Reencarnação e concepções budistas

A maioria das obras e estudos sobre Reencarnação concentram-se numa série de ideias básicas mais ou menos comuns. No entanto, a maior diferença encontra-se nas atitudes apriorísticas com que se abordam.

Terei sido Cleópatra?

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Meditação. Pixabay

Ou tentam “convencer” ou provar a existência da reencarnação ou, ao contrário, a desaprovam. Múltiplas razões são aduzidas num sentido ou outro, com o objetivo final sendo, na verdade, a defesa das posições religiosas ou filosóficas particulares a partir das quais a análise é feita.

Portanto, não nos deteremos em explicações para “provar” a existência de tal fenómeno, porque afinal, a menos que se tenha consciência e memória dele – o que em qualquer caso só continuaria a ser válido para o próprio – seria inútil e uma forma de convencer os já convencidos. Há muita fé ou crença religiosa quase dogmática em muitos dos “crentes” da reencarnação, bem como nos detratores, além de manipulações do conceito para acomodar os próprios desejos, sonhos e vaidades pessoais: ninguém “se lembra” de ser a encarnação de um pobre mendigo, quase todos se lembram de ter sido grandes reis, princesas ou sacerdotes sábios, o que geralmente é sinal bastante de infinita vaidade, já que não há assim tantas “cleópatras” ou “napoleões” ou grandes reis no passado para que todos fiquem satisfeitos.

Por tudo isto, uma das perguntas mais terríveis e difíceis de responder é: “Você acredita na reencarnação?” Mas antes de responder, seria necessário perguntar sobre as intenções do questionador, que em muitos casos apenas espera um sonoro sim ou não para, consciente ou inconscientemente, adicioná-lo à sua própria lista de pessoas aceitáveis ou pertencentes à mesma “confissão” (agora chamam de” likes” ou “dislikes”).

– Mas então, você acredita ou não na reencarnação?

– Para sua tranquilidade direi que sim, mas mais como uma necessidade e como uma daquelas chamadas pelos cientistas de “hipóteses férteis”. É uma necessidade porque é a peça que faltava que se encaixa com o resto das minhas concepções filosóficas – faço isso como todos os demais. É também uma hipótese fértil porque permite encontrar explicações para o mundo que me rodeia, embora às vezes nos perguntem se não é uma forma de acalmar e entorpecer a consciência com respostas que afinal não podem revelar o mistério último das coisas.

– Mas pelo menos são respostas razoáveis ​​…

– É exatamente isso que me põe de sobreaviso, elas são demasiado razoáveis. Digamos que a hipótese da reencarnação oferece respostas aceitáveis ​​para o momento atual da evolução humana. Mesmo com tudo isso, não explicaria outra série de questões enigmáticas, nem daria plena satisfação, como é formulado, ao sentido último de justiça e verdade que um homem desperto sempre tenta encontrar. Mas antes de tudo, vamos tentar definir o fenómeno. Em primeiro lugar, temos que diferenciar entre Reencarnação e Renascimento.

Por Encarnação, teremos que entender a entrada de “algo” num corpo físico. Essa entrada pode corresponder a um ser inconsciente, consciente ou mesmo superconsciente. Em qualquer caso, corresponde, pelo menos por enquanto, à entrada ou expressão de algo num plano material denso. Será reencarnação quando esse algo vier de outra encarnação anterior.

Por Renascimento entendemos a mutação de um ser em algo diferente, mas mantendo uma certa continuidade de consciência com o anterior. Isso pode acontecer em qualquer plano vindo de qualquer outro.

Para o Budismo Theravadin ou Hinayana, tanto a reencarnação quanto o renascimento são considerados fenômenos pertencentes ao Samsara (“peregrinação perpétua”) e como causa de sofrimento, decadência, morte e recomeço.

 A roda da vida. NU Free Documentation License

Inconcebível é o início deste Samsara; nunca descoberta a primeira origem dos seres, os quais, acorrentados pela ignorância e presos ao desejo, se precipitam e correm através desta ronda de renascimentos.

A reencarnação era uma crença partilhada pelos vedantinos, jainas, sikhs, xintoísmo japonês, taoísmo e cristãos primitivos. De acordo com as concepções budista e hindu, essa longa peregrinação tem um possível fim ou libertação, o Nirvana hindu ou Moksha, que é considerado uma aniquilação ou absorção do eu peregrino, uma união sublimada no divino. Agora, Nirvana é SER, a existência real, que não tem começo nem fim, porque está além do tempo e da manifestação. Como é possível que o que é irreal e temporário possa “chegar” ao Nirvana, ao que sempre É?

Se nada “chega”, “conquista”, “integra” ou “atinge” o Nirvana, qual a sua relação com essa peregrinação eterna? O que é que reencarna? Pois se o Nirvana sempre É, a entidade que reencarna não pode ser algo que “saiu” daquele plano e finalmente “chegou” ao Nirvana, extinguindo-se assim a corrente do Samsara.

Serão sombras ilusórias projectadas, como os raios do sol num espelho?

O budismo ortodoxo tropeça aqui num obstáculo: o da dupla verdade ou realidade, um conceito de que, outra reencarnação do Buda, segundo a tradição, Sankaracharya nos fala. Se, por um lado a inexistência de um “eu” real no homem é afirmada no budismo, por outro lado, ele afirma a existência interminável de uma cadeia de sofrimentos centrada num eu ilusório e prega a necessidade de escapar dela. Mas então o que ou quem tem que escapar? O que ou quem alcança a extinção do sofrimento?

Buda. Creative Commos

É por não entender, por não perceber quatro coisas, que eu, discípulos, assim como vocês, tive que vagar por tanto tempo nas rondas de renascimentos.

E quais são essas quatro coisas? Eles são a Nobre Verdade do Sofrimento, a Nobre Verdade da Origem do Sofrimento, a Nobre Verdade da Extinção do Sofrimento, a Nobre Verdade do Caminho que conduz à Extinção do Sofrimento.

O Buda disse: “Eu, discípulos, assim como vocês, tive que vaguear…? Mas se não há “eu”?! Porquê todo esse esforço? Para se libertar do que não existe? Evidentemente aqui há um mistério…

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