A Origem e o Significado dos Mantras – 2ª Parte

Os muitos estudos que se fizeram sobre o mantra não respondem com clareza ao que é, de facto, o mantra, mas concordam entre si, como Bharati, Alper, Coward, Findly, Staal, Taber e Wheelock, que o caminho para esta compreensão do mantra depende de uma análise histórica e filológica feita através da crítica da filosofia analítica e daqui podemos apreender uma tentativa de os conceptualizar.

Os mantras Védicos estão associados com a autoridade linguística e com o «som» (śabda) do discurso, daí o facto de os mantras estarem associados com sons, como o svāhā, que não tem propriamente um significado, sugere que os mantras, pelo menos alguns deles, funcionam com palavras do estilo abracadabra, impossíveis de traduzir fora do seu contexto simbólico.

O seu propósito inexpressivo e sem significado aparente parece ser, de acordo com o Bodhisattvabhūmi de Vasubandhu, o de serem compreendidos pela intuição, sem a divisão gerada pelas várias crenças (dharmas) e cujo significado real é universal. No mantra está igualmente presente a ideia da tradição, da repetição daquilo que os Antigos fixaram, sobretudo naquilo que foi «recitado pelos profetas» (kaviśasta). Também existem várias palavras utilizadas para o discurso ritual, como dhī, vāc, mantra, uktha, stoma, gir e brahman, que descrevem aquilo que é dito, cantado ou ouvido durante um ritual, e que eram, como é óbvio, utilizadas de forma precisa conforme aquilo que significavam.

É-nos praticamente impossível, uma vez mais, compreender à distância estas divisões, no entanto, algumas destas designações podem ser distinguidas umas das outras, já que um hino é chamado brahman quando é composto como formulação poética, gir quando é entoado como canção, uktha quando é proferido como recitação, manman quando se baseia sobretudo num significado, etc.

Vejamos alguns exemplos. Um mantra pode ser extremamente perigoso quando o seu significado não é compreendido ou quando é mal utilizado. No Ṛgveda (1.147.4) diz-se o seguinte:

Quando Agni (o fogo), o malicioso, miserável ganancioso,

nos atinge com a sua duplicidade (engano),

que o mantra [mal produzido] caia sobre ele como uma [maldição] opressiva!

Ele deve sofrer [os efeitos] do seu próprio discurso profano.

Isto demonstra que um mantra pode ser utilizado fora do seu contexto ritual, como na magia negra, como vingança contra alguém cujo discurso tenha violado as regras do ritual, neste caso, que tenha proferido um «discurso profano» (durukta), tanto ignorante quanto insultuoso. A duplicidade (dvaya) corresponde a uma acção falsa feita contra o fundamento do pensamento Védico, a verdade (ṛta). Outros exemplos demonstram-nos que um hino pode ser utilizado de forma irada e bélica, sobretudo contra aqueles que «odeiam o divino» (devanid), ou que seguem uma crença falsa, como se lê no hino 1.152.2:

E tais coisas não eram conhecidas por estes [homens].
O mantra enfurecido proferido pelos videntes é verdadeiro:
a poderosa [arma] de quatro pontas (vajra?) destrói a de três (triśūla?).
Aqueles que odeiam o divino foram os primeiros a envelhecer.

Um mantra falso ou imperfeito recai sobre o seu criador ou recitador, como tal, o objectivo de um mantra era o de ser o mais verdadeiro, refinado e poderoso possível, por forma a não atingir o poeta e servir-lhe como protecção contra todos os perigos (mentais). Esta protecção advém da ligação entre o poeta e os poderes captados, como se lê no hino 7.32.13:

Oferece um mantra verdadeiro, bem produzido e elegante
aos [deuses, poderes] merecedores de culto!
Pois os muitos ataques não atingem
aquele que ganhou o favor de Indra pelas suas [boas] acções.

Mantra OM. Pixabay

Isto diz-nos ainda que a base do mantra é o seu poder, activado pelo uso de formas de discurso muito elevadas, verdadeiras, bem produzidas e elegantes. Um mantra perfeito é aquele que faz uso de um discurso poético requintado e impecável, mas também de um discurso que respeite o ṛta, a «verdade», a «ordem» ou a «regra» transcendentes.

A verdade (ṛta ou satya) de um mantra é aquilo que faz com que o segredo habitualmente oculto seja revelado ao homem (1.152.2). Quando a verdade é atributo essencial de um deus, como é o caso de Agni, qualquer mantra que lhe seja dedicado tem de revelar, invariavelmente, a verdade. (6.50.14; 7.7.6), sendo o Ṛgveda, de uma forma generalista, dedicado ao deus Agni, temos necessariamente de supor que todos os seus hinos pretendem revelar uma verdade.

Se por um lado, a verdade é adquirida através dos deuses que protegem e perseguem essa mesma verdade, por outro, esta verdade não se encontra necessariamente fora do alcance do homem, mas sim no seu coração. Isto é perceptível no facto de um mantra só ser verdadeiro se for criado com o mais profundo entendimento, com a introspecção que nasce do coração. Se um mantra nasce do coração, gera poder sobre tudo aquilo que habita no coração do mundo, i.e., nos seus segredos e mistérios. No hino 2.23.2:

Pronunciaremos bem este mantra
o qual foi bem feito para ele desde o coração (hṛd). Ele compreendê-lo-á:
Através do poder da sua força Asúrica,
o senhor Apāṃ Napāt (Agni) criou todas as criaturas.

Os mantras capturam a verdade e são o caminho para essa mesma verdade. Um hino que revela a capacidade que o mantra tem de revelar e manter a verdade é o seguinte (1.67.5-6):

Como um não-nascido ele fortifica o chão do mundo,
ele sustém o céu através de mantras verdadeiros.
Protege os amados caminhos das vacas (inspiração?)!
Durante as nossas vidas, ó Agni, tu vais de segredo em segredo.

Este segredo pode ser interpretado como aquilo que Agni, ou o mantra, revela, bem como os locais onde Agni, ou o significado do mantra, se encontram escondidos, como o fogo oculto na madeira. Agni está especialmente relacionado com os mantras pelo facto de ele mesmo se esconder em vários locais, sendo o deus da inspiração e da introspecção, o fogo visível e invisível.

[O fogo] comum-a-todos-os-homens (Agni Vaiśvānara) brilha continuamente,
Invocamos Agni, o kavi, através de mantras.
O deus que pela sua grandiosidade toca os amplos [mundos],
o de cima e o de baixo. (10.88.14)

O termo Vaiśvānara é análogo aquele que recebe na Grécia a deusa Afrodite, pándēmos ou «comum a todo o povo», expressando aqui a presença deste fogo (Agni) em todos os homens, como um brilho incessante que faz corresponder o fogo terreno com o fogo celeste. Ao invocar-se este fogo pelo nome de kavi, como um fogo interno possuído por todos os homens, subentendemos alguns aspectos interessantes: No Ṛgveda o kavi, poeta, é aquele que vibra com a inspiração (vipra), que conhece a verdade (ṛtajña), que trabalha com a intuição (dhī), com as ideias (manman), com a elegância poética (kāvya), com a introspecção (manīṣā), com hinos (uktha), com poemas (mati) e com a mente (manas), por este facto, ele é sábio (dhīra), porque a sua sabedoria vem do coração (hṛd) e revela mistérios (niṇya).

Ensinando os Cinco Discípulos. Wikimedia Commons

A importância de um mantra ter de ser exposto verbalmente aparece claramente no hino 10.95.1:

Se estes nossos mantras permanecerem inauditos

eles não trarão felicidade, nem sequer no mais longínquo dia.

O que significa várias coisas. Primeiro, que o poder do mantra está presente na sua verbalização, segundo, que a verdade não deve de ser guardada na mente apenas, mas que deve de ser transmitida e partilhada, e, terceiro, pelo carácter prático e moral do mantra, que estas verdades devem ser praticadas. Nalgum momento os poetas uniram o poder do pensamento ao poder do discurso, fazendo com que o discurso fosse percebido como um poder mental que é lançado através da sua pronunciação.

E se a sua eficácia se deve ao facto de ser pronunciado, então o mantra é um acto verbal que coloca em movimento um conjunto de poderes que gerarão resultados. O mantra torna-se assim num veículo de reflexão que os poetas utilizam para formular um teoria sobre o discurso per se, onde o discurso cumpre uma acção, sobretudo aquele que é capaz de abrir o coração aos deuses. Isto porque, em primeiro lugar, a base do mantra é a verdade, em segundo, tem a condição de ter de ser produzido pelo coração, e em terceiro, pelo menos no caso Védico, tem de veicular um significado.

A utilização do mantra como ferramenta faz com que o seu utilizador comece a reflectir sobre algo, cujo conteúdo é fundamental para a ligação entre homem e deus, ou se preferirmos, entre o homem e os ideais elevados. De igual forma, um mantra tem de ser pronunciado e ouvido por alguém, incluindo os deuses. Apesar de o mantra se ter tornado posteriormente numa ferramenta de meditação, a crença na libertação do seu poder através da pronunciação manteve-se.

No fundo, estamos perante um processo de cristalização ou materialização de uma ideia poderosa, numa «acção» poderosa. As acções, pelo menos as mentais, mais temidas pelo homem Védico são o amati, «ignorância» ou «incapacidade para pensar», que é a inexistência de mati, ou seja, da capacidade de realizar um pensamento inspirado e transformá-lo em discurso ou «oração», bem como o durmati «mau pensamento» ou «má intenção», que é um pensamento que não é inspirado nem agraciado pelos deuses, é a inexistência de svasti ou a qualidade de «ser-se bom». Esta preocupação encontra-se em alguns hinos, como no 4.11.6:

A ignorância (amati) afasta-se de nós, afasta-se a ansiedade (aṃhas),
afasta-se todo o mau pensamento (durmati), sempre que nos acompanhas.
Durante a noite [do mundo], ó Agni filho da força, tu és auspicioso
para aquele que acompanhas na (em quem depositas a) bondade (svasti), ó deus!

É o fogo do coração que destrói esta ignorância ou mau pensamento. E este fogo é expressado pela eloquência de um discurso, pela capacidade de utilizar correctamente a métrica, a sintaxe, o vocabulário ritual e simbólico, e de traçar analogias mitológicas verdadeiras, mas também utilizá-las com uma autoridade divina sobre o plano humano.

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