A História de Chatta

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Um Episódio na Vida do Senhor Buddha
Por C. Jinarajadasa, M.A.

St John’s College, Bambridge
Theosophical Publishing House
Adyar, Madras, India. 1915

Curuppumullage Jinarajadasa. Licença Creative Commons

A HISTÓRIA DE CHATTA[1]

Quando o Senhor habitava no Bosque de Jeta, no Savatthi, lá vivia, em Setavya, um rapaz chamado Chatta, filho de um Brâmane que por muito tempo não tinha tido filhos. Quando chega à idade escolar, é enviado à cidade de Ukkattha pelos seus pais, para ficar com Pokkharasati, um instrutor Brâmane. Como era inteligente e aplicado, domina rapidamente os Vedas e as Ciências, e torna-se num mestre na cultura dos Brâmanes.

Buda do mosteiro de Tapa Shotor, em Hadda, Afganistán, século II d. C. Licença Creative Commons

Então, com reverência, ele dirigiu-se ao seu mestre: “eu aprendi contigo as ciências; quanto devo pagar-te?”

“O pagamento ao mestre deve ser feito de acordo com as posses do aprendiz; traz-me mil peças de ouro”.

Desta forma, Chatta, despede-se do seu mestre e retorna à casa dos seus pais, em Setavya. Eles recebem-no com alegria. Após as saudações, ele menciona-lhes a questão e diz:

“Dar-me-ão vocês o que é devido? Posso retornar ainda hoje.”

O seu pai e a sua mãe respondem:

“Meu querido, não é auspicioso viajar hoje; deixa para amanhã.”

Então, recolhem as peças e ouro, colocam-nas numa bolsa e dão-lhe-as.

Neste momento, os ladrões ouvem a conversa e escondem-se nas sombras da floresta por onde Chatta passaria. “Mataremos o rapaz e levaremos o ouro”, dizem.

Então, o Senhor, no momento em que começava a irradiar a Sua grande compaixão sobre os homens, examina o mundo e vê que se Chatta pudesse estabelecer-se nos Refúgios e na Moralidade[2], imediatamente alcançaria os céus ao ser morto pelos ladrões; e ainda que, se tivesse que voltar com sua Casa Dévica[3], ele poderia estabelecer na Verdade a multidão para a qual ele aparecesse. Portanto, o Senhor adianta-se e senta-se ao pé de uma árvore na estrada que Chatta pegaria.

Ao receber o presente para o seu mestre, o jovem deixa Setavya e segue a estrada para Ukkattha; no caminho, ele vê o Senhor sentado. Ele aproxima-se e posiciona-se ao seu lado.

“Para onde vais?”, diz o Senhor.

“Ó Gotama, vou a Ukkattha levar o pagamento ao mestre Pokkharasati”, respondeu Chatta.

Então, o Senhor, “filho meu, conheces os Três Refúgios e os Cinco Preceitos?”

“Não, Senhor; o que são e para que servem?”

“São estes”, diz o Senhor; e explica-lhe a “Entrada para os Refúgios” e a “Prática da Moralidade”. Então, diz:

“Meu Filho, primeiro aprende a entrar nos Refúgios.”

“Senhor, eu aprenderei bem, ensina-me”, disse Chatta.

Tal como solicitado pelo jovem, o Senhor recita, em forma poética, para a adequar à inclinação do rapaz, três versos[4] que descrevem o caminho para entrar no Refúgios:

O Supremo Mestre dos mestres entre os Homens é o Senhor, o Sábio dos Sakyas; Ele atingiu a perfeição e alcançou o Nirvana, e está repleto de força e de energia.

A Ele, o Abençoado, ide vós ao Refúgio.

A Verdade liberta-nos da paixão, do desejo e da tristeza; ela gera-se a si própria, é acolhedora, doce, simples e lógica.

À Verdade ide vós ao Refúgio.

Existem Quatro Graus dos Indivíduos Santos, que perfazem Oito Categorias[5]; servi-las verdadeiramente resulta em recompensa grandiosa.

À Irmandade ide vós ao Refúgio.

O Senhor ensina, com estes três versos, os Atributos dos Refúgios e as Formas de Entrar nos Refúgios; e logo de seguida o rapaz repete versos como “O Supremo Mestre dos mestres” e assim por diante, para mostrar que os captou com firmeza. Da mesma forma, repete o que lhe foi dito sobre os Cinco Preceitos, a natureza de cada um e as suas consequências; dando a entender que ele “adotou os Preceitos” na devida forma.

Com rápida perceção e a mente alegre, “E agora, Senhor, devo partir”, diz ele. Ele, então, prossegue no seu caminho, recordando as virtudes das Três Gemas[6].

O Senhor, então, retorna para o Bosque de Jeta, dizendo “Suficiente é o poder do mérito disso para dar-lhe o nascimento no Mundo dos Devas”.

Agora, o jovem está determinado de que obteria as virtudes das Três Gemas, e que se estabeleceria nos Refúgios, como foi ensinado pelo Senhor. Conforme segue no seu caminho com alegria e repetindo “Vou para o Refúgio”, ele é localizado pelos ladrões; ele não tinha qualquer ideia da sua presença, uma vez que estava absorvido pelo pensamento nas virtudes das Três Gemas. Um dos ladrões sai de um arbusto e rapidamente atira uma flecha envenenada e mata-o. Então, recolhe a bolsa de ouro e foge com os seus colegas.

O Buda nos seus últimos dias, e o seu discípulo Ananda. Licença Creative Commons

Assim que morre, o jovem nasce no paraíso Tavatimsa com a Casa Dévica de trinta yojanas[7]; o seu esplendor estende-se por mais vinte yojanas.

Quando os habitantes próximos de Setavya percebem que o jovem estava morto, correm para Setavya e dão a notícia ao seu pai e à sua mãe; os habitantes próximos de Ukkattha vão a Ukkattha e contam ao Brâmane Pokkharasati. Ao receberem a notícia, pai, mãe, familiares, amigos, Pokkharasati e os seus serventes dirigem-se ao local, lamentando com semblantes chorosos; também se reúnem em grande número os habitantes de Setavya, Ukkattha e Icchamangala, e fazem uma grande reunião. Os pais do jovem, assim, fazem uma pira funerária ao lado da estrada e iniciam as cerimónias para o morto.

Então, o Senhor pensa: “O miúdo Chatta virá reverenciar-me se eu for até lá; devo fazê-lo descrever todo o ocorrido e demonstrar o resultado do Karma; assim, devo proclamar a Verdade, e o povo compreenderá o que Ela é”. Desta forma, Ele vai ao local, acompanhado por um grande número dos seus discípulos, e senta-se ao pé de uma árvore, irradiando as seis cores dos raios do Buddha[8].

Agora, Chatta olha para a sua própria beatitude, e busca a sua causa; ele dá-se conta de que é devido à sua Entrada nos Refúgios por Adotar os Preceitos. Preenchido por alegria e cheio de reverência pelo Senhor, ele pensa como gratidão: “De facto, irei e venerarei o Senhor e os Seus discípulos, e proclamarei aos ouvintes as virtudes das Três Gemas”. Então ele segue com a sua Casa Dévica, e iluminou com brilho todo o campo no entorno; ao sair da sua aura em glória, ele revela-se. Ele aproxima-se do Senhor e ajoelha-se aos seus pés em reverência; então, levando as suas mãos à testa, permaneceu ao seu lado.

Brinco Triratna (As Três Jóias ou Triplo Refúgio no Dharma, no Buddha e no Sangha), em Uttar ou Madhya Pradesh, do período Shunga, no Museu Cleveland de Arte. Licença Creative Commons

Quando a multidão o vê, exclamam com espanto: “Quem é esse? É um Deva ou o próprio Brahma?”, e vieram ter com o Senhor e juntar-se em seu entorno. O Senhor, então, se dirige ao anjo [9]da seguinte forma, para manifestar o resultado de um Karma com mérito:

Nem o sol no céu, nem a lua, nem Phussa [10]brilham com tamanho esplendor como brilha a sua luz incomparável. Por que vieste dos céus para a terra?

Por vinte yojanas e mais ainda espalha-se a luz da sua aura, imaculada, pura e bela; ela ultrapassa os raios do sol e fazem a noite tornar-se dia.

Miríades de lótus, brancos e vermelhos, e flores de várias cores adornam-no; coberto por lindas redes de ouro, brilham no céu como o sol.

Assim como as estrelas se movem densamente no céu, movem-se ali as belas deusas em mantos carmesins e véus dourados enfeitados; com a tez como o ouro, e aromatizadas com perfumes de sândalo, píngala e aloés.

Ali, deuses e deusas movem-se, multicoloridos e incontáveis, vestidos em ouro, adornados com ornamentos de ouro; alegres eles são, enfeitados com guirlandas que espalham o perfume conforme as brisas as movem.

Como chegaste a possuir tal morada? Qual foi a purificação que te trouxe este fruto do Karma? Fala, filho, e responde.

O anjo responde com estes versos:

O senhor encontrou um jovem ao lado desta estrada, e na Sua compaixão deu-lhe instruções; “Obedecerei”, disse Chatta, quando ouviu os ensinamentos sobre as Suas nobres Gemas.

“Refugio-me no Conquistador Poderoso, na Sua Verdade, e nos Seus Discípulos”. – Não os conheço, disse quando fui questionado pela primeira vez; porém, em seguida, segui os ensinamentos que me deu, Senhor[11].

“Não tomeis a vida de forma alguma; isso é um pecado e o sábio não enaltece a negligência com as criaturas.” – Não conheço, disse quando fui questionado pela primeira vez; porém, em seguida, segui os ensinamentos que me deu, Senhor.

“Não pense em tomar aquilo que não lhe é dado e é possuído por outro.” – Não conheço, disse quando fui questionado pela primeira vez; porém, em seguida, segui os ensinamentos que me deu, Senhor.

“Não procure a esposa de outro, que está sob sua proteção; isso é uma desonra.” – Não conheço, disse quando fui questionado pela primeira vez; porém, em seguida, segui os ensinamentos que me deu, Senhor.

“Não diga nunca qualquer falsidade; o sábio não enaltece palavras que não são verdadeiras.” – Não conheço, disse quando fui questionado pela primeira vez; porém, em seguida, segui os ensinamentos que me deu, Senhor.

“Abstenha-se de toda bebida que roube a mente do homem.” – Não conheço, disse quando fui questionado pela primeira vez; porém, em seguida, segui os ensinamentos que me deu, Senhor.

Portanto, adotei os Cinco Preceitos e encaminhei-me na direção da Verdade do Senhor. Pela estrada onde os ladrões me esperavam e, por causa do ouro, me mataram.

Somente do meu acto de dedicação me lembro; além disso, não resta mais nada em mim. Pelo mérito do meu acto, eu nasci no paraíso cheio de alegria.

Vê o mérito de seguir a Lei mesmo que por um momento; e muitos são invejosos quando me vêem reluzindo em glória.

Por causa de uma simples instrução, vê como o paraíso é a minha recompensa e como sou feliz; aquele que seguir diariamente a Doutrina, creio que alcançará a paz e a imortalidade.

Grandiosa é a recompensa, mesmo de uma pequena ação, pois grandioso é o fruto de seguir a Doutrina do Senhor. Vê agora Chatta que, através dos seus méritos, enche a terra de luz, assim como o sol.

“O que é Virtude e como devemos alcançá-la?” – Perguntam os homens ao reunirem-se. Agora que, novamente, sustento uma forma humana, que eu possa ser firme no propósito de viver cumprindo os Preceitos.

“O Senhor é repleto de bondade amorosa e compaixão.” – Então lembrei-me de tudo o que aconteceu [eu havia sido assassinado]. Vê-me agora apelar à Vossa Verdade; sê grato por ouvirmos a Sua Doutrina.

Então ele fala, em ação de graça, e mostra que não pode haver saciedade ao servir o Senhor ou ao ouvir a Doutrina. O Senhor observa o desejo do anjo em nome da audiência lá reunida e concede-lhes um sermão; e ao vê-los recetivos, expõe gradualmente as verdades mais elevadas.

Findo o sermão, o anjo, o seu pai e a sua mãe, obtém o fruto do Primeiro Degrau, e a multidão percebe a Verdade.

Estabelecidos agora no fruto do Primeiro Degrau[12], o anjo visualiza o benefício para os seus pais se avançarem mais no Caminho, e então, com essa visão, diz:

Aqueles que renunciarem à luxúria, ao desejo pela vida e à ilusão[13], nunca mais serão aprisionados num útero. Para a Paz irão, ao Nirvana.

Então o anjo faz saber que, ao aceitar os ensinamentos de como atingir o Nirvana, ele havia obtido o fruto do Primeiro Degrau. Então, três vezes ele caminha ao redor do Senhor em reverência; e despedindo-se dos seus pais, retorna aos céus.

O Senhor levanta-se e parte com os Seus Discípulos, e os pais do jovem e o Brâmane Pokkharasati e todos os presentes acompanham-no por um momento e regressam. Ao chegar nos Bosques de Jeta, Ele explica tudo à Irmandade reunida. E o grupo recebe o Discurso com grande benefício.


[1] Traduzido do Pali. Os versos isolados, sem a parte narrativa, aparecem na seção do Cânone Budista conhecido como Vinama Vatthu, do Khuddhaka Nikaya, do Sutta Pitaka; os versos, com a história de sua composição, aparecem no comentário do Dhammapada chamado de Paramatha Dipani. Esta tradução [ao inglês] foi feita diretamente dos comentários do Dhammapala.

[2] Estes são totalmente explicados ao longo da história. Os Refúgios são Buddha, a Sua Verdade e a Sua Irmandade; a Moralidade são os Cinco Preceitos para o leigo.

[3] Esta Casa Dévica é, em Pali, “vimana”. Presume-se que é a aura de um Deva, e diz-se que se estende por quilómetros, que ele viaja com ela.

[4] O autor fornece abaixo estes três versos no original em Pali, uma vez que são tão conhecidos pelos jovens budistas. A única diferença entre os traduzidos acima e os entoados pelos jovens é a última de cada verso; o senhor diz “upehi” – ide vós; os jovens entoam, como abaixo, “upemi” – eu vou.

Yo vadatam pavaro manujesu,

Sakyamuni Bhagava katakicco,

Paragato balaviriyasamangi,

Tam Sugatam saranttham upemi.

Ragaviragam anejam asokam,

Dhammam asankhatam appatikulam,

Madhuram imam pagunam suvibhattam,

Dhammam imam saranattham upemi,

Yattha ca dinnam mahppahlam aju,

Catusu sucisu purisaryugesu,

Attha ca puggala dhammadasa te,

Sangham imam saranattham upemi.

[5] O Senhor proclamou que a Sua Sangha – A Irmandade dos Discípulos – fosse composta apenas por aqueles que estivessem “no Caminho”. Todos os outros budistas são leigos.

Aqueles que estiverem no Caminho estão nos quatro Graus e, de acordo com o seu Grau, um Discípulo do Senhor pode ser: 1) Çrota-apatti, “aquele que adentrou na Corrente”; 2) Sakridagami, “aquele que volta a nascer uma vez”; 3) Anagami, “aquele que não volta a nascer”; ou 4) Arahat, “o venerável”. Os membros de cada Grau são ainda subdivididos em 2 Categorias: a primeira, dos que acabaram de atingir o Grau e se encontram no seu “magga”, ou início; e a segunda, dos que alcançaram o seu “phala” ou realização, e assim estão prontos para passar ao próximo Grau.

[6] O Buddha, a Sua Verdade e a Sua Irmandade.

[7] Um “yojana” representa aproximadamente dezenove quilômetros.

[8] Estas são as cores da aura do Senhor, que se estendem por aproximadamente cinco quilômetros; muitos que viam tais cores no ar sabiam que o Senhor estava próximo. As cores são arranjadas em esferas concêntricas e são azul, amarela, rosa, branca, laranja dourado e “brilhante”; a última, a cor da esfera mais externa, é feita de cinco cores sucessivas.

[9] Chatta em seu corpo Dévico.

[10] Uma estrela em Carangueijo, cuja luz se diz que persiste para sempre.

[11] As palabras do Senhor neste e nos cinco versos seguintes constituem a simples cerimônia conhecida como “Entrada nos Refúgios e Adoção dos Preceitos”. Suas palavras estão ligeiramente alteradas; o primeiro verso está ampliado em três frases: “Eu me refugio no Buddha, eu me refugio na Verdade, eu me refugio na Irmandade”; os Cinco Preceitos não são, como aqui, mandamentos do Senhor, mas promessas que os leigos fazem a si mesmos – “Eu adoto o Preceito de abster-me de tomar a vida”, etc.

[12] O primeiro dos quatro grandes Degraus no Caminho, o do Çrota-apatti, “o que adentrou a Corrente”.

[13] Os três grilhões no Caminho; o referido Degrau é o do Anagami, “aquele que não retorna”, ou seja, o que se torna um Arahat na própria vida.

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