Reflexões sobre o Karma segundo os Ensinamentos de H. P. Blavatsky

“O karma é a força de ação moral no universo do qual deriva o mérito e o demérito”

H.P. Blavatsky

Há algum tempo, fui testemunha de uma conversa entre um budista e um filósofo. O primeiro, falava sobre um determinado Lama, sobre as suas qualidades e a sua magnificência, e, para o exemplificar, comentou acerca de um encontro entre este e uma seguidora sua. Ao que parece, a senhora havia procurado o seu guia espiritual em busca de consolo e de ajuda a fim de superar uma situação traumática: havia sido violada pelo seu pai quando ainda era criança e isto marcou-a para o resto da vida. A resposta do Lama ao sofrimento da devota deixou-me sem palavras, pois ele disse-lhe que não o superaria enquanto não pedisse perdão ao seu agressor. As nossas expressões, ao ouvirmos esta história, iam da surpresa à perplexidade e daqui à indignação. O budista disse que isto, de acordo com a sua religião, se devia ao karma. Basicamente, e de forma muito resumida, era “olho por olho, dente por dente”, ou seja, se és atropelado por um carro enquanto atravessas a estrada, numa outra reencarnação serás tu a atropelar essa mesma pessoa que te atropelou, também quando estiver a atravessar a estrada… esta interpretação tão literal leva-nos diretamente à aberração de se dizer a uma vítima de violação que o que lhe aconteceu deve-se ao facto de ela, certamente, noutra encarnação, ter violado o seu agressor. Confesso que não me impactou apenas a crueldade da resposta, mas também a deturpação do ensinamento; do ponto de vista da filosofia, não é desta forma que se entende a lei do karma.

No seu livro A Chave para a Teosofía, H.P. Blavatsky dedica muitas páginas a explicar os ensinamentos da filosofia natural, ou esotérica, sobre este conceito. Ela diz-nos que o karma é “a Lei Fundamental do Universo, a fonte, a origem e o manancial de todas as outras leis que existem na Natureza”2. Prossegue, dizendo que esta é uma lei “inequívoca”, ou seja, que não se pode interpretar de outra maneira para além daquilo que é e que não admite nenhum tipo de dúvida, “que ajusta o efeito à causa, nos planos físico, mental e espiritual da existência”3. Com isto, HPB já nos diz que existem mais realidades para além daquelas que vemos, que é a física ou material, e que em todas estas realidades, ou planos de manifestação ou de existência, o karma atua procurando restabelecer o equilíbrio. Mas, para além de restabelecer a harmonia, o karma ajusta “sábia, inteligente e equitativamente cada efeito à sua causa, seguindo as pegadas desta última até às origens”4. Contudo, também nos alerta de que esta é uma lei incognoscível, ainda que nos diga que a “sua ação é percetível”5.

Com estas premissas, podemo-nos lançar à aventura de, definitivamente, este conceito de karma não se assemelhar em nada à conceção do tipo “castigo” do início deste artigo… como bem disse o escritor José Carlos Fernández, meu esposo e companheiro, e mestre nesses assuntos filosóficos… “olho por olho, dente por dente… e ficamos todos cegos!”. É evidente que em algum momento a roda tem de deixar de girar, seja através da consciência ou através da dor, por forma a que causa que produziu a reação seja finalmente reparada.

Regressando à ideia da natureza incognoscível do karma, é lógico pensar que o mecanismo pelo qual esta lei retribui cada ação que transgrida as normas é desconhecido. Não sabemos como funciona nem quais são as suas normas ou parâmetros; a única coisa em que podemos estar seguros – se é que no incognoscível pode haver algum tipo de segurança – é que a desarmonia gerada por uma má ação tem de ser reparada. HPB utiliza um exemplo muito clarificador, que é o seguinte: “(…) pense num lago. Uma pedra cai na água e origina ondulações agitadas. Estas ondulações oscilam para trás e para a frente até que, finalmente, devido à operação que os físicos chamam de lei de dispersão de energia, ficam quietas e a água recupera a sua condição de serena tranquilidade. Da mesma forma, toda a ação, em cada plano, produz uma agitação na harmonia equilibrada do Universo e as vibrações assim produzidas continuarão a girar para a frente e para trás se a sua área for limitada, até que se reestabeleça o equilíbrio”6. Mas, como se corrige esta agitação? Sobre quem é que recai a responsabilidade de restabelecer a harmonia? Na Natureza, e “(…) cada uma dessas perturbações parte de um mesmo ponto determinado, claro está, o equilíbrio e a harmonia, só podem recuperar-se através da reconversão para o mesmo ponto de todas essas forças que se puseram em movimento a partir dele. E aqui tem (…) a prova de que as consequências das ações de um homem, pensamentos, etc., têm que reagir todas sobre o mesmo, com a mesma força com que foram postas em movimento”7. É, sem dúvida, uma explicação muito esclarecedora de como a lei do karma retribui em grau e intensidade a força posta em movimento, seja esta positiva ou negativa; porque convém também esclarecer que todas as ações, sejam elas boas (harmónicas) ou más (desarmónicas) geram uma reação. Esta ideia é muito interessante uma vez que, regra geral, pensamos que o karma é algo negativo que apenas se aplica às más ações, como se o altruísmo, a bondade, a generosidade e tantas outras virtudes que se podem aplicar ao nosso dia-a-dia não fossem uma ação que possa produzir também os seus frutos. Sobre isto, HPB diz-nos: “o karma devolve a cada homem as consequências efetivas dos seus próprios atos, sem ter em conta o seu caráter moral; mas, uma vez que recebe tudo o que está pendente, é evidente que o obrigarão a reparar todos os sofrimentos que causou, da mesma forma que colherá o gozo e a alegria os frutos de toda a felicidade e harmonia que ajudou a criar”.

Causa e efeito. Pixabay

Sobre a causa que produz uma alteração na Harmonia, entendida como um estado natural da natureza, Blavatsky afirma que é o egoísmo, em qualquer umas das suas variantes. E que o karma não é mais do que “a Lei de reajuste que tende sempre a restaurar o equilíbrio truncado no mundo físico e a harmonia quebrada no mundo moral”8. É graças a este equilíbrio e a esta Harmonia que existe o Universo.

Para complicar um pouco mais a forma com que se compreende o funcionamento do karma, descobrimos que existem várias formas, dependendo de afetar apenas um indivíduo ou uma coletividade. Sobre isto, diz-nos Blavatsky: “cada átomo está sujeito à lei geral que governa todo o organismo a que pertence, e aqui chegamos à mais ampla trajetória da lei kármica. Não se apercebe que a soma do karma individual se converte naquele da nação a que esses indivíduos pertencem e que, para além disto, a soma total do karma nacional é o karma do mundo?”9. Segundo esta doutrina, a lei do karma, na sua aplicação, seria como uma imensa e imensurável trama de incontáveis fios, cada um deles com uma missão específica e um destino para cumprir. Como e quando é que se entrelaçam estes fios, forma parte do Mistério e, claro está, escapa à compreensão humana, porque: como haveremos de saber onde começa este labirinto de causas e efeitos? E quando termina? Como poderemos saber que o desequilíbrio inicial já foi restaurado? Ou como poderemos saber se com as nossas ações não estamos a gerar um novo karma? Bem, é difícil responder a estas perguntas, mas continuemos com os ensinamentos de HPB que, certamente, lançarão mais luz sobre o assunto.

Nó infinito. Domínio Público

A crença de que se uma pessoa comete uma falta terá que “pagar” sofrendo a mesma falta noutra encarnação e, aliás, da mesma pessoa, opõe-se aos ensinamentos de HPB que diz que “o karma, nos seus efeitos, é um reparador infalível da injustiça humana e de todos os fracassos da natureza; um rigoroso corretor de erros; uma lei retributiva que premeia e castiga com igual imparcialidade. No sentido mais estrito, não tem em conta as pessoas”10. Ou seja, é inflexível. Diz-nos Blavatsky que “o infalível Regulador infunde em cada encarnação a característica da seguinte; e a soma dos méritos ou deméritos das encarnações precedentes, determinam-na”11. Imaginamos que o karma, ao tentar restabelecer a Harmonia através da Justiça, pretende, não só saldar uma dívida, mas também, e no caso de más ações, que o indivíduo tome consciência do seu erro para que o evite repetir no futuro e que assim possa subir,  passo a passo, a escada que conduz ao verdadeiro Conhecimento.

Krishna e Arjuna. Pixabay

Até onde sabemos, tudo gera karma, inclusive a inação. E precisamos da ação para evoluir, para criar cenários que nos permitam experimentar e crescer interiormente, muitas vezes por meio do erro, mas não há aprendizagem sem provas. No tratado hindu chamado de Bhagavadgita, Krishna ensina a Arjuna que “a ação é superior à inação; inclusive a vida normal não seria possível com a inação”12. Segundo os ensinamentos contidos neste tratado, existem duas atitudes neste mundo: a dos seguidores do Samkhya, pelo Yoga do Conhecimento (Jnana) e a dos Yogins, pelo Karma Yoga (Yoga da ação). O primeiro, o Yoga do Conhecimento – um caminho indicado apenas a alguns – é o caminho da meditação e chega-se à Verdade, primeiro, através do exercício da mente e, depois, através da intuição. O segundo, o Yoga da Ação (a palavra karma significa «ação») é o Caminho do Dever, do desapego dos resultados da ação. E é o caminho da grande maioria dos seres humanos, é o que fazemos todos os dias: tentar agir da melhor maneira possível, sem aspirar a maior recompensa do que a boa ação realizada. Diz-nos a Bhagavadgita, pela boca de Krishna, que: “Só tens direito às ações, nunca aos resultados. Não te identifiques com aquilo que causa os resultados da ação, nem tampouco te apegues à inação”13. No final, “somos o que fazemos” e quando chegar o momento final, nada restará de nós senão as obras realizadas. Como diz António Machado no seu poema “caminhante, são as tuas pegadas o caminho e nada mais. Caminhante, não há caminho, o caminho faz-se a andar”. Portanto, o não querer atuar para não gerar karma não tem razão de ser, porque o que é próprio do ser humano é caminhar, em todos os sentidos; é criar movimento que é a Vida na realidade.

Tabuleiro de xadrez. Pixabay

Assim sendo, e uma vez que é impossível para o ser humano não gerar karma, compete-nos trabalhar para expandir a nossa consciência e tentar manter as nossas ações dentro dos limites do Bem e da Harmonia. Porque podemos perder o controle das consequências que geramos, mas somos donos das ações que realizamos. Imaginemos que a vida é como um tabuleiro de xadrez, serão os meus movimentos, as minhas decisões que me levarão de um lado para o outro: se forem boas, poderei avançar e vencer o jogo; se forem más, inevitavelmente perderei peças até ser derrotado. As decisões que tomamos são como as peças desse xadrez e a vida é cheia de escolhas, depende de nós como jogar e que estratégia traçar. É o que a filosofia natural chama de livre-arbítrio, que nada mais é do que a capacidade que o ser humano tem de tomar as suas próprias decisões, em momentos-chave, que definirão o curso da sua existência. Tornamo-nos assim em arquitetos da nossa própria vida, porque vamos construindo o nosso caminho futuro através das ações do presente; por isto é tão importante tomar consciência dos erros do passado, porque só através dessa consciência podemos adquirir um verdadeiro conhecimento de nós mesmos. Como se encontra muito bem refletido nos Puranas, “cada homem colhe as consequências dos seus próprios atos”.

Espero que os ensinamentos que se foram debulhando neste artigo sirvam para deixar claro que o ser humano não pode saber em que momento é compensado o karma gerado por uma determinada ação, pois como já se comentou, a rede de causas kármicas é denso e inabarcável. Mas podemos intuir que existe um princípio e um fim, porque senão, a roda nunca terminaria de girar ficando cada vez maior, perdendo pelo caminho a causa original e, inclusive, a própria finalidade. Também ficou demonstrado que se respondermos ao mal com o mal, ao invés de com bem, geramos um novo karma que se soma ao anterior e a roda gira, gira, gira … Como tal, o “se tu me maltratas, eu maltrato-te” é uma má compreensão da lei do karma. Blavatsky recomenda “insistentemente a compaixão, a caridade e o perdão por ofensas mútuas” e afirma que “um homem que, acreditando no karma, ainda se vingue e se recuse a perdoar as ofensas e a retribuir com o bem o mal, é um criminoso que só se prejudica a si mesmo”. E esta compaixão e caridade não podem vir de outra mão que não a da sua própria consciência.

Notas:

1 – Isis sin Velo. Tomo II, pág. 45 (pdf de la Sociedad Teosófica)
2 – La Clave de la Teosofía, pág. 207. Editorial Teosófica, 1991.
3 – Ibidem
4 – Ibidem
5- Ibidem
6 – A Chave da Teosofía, pág. 212. Editorial Teosófica, 1991.
7 – Ibidem
8 – Ibidem
9 – La Clave de la Teosofía, pág. 208. Editorial Teosófica, 1991.
10 – La Clave de la Teosofía, pág. 204. Editorial Teosófica, 1991.
11 – La Clave de la Teosofía, pág. 206. Editorial Teosófica, 1991.
12 – Capítulo III da Bhagavadgita
13 – BhG. 2.47.

Deixe uma resposta