Hino védico às rãs, mais do que um sarcasmo

1- Elas que permanecem em silêncio por um ano são como os Brâmanes que cumprem os seus votos. 

As rãs levantaram a sua voz, a voz que Parjanya inspirou. 

2- A que horas, como numa pele seca que jaz no leito da piscina, desceram sobre elas as inundações do céu, 

E o coaxar das rãs canta em uníssono, como as vacas junto dos seus bezerros? 

3- Quando a estação das chuvas chegou, a água derramou-se sobre elas ansiosas e com sede. 

Uma busca a outra enquanto fala e a cumprimenta com gritos de prazer como um filho ao seu pai. 

4- Cada uma recebe a outra amavelmente, enquanto se deleitam no fluxo das águas. 

A rã encharcada pela chuva avança, e a verde e a manchada combinam as suas vozes. 

5- Quando uma das duas repete a linguagem da outra, como quem aprende a lição do mestre. 

Cada uma parece crescer à medida que sobre as águas conversam com eloquência.

6- A de uma é um gemido de vaca e a da outra é um balido de cabra, uma rã é verde e a outra manchada.

Têm um nome comum e, no entanto, variam e, falando entoam a voz de forma diferente. 

7- Como Brâmanes, sentados ao redor do cálice transbordante, orando no rito Soma que é a morte da noite. 

Assim, as rãs, reúnem-se ao redor do lago para homenagear este grande dia do ano, o primeiro do tempo da chuva. 

8- Esses brâmanes com o sumo de Soma, realizando o grande rito do ano, levantaram as suas vozes; 

E esses sacerdotes, suando com as suas panelas, saem e mostram-se, e nenhum está oculto.

9- Mantêm a ordem dos doze meses nomeados por Deus, e nunca os homens negligenciam a temporada. 

Assim que regressa o tempo da chuva no ano, estes que foram como panelas fervendo ganham a sua liberdade. 

10- Os gemidos da vaca e os balidos da cabra deram-nos riquezas, e a verde e a manchada abençoaram-nos com um tesouro. 

As rãs que nos dão centenas de vacas prolongam as nossas vidas nesta estação fértil. 

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Os Vedas têm sido chamados Bíblia da Humanidade, porque contêm os hinos religiosos mais antigos de que se tem conhecimento, e muitos dos símbolos e metáforas que encontramos neles, também aparecem em grande parte dos textos religiosos em todo o globo. Foram elaborados em tempos imemoriais pelos rishis – profetas ou sábios divinos – e compilados, de acordo com a tradição, pelo avatar Vyasa no sagrado e santo lago de Manasarovara, nos Himalaias. Os mais antigos são o Rig (Veda dos hinos), o Sama (dos cânticos), o Yajur (do sacrifício), ao qual mais tarde é acrescentado o Atharva (dos encantamentos mágicos). O Rig consiste em 1028 hinos organizados em 10 livros ou mandalas

Vyasa concede a visão divina a Sanjaya. Wikimedia Commons

Embora geralmente sejam dedicados aos Deuses da primitiva religião da Índia, alguns hinos incluem diálogos à maneira teatral, ou saíram do tronco comum. 

Em particular um desses hinos é o Hino 103 do livro 7, conhecido como “O Hino das Rãs”, que é um pouco desconcertante, pois gira em torno de como as rãs começam a coaxar na estação das chuvas, e compara-as com os brâmanes no seu rito anual do Soma, a sua bebida sagrada. 

No início do século XX, o músico Gustav Holst, famoso pela sua obra “Os Planetas”, incluiu-o numa composição musical de vários hinos védicos. Com o piano, evoca de forma sublime o coaxar das rãs junto ao lago. 

Alguns estudiosos dizem que este hino é uma crítica humorística aos próprios brâmanes, o que seria contrário em espírito ao sentido do próprio texto, no qual os brâmanes são os santos intermediários que permitem trazer à terra as bênçãos do céu e os seus poderes divinos. 

Devemos lembrar que textos sagrados podem ser lidos, como dizia a genial H. P. Blavatsky (1831-1891) com várias chaves que acedem a diferentes significados. Os seus símbolos e alegorias poderiam, assim, ser interpretados a partir de uma perspetiva astronómica, ou matemática, ou psicológica e moral, alquímica, puramente espiritual, etc. O acesso a essas chaves seria revelado gradualmente e de forma secreta àqueles que se fizessem merecedores de tal conhecimento, pela sua pureza e profundidade de alma, após superar as devidas provas. 

Também devemos lembrar que a rã para a mentalidade judaico-cristã adquire um significado diabólico ou escatológico, mas não é assim para a filosofia e crenças de outros povos. E mesmo no próprio cristianismo dos primeiros séculos da nossa Era, e sob inspiração egípcia, figuravam rãs nas suas lâmpadas com o texto “Eu sou a ressurreição”. A rã, no Egito, é um símbolo de renascimento, da Iniciação, disposta a Alma a dar “O Grande Salto”, da fertilidade, anunciando as chuvas, e das suas metamorfoses, que começa no interior de um ovo para a seguir ser como um peixe e depois respirar no ar. Ou seja, pela sua natureza anfíbia, em que a água representa as correntes da vida e o seu psiquismo, e o ar o mundo mental. As almas vivem, enquanto prisioneiras na matéria, vítimas do lodo – terra e água – que as cobre e só as que se esforçam ascendem a águas mais puras, e até as que podem sair para terra firme e respirar o ar puro das Ideais divinas. Daí as semelhanças com as rãs. Os filósofos gregos disseram que as rãs simbolizavam as almas humanas a meia formação, ou seja, recuperando a sua natureza imortal, no meio desta difícil e dolorosa, e ao mesmo tempo feliz transformação, como a da serpente que deixa para trás a sua pele já velha. 

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Selo em faiança com o formato de uma rã, (1295 a.C. a 1069 a.C.), Departamento Egípcio do Museu do Louvre, Paris. Creative Commons

Neste hino a comparação dos brâmanes com rãs de diferentes tipos – repete a verde e a manchada – não é pejorativa. Pelo contrário, refere-se aos aspirantes à Sabedoria, que se estão gerando a si mesmos, mas que já alcançaram uma elevação que lhes permite trazer bênçãos (no Veda, as vacas, que simbolizam conhecimento, abundância, correntes espirituais e raios de luz, e tudo o que alimenta com o vivificador “leite” estrelar a alma).  

É de grande beleza como se explica a forma como cada alma (rã) é diferente, faz uma música que é sua, a sua “cor” é própria, mas como todas conjugam as suas vozes, no mesmo lago. Lembremos que a filosofia védica simboliza o Dharma com um lago, como um espelho harmónico da Eternidade, como vemos na famosa cena do Mahabharata no “Lago do Dharma”, e em que Yudishtira respondendo às perguntas deste Deus salva a vida dos seus irmãos. Todas as almas despertas comungam misticamente, como os Brâmanes na cerimónia do Soma, a sua bebida da imortalidade. H. P. Blavatsky disse que o significado esotérico desta bebida é a comunhão do eu humano ou consciência pessoal com o Eu divino, o mesmo conceito que os gregos têm de epopteia ou rapto divino. 

A forma como se pronunciam os mantram evoca, sem dúvida, a profundidade gutural dos cânticos da rã, especialmente quando são as vogais, símbolo dos Deuses, as que são pronunciadas. Numa chave, que é também literal, histórica, este hino menciona o canto e até talvez as operações rituais e mágicas dos brâmanes – os sons convertem-se em símbolos sonoros que cristalizam formas mentais – numa estação do ano, associada ao rito do Soma. Mas noutra deve referir-se ao próprio cântico das almas que despertam e se afirmam, a ação das suas próprias naturezas harmonizadas, fazendo coro umas com as outras na mais bela fraternidade, semelhante à metáfora dos coros angelicais no Cristianismo. 

As “panelas suando” ou as “panelas fervendo”, talvez se refiram, em consonância com o ritual védico, aos trabalhos da alma na sua própria transmutação, “separando o denso do subtil”, “o ouro da escória no cadinho”, a ação no atanor, de acordo com a conhecida expressão que aparece no livro místico Voz do Silêncio

“Do forno da vida humana elevam-se chamas aladas, que estão tecendo a tripla veste do Caminho.” 

Este hino não é certamente nem um sarcasmo para criticar os brâmanes nos seus ritos, nem um poema infantil de alguém atordoado pelo efeito do canto das rãs, anunciando as chuvas. É um hino ao despertar das almas, à sua liberdade e a como se harmonizam com as almas irmãs no mais antigo ritual humano da Terra, o da comunhão mística com as suas próprias almas, e ao mesmo tempo o da Fraternidade. 

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