A Índia e a Europa são parentes? A longa viagem de palavras, deuses e mitos entre o Atlântico e o Ganges

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Quando ouvimos falar da Índia antiga, muitos de nós imaginamos um mundo distante: sânscrito, Vedas, ascetas, templos, elefantes, rios sagrados. Parece uma civilização longínqua, separada da Europa por milhares de quilómetros e por uma história completamente diferente da nossa. Mas e se essa distância for, em parte, uma ilusão? E se os habitantes da Índia védica e os antepassados dos povos europeus conservassem memórias de uma herança comum, tão antiga que antecede a própria História escrita?

Esta é uma das descobertas mais fascinantes dos últimos dois séculos: a Índia e a Europa não são mundos tão separados como à primeira vista parecem. Pelo menos no plano da linguagem, dos mitos e de certas estruturas simbólicas, há entre elas uma antiga relação de parentesco.

Em 1786, o juiz e orientalista britânico Sir William Jones observou que o sânscrito possuía semelhanças demasiado profundas com o grego e o latim para serem fruto do acaso. Não se tratava apenas de algumas palavras parecidas. Eram estruturas gramaticais, formas verbais e vocabulário fundamental. A partir dessa observação nasceu o estudo das línguas indo-europeias.

Hoje sabemos que o português, o espanhol, o francês, o inglês, o alemão, o grego, o latim, o sânscrito e muitas outras línguas pertencem a uma mesma família. De forma simplificada, poderíamos dizer que são primas afastadas.

As semelhanças surgem precisamente nas palavras mais antigas e mais importantes da experiência humana: os nomes de parentesco, os números, partes do corpo, verbos essenciais e elementos da natureza. A palavra sânscrita māt recorda-nos o latim mater, origem remota do nosso «mãe». O mesmo acontece com pit e pater, «pai». O sânscrito nava aproxima-se do latim novus e do português «novo». O sânscrito daśa, «dez», reaparece no latim decem. O sânscrito danta, «dente», encontra eco no latim dens, de onde vêm palavras portuguesas como «dental» ou «dentista».

Não estamos perante empréstimos recentes. Estamos perante vestígios de uma memória linguística comum que atravessou milénios. Cada uma destas palavras é como uma pequena cápsula do tempo.

As palavras revelam, por vezes, ligações inesperadas. O deus védico do fogo chama-se Agni. Em latim, a palavra para fogo é ignis. Em lituano encontramos ugnis. As formas não são idênticas, mas os linguistas reconhecem nelas uma origem comum. Mais importante ainda: não é apenas a palavra que parece ter viajado. Também a ideia. Na Índia, Agni é o fogo sacrificial, mensageiro entre os homens e os deuses. Na Grécia, Héstia guarda o fogo do lar. Em Roma, Vesta protege a chama sagrada da cidade.

Por detrás destas diferenças parece esconder-se uma mesma intuição ancestral: o fogo não é apenas um fenómeno físico. É algo que une, transforma, purifica e comunica. Talvez por isso tantas tradições tenham colocado o fogo no centro da casa, do templo e do cosmos. O fogo aquece, ilumina, cozinha, destrói, purifica e eleva a oferenda. É matéria visível e, ao mesmo tempo, imagem do invisível. Não é por acaso que tantos rituais antigos começam junto ao fogo.

As semelhanças tornam-se ainda mais impressionantes quando olhamos para os deuses. Os estudiosos reconstruíram uma antiga divindade celeste que designam habitualmente por Dyēus Ph₂tēr, o «Pai Céu». Esta figura parece sobreviver em vários ramos da família indo-europeia. Na Índia encontramos Dyáus Pit́. Na Grécia, Zeus Pater. Em Roma, Iuppiter, isto é, Júpiter, uma forma linguística derivada da mesma expressão ancestral.

Os nomes mudaram, os mitos transformaram-se, mas algo permaneceu. Como rios que seguem caminhos diferentes sem esquecer a nascente, estas tradições conservaram fragmentos de uma memória comum. O céu luminoso, a ordem, a soberania e a paternidade cósmica aparecem, sob formas diversas, em civilizações afastadas no espaço, mas aproximadas por uma herança profunda.

Os paralelos não se limitam aos grandes deuses. Diversos povos indo-europeus conservaram histórias de gémeos divinos associados aos cavalos, à proteção dos homens e ao auxílio nos momentos de perigo. Na Índia encontramos os Aśvins, luminosos, rápidos, médicos celestes e socorredores. Na Grécia, Castor e Pólux, os Dióscuros, também ligados aos cavalos, à proteção e à salvação. Noutros lugares da Europa reaparecem figuras semelhantes, por vezes já muito transformadas.

O mesmo acontece com certos temas heroicos: o combate contra monstros, serpentes ou dragões, a conquista do fogo, a travessia de águas perigosas, a busca da imortalidade ou a luta entre ordem e caos. Nem todos estes mitos descendem necessariamente de um único modelo original. A prudência é importante. Mas, quando observamos o conjunto, torna-se difícil ignorar a existência de um fundo comum de imagens, perguntas e estruturas narrativas.

Durante muito tempo pensou-se que os indo-europeus eram apenas uma categoria linguística. Hoje a questão é mais complexa. A linguagem sugere afinidades culturais profundas. O comparatista Georges Dumézil mostrou que muitas sociedades indo-europeias organizavam simbolicamente o mundo segundo três grandes funções: soberania, força guerreira e fertilidade. Estas três funções aparecem em mitologias tão diferentes como a da Índia védica, da Roma antiga, dos povos germânicos ou dos antigos iranianos.

Não significa que todas estas culturas fossem iguais. Também não significa que possamos reduzir os seus mitos a uma fórmula única. Significa apenas que talvez tenham herdado certas formas de pensar, interpretar e organizar a realidade. O sacerdote, o guerreiro e o produtor; a palavra sagrada, a força que protege e a abundância que sustenta; o céu, a batalha e a terra fecunda: estas imagens surgem repetidamente, com diferentes nomes, em vários ramos da família indo-europeia.

À primeira vista, tudo isto pode parecer uma curiosidade erudita. Mas talvez seja mais do que isso. O português é uma língua românica, filha do latim. E o latim pertence à família indo-europeia. Por isso, quando um leitor português se aproxima do sânscrito, não entra apenas numa língua exótica e distante. Entra numa espécie de espelho antigo, onde algumas formas, sons e ideias aparecem de modo surpreendentemente familiar.

Ler a Bhagavadgītā, as Upaniṣads ou os hinos do gveda não significa abandonar a Europa para viajar até um Oriente absolutamente estranho. Pode significar também reencontrar, por outro caminho, algumas raízes esquecidas da nossa própria linguagem simbólica.

Naturalmente, a Índia não é a Europa, nem a Europa é a Índia. Cada civilização desenvolveu o seu caminho, o seu génio, a sua história e as suas feridas. Mas há pontes antigas entre ambas. Pontes feitas de palavras, deuses, imagens, ritos e perguntas.

Vivemos numa época que tende a imaginar as civilizações como mundos completamente separados. A Índia seria «oriental». A Europa seria «ocidental». Cada uma pertenceria a um universo distinto. O estudo das tradições indo-europeias recorda-nos algo diferente. Mostra que os povos se encontram ligados por histórias muito mais antigas do que as fronteiras modernas. Mostra que palavras, símbolos e mitos viajaram durante milhares de anos. Mostra que aquilo que julgamos distante pode, afinal, ser familiar.

Talvez a maior descoberta dos estudos indo-europeus não seja apenas a existência de uma língua ancestral comum. Talvez seja a perceção de que, muito antes das nações, dos impérios e das religiões modernas, povos separados por continentes inteiros já partilhavam perguntas semelhantes sobre o céu, o fogo, a morte, a justiça, a ordem, o destino e o sentido da vida. E essas perguntas continuam, de certa forma, a ser as nossas. 

A Índia e a Europa são parentes? Sim, pelo menos em parte. Não como cópias uma da outra, nem como civilizações confundidas, mas como ramos distantes de uma árvore muito antiga. E talvez estudar essa árvore nos ajude a compreender melhor não apenas de onde vimos, mas também aquilo que ainda podemos vir a recordar.

Bibliografia:

LINCOLN, Bruce. Myth, Cosmos, and Society: Indo-European Themes of Creation and Destruction. Cambridge, MA: Harvard University Press, 1986.

POLOMÉ, Edgar C. (ed.). Myth in Indo-European Antiquity. Berkeley: University of California Press, 1974.

WEST, M. L. The East Face of Helicon: West Asiatic Elements in Greek Poetry and Myth. Oxford: Clarendon Press, 1997.

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