
I.1 — Atha yogānuśāsanam
Será feita agora uma exposição do yoga.
Este é o primeiro dos 196 sūtras de Patañjali. Assim, será aqui abordada a filosofia do yoga segundo os Yoga Sūtras de Patañjali: uma filosofia milenar, cuja origem remonta às escrituras védicas, e que foi apresentada ao mundo ocidental por Swami Vivekananda, nos finais do século XIX, causando um efeito bastante curioso e cativante.
Quando começamos a questionar-nos sobre o sentido da vida, sobre o porquê de estarmos aqui, sobre qual é o nosso propósito, sobre como se conquista a tranquilidade da alma, a felicidade, a serenidade e a libertação, procuramos, então, fora do sistema comum, já explorado e conhecido, respostas para estas questões, na tentativa de encontrar algo que nos preencha verdadeiramente.
O mundo do consumo e do materialismo não responde nem dá vida à nossa vida; apenas a distrai e leva o ser humano a esquecer-se de que faz parte de uma unidade. Também podemos chamar a isto o mistério da vida. Como já não obtemos, no nosso mundo quotidiano, estas respostas, procuramos um conhecimento que permita este encontro com a nossa verdadeira natureza.
E qual é a nossa natureza? O que é real e o que é ilusório?
Para uma melhor compreensão e conhecimento da natureza do ser humano, a filosofia oriental compreende diferentes princípios ou dimensões que estão presentes e fazem parte da nossa existência, apesar de algumas delas se encontrarem mais adormecidas. Esta natureza é comum a todo o ser humano e surge de uma mesma fonte universal: o princípio que unifica, que está sempre presente, que é indivisível e permanente.
Este distingue-se do princípio que interage e se relaciona com o mundo visível, que a filosofia oriental designa como mundo ilusório. A dimensão que une estes dois mundos e permite esta comunicação e evolução do ser humano é Antaḥkaraṇa, a ponte interior entre a consciência humana e a sua dimensão superior. Este é o princípio que conduz ao despertar do ser humano na busca do seu Eu Superior, da sua verdadeira natureza, da nossa dimensão divina.
Todo o ser humano tende para o bem, como nos descreve Platão. Na linguagem da filosofia do yoga, poderíamos dizer que todo o ser humano tende para a realização da sua natureza mais elevada, simbolizada por Īśvara.
Assim, o caminho do yoga permite ao ser humano estar em contacto com o seu Eu Superior, libertando-se das ilusões causadas pelas dimensões inferiores, respondendo à sua verdadeira natureza átmica, unindo-se ao Todo e fazendo parte dele.
O yoga é um caminho discipular, que exige muita disciplina e esforço, uma vez que a Vontade átmica se vai ativando. Então, seguimos a sua eletrificação, isto é, esta eletricidade que percorre todo o nosso Ser começa a responder e a obedecer: a Vontade do coração, que não questiona e apenas age em concórdia.
Antes de entrar na filosofia dos Yoga Sūtras de Patañjali propriamente dita, é importante encontrar também as suas origens e os seus ensinamentos.
A época de Patañjali é geralmente situada entre os séculos III e V a.C., embora pouco se saiba acerca da sua vida. O que chega até nós não são factos históricos seguros, mas sobretudo narrativas míticas. Acredita-se que tenha sido autor de obras sobre gramática, medicina e yoga, e que tenha sido uma encarnação divina de Ādiśeṣa, o Senhor das Serpentes, o leito eterno de Viṣṇu, aquele que sustenta todo o universo.
Segundo a tradição, Ādiśeṣa, desejando um nascimento humano, escolheu nascer como filho de Goṇikā. Conta-se que, um dia, Goṇikā, desejando um filho, fez uma oração ao Sol. Ao segurar água nas duas mãos e ao derramá-la como oferenda, apareceu nas suas mãos uma pequena serpente, que tomou forma humana. A criança saudou Goṇikā e pediu-lhe que fosse sua mãe. Goṇikā, feliz, deu-lhe o nome de Patañjali: pata, «caído», e añjali, «mãos postas em prece».
Tal é a perfeição da construção dos Yoga Sūtras: uma série de ensinamentos em aforismos sequenciais, que conduzem à construção de uma escada interior, ativando o mais elevado do ser humano e unindo o sentimento, o pensamento e a ação.
Sūtra traduz-se por «fio». Trata-se de uma forma literária na qual está presente o menor número possível de sílabas, com um significado claro, que pode ser interpretado e compreendido de várias maneiras, e que não possui defeitos nem falhas.
Os Yoga Sūtras de Patañjali são um fio de 196 pérolas que se unem num só colar, unindo o ser humano ao seu Eu Superior e ao Todo, à unidade. São aforismos muito sintéticos, que vão conduzindo a respostas no que respeita ao caminho do yoga, ao caminho da união com a sua verdadeira natureza.
Porque é que o yoga é importante para o ser humano? Porque é o caminho interior que conduz à libertação da dor e das ilusões do mundo de Prakṛti, o mundo profano.
Esta obra está organizada em quatro secções principais:
Samādhi Pāda
Responde à questão: «O que é o yoga?», abordando a sua natureza essencial. Recebe este nome porque samādhi constitui a técnica fundamental e culminante do yoga.
Sādhana Pāda
Numa primeira parte, apresenta a filosofia dos kleśas, as dores e sofrimentos do ser humano, procurando responder à pergunta: «Porque deveria alguém praticar yoga?»
Numa segunda parte, descreve as práticas fundamentais do yoga, designadas como práticas externas, bahiraṅga, que permitem ao aspirante desenvolver as condições físicas, mentais, emocionais e morais necessárias à realização de samādhi.
Vibhūti Pāda
Aborda, numa primeira fase, as três últimas práticas do yoga, consideradas internas, antaraṅga. Estas culminam em samādhi, estado em que os mistérios do yoga se revelam e os siddhis, poderes ou capacidades extraordinárias, podem manifestar-se.
Kaivalya Pāda
Expõe diversos problemas filosóficos relacionados com o estudo e a prática do yoga. Reflete sobre a natureza da mente e da perceção mental, sobre o desejo e os seus efeitos aprisionadores, bem como sobre a libertação e os estados que dela decorrem. Todos estes temas estão associados à conquista da libertação, razão pela qual esta secção recebe o nome de kaivalya.
Assim, compreende-se que os Yoga Sūtras de Patañjali descrevem o caminho de samādhi, da libertação, do nirvāṇa, culminando em kaivalya, o estado de libertação e independência espiritual.
I.2 — Yogaś citta-vṛtti-nirodhaḥ
Yoga é a inibição das modificações da mente.
Este é considerado um dos sūtras mais importantes de toda a obra, pois define aquilo que é o yoga. Com apenas quatro palavras, contém uma interpretação ampla e profunda, que pode ser compreendida sob diferentes perspetivas, de acordo com as vivências e a experiência de cada pessoa.
As palavras constituem um meio de linguagem que, tal como outros símbolos, transporta uma infinidade de conceitos. À medida que o caminho interior se vai construindo, esses conceitos transformam-se em vivências cada vez mais profundas e individuais, muitas vezes difíceis de expressar, mas compreendidas por cada um segundo a sua própria medida.
A palavra yoga deriva da raiz sanscrítica yuj, que significa «unir». Mas o que se pretende unir?
Pretende-se unir a dimensão da alma humana à sua dimensão divina, superior e átmica. Embora ambas sejam inseparáveis na sua essência, a alma humana encontra-se envolvida no seu veículo físico e nas circunstâncias da existência, esquecendo-se da sua verdadeira natureza.
A alma humana tende naturalmente para a união com a sua dimensão celeste, mas é necessário percorrer um caminho que permita a sua libertação. Tal como um pássaro que se encontra numa gaiola e não consegue voar, também o ser humano necessita de se libertar dos limites que o aprisionam para alcançar o céu que o acolhe e lhe permite voar em plenitude.
Neste contexto, quando o sūtra fala da inibição das modificações da mente, podemos relacioná-lo com os constantes estímulos e ilusões exteriores que dispersam a atenção e perturbam a serenidade interior. Entre eles encontram-se os medos, os apegos, os desejos e a procura incessante de prazeres, tudo aquilo que nos prende à matéria e nos afasta daquilo que verdadeiramente somos.
Continuamos, assim, a viver formas subtis de escravidão. Julgamos conquistar poder, prestígio ou sucesso, mas muitas dessas conquistas revelam-se ilusórias, produzidas pela mente inferior, Kāma-Manas, isto é, a mente condicionada pelos desejos, pelos apegos e pelas emoções. Corremos constantemente contra o tempo, na expectativa de agradar ou de ser agradados, procurando preencher carências interiores com elementos exteriores que são, por natureza, transitórios e efémeros.
O que é, então, verdadeiramente nosso?
O que permite a inibição das modificações da mente?
A conquista dos sentimentos nobres, dos valores humanos e da dignidade interior. É através deste trabalho de união com as nossas dimensões superiores que despertamos estados de consciência mais elevados, procurando os arquétipos e as estrelas que orientam a nossa existência. Pela sua manifestação nas nossas ações e na convivência com os outros, percorremos gradualmente o caminho do yoga.
A inibição das flutuações da consciência corresponde, assim, à harmonização da mente com as leis da natureza. A mente torna-se una, reencontra a sua natureza divina e une-se ao Todo.
Bibliografia
ARIEIRA, Glória. Tradução de Sânscrito. Rio de Janeiro: Vidya Mandir, 2012.
SAMYAK YOGA. “Untold Stories of Patañjali”. Disponível em: https://www.samyakyoga.org/untold-stories-of-patanjali. Consultado em junho de 2026.
TAIMNI, I. K. A Ciência do Yoga. 4.ª ed. Brasília: Editora Teosófica, 2006.