A origem e o significado dos mantras

Mantra significa, em primeiro lugar, «hino sagrado», «fórmula mística» e «encantamento mágico», o seu sentido filosófico e mais elevado é o de «instrumento do pensamento», «fórmula esotérica sagrada», «instrumento de conhecimento e de poder» criado por poetas-videntes e cuja correcta recitação e significado são sempre fornecidos por um mestre a um discípulo, e em segundo lugar, significa «deliberação», «resolução», «conselho» e «máxima».

Os mantras são uma produção Védica, e como tal, a forma mais directa de os considerarmos terá de iniciar necessariamente numa contextualização dos mesmos naquilo que é possível conhecer da mais remota cultura e civilização Indianas. Muito resumidamente, temos de ter em consideração que estes mantras surgem numa sociedade sem escrita e, portanto, oral, sobretudo pastoral, admiradora e dependente do cavalo, e cujos membros (os que criavam e faziam uso dos mantras) se consideravam a si mesmos āryas ou «nobres». Nunca é demais recordar que ainda que este «sentimento de nobreza» que a civilização védica imprimia a si mesma pudesse ser utilizado como diferenciação qualitativa das demais culturas ou dos demais grupos sociais, este era um sentimento estritamente moral, pois sabiam, ou pelo menos acreditavam, que possuíam os meios necessários (presentes nos mantras Védicos) para que a humanidade lidasse e se libertasse da sua condição miserável e inferior, alcançando-se assim uma posição (interior) superior, i.e., elevada e nobre. No entanto, se quisermos considerar os āryas como uma elite social, devemos procurar vê-los mais como uma elite elitizante do que como uma elite elitista, no sentido em que transmitiam e propagavam uma doutrina que haveria, num futuro mais ou menos distante, de pertencer a todo o homem, levando-o a encontrar a sua própria nobreza interior, ainda que fossem levados a protegê-la, em segredo, do contágio do profano.

Este mundo Védico era entendido como bom e solidário apenas por este motivo, por representar um palco de experiências necessárias à elevação moral e espiritual do homem através da posse de um conhecimento ancestral. Mas este conhecimento e transformação da humanidade dependia de poetas inspirados, que por serem capazes de captar as mais poderosas verdades, as transmitiam por meio de palavras, poderosas na via de exposição escolhida e no significado, que era mais ou menos evidente. A literatura oral destes sacerdotes-poetas, capazes de captar e de transmitir as ideias de uma forma directa, recebeu o nome de veda, «visão» ou «conhecimento», daí termos dado à sua língua Indo-Europeia o nome de Védico ou Sânscrito Védico, aquele que é veículo deste conhecimento. Uma das maiores dificuldades que temos, fruto da distância temporal e conceptual, está em sermos capazes de distinguir as diferentes designações do poeta. Estes são chamados ṛṣikavimuni e vipra. É óbvio que na sua época seriam tipos de poetas diferentes, mas é-nos hoje praticamente impossível distingui-los. As várias tentativas feitas, sempre insatisfatórias, permitem defini-los de uma forma genérica, onde o kavi é aquele que entra em contacto com o mundo divino, tal como o ṛṣi, com a diferença de que o primeiro não é necessariamente um sacerdote, e o segundo o é. O muni é um asceta. O kavi é o poeta que, por possuir um conhecimento esotérico, vê com o seu olho mental aquilo que está oculto para os outros. Por sua vez, o vipra é aquele que vibra, ferve e experimenta a verdade pelo entusiasmo. No entanto, aquilo que os define é também o que os confunde, pois todos entram em contacto com o mundo divino, todos cumprem uma acção «sacerdotal», todos vibram com a verdade e todos possuem este conhecimento que é esotérico e oculto para os demais. Por outro lado, a autoria dos poemas e dos mantras é-nos sempre confusa pela grande unidade e continuidade que encontramos na sua produção, e pelo facto dos poemas serem sempre uma transferência hierárquica de um plano superior para um plano inferior. Em todo o caso, não importa quem recita o mantra, mas sim o mantra que passa por ele, já que o poeta é entendido como um veículo para o mesmo. Isto não quer dizer que os poetas-videntes não sejam exaltados e individualizados ocasionalmente em alguns hinos (e.g.Ṛgveda 3.53.15-16). Os mantras nascem assim como expressões criadas por poetas inspirados, que eram depois utilizados em rituais que conferiam poder e visão sobre os seus participantes. A par disto, são várias as personagens divinas que encarnam os sons utilizados durante o ritual, como Bṛhaspati, Brahmaṇaspati, Vācaspati e Vāc. Destas quatro divindades aquela que se foi destacando mais foi a figura de Vāc enquanto «apoteose do feitiço» e «exaltação do som mágico». A relação que a palavra tinha com o coração, que representava o seu centro e origem, deu lugar à articulação da deusa do discurso, Vāc, com a vaca (gaurī), que representa na palavra a mediadora entre o invisível e o mundo dos homens, responsável por alimentar (transmitir) a visão e o discurso. Esta relação entre Vāc e gaurī está subentendida na deusa Dhiṣaṇā, personificação da inteligência do discurso, da amamentação e da inspiração poética, e cujo nome é comparável a um dos epítetos do planeta Vénus, dhiṣṇya, o «piedoso». A palavra feminina Vāc é equiparável ao Grego Lógos, ambas com o significado de «discurso». A Vāc-mulher e a Vāc-palavra foram tratadas pela mitologia indiana de forma semelhante, enquanto procriadora, sedutora e destruidora, em suma, como inspiração e criação. 

Mantra começou por ser o nome dado a qualquer porção do Ṛgveda que fosse utilizada como prece ou fórmula mágica. Esta ideia desenvolveu-se àquela de frase ou aforismo repetidos para que a atenção humana se concentrasse nela, durante um processo ao qual podemos chamar de meditação. Ganhou igualmente o sentido de frase poderosa que, através da sua repetição mental ou verbal, geraria determinados efeitos, relacionados com o conteúdo do mantra, mas sobretudo, com  seu significado oculto. É também um som, uma palavra ou uma fórmula frásica associada a determinada força mental, religiosa ou oculta, que proporciona o contacto de quem a pronuncia com o aspecto divino que veicula. Parece, no entanto, haver pouca relação entre os mantras védicos e os da tradição posterior, já que os primeiros geraram um corpus poético original e complexo, enquanto que os seguintes foram repetições e reformulações. Ainda assim, podemos encontrar alguma continuidade no facto dos primeiros nasceram da intuição poética (dhī-) dos poetas, com a finalidade de conhecercontrolar e influenciar as divindades e os poderes do cosmos, e dos seguintes servirem para controlar os poderes do homem e do cosmos, bem como proporcionar algum tipo de experiência religiosa. Outro dos aspectos que demonstra a continuidade do uso dos mantras desde a época védica, é a sua exactidão gramatical e fonética, bem como o ênfase e o ritmo, responsáveis pela sua eficácia. A falha num destes requisitos transforma o mantra numa arma «mortífera» que se vira contra o seu recitador. Daí ser um acto exclusivo da nobreza, i.e., daqueles que alcançaram um nobreza interior, onde já não há lugar para o egoísmo nem para as tendências da personalidade. Qualquer um que faça, nos nossos dias, uso destes mantras sem ter alcançado esta nobreza interior está, em boa verdade, a brincar com o fogo. Por outro lado, salvo no caso da transmissão directa, nós só repetimos aquilo que não compreendemos verdadeiramente, ou que ainda não incorporámos totalmente. Portanto, é bom recordarmos que a repetição daquilo que não conhecemos e que não compreendemos pode tornar-se negativo, pois quando queremos que uma criança aprenda, deixamo-la brincar com tudo aquilo que lhe seja inofensivo e que lhe outorgará um poder no futuro, mas não a deixamos entrar dentro de um tanque de guerra, para que dispare mísseis ao acaso, não lhe damos armas para que, pela repetição, atinja alguma sabedoria, pois o mais provável é que se fira e fique impossibilitada de aprender o que quer que seja. Julgamos, pois, que fica clara a nossa posição, não falamos de mantras para encorajar a sua repetição isenta de significado e perigosa, mas sim para encorajar a capacidade de raciocínio e de visão que todos possuímos. Pois, mais do que uma palavra, a intuição poética é expressada sobretudo pelo verbo dhī-, que tem o significado de «visão», enquanto faculdade sobrenatural, própria dos videntes, de «ver» com a mente as coisas como elas são, de adquirir um conhecimento directo e «repentino» da verdade, dos poderes divinos e da relação dos homens com os mesmos. No mesmo campo semântico que o verbo dhī- encontramos os derivados de man-, como mantu «pensamento intencional», mas também matimanman e mantra, todos com o sentido de produto «material do pensamento» ou do «sentimento inspirado» do poeta. O pensamento indiano não faz uma distinção clara entre os (três) tipos de visão, como tal coloca-os em sequência numa continuidade natural, que vai da visão física à visão poética e desta à visão divina. A mesma continuidade é demonstrada na relação dos homens ordinários com os videntes e destes com os deuses, algo que podemos igualmente substituir pela continuidade discípulo-mestre-deus. Isto permite-nos compreender que os mantras não eram necessariamente captados devido a uma visão diferente ou alterada, mas sim por uma «elevação» dessa mesma visão. Depois desta «imagem» ser captada pela visão, ela era transmitida pela apreensão mental própria de cada vidente e por meio de metáforas, que podem dividir-se em três estados contínuos: o poder que a visão tem de a captar; a luminosidade que permite identificá-la; e o local oculto e interno onde esta se encontra. Que Gonda resume no seu conceito do «lampejo da introspecção».

Os poemas do Ṛgveda são chamado mantras pelo menos desde o séc. VIII a.C., no Śatapathabrāhmaṇa (1.31.28) e já possuem aquilo que melhor define um mantra: são textos eficazes. Para termos uma noção do uso do Ṛgveda como um conjunto de mantras, podemos observar a obra Ṛgvidhana, já que é uma exposição prática para o uso mágico dos mantras no quotidiano. A crença na eficácia dos mantras é algo comum à cultura Indiana, tanto no passado como no presente, pois para esta os mantras são reais e palpáveis, são ferramentas mentais que devem de ser consideradas sagradas, podem ser dominadas e bem, ou mal, utilizadas. Ainda que sejam utilizados em contexto religioso, os mantras não se esgotam nele. Um texto político, económico e militar como o Arthaśāstra (séc. IV a.C.) refere a importância dos mantras como instrumentos que permitem compreender o que permanece invisível e inalterável, fortalecer a compreensão daquilo que é visto, remover a dúvida e a parcialidade. Outro texto, o Rājataraṅgiṇī (séc. XII), refere Māntrikas (encantadores) que protegiam as plantações, por exemplo. O mantra foi, portanto, assumindo ao longo da História todo o tipo de função, adaptando-se a variadíssimos contextos. Isto levou os académicos a crer que recitar um mantra, tal como hoje o compreendemos e seja que mantra for, é o mesmo que recitar outra coisa qualquer. A tradição Indiana, por outro lado, vê no mantra algo totalmente oposto, onde o mantra é um instrumento de poder, com um propósito muito específico e que deve de ser usado de maneira igualmente específica. Por algum motivo, isto fez com que todos os mantras, fossem ou não mantras, começassem a diferir entre si e que cada letra do alfabeto ganhasse o direito de ser tratado como um mantra. Esta transformação da palavra que encontra poder no significado em palavra que encontra poder no som existe já no mantra védico, mas os seus usos foram amplamente exagerados devido à proliferação ocasional de diferentes tipos de «iniciação» (dīkṣā) que nada tiveram que ver com a iniciação original na ciência dos mantras. Onde os «discípulos» coleccionam «iniciações» e «mestres», como quem colecciona souvenirs. Bharati, ao referir o que acabámos de ver, cita uma crítica, ainda assim simbólica, presente no Skandapurāṇa, onde existiu certa vez um monge que teve trinta e três iniciações, dadas por trinta e três mestres, um dos quais era um corvo. Isto desvenda em si uma verdade, que é a da nossa ignorância. Por um lado, o excesso de racionalismo protege-nos da boa ou má utilização do mantra, por outro, a devoção cega deixa-nos desprotegidos e à mercê dos efeitos das nossas acções.

Uma das maiores dificuldades de compreendermos o mantra dá-se quando o tentamos equiparar à oração no Ocidente. Como a oração Ocidental é uma conversa com Deus, na forma de súplica ou de adoração, nem sempre é possível compreendermos como é que uma história narrativa pode servir de oração no Oriente, e menos ainda quando esta é impessoal, prática e aparentemente «irracional».

mantra, ou a ciência dos mantras (mantraśāstra), pode e deve ser primeiro definido de acordo com o seu significado. A palavra mantra em Sânscrito significa literalmente «instrumento do pensamento», derivado do Proto-Indo-Europeu *men- «pensar». É formado pela raiz verbal man– «pensar», «reflectir», «imaginar», etc., e pelo sufixo –tra, formando um substantivo neutro que designa o instrumento que cumpre a acção do pensamento, como «aquilo que produz o pensamento», «que guia o pensamento», etc. Como na palavra kṣetra, formada por kṣe– «possuir», «habitar» e pelo sufixo –tra, com o sentido final de «terreno», «campo», etc. A raiz man-, que encontramos em mantra, mas também em palavras relacionadas com o pensamento introspectivo como matimanasmanīṣā e manman, refere-se mais a uma contemplação do divino do que a um pensamento concreto. Neste sentido, é de todo útil separar esta ideia de um pensamento contemplativo daquela que descreve um pensamento mundano, menos associado com esta mente que tende às coisas divinas (manas) do que com aquela mente que tende aos desejos e às paixões (kāmamanas). Mantra significa, em primeiro lugar, «hino sagrado», «fórmula mística» e «encantamento mágico», o seu sentido filosófico e mais elevado é o de «instrumento do pensamento», «fórmula esotérica sagrada», «instrumento de conhecimento e de poder» criado por poetas-videntes e cuja correcta recitação e significado são sempre fornecidos por um mestre a um discípulo, e em segundo lugar, significa «deliberação», «resolução», «conselho» e «máxima». Neste sentido, podemos compreender um mantra como o nome que foi primeiro dado a fórmulas, versos, sequências de palavras e hinos, de eficácia mágica, religiosa ou espiritual, que são recitados, segredados, visualizados mentalmente ou cantados durante um ritual, mas que por possuírem uma vertente moral prática, uma «conduta fixa» ou «vertical» (daṇḍanīti, composto formado por nīti «conduta» e daṇḍa «haste vertical»), passou também a designar um conselho, projecto, plano ou segredo. 

O facto da palavra mantra estar tão relacionada com o pensamento quanto com a palavra, levou Pāṇini a relacionar a man– «pensar» com a mnā «falar», o que nos permite compreender mantra também como «instrumento da fala», mais concretamente, a forma de leitura dos textos sagrados. O sentido original do sufixo –tra não terá sido aquele de «instrumento para», mas sim o de partícula do particípio passado, ou seja, «[aquilo que foi] pensado», «[aquilo que foi] dito», como em tantra «[aquilo que foi] esticado», «desvelado», etc., logo, é a exposição de uma ideia que alguém pensou (captou) por nós, um ditado ou um costume dos Antigos. Por outro lado, o mantra manteve-se como um instrumento (-tra) de uma actividade expressa pela raiz verbal man-, como tal expressa um instrumento para a percepção mental, para uma ideia bem elaborada, mas também é um instrumento que auxilia o poeta a dar continuidade à sua reflexão, daí a ideia de «repetição», regressar e beber uma vez mais da fonte. Ainda com o mesmo sentido de «ferramenta para», ser-nos-á útil, enquanto filósofos e analogistas por natureza, considerarmos alguma palavras derivadas da raiz verbal man-: mati «pensamento», «memória»; manana, «pensativo»; mananā, «deliberadamente»; manasa, «mente», «coração»; manas, «mente»; manaska, «pouco inteligente»; manasyu, «desejar»; manā, «devoção»; manāna, «devoto»; manāyu, «desejoso»; manīṣā, «pensamento», «conceito»; manu, «pensamento»; manus, «homem»; manojava, «velocidade do pensamento»; manotṛ, «inventor»; mantu, «conselheiro»; mantṛ, «pensador»; mantra, «fórmula»; mantri/mantrín, «ministro»; mandhātṛ, «sério»; manman, «compreensão»; manya, «achar», «considerar»; manyu, «mente»; manvantara, «idade de Manu»; māna, «opinião»; √mnā, «repetir»; sumati, «boa mente»; sumna, «benevolência». E daqui apreendermos várias aplicações possíveis. 

Por outro lado, um mantra é formado de acordo com um padrão específico, está baseado em tradições esotéricas codificadas e passa de geração em geração no decurso de uma iniciação prescrita. A fonte de poder de um mantra advém da acessibilidade e da introspecção eloquente do poeta nos mistérios divinos, de onde nascem os hinos Védicos. Vários nomes podem ser utilizados em substituição do termo mantra, com o significado de hino, oração, bem como sons ou palavras potentes, como brahmanstobhabījakavacadhāraṇi e yāmala, o que faz com que a própria palavra mantra acabasse por ganhar um significado amplo e por vezes impreciso. Os mantras Védicos tendem a ser de uso quotidiano e linguístico enquanto que os mantras Tântricos tendem a ser redentores e alinguísticos.

(fim da primeira parte)

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