que o seu irmão, Rama, a encarnação de Indra, havia sido exilado para a floresta, por um período de catorze anos, vai ao seu encontro a fim de o convencer a regressar a Ayodhya. Contudo, Rama, antes ainda de conhecer os motivos da vinda de Bharata, assume que este já se estabeleceu como príncipe reinante, dando-lhe preciosos conselhos sobre o bom governo:
(Ramayana 2.94.1-59)
Rama partindo de Ayodhya por 14 anos em exílio. Public Domain



«Rama encostou Bharata ao seu peito e, abraçando-o, beijou-lhe a testa. Depois, discretamente, questionou-o: “O que aconteceu ao nosso pai, querido irmão, para que tenhas vindo para este lugar selvagem? Enquanto ele viver tu não deverás vir à floresta. Há muito tempo, Bharata, que não via ninguém viajar de tão longe até esta floresta. Porque vieste tu à floresta, querido irmão, e qual o motivo dessa expressão tão sombria? O rei Dasharatha está de boa saúde, espero, e continua a honrar a sua palavra, assim como a realizar consagrações régias, sacrifícios de cavalos e a decidir sobre a legislação. Acredito que as honras devidas continuam a ser prestadas ao sábio e brilhante sacerdote, querido irmão, o preceptor dos Ikshvakus, que é constante na sua rectidão. Querido irmão, Kaushalia está feliz, espero, e Sumitra, a mãe de tão bom filho. Acredito que a nobre rainha Kaikeyi vive feliz, também. Acredito que tu honras o sacerdote da família, um homem de nobre casta, sábio e disciplinado, que dá instrução sem nada esconder. Espero que tenhas escolhido um homem sábio e justo, que conheça os preceitos rituais, para cuidar do teu fogo sagrado. Acredito que ele te informa sempre, em tempo útil, antes e depois de serem realizadas as oferendas. Acredito que ainda estimarás o preceptor Sudhanvan, querido irmão. Ele é perito nas mais formidáveis flechas e mísseis, e mestre na ciência política. Acredito que terás escolhido homens bravos para conselheiros, querido irmão, homens em quem confias como em ti próprio – homens sábios, auto-controlados e de nobre linhagem, e aptos a ler os pensamentos de alguém através da expressão facial. O conselho é a base do sucesso real, ó Raghava – quando bem mantido por conselheiros e ministros aptos na ciência. Acredito que não sejas governado pelo sono, mas que sempre acordes cedo, passando a noite a reflectir sobre como aplicar uma política prudente. Eu acredito que não tomas o conselho todo para ti, nem todo para o povo. E, estando assim determinado, o teu conselho não se precipita a falar fora do conselho sobre os assuntos do reino. Acredito que és tu quem decide ter poucas despesas e gerar um grande retorno, e que tomas essas decisões rapidamente, sem adiamentos. Acredito que os outros reis conhecem as tuas decisões no momento em que tu as tomas, ou pouco depois, e não antes de tempo. Acredito que os teus conselheiros, querido irmão, ou os teus ministros, mesmo aqueles que ainda não foram traídos, não serão descobertos, através do seu raciocínio ou ideias. Tu preferirás, espero eu, um único homem sábio, do que mil tolos. Em tempos de crise política um homem sábio consegue alcançar grandes resultados. Um rei pode confiar em milhares de tolos, para dezenas de milhares, mas eles não lhe proporcionarão a mínima assistência. Contudo, um único ministro que seja inteligente, bravo, capaz e conhecedor, pode assegurar a grande fortuna real para o seu rei ou oficial. Acredito que tenhas dado aos servos os trabalhos apropriados para eles, aos melhores servos as melhores tarefas, aos medianos as medianas, aos piores as piores. Acredito que tenhas dado aos teus melhores ministros as mais importantes tarefas, homens que ocupam posições hereditárias, que são honestos e que passaram nos testes de lealdade. Espero que as pessoas não tenham motivos para te criticar, como um sacerdote sacrificial critica um sem-casta, ou uma mulher ao amante que a trata com violência. Lembra-te também, que um homem perspicaz, com projectos ambiciosos, um servo dado à corrupção, ou um homem que está preso e esfomeado pelo poder, irá derrubar-te se não atacares primeiro. Acredito que tenhas escolhido para teu general um homem valente e corajoso, alguém que seja firme, sagaz, honesto, de boa linhagem, leal e capaz. Mostrarás honra e estima pelos teus melhores soldados, acredito, aos corajosos e poderosos homens que são hábeis na batalha e que demonstraram já o seu heroísmo. Acredito que pagas, quando o pagamento é merecido, os salários apropriados e a alimentação ao teu exército, e que não fazes distinção entre eles. Se o tempo para os seus salários e alimentos for esquecido, os servos ficam furiosos com os seus amos e tornam-se facilmente corruptos – e isto, tal como está estabelecido nos textos, pode levar a uma grande desgraça. Espero que todos se mantenham leais a ti, especialmente os homens de boas famílias, e que dêem de forma irrepreensível a vida por ti. Acredito que escolhes sempre um homem das províncias como teu emissário, ó Bharata, um homem sábio, um diplomata, compreensivo e entendedor, que repita exactamente o que lhe foi dito. Espero que já conheças a mente dos dezoito chefes oficiais de cada estado estrangeiro, e os quinze do teu, através de espiões indetectáveis, três para cada oficial. Espero, ó destruidor de inimigos, que não tomes erradamente como pacífico, qualquer homem hostil, que uma vez expulso tenha regressado. Não te associarás, espero eu, com sacerdotes que são materialistas, querido irmão. A sua única capacidade é a de trazer o infortúnio; eles são tolos que se acham sábios. Ainda que possuam sempre os textos sagrados sobre a recta conduta nas suas mãos, esses ignorantes constroem o seu pensamento apenas a partir da lógica e assim espalham os seus disparates. Acredito que manténs Ayodhya alegre e próspera, querido irmão, a cidade onde viveram os nossos antepassados desde a antiguidade. Acredito que a cidade de portas robustas continua fiel ao seu nome, a “Invencível”, cheia de elefantes, cavalos e bigas, preenchida por nobres aos milhares – Brahmanas, Kshatriyas e Vaishyas – cada um deles mantendo-se sempre fiel à sua tarefa, auto-controlados e energéticos. Acredito que a cidade continua a ter muitas mansões de vários estilos e muitas pessoas entendidas. Acredito que os campos continuem a prosperar, ó Raghava, e que lá a vida continue a ser confortável, com milhares de santuários, poços e tanques adornados. Acredito que estas pessoas estão bem instaladas, os homens e as mulheres felizes; as feiras e os festivais bem ornamentados e que as linhas de fronteira estejam bem demarcadas. Acredito que a terra continua rica em gado e livre de desastres, bem alimentada pelo deus da chuva, amável e protegida dos animais selvagens. Acredito que estimas todos os homens que fazem da sua vida a agricultura e o pastoreio; porque fundado sobre uma economia bem mantida, querido irmão, o mundo ganha felicidade. Acredito também, que os favoreces com medidas de protecção e de defesa. Um rei deve, de acordo com a via da rectidão, proteger todos os que vivem no seu reino. Acredito que agradas às tuas mulheres e as manténs protegidas, mas não confies demasiado nelas a ponto de lhes contares segredos. Tu proteges as florestas dos elefantes, acredito que sim, e que estás atento às necessidades dos elefantes. Acredito que te levantas cedo, príncipe, e que te diriges ao povo bem trajado e da forma mais correcta. Acredito que todos os fortes estão cheios de dinheiro, cereais, armas e água, com máquinas de guerra, artífices e arqueiros. Os teus rendimentos ultrapassam em muito as tuas dívidas, espero, e o teu tesouro não está em mãos corruptas, ó Raghava. Acredito que os teus rendimentos vão para os deuses e os anciãos, para os sacerdotes e os convidados, soldados e aliados. Nenhum nobre ou homem honesto é alguma vez culpado de roubar, espero, sem ser interrogado por homens conhecedores dos textos sagrados; e, se inocente, nunca é dado como culpado devido à corrupção. E quando um ladrão, quer seja apanhado no acto ou descoberto com a propriedade roubada, é apanhado e interrogado, eu espero, nunca é libertado, ó touro entre os homens, devido à corrupção através do dinheiro. Eu acredito que os teus sábios ministros, ó Raghava, fazem um julgamento imparcial entre um homem rico e um homem pobre. Porque as pessoas que derramam lágrimas quando falsamente acusadas, regressam para roubar o gado e os filhos do rei que gere os seus rendimentos. Acredito que manténs os três meios, Raghava – afeição, palavras agradáveis e presentes – mostrando estima pelas crianças, pelos idosos e pelos muito sábios sacerdotes. Prestas homenagem aos teus mestres, acredito, aos idosos, aos ascetas, convidados e deuses, aos altares e aos excelentes sacerdotes. Tu nunca esqueces a justiça em nome dos assuntos de estado, acredito, nem os assuntos de estado em nome da justiça, nem sequer te esqueces deles – devido ao desejo pelo prazer – em nome do prazer pessoal. Nobre guerreiro, acredito que tens uma boa capacidade de divisão – e que conheces o tempo próprio para cada uma, Bharata – e que cumpres as três, os assuntos da justiça, do estado e do prazer pessoal. Espero que os sacerdotes que compreendem o significado de todos os textos sagrados, e as pessoas da cidade e das províncias, te desejem felicidade, meu sábio irmão. Acredito que evitas os catorze erros dos reis: ateísmo; mentira; ira; distracção; lentidão; afastar os sábios; indolência; ceder à sensualidade; decisão egoísta de assuntos de estado; tomar conselho com os ignorantes; falhar na execução de planos; não manter o conselho no secretismo; não cumprir ritos sagrados; e esquecer a cortesia. Acredito que não guardas toda a comida apetitosa só para ti, ó Raghava, e que prestas auxílio aos teus aliados quando eles te o pedem.»  

Escultura em ouro com a representação da lendária cidade de Ayodhya no templo de Ajmer Jain situado em Ajmer, estado do Rajastão, Índia. Public Domain

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