A Batalha da Identidade

Não é irónico que, embora amemos o desabrochar da vida, tentemos evitar o próprio processo que leva a esse desabrochar – o processo dos desafios.

Parece-me que o propósito da vida humana é crescer. Quando olho para trás, para os momentos ou as fases através dos quais cresci, vejo-os como tempos que me testaram para transcender o que eu sentia serem as minhas limitações; seja começando o meu próprio negócio com um saco cheio de dúvidas sobre minhas capacidades, ou seja um momento de extrema raiva em que decidi conscientemente não me identificar com a raiva. Estas fases tiveram um fator comum que chamamos de “desafios”. Eu sinto que o universo assim o fez intencionalmente!

Quando penso em desafios, lembro-me da poesia de Ramdhari Singh Dinkar. No seu estilo próprio, este celebrado laureado resume o Mahabharata numa versão poética que compreende 7 capítulos numa obra intitulada Rashmi Rathi. No seu terceiro capítulo, ele descreve como é que os 12 anos de exílio, cheios de provações difíceis, fortaleceram os Pandavas e os prepararam para a batalha que se avizinhava. Numa humilde tentativa de partilhar a minha inspiração, traduzi alguns versos abaixo, sabendo que o meu inglês não fará justiça à poesia e subtis alusões do original. Peço, por isto, desculpas antecipadamente ao leitor.

Uma imagem com texto, antigo

Descrição gerada automaticamente
Pandavas viajando com sua mãe. Wikimedia Commons

Dinkarji invoca virtudes como a coragem, a determinação e a autoconfiança para dizer que é somente por causa dos desafios que temos a oportunidade de aplicar e aprimorar as nossas virtudes e elevar o nosso potencial.

पावक में कनक-सदृश तप कर,

वीरत्व लिए कुछ और प्रखर,

Bem testado e purificado como ouro no fogo,

Com maior valentia e esplendor

Aqui, os anos de exílio são descritos como testes ferozes que conduzem à descoberta e ao fortalecimento das qualidades virtuosas, das quais os Pandavas não estavam conscientes antes. E se eu disser que esses testes não se limitam apenas aos Pandavas? Não passamos todos nós diariamente por eles? Para alguns começa pelo desentendimento com o despertador, para outros pela incapacidade de resistir àquele doce que sabem que devem evitar. As nossas batalhas acontecem nos nossos momentos de medo, desconforto, antipatia, irritação, insegurança, incluindo a tristeza das manhãs de segunda-feira que muitos de nós vivenciamos. E, cada vez que resistimos e lutamos contra o medo, estamos naquele momento, ao que parece, a enfrentar a maior batalha das nossas vidas.

Nessas ocasiões, primeiro é necessário identificar as batalhas certas e reconhecer as vulnerabilidades que se tornam obstáculos para se tornar um eu melhor. Depois, há a necessidade de aceitar e se comprometer a melhorar. Ao deixarmos de cumprir nossas resoluções de Ano Novo, por exemplo, o desafio não reside apenas em falhar, mas também em cair na armadilha da culpa.

Dinkarji vai um passo mais além, dizendo que os bravos não deixam que as provações os derrubem.

शूरमा नहीं विचलित होते,

क्षण एक नहीं धीरज खोते,

विघ्नों को गले लगाते हैं,

काँटों में राह बनाते हैं।

Os bravos não são afetados,

Nem por um momento perdem eles a paciência,

Ao abraçar obstáculos,

Eles abrem um caminho por entre os espinhos.

Assim que estas batalhas são reconhecidas, chega o momento de ser-se bravo e corajoso, de carregar em frente e escolher lutar a batalha, não importa quantas vezes se possa falhar, porque a verdadeira vitória é a capacidade inabalável de perseverar na luta contra a fraqueza, para afirmar a identidade de um guerreiro. Portanto, é necessário valorizar-se o processo, e não o resultado. Com perseverança e paciência, mais cedo ou mais tarde venceremos as nossas fraquezas e destruiremos o inimigo.

जो आ पड़ता सब सहते हैं,

उद्योग-निरत नित रहते हैं,

शूलों का मूल नसाने को,

बढ़ खुद विपत्ति पर छाने को।

Eles enfrentam tudo o que surge no seu caminho,

Persistentes nos seus esforços,

Para erradicar a causa do problema,

Para superar a raiz da miséria.

Mas quem é o inimigo? Aliar-se com a fraqueza é o inimigo.

Quando todas as vozes internas gritam por conforto, conveniência, familiaridade, ambição e segurança, é difícil discernir entre o que é bom e certo para nós e o que é apenas mais um obstáculo. Com observação e superação uma e outra vez, purificamo-nos a nós mesmos; o processo pelo qual lutamos e aprendemos a vencer os nossos medos, a necessidade de conforto e as nossas falsas limitações.

वाटिका और वन एक नहीं,

आराम और रण एक नहीं।

वर्षा, अंधड़, आतप अखंड,

पौरुष के हैं साधन प्रचण्ड।

Jardins e florestas não são iguais

O tempo de descanso e a guerra não são os mesmos.

A Chuva, um Furacão e o Sol escaldante

Não passam de meios para se expressar valentia.

O que é que acontece exatamente no processo? Podemos referir ao que as tradições têm chamado de Alquimia. Nós reconfiguramos a nossa identidade e revelamos a nossa força e virtudes ocultas das quais podemos não ter estado cientes anteriormente, e até mesmo os desafios intransponíveis se desvanecem.

मानव जब जोर लगाता है,

पत्थर पानी बन जाता है।

Quando o homem aplica a sua força

Até a pedra derrete como água

Em momentos de dúvida, o manto da ignorância esconde as nossas virtudes e as forças da nossa consciência. Ficamos paralisados e sentimos como se não tivéssemos maneira de enfrentar as dificuldades. Os desafios parecem maiores do que a vida, desviando o nosso foco para os nossos medos em vez de para as nossas forças interiores.

गुण बड़े एक से एक प्रखर,

हैं छिपे मानवों के भीतर,

Qualidades grandes e afiadas

Permanecem escondidas dentro do Homem

Quão trágico é o facto de não conhecermos realmente as nossas próprias forças! Portanto, evitamos os desafios por causa do medo de que possamos falhar. Em última análise, no entanto, para encontrarmos as nossas forças, devemos estar dispostos a iluminar a vela interior, porque:

बत्ती जो नहीं जलाता है

रोशनी नहीं वह पाता है।

Aquele que não acende uma vela,

não recebe luz.

Uma imagem com brinquedo

Descrição gerada automaticamente
A Gëlle Fra (A Dama Dourada, em português). Monumento realizado em homenagem aos combatentes da Primeira Guerra Mundial. Luxemburgo. Pixabay

Pelo que entendi, o simbolismo da vela relaciona-se aqui com a importância da investigação, que é essencial para superar desafios e seguir em frente. Na sua ausência, perdemos a oportunidade de nos conhecermos melhor.

Momento após momento, dia após dia, ao tentarmos lançar luz sobre as verdadeiras causas por detrás das nossas dúvidas e medos, fortalecemos o fogo interior e crescemos em sabedoria.

A Primavera bate à nossa porta e logo chegará o Verão. Os dias ficarão mais longos e o espírito ansiará por voar alto. Se desejas cavalgar ao longo da natureza, desabrochar como as flores e tornar-te parte da energia e da vida que se manifestam ao nosso redor, então, abraçar dificuldades e desafios é uma escolha óbvia. Desta forma, consideraremos sempre as dificuldades e os desafios como oportunidades.

Deixo-vos com estas linhas como um apelo à acção:

वसुधा का नेता कौन हुआ?

भूखण्ड-विजेता कौन हुआ?

अतुलित यश क्रेता कौन हुआ?

नव-धर्म प्रणेता कौन हुआ?

जिसने न कभी आराम किया,

विघ्नों में रहकर नाम किया।

Quem é que se torna o Senhor da Terra?

Quem conquista reinos?

Quem se deleita na glória insondável?

Quem estabelece o caminho da verdade?

Aquele que não descansa,

Ganha fama enfrentando desafios.

Publicado em New Acropolis India em 31 de março de 2021

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