A Doutrina Hindu do Atman – Segunda Parte

O resultado desta linha de pensamento e ação é exemplificado por um incidente que ocorreu na altura do Motim Indiano. Durante este período turbulento, num determinado local, encontrava-se um homem santo sentado a meditar, quando aparece um soldado inglês que, talvez pensando que ele era um insurgente, o trespassou com a sua baioneta. Conta a história que quando este homem santo viu o soldado aproximar-se, com olhos calmos gritou, “Até tu és Ele”. Pois há apenas um Deus, há apenas uma Realidade; e se esta chegar como morte, então deverás aceitar a Realidade da morte da mesma forma que aceitarias quando esta chega como felicidade. Este é o antigo ensinamento da Índia, que por detrás de todas as coisas está a Unidade, que todas as diversas coisas do mundo são uma ilusão.

Regressemos destes tempos longínquos na Índia, há milhares de anos atrás, quando os seres humanos compreenderam estas verdades, para o nosso mundo moderno, onde a vida está repleta de desejo, onde os seres humanos preferem a ação a qualquer custo à meditação, onde há choques de interesses entre uma pessoa e outra, onde dentro de cada país, dentro de cada cidade, temos guerras mútuas como condição normal de vida no mundo. É uma imagem feia que se apresenta aos nossos olhos. Contudo, disseram os antigos sábios da Índia que há sempre a Unidade. Esta Unidade tenta incessantemente afirmar-se, impor a sua realidade no coração e na mente dos seres humanos. Mas há tempos na história do mundo em que é mais fácil ao ser humano reconhecer a Unidade do que noutros momentos. E este tempo está a chegar, a essência mais íntima do universo, a Realidade única, está a tentar entrar na consciência dos seres humanos e impor os seus ideais para que as suas vidas mudem.

Deixem-me salientar o que está a acontecer hoje no mundo, porque em todas as fases dos assuntos humanos, emocionais ou mentais, políticos ou comerciais, este poder da Unidade começa a manifestar-se novamente. Considera o que está a acontecer na ciência. Vai a qualquer biblioteca e observa as prateleiras de livros científicos, vais encontrar volumes que lidam com um ramo da ciência, uns após os outros, e encontrarás a diversidade em todas as partes. Mas atualmente, a ciência de ponta está a investigar a Unidade. Há alguns anos atrás afirmaram que a Unidade era matéria, que todas as coisas eram feitas de matéria, que toda a variedade de formas poderia ser determinada numa única substância. Mas já deram um passo além, e dizem agora que todas as coisas que existem são a manifestação de uma força, que é a eletricidade. Dizem que o eletrão, a partícula mais pequena da matéria que é o derradeiro componente de que tudo é feito, não é nada mais que uma carga de eletricidade. Para a ciência, ao olhar toda a miríade de formas na Natureza, há uma Unidade; o universo é apenas um turbilhão de eletrões, carregados com potência.

Observa então o mundo religioso. O que caracteriza hoje o nosso mundo religioso? Certamente existem muitas religiões no mundo e centenas de seitas, mas hoje estão a surgir grupos de pessoas em cada religião que estão a olhar além do que a sua religião lhes impõe para a compreensão das coisas divinas e que procuram conhecer a Verdade que existe em todas as religiões. Chamamos-lhe o espírito da Religião Comparada, e a personificação suprema desta nova era é a Teosofia, com a sua ávida aceitação de todas as verdades religiosas, passadas, presentes e futuras.

D:\Ángeles\NA Portugal\Revista Pandava\Pandava VIII\A Doutrina Hindu do Atman. Jinarajadasa. Segunda parte\Fotos\Emb_logo.png
Emblema da Sociedade Teosófica. Domínio Público

Na política, este espírito de Unidade conduz a humanidade à compreensão de que, de agora em diante, será impossível uma civilização baseada na competição. Falam agora em limitar os armamentos. Porquê? 

Porque as pessoas começam a compreender que, com o desenvolvimento do comércio moderno, é impossível progredir com um espírito de competição, pois a competição, mais cedo ou mais tarde, conduz as nações à guerra. Devemos reunir-nos com base na cooperação, e esta base, na sua forma rudimentar, está presente na Liga das Nações. Porque é que a Liga das Nações sobressai como ideia dominante? Porque é a única forma de sair do caos mundial para a ordem no mundo, e porque o poder do Atman, da Unidade, está a esforçar-se por se manifestar como o princípio orientador da vida dos seres humanos para que, mais cedo ou mais tarde, todas as nações operem como uma Federação.

Considere-se de seguida a transformação que os negócios sofreram durante os últimos vinte e cinco anos. Reconhece-se nestes dias da economia dos negócios que as pessoas devem cooperar de modo a economizar o desperdício. Chamamos tais combinações de relações fiduciárias – relações fiduciárias que atualmente são provavelmente geridas para benefício dos poucos. Mas em breve serão operadas como a personificação da vida unida das pessoas. Porque deveria de aparecer agora na existência coisas como relações fiduciárias? Porque o espírito interior do mundo conduz a humanidade a compreender que, se a produção mundial é para ser gerida economicamente, o comércio deve crescer de pequenos negócios de pessoas individuais para grandes organizações ou grupos. Durante a Grande Guerra, que tanto destruiu, aconteceu uma das coisas mais construtivas para o mundo, que foi a coordenação durante algum tempo dos negócios e do comércio dos Aliados através de acordos mútuos. Durante a guerra os conselhos centrais dirigiam a venda de lã da Austrália e um conselho central estabilizou as finanças dos Aliados. Tais conselhos centrais permitiram o sucesso, porque por detrás dessa experiência estava o poder da Unidade que está a chegar.

Na literatura atual, a Unidade começa a manifestar-se. Há um quebrar das barreiras da raça e da cultura; as pessoas saem da sua própria terra para entender as criações literárias de outras nações. Temos hoje uma interligação entre o Oriente e o Ocidente. A pintura e o drama japoneses são acarinhados no Ocidente, e a música ocidental está a ser desenvolvida no Japão. Ideias orientais são estudadas na Europa e a literatura ocidental está a espalhar-se a Leste. O Oriente e o Ocidente estão a abolir os seus limites na arte, na literatura, na música, dada a constatação de que as coisas mais profundas da literatura e da arte revelam a Unidade.

Atualmente, encontra-se um espírito inquieto entre as nações e milhares em cada nação desejam viajar, e se não conseguem viajar em navios, viajam em livros. Há um desejo de compreender o mundo, e esta vontade misteriosa impele-nos a olhar para além de nós mesmos e a explorar o vasto mundo lá fora.

Este é o espírito do mundo de hoje. É o espírito que está a impulsionar as pessoas a derrubar as barreiras de classe, ou casta, ou de algum interesse comercial particular, e a associarem-se em grupos maiores. Isto seguirá continuamente até que haja finalmente apenas uma grande personificação da vida da humanidade, que é a Federação do Mundo, com uma organização comum, uma fusão de tudo o que é nobre e belo na arte e na literatura.

Comecei por contar como na Índia antiga encontraram uma Unidade, e que a apresentaram aos homens como a única verdade. O homem que professava que a Unidade era chamado de Sannyasi, o “renunciador”, por não ter feito parte de nenhuma instituição humana que fomentasse a diferença. Na Índia era, e é, maior que os reis. 

Sannyasi hindu. Creative Commons

Quando este homem que não deseja nada, que só tem uma taça para mendigar a sua comida, uma vez por dia, de casa em casa, quando o Sannyasi entra numa assembleia de reis, estes levantam-se para lhe prestar honras e não se sentarão até que ele dê permissão. Porque ele é a personificação da maior Realidade do Universo e porque vive para proclamar a Unidade.

Hoje em dia, cada um de vós está inquieto, na passagem de uma forma de verdade para outra. Têm-se muitos anseios e há um desejo e uma fome de coração, e uma necessidade de se saber onde está a satisfação. Esta satisfação está em vós próprios. Só quando vos aperceberem desta grande verdade em relação à Unidade é que encontrarão pela primeira vez a satisfação pela qual anseiam. Enquanto procurarem por vós através do outro, mesmo que seja na forma de Deus perante o qual se colocam, se curvam, que veneram em total devoção, enquanto Deus estiver fora de vós mesmos, mesmo que a vossa fome esteja satisfeita, é provável que haja mais cedo ou mais tarde uma nova fome de coração. Certamente, encontrarão uma satisfação pelo tempo em que o veneram; mas tal é a natureza misteriosa do próprio Deus que está em vós, que mesmo quando o veneram fora de vós, e se regozijam com a Sua Graça e Amor, ele desaparece uma vez mais, e têm de o procurar mais uma vez. A procura deve continuar, se o procurarem fora de vós. Só quando o encontrarem dentro de vós, a passar a Sua mensagem de dentro, quando vocês e ele não forem duas Personalidades, mas uma Individualidade, é que, então, pela primeira vez, encontrarão não só felicidade, mas também a certeza absoluta quanto à Verdade. 

Presentemente, na nossa vida somos lançados de um lado para o outro entre a dor e a alegria, entre esperanças e anseios e as limitações que o nosso Karma impõe. Somos uma lançadeira atirada para trás e para a frente num tear, e somos atirados para cá e para lá pelo desejo. Ressentimo-nos do sofrimento, pois sentimos que é uma limitação, e abrimos os nossos corações à felicidade porque achamos que há mais de nós na felicidade, e em tudo o que é belo e atraente na vida. Achamos que não há nada de útil na dor e na limitação. É apenas ao aprender, passo-a-passo, a lição da dor que irão ficar firmes no meio, e que não serão mais lançados aqui e ali. Quando se aperceberem que na dor também está o misterioso Atman, a Unidade, que a dor só vem porque faz parte do vosso passado e volta para vos ensinar uma lição, então começarão a ganhar a verdadeira felicidade. A felicidade existe, mas não a felicidade que advém de uma coisa desagradável. A Realidade existe tanto na coisa desagradável quanto na agradável. Só quando resolverem tanto o problema do homem que vos odeia, e a quem vocês odeiam, quanto quando ele estiver diante de vós, não produzam o mais fraco piscar de olhos e o possam ver como ele é e fazer justiça por ele, é que chegarão tanto à verdade quanto à verdadeira felicidade.

A maior verdade da vida é a de que a Unidade está em nós. Quando a Índia antiga nos diz que somos Deus, que somos omnipotentes, que não há nada que não possam fazer desde que entendam a vossa verdadeira natureza, é que poderão lançar as mãos ao alto em desespero e dizer: “Como é que isto é possível? Sou um homem, sou um pecador, sucumbi a tentações, como é que me é possível dizer, atrever-me a dizer, que a Natureza Divina está dentro de mim?” Deixem-me ler-vos aqui um passo da “Luz sobre o Caminho”1 para mostrar como o poder de afirmar está dentro de nós.

Luz Sobre o caminho. Pixabay

Transcrição do livro “Luz Sobre o Caminho”, Mabel Collins – Tradução de Fernando Pessoa, Editora Marcador, pag 96 – Nota 7 em referência à regra N.º 5 – Escutai a canção da vida:

“Procurai-a e escutai-a, primeiro no vosso coração, a princípio talvez digais: «Não está lá; se a procuro, encontro só a discórdia.» Procurai mais fundo. Se recebeis nova desilusão, parai e procurai-a mais fundo ainda. Há uma melodia natural, uma fonte obscura em todo o coração humano. Pode estar coberta, inteiramente escondida e silenciosa – mas lá existe. Na íntima base da vossa natureza encontrareis a fé, a esperança e o amor. Aquele que escolhe o mal recusa-se a olhar para dentro de si mesmo, tapa os ouvidos à melodia do seu coração, assim como cega os olhos à luz da sua alma. Faz isto porque acha mais fácil viver nos seus desejos. Mas no fundo de toda a vida está a forte corrente que pode deter; o grande rio lá está verdadeiramente. Encontrai-o e vereis que não há ninguém, nem a mais abjeta das criaturas, que não seja parte dele, por muito que se cegue para esse facto, construindo para si uma forma externa fantástica e terrível. É nesse sentido que eu vos digo: Todos aqueles seres, entre quem lutais para a frente, são fragmentos do Divino. E tão enganadora é a ilusão em que viveis, que é difícil adivinhar onde primeiro percebereis a voz suave nos corações dos outros. Sabei, porém, que com certeza ela em vós existe. Procurai-a ali, que, uma vez ouvida, mais prontamente a reconhecereis em vosso torno.”

Então, procurem este poder da Unidade em vós mesmos. Podem remover uma parte do véu da ilusão da vida organizando a vossa vida, tirando partido das vantagens que existem no mundo atual. Em primeiro lugar, trabalhem com a corrente em direção à Unidade. Demonstrem que, nos dias de hoje, há uma maré poderosa a pressionar todas as nações, todos os indivíduos a um sentido de Unidade. Vão com a maré, trabalhem para algo que junte as pessoas. Na vossa cidade, juntem-se a uma associação e reúnam os homens. Juntem-se então a outra associação e juntem as mulheres. Juntem-se a um grupo que reúna interesses diversificados. Participem no trabalho na vossa nação que o leva para fora da vossa nação para se juntar a outra nação. Deem a vossa simpatia e a vossa ajuda a este espírito de Unidade que se esforça para se manifestar. Dediquem-se a ser um soldado da Unidade e a lutar contra tudo o que está a dificultar a próxima era da Unidade.

Enquanto nadam com a maré, essa maré vai revelar a verdade de que todas as coisas maravilhosas que o mundo contém estão em vós. Então, quando olharem, sem filtros, para esta cidade de Sidney, que é tão diferente do que desejam que seja, saberão que a cidade de Sidney está dentro de vós. Dentro de vós navegam todos os ferries, dentro de vós existem todos os interesses diversificados dos homens. Irão descobrir que de alguma forma misteriosa há uma parte de vós maior do que o vosso eu atual que tem os seus laços amorosos com toda essa vida. Este é o primeiro passo para a sabedoria, para a paz e para a felicidade que a vida tem para si. Ergam-se acima dos interesses dos homens. Procurem dentro: olhem para as pessoas à vossa volta, mas como partes de vós mesmos, partes estranhas nos elétricos, nos ferries, partes mais estranhas nas prisões. Não se interessem apenas pela parte fascinante, o amigo que amam; mas tentem descobrir no que reside o mistério da atração por ele, e vejam se o mistério do vosso amigo não vos irá ajudar a entender o mistério do vosso inimigo. Porque atrás do amigo e do inimigo está o divino Atman, o vosso próprio Eu.

Imagem Pixabay

Todos temos de perceber que o Caminho, a Verdade e a Vida não estão fora, mas dentro de nós. E assim digo, repetindo a antiga mensagem da Índia, Procurem dentro. Tal como existe hoje a Índia, a mesma que já existe há milhares de anos e que testemunhou a passagem de um Império e de outro Império, também vocês existem. Verão o vosso corpo a envelhecer e saberão que a idade é uma desilusão. Verão a morte chegar até vós, e saberão que a morte é uma impossibilidade risível. Olharão para a morte e verão na morte apenas a Unidade e, quando a morte vier a pedir para pôr de lado o vosso corpo, não haverá corpo nenhum para pôr de lado, pois terão sublimado aquele corpo para a Unidade. Toda a vida é uma só; e só quando perceberem que o Caminho, a Verdade e a Vida são vocês, é que irão encontrar o único grande facto na vida, a Unidade. Este é o antigo ensinamento.

Extraído do livro: The Hindu Doctrine of the Atman, C. Jinarajadasa

Notas:
1 – Luz Sobre o Caminho  –  De Mabel Collins –  https://www.wook.pt/livro/luz-sobre-o-caminho-mabel-collins/14734061

Deixe uma resposta