A Doutrina Hindu do Atman

Possa algum de vós ter a oportunidade de ir alguma vez à Índia e, especialmente, a oportunidade de ter um contacto íntimo com as suas gentes, e descobrirá que a Índia é o lugar dos lugares, porque lá Deus parece estar mais próximo.

Possa algum de vós ter a oportunidade de ir alguma vez à Índia e, especialmente, a oportunidade de ter um contacto íntimo com as suas gentes, e descobrirá que a Índia é o lugar dos lugares, porque lá Deus parece estar mais próximo. É uma terra repleta de paz, onde de cada partícula de pó parece emanar uma atmosfera espiritual. Vocês irão ver, em comparação com a vossa própria terra, a sua paz e serenidade, a gentileza das gentes e a sua cortesia, bem como a perspectiva geral que têm da vida, que é a de se considerar esta vida apenas como a antecâmara da vida verdadeira.

No entanto, a Índia, que é actualmente tão diferente para vós, já foi muitíssimo semelhante à vossa própria civilização. Há mais de dez mil anos, os Hindus eram tão brancos quanto vós. Na verdade, em termos de raça, eles são vossos irmãos de sangue, pois são Ários. Também eles vieram daquele lar da Ásia Central, para lá dos Himalaias, de onde os vossos antepassados migraram para ocidente, estabelecendo-se na Europa. Os antigos Hindus tinham, tal como os Gregos, uma intensa vitalidade, diferente, talvez, daquela que possam perceber neles hoje. Eles eram um povo que vivia em grande proximidade de todas as delicadas influências da Natureza e, tal como os Gregos, acreditavam que toda a natureza estava viva, e que ela era uma manifestação dos muitos Deuses dos elementos. Os Hindus viviam então uma vida plena de vigor; eles eram um povo marcial. E, no entanto, tinham uma característica muito impressionante, pois perceberam sempre a vida, não apenas como uma manifestação das forças cegas da natureza, mas sobretudo como uma revelação de inteligências que eram a personificação de Deus.

Os antigos Hindus cruzaram então a cadeia dos Himalaias e desceram até às planícies da Índia. Lá encontraram um povo de pele escura, civilizado, ainda que de temperamento diferente. Não restam muitas dúvidas de que os Hindus, tal como a maioria dos guerreiros brancos desde então, teriam acabado por exterminar todas os povos mais escuros do território se eles não fossem tão numerosos. Assim sendo, estabeleceram-se entre os povos mais escuros, promovendo casamentos mistos com eles até que a tez branca mudou para o castanho actual, embora ainda hoje, no Caxemira, vocês encontrem descendentes dos Ários puros, que são tão ou mais brancos do que vós.  

Mulheres indianas. Pixabay

Quando, finalmente, os Hindus se estabeleceram na Índia, começaram a desenvolver uma civilização que era em muitos aspectos equivalente à vossa. Eles organizaram-se em classes ou castas. A casta dos instrutores e sacerdotes e a casta dos guerreiros e administradores eram as duas mais elevadas. Depois destas, veio a casta dos agricultores e comerciantes. Todos elas se uniram, estas três castas Árias, para gerar uma raça de escravos a partir dos habitantes originais do território. Como se perpetuaram durante milhares de anos, surgiu entre elas a inveja de classe e os interesses de cada uma colidiam contra os das outras, tal como na civilização ocidental. A religião, que era originalmente um simples culto aos poderes da natureza, transformou-se num cerimonial intrincado. Os Hindus nunca perderam a sua fé na existência de um único Deus, mas os muitos deuses converteram-se frequentemente em meros poderes dominadores, por vezes com uma tendência maléfica, a menos que o Homem os apaziguasse através do sacrifício. Surgiu então um sacerdócio que inventava um ritual após o outro, a fim de preencher a lacuna que existia entre o desamparo humano e a aparente omnipotência dos deuses. A religião tornou-se então numa complicada vivência cerimonial e, rapidamente, todos os homens foram aprisionados nas suas curvas sinuosas até toda a espiritualidade ter sido arrastada aos pés do cerimonialismo. Lentamente, os sacerdotes criaram todo o tipo de superstições, tais como a de terem de realizar determinada coisa em determinado dia, ou que se não se abstivessem de iniciar determinada actividade num determinado momento, o infortúnio vos seguiria. Claro que se podia apaziguar o deus do infortúnio através de alguma prática cerimonial, foi assim que vieram de arrasto os encantamentos, os talismãs, os rosários e toda a parafernália da religião cerimonial.

Mas mais lamentável do que tudo isto foi a forma com que os habitantes negros e originais do território, pelo facto de não possuírem uma natureza tão marcial, foram subjugados pelos Hindus Ários. De facto, a Índia estava a começar, naquela época, a trilhar o caminho civilizatório que a civilização ocidental havia seguido. Os Hindus começaram a aceitar como axioma de vida que os Homens deveriam lutar pela sua existência como fazem os animais, que os homens e as mulheres mais fracos deveriam ser eliminados da vida tal como os animais mais fracos são eliminados pela natureza. Iniciou-se, então, um período em que a religião era professada pelos ricos, com um cerimonialismo excessivo, mas que, ao mesmo tempo, dava plena expressão aos seus desejos mundanos. Surgiu uma insensibilidade para com o sofrimento humano e uma exploração dos fracos, tal como as encontramos hoje na civilização ocidental.

A Índia teria desaparecido totalmente, tal como está a desaparecer a Europa, tal como a Austrália irá desaparecer, a menos que as coisas mudem. A Índia teria desaparecido se não tivesse ocorrido um acontecimento surpreendente. Tratou-se da descoberta de um facto maravilhoso pelos Hindus. Ora, este facto era tão maravilhoso, tão grandioso na sua capacidade de mudar, não apenas a vida dos indivíduos, mas também a civilização do mundo, que lhe deram o nome de Rahasya, o “Segredo”. Este era guardado pelas castas mais elevadas e partilhado apenas entre alguns dos seus membros. Este Segredo só era comunicado a alguns, apenas àqueles que haviam levado uma vida justa e que pudessem provar que haviam cumprido com todos os deveres a que estavam obrigados. Depois de um homem ter cumprido com os seus deveres para com a sua esposa, os seus filhos e os seus pais, depois de ter feito tudo o que lhe era necessário pela causa da religião e da caridade, então, se, quando chegasse à velhice, ainda procurasse conhecer o grande Segredo, apenas aí lhe seria ensinado este mistério. Os Hindus nascidos nas castas mais elevadas cercavam de tal forma esse Segredo que ninguém que não fosse Hindu de nascimento, que não fosse um Ária de linhagem antiga, estava a autorizado a possuí-lo.

Anel de fogo. Pixabay

Que Segredo tão misterioso e maravilhoso era este, cuja descoberta transformou toda a civilização Indiana e a impediu de correr colina abaixo para o lamaçal da competição fratricida e que fez da Índia o que ela é hoje? Este segredo era o Atman. A palavra Atman significa, literalmente, o “eu”, e se eu dissesse em Sânscrito “Eu próprio o fiz”, usaria a palavra Atman. Mas também é usado num outro sentido. É usado para referir algo que é semelhante a Deus, mas diferente da vossa concepção ocidental de Deus. Na vossa concepção ocidental há um elemento de antropomorfismo que está ausente no Atman. Vocês não podem deixar de pensar em Deus com algum tipo de forma, como um Ser sobre-humano e glorioso; vocês pensam-no frequentemente enquanto personalidade individual separada das restantes personalidades do universo. É por causa destas ideias que vocês associam a Deus, que descrever Atman enquanto Deus é expressar parcialmente a verdade que a palavra significa para o hindu.

Mas deixem-me ler-vos alguns passos destes textos antigos para vos mostrar o que é que os sábios Hindus queriam dizer com Atman. É a Vida Una, o Princípio único oculto por toda a multiplicidade dos fenômenos, a Unidade oculta pela diversidade, não alguma coisa vaga e abstracta, mas sim uma consciência, uma força, e ainda uma personalidade, se assim lhe quiserem chamar, mas tão magnífica, tão além de toda a compreensão das nossas mentes limitadas que os sábios preferem não o chamar de Ele nem de Ela, mas simplesmente de AQUILO. Porque eles perceberam que falar desse Princípio como Deus ou como Deusa seria impor-lhe uma limitação que não lhe pertencia. No entanto, uma vez que, ao terem de o descrever, haveriam de usar termos familiares para os seus ouvintes, utilizaram frequentemente, para além do termo AQUILO, a forma: Purusha, “O Homem”.

Este grande princípio, este Deus, está em todas as coisas, no coração de todas as coisas, é o poder detrás de todas as coisas. Assim cantaram o Atman nas Upanishads, os sábios Indianos:

Este Deus, na verdade, está em todos os cantos; foi há muito, muito tempo, de facto, que ele teve o seu nascimento; ele está, verdadeiramente, dentro do embrião. Ele nasceu, ele nascerá; ele está oculto em todos aqueles que nasceram, com a sua face em toda a parte.

Aquele Deus que está no fogo, aquele Deus que está na água, o que permeia todo o universo, o que está nas plantas, o que está nas árvores da floresta – para ele, para Deus, todas as saudações e mais algumas!

Ele tem olhos em todas as partes, em todas as partes tem, seguramente, as suas faces, tem braços, seguramente, em todo o lado, em todo o lado tem os seus pés. Com os seus braços, as suas asas, ele ilude-os, criando o céu e a terra, o Deus único.

As suas faces, cabeças e pescoços são os de todos, ele que se encontra no lugar secreto de toda a alma, ele, o senhor, está espalhado por todo o universo. Então, como aquele que tudo permeia, ele é benigno.

Sem mãos e sem pés ele move-se, ele captura; sem olhos ele vê, e sem ouvidos ele ouve; ele conhece aquilo que pode ser conhecido, ainda que ninguém o possa conhecer a ele; a ele, chamam-no de Primeiro, de Poderoso, de Homem.

Geralmente os sábios observavam a Realidade única, o Atman, e tentavam compreendê-la numa vertente pessoal; por isto, em hinos e salmos, eles referiam-se a ele como “Vós”.

De facto, vós vos haveis tornado mulher, e homem, e jovem, e virgem também; na velhice, com uma bengala apoiastes os vossos passos; vós nascestes com a face em toda a parte. 

Insecto azul, pássaro verde, e animal de olhos vermelhos, a nuvem que porta o relâmpago no seu ventre, as estações e os mares, vós não tendes início. No poder omnipresente tendes a vossa casa, de onde todos os mundos nascem.

Solitário neste universo ele vai e vem; é ele quem é o fogo, ele penetra na água. Ele, e apenas ele, o único conhecedor, atravessou para lá da morte; não há qualquer outro caminho para percorrer.

Foi assim que estes sábios antigos apresentaram a existência do Uno. Esta maravilhosa Unidade transcendente que está em todas as partes, este Poder consciente e uno faz com que todas as estrelas sigam os seus cursos. O seu poder está no tornado e nas ondas do mar que destroem; ele vem como a morte que põe termo à vida. No entanto, o Atman está repleto de amor e protege os mais jovens dos animais, trazendo ao coração da sua progenitora o amor e a ternura, e o espírito de sacrifício. Este Princípio que é poder, é também amor; este parece ser totalmente implacável, no entanto, está repleto de compaixão. Percebemos este poder universal quando olhamos para os céus; é devido à sua ordem que todas as coisas visíveis e invisíveis trabalham em harmonia para criar o universo.

Cosmos. Pixabay

Tendo, desta forma, declarado a existência de uma Realidade única, os sábios Hindus deram ainda um passo adiante. Eles descobriram que toda a omnisciência de Deus, toda a sua omnipotência, todas as coisas maravilhosas que sugerimos pela palavra “Deus” existem dentro de nós e que cada um de nós é Deus. Eles ensinaram a maravilhosa verdade de que o universo que se encontra fora de nós está, na verdade, dentro de nós, que quando sofremos e quando protestamos contra a dor, essa dor é, ela mesma, uma parte do Atman, ou seja, uma parte do nosso Eu. Nada existe que não sejamos nós próprios, os pecados que cometemos e o mal de que fugimos, são, de uma forma misteriosa, uma parte de nós. Todos os grandes Instrutores que nos inspiram não nos são alheios, mas formam parte de nós.

Este maravilhoso ensinamento era o misterioso “Segredo”, e os sábios declararam-no em certos Mantras, ou fórmulas sagradas, que só podiam ser pronunciados se sussurrados, de tão sagrados que eram. Através de muitas frases tentou o Hindu fazer com que a sua mente reconhecesse a sua relação com a Unidade. Uma frase é Aham Atma, “Eu sou o Eu”. Diariamente, o piedoso hindu de olhos fixos no sol, o melhor símbolo que ele encontrava do Eu do universo, afirmava So’ham, “Eu sou Ele”. Eram-lhe dadas, como a melhor chave para todas as coisas, as frases: Tat tvam asi, “Tu és AQUILO”; e Atmanam atmana pashya, “Procura o Eu com o eu”.

É possível descobrir este grande Eu do universo apenas porque ele se encontra dentro de vós. “Deves procurá-lo porque tu és ele”, era uma ensinamento dado aos poucos.  Mas este ensinamento aprendido por uns poucos transformou a civilização Indiana. Pois para os poucos que acreditaram nele, que o aceitaram e que o tentaram pôr em prática não existiam interesses de classe ou de credo. Que significado tinham todas as contendas e disputas dos Brâmanes contra os seus oponentes, os Kshatriyas? Que significado tinha a competição entre os homens nos seus negócios? A vida era uma só, e todas as acções dos homens, boas e más, eram as manifestações da Vida Una. Que importância podiam ter as seis grandes filosofias, quando sabias que existe apenas uma Verdade e que ela estava dentro de ti? Que importância tinham todas as intrincadas cerimónias religiosas, nas quais outros se atarefavam, quando sabias que existia apenas uma Realidade?

Cerimônia. Pixabay

Assim, conhecendo este grande Princípio, o sábio Indiano afastou-se da vida, examinando-a com ternura, com caridade para com todos aqueles que estavam imersos na grande ilusão do eu pessoal, recusando para si próprio, no entanto, participar da sua ignorância. Ele compreendeu que os homens viviam no mundo procurando responder aos seus próprios interesses, que uma classe se posicionava contra a outra, que cada homem tentava conquistar certos objectos que outros homens também queriam para si, e que assim o mundo estava repleto de agonia. O sábio afastou-se da vida, pois esta era apenas um teatro de sombras no qual os homens eram actores. Ele afastou-se de qualquer orgulho ou preconceito racial. O que lhe importava se um homem era branco como o Brahman ou escuro como os habitantes originais do território? O que importava se um homem vinha da China ou de África? Em todos os homens habitava o mesmíssimo grande mistério. Branco e castanho, negro e amarelo, todos estes viviam dentro de si, e quando um homem aparecia com uma aparência diferente, por que motivo haveria o sábio de assumir uma atitude superior, uma vez que a grande vida do Atman habitava igualmente dentro dos dois?

Homem indiano. Pixabay

Esse foi o grande ensinamento que modificou a Índia, pois na Índia, nos tempos antigos, existiam homens sábios que, aonde quer que fossem, não participavam em disputas religiosas, não se interessavam por quaisquer disputas entre esta e a aquela classe. Mas pregavam sempre a existência de apenas uma Realidade, o grande Eu, o Atman, e que todas as Ideias que enfatizavam a diferença constituíam uma ilusão. Se vocês pensam que são diferentes de outro homem ou de outra mulher, isso é uma ilusão. Se pensam que são ricos e que têm muitas posses, e que aquele é pobre, e que vocês têm maiores capacidades do que ele, isso é, uma vez mais, uma ilusão. Pois a única verdade é que existe apenas o Atman, o Eu. Não há nada fora dessa Divindade, e os sábios chegaram mesmo a dizer que Divindade está, inclusivamente, no jogo da batota, pois a batota também é uma expressão da Vida Divina. Todas as actividades humanas, boas ou más, são expressões na manifestação do Princípio Uno, o Atman.

Isto não significa, de forma alguma, que os homens possam praticar o mal e que não devam procurar o bem. Pois, enquanto universo manifestado, o Atman revelou-se de forma gradual à mente do homem. Na medida em que os homens se voltem para o bem, libertam-se dos obstáculos da ilusão e livram-se daquelas más acções que os prendem à roda do nascimento e da morte. No entanto, mesmo esta acção deve ser impessoal. Se praticarem o mal, deverão nascer novamente na terra para que possam sofrer a dor que é o resultado desse mal. Mas sempre que praticarem o bem, procurando algo para vós próprios, incluindo o próprio céu, então vós, a parte individual que pratica o bem, deverão renascer para colher o que semearam. Mas para além do bem e do mal está a Realidade. E os homens que se libertam dos seus anseios pessoais e que já não procuram coisas para a sua satisfação pessoal, praticam o bem sem desejarem qualquer recompensa, porque é correcto praticar o bem. O sábio abstém-se do mal, não porque colheria dor, mas simplesmente porque o mal é impossível para o homem que conhece o Segredo.

Extraído do livro: The Hindu Doctrine of the Atman, C. Jinarajadasa

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