
Śrī Lakshmanan Gurukkal provém de uma família tradicional de Kalaripayattu. O seu pai e guru, Śrī Veerasree Sami Gurukkal, que se formou sob a orientação do Guru Govindankutty Nambiar, fundou o Hindustan Kalari Sangam em Calicut, em 1952, com o objetivo de preservar e promover esta arte marcial tradicional. Os seus filhos — Śrī Lakshmanan, Śrī Shatrughnan e Śmt. Radhika — continuam hoje a dar seguimento a esta herança.
Em 2010, Śrī Lakshmanan Gurukkal fundou o Kalarigram, próximo de Auroville, como centro tradicional de formação em Kalaripayattu, oferecendo aulas e workshops nas áreas interligadas de Kalaripayattu, Āyurveda, Yoga e Meditação. No seu empenho em revitalizar o Kalaripayattu, é também o mentor do Tantrotsav, o Festival Anual do Templo do Kalarigram, que celebra e promove o Kalaripayattu, o Tantra, a Arte e a Cultura. Este festival, com a duração de duas semanas, culmina na noite de Mahā Śivarātri — a grande noite de Śiva, o dançarino cósmico — e evoca a execução do Tāṇḍava, a dança divina da criação, preservação e dissolução cósmica.
Tenho tido o privilégio de estudar sob a orientação de Śrī Lakshmanan algumas semanas por ano desde 2018. Para mim, a prática de Kalari é como um processo de purificação — física, emocional e mentalmente. Retira de mim tudo o que não é essencial, desperta valores como a humildade, o silêncio interior, a empatia, e a cada ano permite-me encontrar-me um pouco mais. Foi esta experiência que me levou a escrever este artigo, oferecendo-lhe a oportunidade de explicar a profunda filosofia por detrás do seu ensinamento. Seguem excertos da nossa conversa, nas suas próprias palavras.
Q: O que é o Kalaripayattu e quais são as suas origens?
A: O Kalaripayattu é uma arte marcial, mas como acontece com todas as artes, trata-se mais de uma forma de viver do que de uma mera prática física ou desporto. É uma prática completa: para além do treino marcial físico, inclui elementos de Āyurveda, alimentação, tratamentos, massagens, práticas espirituais e rítmicas… É uma prática poderosa que abarca todas as dimensões da vida.
O Kalari fazia parte da cultura do Sul da Índia. Tem raízes sânscritas e segue a estrutura cultural de Mãe, Pai, Guru e Deus. Está intimamente relacionado com o aspeto maternal da cultura e com a ligação à Mãe-Natureza. Tudo no Kalari — e na vida em geral — possui a qualidade da Mãe.
Durante o período colonial, os britânicos proibiram o Kalaripayattu, talvez receosos de que esta prática formasse guerreiros fortes. Aqueles que quiseram continuar tiveram de o fazer em segredo.
Hoje, porém, a prática deve voltar a difundir-se, para ajudar as pessoas a criar raízes e a fortalecer a sua ligação à Mãe Divina.
Q: Qual é a ligação entre o Kalaripayattu, a Terra-mãe e a energia divina?
A: A prática do Kalari é um convite a conectar-se à energia materna, uma energia que nos dá fundação, raízes, identidade como seres humanos. Não apenas raízes culturais, mas também uma conexão interior, com a personalidade. Criar raízes sólidas permite-nos assumir o controlo de nós próprios.
Por exemplo: praticamos Kalari numa arena de terra, o que tem um significado especial. Os cinco degraus que descemos para entrar simbolizam os cinco elementos. Descer à terra é aproximar-se de um nível mais profundo, como o ventre materno. É aí que a Kuṇḍalinī repousa em espiral — o poder serpentino. A Kuṇḍalinī é a energia prânica que nos conecta à Mãe e dá o sentido de unidade.
Esta arte marcial conecta mente e energia, espírito e matéria — os conceitos sânscritos de Prakṛti e Puruṣa. Toda a matéria contém espírito. O divino está sempre presente; é nossa tarefa aprender a conectar-nos a ele.
É também o que nos ensina a tradição tântrica: o superior, Śiva, é estático, simplesmente “é”; Śakti é o movimento, o vir-a-ser, necessário para alcançar Śiva. Ambos precisam estar em interação. O treino auxilia neste processo, e, portanto, na descoberta de quem somos.
Q: A prática física do Kalaripayattu está relacionada com posturas de animais. Qual o significado deste simbolismo?
A: Vivemos a vida na terra através dos sentidos e da personalidade. Temos muito em comum com os animais. O ser humano possui uma dimensão animal — física, energética e emocional. Estes corpos são ferramentas valiosas para experienciar a vida, mas podem ser impulsivos ou marcados pela inércia… precisam de disciplina, para que a luz possa emergir.
As posturas animais representam a vida. Ajudam-nos a reconhecer e trabalhar melhor a energia animal. Libertam os instintos primários — se permanecessem reprimidos, cresceriam e dominariam a mente. Trata-se de uma purificação de impulsos, aprendendo tranquilidade interior e utilização mais consciente do corpo e da mente.
As posturas animais ajudam também a dissolver bloqueios emocionais. Só depois se pode vislumbrar a luz interior.
O Kalari insiste nisto: é preciso cortar os bloqueios, não escondê-los, reprimi-los ou contorná-los, mas removê-los. Essa purificação interior liberta e conduz ao silêncio interior — e é nesse silêncio que tocamos a felicidade.

Q: No Kalarigram há aulas todos os dias, nunca fazem pausas?
A: Pausa de quê? (ri).
Na tradição, a prática não é apenas algo benéfico a fazer, é uma forma de viver. Não existe a ideia de “pausa”.
É preciso cultivar qualidades mentais adequadas para limpar e fortalecer o interior. Essa é a viagem. Todos os nossos textos filosóficos — Upaniṣads, śāstras — dizem o mesmo: descobrir onde estão os bloqueios emocionais e removê-los requer prática constante.
Por isso veneramos Kālī no Kalari. Ela é a deusa do Kalari. Encontrar força na natureza, como fonte de energia, para criar raízes: essa é a energia de Kālī. Essa força transforma-se em beleza, ajudando a desfrutar a vida e a viver em harmonia com a natureza.
O treino físico abre a respiração; pela respiração alcança-se a mente; pela mente foca-se a luz. É a jornada interior do físico ao espiritual.
Para mim, este é o propósito da vida. Portanto, não necessito de pausas. Quem embarca neste caminho também não as deveria ter. A prática regular e constante permite fundir-se com a Mente Universal e reconhecer a unidade interior.
E, num tom mais leve: o que faço e gosto não é trabalho. Quando gostamos do que fazemos, não precisamos de descanso. Pelo contrário: a prática energiza e inspira. Nesse tipo de vida, não se deseja parar; continua-se porque se reconhece que serve a si, à sociedade e à vida.
Q: Muitas tradições falam da relação mestre-discípulo. Qual é a sua importância no Kalari?
A: Essencial. Cria-se com o tempo uma ligação energética entre guru e discípulo. O guru dá para construir essa relação. Dessa relação emerge uma energia que transmite vibrações simpáticas, capazes de transformar vidas. Não é algo mecânico ou transacional, nem intelectual: é energia vital, prāṇa a prāṇa.
Mas quem transmite precisa primeiro de cultivar dentro de si constância e perseverança, e alcançar experiência e nível para poder transmitir. Não é teoria, tem de ser vivido.
Depois, o guru deve saber como transmitir — pois o discípulo segue-o. Se o mestre se distrai, o aluno também se perde. E só guia quando o discípulo está preparado. A relação precisa de corresponder.
A educação não é linear. O papel do guru é ajudar o discípulo a encontrar o seu caminho. Ser guru não é um negócio. Aqui vivemos juntos para observar o aluno em todas as dimensões. Cada estudante é diferente, com diferentes bloqueios e qualidades a desenvolver. Só compreendendo isso é possível guiar.
Q: Hoje as artes marciais são muitas vezes vistas como técnicas de defesa pessoal, mas fala do Kalari como prática espiritual.
A: As artes marciais não são sobre matar. São sobre aprender a viver. E isso é sempre relevante. Ontem ou hoje, há sempre batalhas a travar. Uma vez fortalecido, o praticante pode servir a sociedade.
Muitos reconhecem que somos mais do que mente ou intelecto. Somos luz — mas bloqueios impedem-nos de aceder a ela. O Kalari ajuda a remover esses bloqueios.
Massagem, purificação, treino físico, concentração, meditação: tudo conduz à viagem interior, dissolvendo impurezas e revelando a luz de forma mais pura.
O dṛṣṭi, o foco do olhar num único ponto, é essencial. Ensina a dominar a mente errante. A concentração leva a um ambiente interior seguro, como o ventre materno, onde não há medo.
O Kalaripayattu é a prática de encontrar quietude, enfrentar problemas e travar a batalha interior. O objetivo é tornar-se um guerreiro pacífico, cultivando a força e a beleza, combatendo os inimigos internos: kāma (desejo), krodha (ira), lobha (cobiça), moha (apego), mada (ego), mātsarya (ciúme).
O Kalari tem muitas faces — é ciência, arte, dança ritual. É uma dança divina que conduz às diferentes etapas, até permitir um vislumbre do Samādhi, a libertação final.