A Origem e o Significado dos Mantras – 3ª Parte

Existem igualmente relatos de mantras utilizados em competições entre poetas-videntes, descritos como uma batalha real, muito semelhante àquilo que entendemos na cultura Grega por banquete ou sympósion «beber em conjunto», não apenas o vinho, mas sobretudo a verdade. Aqui o vinho serve de analogia, já que, durante um banquete, este se vai servindo cada vez mais forte, na medida em que a verdade se defina cada vez mais, por meio de uma competição de filósofos, até que um filósofo, ou a sua visão da verdade, saia «vencedor». Ser-se verdadeiro durante uma competição poética é ser-se capaz de revelar os mistérios do universo, os mistérios da vida humana, a forma como estes mistérios são ritualmente expressados, compreendê-los e manipulá-los por forma a que sejam úteis à compreensão dos homens. Esta preocupação está presente de forma magistral em alguns hinos, como no 4.5.6:

Quem sou eu para descrever [o que és] ó Agni,
Tu que sobre mim – e eu não violarei [esta compreensão] –
depositaste corajosamente o pesado fardo, esta compreensão (manman) tão elevada e profunda,
esta nova questão com sete significados para ser [por mim] oferecida (explicada)?

Curiosamente os sete versos seguintes destes hino descrevem, de forma muito velada, o que é este fogo (Agni) visto de sete perspectivas (do fogo material ao fogo espiritual), e no 7º, i.e., no 4.5.13, volta-se à dúvida:

Qual é o poste de sinalização? Qual é a direcção? Qual é a meta?
Queremos ganhá-la como os cavalos de corrida [querem ganhar] o prémio final.
Quando é que as auroras, as divinas esposas da imortalidade,
se estenderão sobre nós com a cor do sol?

Agni está especialmente relacionado com o mantra pelo facto de ser o único deus que conhece ambos os mundos, estreitando o abismo que separa os homens dos deuses. Ou se preferirmos, o fogo que cada homem possui para que ele próprio seja capaz de estreitar o abismo e de elevar-se «de olhos abertos» ao mistério. Esta ideia da verdade poder ser encontrada com o pensamento e discurso do coração, faz com que, mitologicamente, Agni esteja associado mais com os esconderijos do mundo, e menos com os esconderijos do céu. O verbo mantray significa um acto de juramento ou compromisso, o que nos leva a crer que estas verdades encontradas pelo pensamento e reveladas pela palavra, constituíam uma verdade que nunca deveria ser «questionada», mas sempre praticável. Captar-se uma verdade subentende colocar-se ao serviço da mesma.

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Deus Agni sentado sobre um carneiro. Creative Commons

Mas nem todos os mantras têm um significado óbvio, alguns parecem limitar-se a lidar com «poderes» sonoros com o propósito de gerar ritmos como, e meramente a título de exemplo, o seguinte que se encontra no


Jaiminīyāraṇyageyagāna 12.9:
hā bu hā bu hā bu bhā bhaṃ bhaṃ bhaṃ bhaṃ bhā bhaṃ bhaṃ bhaṃ bhaṃ bhā bhaṃ bhaṃ bhaṃ bhaṃ,
hā bu hā bu hā bu brahma jajñānaṃ prathamaṃ purāstāt,
vi sīmatas suruco vena ā vāt,
sa budhniyā upamā asya vā yi sṭhāḥ,
sataś ca yonim asataś ca vā yi vaḥ,
hā bu hā bu hā bu bhā bhaṃ bhaṃ bhaṃ bhaṃ bhā bhaṃ bhaṃ bhaṃ bhaṃ bhā bhaṃ bhaṃ bhaṃ bhaṃ,
hā bu hā bu hā bu vu vā,
brahma devānāṃ bhāti parame vyoman brahma devānāṃ bhāti parame vyoman brahma devānāṃ bhāti parame vyomān.

Isto explica a definição que H.P. Blavatsky nos dá de um mantra enquanto conjunto de palavras que, quando pronunciadas, geram determinadas vibrações e produzem determinados efeitos. Nos mantras tântricos, alguns destes sons sem significado são dirigidos a partes específicas do corpo, sempre no caso dativo, como nalguns exemplos do Mahānirvāṇatantra:

hrāṃ (?) [ao coração] namaḥ «saudações»;
hrīṃ (?) [à cabeça] svāhā (afirmação);
hrūṃ (?) [ao topo da cabeça] vaṣat «que ele leve?»
hraiṃ (?) [aos braços] hum
hrauṃ (?) [aos três olhos] vauṣat «que ele leve?»
hraḥ (?) [às palmas das mãos] phaṭ (exclamação)
Como aparece na obra anónima do séc. XIX, O Sonho de Rāvaṇa:
Hraṃ! Hrāṃ! Hrīṃ! Hrauṃ!
Klīng!
Yuṣmābhiḥ Mohanaṃ bhavatu!
Glauṃ!
Sammohanaṃ bhavatu!
Spheng!
Parimohanaṃ bhavatu;
Sphing!
Kṣrang! Kṣrāng! Kṣring! Kṣrung!
Kṣreng! Kṣraing! Kṣrong! Kṣraung!
Svāhā?
EI! PHNPHJ!
Phaṭ!

Ravana. Wikimedia Commons

Ou identificam-se partes do corpo com os 50 caracteres Sanscríticos, i.e., o conjunto de letras de «a» a «kṣa», que permitem o discurso. Por este motivo, os mantras foram popularmente utilizados para doenças e exorcismos. Isto tem na sua origem a relação que existe entre os caracteres Sanscríticos e o sistema ósseo.

Na realidade, o Sânscrito conta com 47 letras. Destas 47, 14 são vogais e 33 são consoantes. Estas 14 vogais relacionam-se, e a título de exemplo, com os ossos do crânio. O crânio conta com 22 ossos, 8 superiores e 14 inferiores, i.e., os 8 ossos neuro-cranianos e os 14 ossos do esqueleto da face. Estes 22 ossos enquadram-se igualmente no simbolismo dos 22 caracteres do alfabeto Hebraico e nos 22 Arcanos maiores do Tarot, por exemplo, e representam uma belíssima forma de compreendermos o «pensamento» humano e a sua expressão.

Efectivamente, também os Egípcios tiveram 14 dinastias e os Hindus contam 14 períodos «históricos», os Manvantaras. Mas o Sânscrito vai ainda mais longe. É que se este conta com 14 vogais, que são as 14 formas de tornar as consoantes sonoras, os 14 ossos da face, inferiores ou da manifestação, contamos também com 8 ordens de consoantes.

Sabemos que é impossível ler-se uma consoante sem o auxílio de uma vogal, como tal, toda a consoante expressa uma «ideia» que precisa de um veículo que a «manifeste». Estas 8 ordens de consoantes são: (1) as Guturais; (2) as Palatais; (3) as Cacuminais (ou Retroflexas); (4) as Dentais; (5) as Labiais; (6) as Semivogais; (7) as Sibilantes; e (8) as Aspirantes. É por estas 8 ordens que se dispõem as 33 consoantes Sanscriticas.

O número 33 é também o número de vértebras que temos, o número de Devas na mitologia Indiana, os 33 degraus por onde descem e sobem os Anjos na Escada de Jacob, bem como outras relações misteriosas. Da mesma forma, se observarmos a mão humana, veremos que os 5 dedos compõem 14 ossos ou falanges e que são 8 os ossos do carpo (punho) que unem a mão ao antebraço. Uma vez mais, estes expressam a «ideia» e a sua «aplicação».

A escada de Jacob. William Blake. Dominio Público

Mas, analogias à parte, o sentido original do mantra terá sido a transmissão do seu significado e não apenas o seu som, pois, como vemos no Nirukta 1.18: «Aquilo que é meramente vocalizado sem ser compreendido/ como a madeira seca sem fogo, nunca acende.» Mesmo o mantra Tântrico tem de ser, efectivamente, compreendido, como nos diz Kumārilabhaṭṭa (Tantravārttika 1.143-144).

O mantra torna-se perceptível assim que é lido ou pronunciado, pois é gramatical e tem um significado, no entanto, durante um ritual, um mantra pode ser recitado devido ao seu significado ou devido ao seu som, podendo ser lido como um «ruído» aparentemente sem significado. A linguagem Védica é em si mesma śruti «[aquilo que é] ouvido», uma palavra divina que foi ouvida ou captada.

Aquele que está autorizado a recitar um mantra deve ter em conta o conteúdo do mesmo e o contexto onde o faz, bem como ter determinados pré-requisitos como a purificação, uma moral adequada, capacidades práticas, uma base intelectual apropriada e o estatuto de «iniciado» numa tradição esotérica.

Quando o significado de um mantra não é compreendido, isto não quer dizer que não tenha significado, mas sim que quem o lê ou escuta o ignora. Bhartṛhari (no Vākyapadīya) diz-nos que o Todo, o Brahman, é formado pela palavra (śabda) e que esta tem sempre significado. O primeiro mantra, o AUM, é a raiz de todos os outros mantras (1.9) e como tal, devemos recorrer ao mesmo na sua interpretação. A essência da consciência é o significado da palavra, que leva todos os seres a uma actividade com significado, pois se não existisse a palavra, nada teria significado nem alma (1.126).

Só não existe significado quando não existe palavra, naquele momento em que tudo está fundido no Absoluto adormecido, ou śabdabrahman, «a consciência da palavra» e o Verbo criador (1.123). Mas quando o Absoluto é acordado, os significados manifestam-se através das palavras, gerando conhecimento e poder. No entanto, este significado pode não ser apreendido devido à ignorância ou falta de capacidade de ver o significado do mantra (2.332).

Para Bhartṛhari a palavra, o significado e a consciência são sinónimos, pois é esta relação que permite o conhecimento e a comunicação (1.124), pois a palavra e o pensamento desenvolvem-se em conjunto, são os impulsos espirituais de conhecer-se e comunicar-se. Por outro lado, os poetas vêm uma só verdade, mas criam vários mantras para que esta verdade possa ser transmitida aos demais.

O poder (kratu) do mantra só está presente quando, após o entendimento de uma «visão», somos levados a expressá-la por palavras, é o mesmo que a necessidade de ensinar após a verdadeira aprendizagem. Os mantras expressam, por isto, uma direcção na identificação do homem com os seus princípios superiores, ou com a divindade.

Bhartṛhari diz-nos ainda que aqueles sons ou palavras sem significado podem ter que ver com a tentativa de recordar palavras ditas em vidas passadas, onde se procura identificar estes «sons» passados com os significados presentes na consciência (3.1.6), ou a forma como foram ditas em determinada infância da humanidade, quando as palavras são ditas de forma directa, como as diz uma criança que está a aprender a falar, quando esta diz «mãe», está no fundo a dizer que quer a sua mãe, quando diz «árvore», está a dizer que aquilo é uma árvore, etc. (1.24.26)

Compreendemos assim que a repetição de um mantra só tem interesse pelo facto de poder chegar a produzir a imagem e o significado referidos pelo mesmo, por forma a bloquear a ignorância e permitir a visão do seu significado crescente (1.142). Também deve ser repetido aos outros, pois aquele que o diz pode não o compreender, mas quem o ouve sim (1.152-154). Assim, um mantra tem o poder de remover a ignorância (avidyā), revelar o caminho (dharma) e gerar a libertação (mokṣa). 

O Mahamrityunjaya Mantra do Senhor Shiva. Flickr

A gramática tem como primeiro objectivo controlar o bom uso dos mantras e da sua pronunciação, fundamentais não só para o sucesso dos rituais, mas também para todo o tipo de conhecimento. A repetição dos mantras torna-os em instrumentos de poder no sentido em que quanto maior é a dificuldade que enfrentamos, maior a necessidade de repetirmos ideias elevadas que possam constituir uma resposta, que encontramos interiormente e que constituem a superação do mesmo. (1.14)

Vemos o mesmo no comentário de Vyāsa ao Yogasūtra de Patañjali (Bhāsya 1.28), onde a repetição de um mantra, quando o seu significado é compreendido, treina a mente na arte de dirigir-se no mesmo sentido que a verdade pronunciada, tornando-a penetrante e una com ela. Bem sabemos que uma palavra tem uma determinada vibração, que evolui em conformidade com a forma com que a utilizemos, e neste sentido, torna-se óbvio, que as palavras com maior antiguidade ou tempo de utilização possuam aquilo a que poderíamos chamar de um poder maior ou menor, positivo ou negativo, como nos exemplos fáceis da palavra «amor», «bem», «belo», «justo», etc., que quando utilizados numa frase geram sobre a mesma uma descarga eléctrica especial.

Quando estas palavras são veículo de significados muito precisos, em conformidade com o contexto mais ou menos perceptível em que são utilizadas, geram igualmente a vibração daquilo que estão a simbolizar. Se falamos do sol como origem da verdade, a palavra «sol» não arrasta consigo apenas o que o sol nos suscita, mas também a força que têm os conceitos de «bondade», «divindade», «conhecimento», «verdade», etc. Assim sendo, não é que os mantras não tenham significado, como teimam em dizer alguns dos mais sonantes nomes da Academia, ou que tenham apenas de ser repetidos estupidamente, como faz um gravador, sem que por isso evolua a um modelo superior.

Nós não somos gravadores, na pior das hipóteses, somos um rádio, como o que levamos nos carros, se nos sintonizarmos bem com o Bom, o Belo e o Justo, até poderão passar por nós, alguma vez na vida, melodias tão maravilhosas como as da obra de um Mozart, se sintonizarmos mal, pois, passará tudo e mais alguma coisa, ruído, sim, e coisas sem significado. Neste contexto diremos o seguinte, um mantra é a nossa vontade, um corpo, um braço e uma mão postos em movimento, os dedos que se articulam para sintonizar uma frequência cada vez mais pura e elevada, que nos permita ouvir aquilo que um dia poderemos repetir aos demais: uma verdade.

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