Fundamentos da natureza religiosa do ser humano

por Jorge Ángel Livraga

A erudição podemos extraí-la dos livros, dos meios de comunicação atuais, mas o contacto humano, o calor humano, o poder estar juntos somente pode nascer do coração de cada pessoa, e isso é para nós, filósofos acropolitanos, o mais importante, o fundamental. Vamos fazer uma pequena improvisação sobre o tema, que poderia dar lugar a tantas palavras e há tão poucas, talvez quase nenhuma, dado que a natureza religiosa do ser humano é inata, está em todos os homens, é algo visceral. O homem traz consigo a possibilidade de perceção do metafísico, do ontológico; não é necessário ser ensinado. O único que podemos aprender são as formas, os símbolos.

O homem acreditou sempre em algo superior a nós, que chamamos Deus. Algo que está em nós, em tudo o que nos rodeia, em todas as épocas, em todos os lugares. Como historiador digo que sabemos muito pouco do ser humano, conhecemos apenas os últimos dias de uma imensa vida humana.

Se a História é parte suficientemente conhecida do passado humano, podemo-nos referir a muito pouco tempo e até a própria História seria um conhecimento parcial do passado humano, por exemplo, na Pré-história, a única coisa que nos resta são os utensílios que o ser humano utilizou. Mas, através destes utensílios, podemos ver que os homens que chamamos mais primitivos, se é que eram primitivos, porque poderiam ser restos de antigas formas civilizatórias, adoraram algo que está acima deles. Das formas civilizatórias mais antigas registam-se sempre rituais, elementos religiosos, altares, mesmo se eles forem primitivos, como um dólmen, um menir, uma pedra em cima da outra, isto não tem uma finalidade pragmática, sim metafísica.

O homem, através de todas as suas etapas, sentiu profundamente a presença deste mistério que é Deus, e expressou-o conforme conseguia. Nas antigas cavernas, que correspondem ao Paleolítico inferior, vemos impressões de mãos postas nas paredes e representações de animais. Nas culturas do centro da Europa, como o Crânio do Urso, vemos uma identificação com as forças da natureza, as misteriosas forças que movem as coisas, que terão sido fixadas em formas zoomórficas. Quando os homens antigos adoravam uma árvore ou um animal, não é que adorassem a árvore ou o animal em si, mas sim o que eles viam, sentiam, percebiam mais além dessa árvore, desse animal ou dessa pedra.

Da mesma forma que hoje, quando estamos frente a um crucifixo, não é que demonstremos a nossa devoção a dois pedaços de madeira, mas sim a algo que está muito mais além, que está a representar materialmente o grande fenómeno ontológico e teológico do ser humano. Poderíamos dizer que a religião nasce com o primeiro homem, com as primeiras formas humanas, com diferentes representações: Zeus-Zen é a primeira forma que encontramos entre os proto gregos, que logo deram origem a todos os deuses que conhecemos da antiga Grécia. No Egito é o Sol, a que chamamos de Rá, e na cidade de Heliópolis é a montanha vermelha, a montanha do fogo onde habita o pássaro Benu. Na China a essa primeira forma se chama Tien, é o grande azul.

No Japão torna-se lúdico sob os mitos da lebre de Inaba, que reproduz, através dos seus jogos de crocodilos marinhos, aquela força telúrica e celeste que move o homem, que o identifica com algo que está além. Nas terras altas da América do Sul é Viracocha e nas costas é Naymlap, que navega em seu barquinho de junco[1] e habita nas ilhas onde estão as almas dos mortos. É Melkarth, entre os antigos fenícios, representante da guerra sagrada que abre caminho nas trevas. Está na Suméria, em Roma… está em toda parte.

Esta divindade se aparece, soma-se a uma série de símbolos, através de uma série de formas, mas no fundo é sempre e exatamente a mesma, seja combatendo com os hóspedes de Mahoma, seja oferecendo a mensagem de amor do cristianismo, seja com o Mânava-dharma-sâstra ou com a coluna de luz de Shiva, na Índia. De alguma forma, é sempre o mesmo, é sempre aquilo que percebemos, simplesmente adota formas distintas segundo o lugar geográfico e segundo o momento histórico.

Raios de luz. Pixabay

Atualmente encontramo-nos perante o problema do confronto com uma pseudo-filosofia, -permitam-me chamar-lhe assim – que nos quer conduzir a um materialismo ateísta.

No século XIX estas ideias foram incorporadas através de um conceito que poderia ter sido o ser humano na sua trajetória histórica. Assim, chegou-se a pensar de que o homem foi primeiro mágico, logo religioso, depois filósofo e atualmente científico. Dividiam as coisas de forma total, ou seja, quando o homem estava numa etapa mágica, só vivia o mágico, quando estava na etapa religiosa, era somente religioso, quando na filosófica, filósofo e na científica o homem somente é científico.

No entanto, as atuais investigações arqueológicas e históricas demonstram-nos que os povos muito antigos que eram eminentemente mágicos, tal como o povo egípcio, tinham também a sua própria religião, uma filosofia, uma ciência avançada, uma técnica que se reflete na construção das pirâmides, nos grandes arquivos que tinham para prever as grandes enchentes do Nilo, o enorme templo de Karnak, ou a esfinge que todos conhecemos do planalto de Gizé.

Encontramos aqui uma questão, o homem pode ser mágico, religioso, filosófico e científico ao mesmo tempo? Sim, essa é a realidade. A religião não é algo que mutile o ser humano, mas sim, potencia-o. Não é o “ópio dos povos”, pelo contrário, foi o que permitiu levantar os grandes monumentos. Por acaso a força de Deus não está por de trás das pirâmides do Egito, das pedras de Stonehenge, da catedral de Notre Dame? Não está nas obras de São Bernardo, nos caminhos dos templários, nas distintas formas religiosas que assumiram o budismo, com as escolas Maháyâna e Hînayâna? Através de todas estas formas aparece Deus, o que nós chamamos de Deus.

É completamente contraditório à lógica e à razão, pretender que o homem religioso não seja filosófico, nem mágico, nem científico, enfim, que não seja um homem culto. Completamente o contrário.

As grandes obras da humanidade, desde o Partenão até à música de Bach, obras de arte que nos impressionam vivamente, tem por de trás a força e o impulso do religioso. Quando o homem fica sem religião, quando perde a perceção daquele superior e metafísico, quando isso se mutila, ficando simplesmente como se fosse o rei dos animais.

Na realidade, o ser humano não é o rei dos animais, é algo mais. Está mais além da sua aparência física, da sua aparência psicológica, de suas ideias. O homem é um mistério. Dentro de cada um de nós há uma voz interior que está a dizer o mesmo que eu, mas talvez com outras palavras, com outras formas mais ricas, mais ilustradas, mas todos participamos nessa corrente interior ontológica e metafísica. Todos sentimos a necessidade de acreditar, de saber, de sentir Deus.

Quando um homem não tem uma boa casa, ele se refugia debaixo de alguma madeira ou de algumas pedras, quando encontra um rio trata de fazer uma ponte, nem que seja com madeira ou pedras. O homem pode solucionar as necessidades físicas, económicas, sociais, políticas, mas existe algo que está acima de tudo isso, algo pelo qual não lhe faz falta madeira nem pedra, que é sentir a presença imanente de Deus. O ser humano é religioso por natureza. Ninguém pode dizer que ele ensina religião, o que se ensina são as formas religiosas.

Mas, dizem os materialistas – esses materialistas ateus que dividiram a história em quatro partes e hoje vêm os seus fracassos – que demonstremos a existência de Deus, e assim podemos comprovar que existe. Uma forma estranha de encarar as coisas! Como vamos medir o metafísico com algo físico? Como vamos medir o ontológico simplesmente com as mãos ou com uma presença material? Porém, temos argumentos para falar com eles. Talvez essas pessoas não sejam mal intencionadas, no entanto, com a comunicação atual, a comunicação de massas que nos leva a esta sociedade de consumo completamente materializada, confunde sobretudo os mais jovens, que são vítimas dessas ideias. Ensinam-lhes a querer tocar, ver e demonstrar tudo, convencem-se de que, cientificamente temos plena segurança de tudo o que dizemos.

Analisemos brevemente alguns pontos e vejamos que naquilo a que chamamos ciência há muito de fé. Por exemplo, eu nunca vi o fundo do oceano, por tanto, se fosse a aplicar o sistema que ensinam os materialistas dialéticos, diria que não existe porque nunca o vi. Dir-me-iam que poderia utilizar um batiscafo e ver o fundo do oceano. O que diria um homem religioso a respeito da existência de Deus? Que posso levar uma vida mística, de santidade, de oração, de boas obras e estar perante a face de Deus.

Todos acreditamos nos centros de quasar, esses centros de energia que existem no cosmos. Algum de vocês os viu? Talvez exista um astrónomo que poderia tê-los registado com os seus instrumentos, no entanto a totalidade dos que aqui estamos nunca vimos um centro de quasar, porque não se vê de uma forma direta, nem se consegue tocar. Falamos do átomo e damos-lhes uma série de características. Porque lhas damos? Porque lemos um livro de física que diz que o átomo tem eletrões, protões e neutrões. Falam-nos do spin, de órbitas atómicas, mas ninguém viu um átomo. Dizemos que a Terra é redonda, que provas temos? Vemos que a sombra da Terra se reflete na Lua e assim podemos deduzir que é redonda, mas que me demonstrem que a sombra que vejo da Lua é a sombra da Terra. Que me demonstrem os materialistas como me pedem que eu demonstre Deus. Que me demonstrem que o que provoca as grandes pestes e doenças são as bactérias e os vírus; alguns de nós os viu através de um microscópio, muitos não, e essas pessoas o aceitam por fé.

Planeta Terra. Pixabay

Historicamente sucede o mesmo. Eu jamais tive o prazer de apertar a mão a Alexandre Magno, nem conheci Júlio César, não sei se fui apunhalado por Cássio ou por Bruto.  Porém, assim nos ensinam e assim aceitamos o que nos ensinam. Vemos, portanto, que os nossos conhecimentos físicos, históricos ou químicos dependem em grande parte da fé que temos em determinados livros, em uma acumulação de conhecimentos que tem perdurado na humanidade.

Mas se aceitamos isso, porque não aceitamos também que a existência de Deus está provada, pelo menos em parte, pela acumulação de livros que nos falam de Ele. Que livros existem mais antigos que aqueles que nos falam de Deus? Existe algum tratado de física, de química ou de botânica que seja tão antigo como estes livros sagrados, como são os Vedas, ou a Bíblia, ou o I Ching? Existe algum livro tão velho? Não.

Os homens durante milhões e milhões de anos creram em Deus e, sim eu devo crer que a Terra é redonda porque a acumulação de quase quinhentos anos de experiência assim nos diz. Porquê não crer em Deus quando a acumulação de cinco ou dez mil anos de experiência nos ensina a existência de Deus?

Os materialistas poderiam dizer-nos que têm provas empíricas, que podem demonstrar certas coisas. Se unirem dois átomos de hidrogénio com um de oxigénio, obtém-se água, mas como demonstrar, mesmo que sejam provas indiretas, a existência de Deus?

Triste mentalidade a dos materialistas! Quem colocou no cosmos esta inteligência tão extraordinária que faz com que toda esta criação esteja em equilíbrio, onde nada se perde, onde tudo se transforma? Quem deu aos peixes das profundezas a possibilidade de serem fosforescentes para iluminar as grutas a milhares de metros da profundidade? Quem deu ossos ocos aos pássaros para que pudessem voar e ter uma grande força estrutural com um mínimo de peso? Quem ensina as formigas a fazer os seus caminhos? Quem deu a possibilidade às flores e folhas de se moverem, sem ter musculatura no sistema nervoso, para poder estar em frente ao sol e assim ter aquele fenómeno químico que lhes permite, através da clorofila, sobreviver? De onde surge toda esta inteligência? Porque é que os astros giram e giram por milhares e milhões de anos e são equilibrados nos seus eixos? Porque é que as ondas estão sempre arrebentar na costa? Porque é que nos mesmos agora, quando estamos a falar de tudo isto temos uma série de funções automáticas dentro de nós? Porque é que bate o nosso coração? Porque é que temos movimentos peristálticos nos nossos intestinos? Não estamos a pensar nisso, não estamos a controlar, isso vem de alguma parte. Mas diriam os materialistas: “Isso vem da evolução. Com o tempo, os órgãos foram evoluindo e evoluindo”.

Magnífico! Mas quem, e o que deu começo a todas as coisas? A casualidade? Não acreditamos numa casualidade, acreditamos numa causalidade. Todas as coisas têm a sua causa e efeito. Se neste momento “pegarmos”, como disse um Filósofo do século passado, em alguns pedaços de madeira, um pouco de bronze, algum couro e atirarmos ao ar, um órgão descerá tocando uma música de Bach? Não cairá ao mesmo tempo os pedaços de madeira, bronze e de couro que tenhamos atirado ao ar. Então no princípio dos tempos quando ninguém poderia ter lançado para o espaço a matéria e que por casualidade se tivesse convertido nesta grande máquina musical que hoje podemos registar através dos nossos dispositivos, que emitem sons, ondas… Sem dúvida, que terá existido e existe uma inteligência que regula todos os processos do universo.

Se existe uma inteligência que rege todos os processos no universo, que fez uma lei de ciclos que nos permite conhecer o verão e o inverno, a noite e o dia, e concebeu que para nos reproduzirmos temos que unir homens e mulheres, e assim formar o núcleo de todas a sociedades que é a família, e em conjunto podem ter filhos? Não haverá ninguém que seja possuidor desta inteligência? Não haverá um inteligente? E esse inteligente, faz o que está mais além e que utiliza essa inteligência? Não é evidente? É muito mais evidente que existência de um átomo ou que a Terra é redonda.

A evidência de Deus se vê em todas as coisas. Deus eleva-se com as montanhas e com as pedras, dá-nos a beleza e dá-nos a neve que derrete e corre através das pedras cantando, chega ao mar onde depois evaporará, formará nuvens e voltará para as montanhas e voltará a descer.

Quem deu a água? Os materialistas não disseram que era o hidrogénio mais oxigénio? Os materialistas diriam que isso se deve aos desníveis, o peso específico, etc? E quem criou o peso específico e quem pensou nos desníveis de maneira tão hábil? Quiséssemos nós, Filósofos, ter a marcha que a água tem através das pedras! A água não se cansa não hesita. Procura os caminhos para chegar ao mar, da mesma maneira que o homem, quando é homem não hesita nos caminhos para chegar à consciência de Deus.

Deus se levanta com cada árvore, no verde das suas folhas, no perfume das suas flores. Nasce com cada criança que vem à Terra como uma nova esperança. Fecha os olhos de todo aquele que completou a sua etapa da vida e morreram. Deus move as águas, as terras, faz com que as cadeiras onde está sentado resistam ao seu peso, torna-se possível que ouça as minhas palavras e que as minhas palavras sejam emitidas. Vocês não me vêm, nem eu vos vejo.

O que estão a ver é simplesmente roupa e células epiteliais. No entanto por meio de um mecanismo extraordinário, o meu ser interior comunica-se com o vosso ser interior e estamos a falar nada menos que Deus.

Assim, Deus está tanto ou mais fundamentado que qualquer outra coisa. Para quem é verdadeiramente um Filósofo, para quem ama a sabedoria para além de todas as formas, para aquele que não finge, mas é autenticamente natural, para esse, Deus está em todas as coisas, porque se houvesse uma coisa por mais pequena que fosse, onde não estivesse Deus, mesmo que tivesse o tamanho de um olho de uma agulha essa coisa o estaria a limitar e Deus não seria absoluto.

Deus está no pleno e no vazio, está no caçador e na caçada, está naquele que está de pé e naquele que está sentado, nos vivos e nos mortos, nas águas que correm e nas que estão paradas. Deus caminha connosco pelas ruas e também sonha o impossível de nós, forja o impossível, abre livros, escreve-os e lê-os…Quantos terão guardado poemas no seu coração? Quantos os terão escrito? Quantos terão quadros dentro de si? E quantos os terão pintado? Quantos sentiram a música na sua alma? Quantos os levaram para o pentagrama? Deus é infinitamente rico dentro de nós e dá-nos todas essas possibilidades.

Que devemos fazer perante esta evidência da existência de Deus? Primeiramente devemos tratar de levar uma vida que não contradiga a natureza externa e interna das coisas.

Uma vida estética por fora e ética por dentro, que tenta harmonizar-se com todo o universo, que tenta sempre trazer paz, amor e conhecimento a todas as coisas, que carrega força quando necessário, que sabe como cultivar uma árvore e derrubá-la se necessário.

Devemos tratar de esforçarmo-nos por libertarmos desta escravatura do materialismo, que nos vai corroendo por toda a parte, até que nos faz negar não só a existência de Deus, assim como nos faz duvidar da nossa própria existência, como aqueles Filósofos posteriores a Heidegger que disse não termos alma, que temos propriedades, e que para torná-lo mais difícil, para torná-lo pseudo-metafísico, nos falam de uma “coisidade , da coisa em si”. Puro palavreado. Detrás dessa “coisidade”, detrás da existência do existente está sempre a magnífica e maravilhosa simplicidade de Deus, desse mistério ao qual chamamos Deus.

Devemos cuidar de que as nossas obras reflitam essa harmonia, devemos ser o mais possível canais dessa força interior, dessa força espiritual, e que se plasme em cada uma das nossas obras: no que pintamos, no que falamos, no que escrevemos, na forma como tratamos o próximo. Temos que nos livrar deste “boné” de matéria e medo, esta espécie de fato de mergulhador que colocou chumbo nos pés e nos faz andar de cabeça baixa e sobrecarregados. Temos de voltar a ser damas e cavalheiros, para nos sentirmos capazes de nos ajoelhar perante o mistério, diante daquele que chamamos Deus.

Temos de ser capazes de estender a mão a todos os homens, porque se Deus existe, se ele é um, somos todos filhos de Deus, todos somos representações ou emanações ou como queirais chamar, que por palavras não discutiremos.

Ação de fraternidade e ajuda. Pixabay

Todos somos irmãos, existe uma fraternidade, uma confraternidade real entre todos os seres humanos, e aqueles que precipitam na luta de classes e no partidário estão a atacar a própria essência do carácter humano. O que diferencia um ser humano de um animal não é inteligência, não é a bondade, porque há animais muito inteligentes e há animais infinitamente bons. Como disse a alguns discípulos há uns dias, quem é tão bom como um cão, que lhe damos uma bofetada afetuosa ou uma chicotada, ele ainda vem abençoar e beijar a mão que lhe bateu? Quantos homens, quantas mulheres podem fazer o mesmo? Vejam quanta bondade há naquele cão que às vezes sem nos conhecer nos vê na rua e move a cauda de alegria, quando ele nem sequer sabe quem somos.

Quando é que vamos conseguir essa capacidade espiritual de nos regozijarmos quando virmos outro ser humano, de uma forma natural e espontânea?

O que nos diferencia dos animais é precisamente a perceção da existência de Deus, o sentimento daquela força misteriosa que atravessa todas as coisas. Sabendo dentro de nós que não começamos com o nosso corpo nem terminamos com ele. Sabendo que os nossos sonhos não estão perdidos, que tudo o que queremos será de alguma forma real. Conhecer a força da nossa vontade, a sensibilidade que podemos ter nos nossos corações. Ser capaz de rir e chorar. É isso que nos distingue do animal. E se perdemos essa possibilidade de perceção do divino, tornamo-nos animais, mesmo estando vestidos e embora possamos recitar de memória quais são as valências do cloro, de hidrogénio ou oxigénio, embora possamos falar de matemática, embora possamos empurrar pedras, como as empurram os escaravelhos-bosteiros no Egipto.

Teremos de perceber que o que nos sacraliza e realmente nos faz seres humanos é a realidade de Deus em nós.

Caminhemos então juntos, caminhemos unidos por este caminho. A Nova Acrópole oferece-nos a possibilidade – como o seu nome sugere, “nova cidade alta”, não uma cidade alta material, mas uma cidade alta moral e espiritual – de recriar esta familiaridade filosófica que serve para estabelecer tudo o que temos de sagrado, tudo o que é verdadeiramente válido em nós mesmos e para que possamos ver de novo os nossos filhos como filhos, os nossos pais como pais, os nossos irmãos como irmãos, nossos maridos e esposas, como maridos e esposas. Para que possamos ver de novo árvores verdes e os animais alegres. Para que possamos outra vez articular não somente as palavras que falam de economia ou confronto, mas palavras que falem de Deus, daquilo que realmente nos pode elevar.

Porque quando caímos, não só moralmente, mas também caímos fisicamente, por exemplo num poço, o que gritamos, o que dizemos? “Santo átomo, ajude-me?” Pedimos à lei de Lavoisier que nos ajude? Não. Todos dizemos: “Meu Deus!” Por que instintivamente dizemos o meu Deus? Porque dentro de nós está Deus, porque ele está dentro e fora, porque nós o temos instintivamente.

A Acrópole é um caminho e é um bastião contra tudo o que tenta nos animalizar e nos converter em seres longe da nossa própria realidade. A própria realidade de dizer esse meu Deus instintivo na vida; e no último momento, nos portais da morte, que nos repita aos ouvidos, “não tenhas medo, não tenhas medo, a morte não existe”, quando conseguirmos isso, quando conseguimos fazer todos juntos, não será necessário falar de Deus, será tão evidente como os dedos da mão.

Tentemos não ser contaminados por essas ideias materialistas que nos levam ao confronto, que nos levam ao genocídio, ao fanatismo, ao ateísmo. Sejamos verdadeiramente Filósofos buscadores da verdade, amantes da sabedoria. E que verdade maior do que a de Deus, que sabedoria maior do que a de nos conhecermos a nós mesmos!

Neste momento negro da história em que as forças do materialismo avançam por todo o lado, tenhamos a coragem, como o homem que cai no fosso para gritar alto: Meu Deus!


[1] Palheta ou totora (de Quechua t’utura) é uma planta herbácea aquática perene.

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