A Filosofia da Índia e os oito tipos de riquezas

Quanto mais reflectimos sobre os ensinamentos filosóficos da Índia, mais nos apercebemos do seu alcance. Os clássicos, sejam do Egipto, Grécia e Roma, Índia, China, Japão, etc, etc, são sempre de grande actualidade, e não poucos se apropriam subrepticiamente das suas vestes douradas.
A revelação do Bhagavad-Gita. Public Domain.

Quando nos falta a imaginação, há os clássicos; quando nos sentimos pobres, há as suas riquezas, que devemos honrar e não simplesmente roubar; quando atravessamos o deserto, há as suas águas puras, que devemos beber mas não encher com a nossa imundície moral e egoísmo.

E se falamos de riquezas, é uma tarefa árdua definir o que é realmente a riqueza! É o que necessitamos? Sim, claro, e muito mais do que isso. É aquilo que podemos trocar por honra, ou respeito e consideração, ou por aquilo que podemos comprar, adquirir, usar e gastar, como ouro ou riqueza de cartão de crédito? Sim, talvez, mas esta riqueza de dinheiro ou de propriedades é uma visão muito limitada de todo o significado desta palavra. Aristóteles disse que o perigo dos ricos é que eles começam por comprar coisas e acabam por querer comprar almas.

E Sêneca, no seu “Tratado de Benefícios”, diz que a única verdadeira riqueza é a vontade, uma vez que o valor de um presente reside unicamente na vontade que está por detrás desse acto. E se as outras riquezas recebem esse nome, é apenas como uma cristalização da nossa vontade.

De facto, é bem conhecido que o valor que colocamos em algo está associado à nossa vontade, ao nosso esforço para o adquirir ou conquistar ou merecê-lo. Os atletas adoram as suas capacidades adquiridas, suportando todo o tipo de fadiga, e os culturistas, como um político espanhol cujo nome não quero recordar, a tábua do seus abdominais, depois de tere entregue o seu país à infâmia e de nos terem feito cúmplices do genocídio legal de uma guerra imoral. Mas também consideramos as riquezas da Fortuna, quer as tenhamos merecido ou não, ou os dons que vêm do Céu como um orvalho.


A riqueza é a luz, o ar, as águas puras, as florestas amigas, a música e o silêncio, a paz, ou o entusiasmo dos combates e os desafios, porque a riqueza é a madeira para o fogo, e talvez também o fogo para a madeira. A riqueza é a claridade do céu e o sorriso da estrela, a palavra amiga, o remédio que cura, etc, etc. E talvez a maior riqueza seja uma consciência desperta para todas elas, por que aquele que conhece a suas riqueza é rico e pode invocá-las e usá-las. Riqueza é independência e a liberdade, e também o serviço, a fidelidade e o dever. As riquezas são os sonhos da alma, a inspiração, a filosofia como música mental, as cintilações da intuição que depois se tornam certezas, as memórias que afirmam a verticalidade do que somos, porque riqueza é a memória, na qual o passado não se perde, mas está vivo. Riqueza é a atenção que nos dão e, mais ainda, a atenção que damos. Riqueza é a flor que se abre e a mão que dá, a raiz que sustenta e o caule que eleva, e a seiva que alimenta, a riqueza é o fruto desejado. Riqueza é o benefício concedido e o benefício recebido. Riqueza é honestidade e pureza, ainda mais do que juventude e beleza, e é também maturidade e experiência.

A verdadeira riqueza não é prisão, nem medo, nem domínio cruel, nem subjugação, nem o que compramos mas não nos pertence, nem o que não está unido à nossa vontade, por mais que o chamemos de nosso, como aquele que compra hectares em Marte ou crateras de Plutão, ou estrelas, como no Pequeno Príncipe. Como diria Demóstenes, não sabemos se é ou não riqueza, a sombra do burro, pois a árvore pode ser nossa, mas e a sombra que projeta?

Riqueza não deve ser aquilo que amaldiçoa o que tocamos, e o que é adquirido por roubo, ou injustiça ou violência é assim.

Riqueza devem ser as virtudes, verdadeiras jóias espirituais na alma humana, cristalizando alquimicamente a luz das estrelas dum firmamento moral. Riquezas são as oportunidades e a pobreza perdê-las. E acima de tudo riqueza é o tempo, permanente da nossa vida, e a mais lamentável pobreza o que se dissipa no banal e infrutífero. A alma da riqueza é a bondade, assim como a luz é a da cor.

E se disséssemos que a maior riqueza é a consciência, é por isso que na Filosofia da Índia, a deusa das riquezas, Lakshmi, é também a deusa do Amor e a estrela Vénus, a mente desperta, e recebe epítetos, por exemplo no Skanda Purana: “aquela que guarda as estrelas no seu coração” ou “números” (porque a mente é a alma dos números, e sem consciência a mente não existe). O epíteto que sempre acompanha a ela, Sri, significa esplendor, brilho, beleza.

Deusa Lakshmi emergindo de um lótus. Domínio Público

A figura geométrica associada a esta deusa é a Estrela de Oito Pontas e refere-se, então, a oito formas de riqueza. Numerar as formas da riqueza, ou tentar entender a sua natureza é algo que raramente fazemos, ate esse ponto associamos o conceito de riqueza ao dinheiro ou ao estado da conta bancária. E, no entanto, a filosofia hindu as vincula às oito direções do espaço, como a Rosa dos Ventos.

Se as vestes de Lakshmi são amarelas e vermelhas, o ouro e o sangue, a luz e a vida, estes filósofos definem estas oito riquezas como:

As monetárias, sinal de abundância, ouro e jóias, e na sua principal festa o Diwali, Festival das Luzes, Ano Novo na Índia, compram e dão, são oferecidos presentes, e à Deusa, incenso, flores, moedas, que são depositadas nos rios sagrados em barcos de papel.

Riquezas de continuidade: filhos, discípulos ou obras realizadas. A riqueza de uma mãe são os seus filhos, a do professor os seus discípulos e a do artista ou o criador, ou do homem, em geral, as obras realizadas. São riquezas que superam o tempo, são a irradiação ou esplendor que rodeia os seus criadores, justificam a passagem pela vida, sintetizam a marca deixada nela pela alma.

Valentia: Desde logo  que aquele que ultrapassa as dificuldades e tem a coragem de enfrentar a adversidade é rico. Como diz Henrique V na peça de Shakespeare, “tudo está pronto se o nosso espírito estiver pronto”, nada mais é necessário, então somos ricos. Pois a riqueza não é apenas ter muito, mas mais ainda não precisar de nada, aí reside a verdadeira riqueza interior, a “ausência de paixão” dos estóicos.

Riqueza de fertilidade: como os financeiros sabem, o anúncio ou promessa de riqueza já é riqueza. Expressa também a riqueza dos Sonhos da Alma, dos Ideais e do cálice de ouro do coração que é capaz de recebê-los no seu seio, ou as de uma mente que, embora ainda não tenha aprendido nada, está aberta a tudo, como a terra arejada e rica disposta a receber as sementes. Também, o discípulo é rico por estar com o mestre e com o seu coração e a mente abertos.

Riqueza de educação e conhecimentos: É rico, quem tem uma boa educação embora não possua mais nada, rica é a alma nobre desperta para valores atemporais. Rico também é o de conhecimentos abundantes, com vestígios luminosos dos mesmos na sua memória e intimidade. Rico é o que tem recordações, e todos querem imitar a riqueza de quem leu muitos livros (e às vezes leem-se resumos deles, ou simplesmente títulos, para se gabar de tê-los lido, o que embora mentindo e mentindo-se, significa que se considera uma riqueza, a riqueza da cultura). Se inclui aqui riqueza em habilidades e em contatos, em amizades, riqueza potencial que se pode transformar em poder, em ação. Sêneca associa a riqueza de um Estado com a da amizade e laços amorosos entre os seus cidadãos, a força emana da união, então, aí reside a riqueza.

Riqueza de vitórias: As fraquezas vencidas, as provas superadas, os inimigos conquistados, as experiências como vitórias ao longo do tempo (pois arrancámos as suas riquezas, ainda que com dor), vitórias sobre ignorâncias e fantasias, sobre as tentações que te afastam do Caminho da Vida, que os hindus chamam de Dharma.

Os exércitos Pandava e Kaurava se enfrentam. Public Domain

Riqueza de sementes: Símbolo das riquezas que nos levam mais além das portas da morte e são sementes de existências e benefícios futuros. Riqueza de futuro, ainda nesta vida, porque a flor se insinua na planta e a árvore no rebento que nasce da semente. É também uma riqueza de experiências e experiências para sempre, como antes, mas de outra perspetiva. Todas as riquezas acima podem não ser de facto, mas já são como sementes: valentia, vitórias, obras, discípulos e filhos, abundância, etc.

O Amor, chamado Adi Lakshmi, onde Adi significa “primeiro”, pois é o mais importante, o alfa e o ómega da riqueza. Na trilogia “amor, saúde, dinheiro”, esta ordem é a sua importância, a primeira é o Amor. De nada serve o dinheiro sem saúde e sem amor. De nada a saúde sem amor. E o Amor encontra em si a sua plenitude, o seu princípio e o seu fim (outro dos nomes que a Deusa recebe é precisamente, “sem princípio nem fim”). Esta Deusa, Lakshmi, é acima de tudo a Deusa do Amor, a Boa Vontade, a grande riqueza. Todos as outras, como na parábola bíblica, nos serão dadas por adição.

Examinando a realidade desta forma, quem se considera pobre pode ver que é rico, muito rico, e quem se vangloria banalmente saberá que ainda tem um longo caminho a percorrer, ou pior, que àquilo que acreditava ser a sua circunferência falta-lhe o centro… e assim é fácil perder tudo e é preciso renovar-se no cálice de ouro de Lakshmi para voltar a viver, voltar a sorrir, voltar a amar.

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