
LI.
Nesse tempo, muitos distintos cidadãos estavam sentados numa assembleia e falaram de várias maneiras em honra de Buddha, do Dharma e do Sangha. Simha, o general, um discípulo da seita de Niggantha, estava sentado entre eles. E Simha pensou: «Verdadeiramente, o Abençoado deve ser Buddha, o Venerável. Vou visitá-lo.»
Então, Simha, o general, foi ao lugar onde o chefe Niggantha, Nātaputta, estava; e tendo-se aproximado dele, disse: «Senhor, desejo visitar o samana Gotama.»

Nātaputta disse: «Porque haverias tu, Simha, que acreditas no resultado das acções de acordo com o seu mérito moral, de visitar o samana Gotama, que nega o resultado das acções? O samana Gotama, Ó Simha, nega o resultado das acções; ele ensina a doutrina da não-acção, e nessa doutrina treina os seus discípulos.»
Então, o desejo de ir visitar o Abençoado, que tinha crescido em Simha, o general, desfez-se.
Ao ouvir de novo o elogio de Buddha, do Dharma e do Sangha, Simha perguntou ao chefe Niggantha uma segunda vez; e outra vez Nātaputta persuadiu-o a não ir.
Quando, pela terceira vez, o general ouviu um homem distinto exaltar os méritos de Buddha, do Dharma e do Sangha, o general pensou: «Verdadeiramente, o samana Gotama deve ser o Venerável Buddha. O que são para mim os Nigganthas, quer dêem o seu consentimento ou não? Irei, sem pedir a sua permissão, visitar o Abençoado, o Venerável Buddha.»
E Simha, o general, disse ao Abençoado: «Senhor, ouvi que o samana Gotama nega o resultado das acções; que ensina a doutrina da não-acção, dizendo que as acções dos seres sensíveis não têm recompensa, pois ensina a aniquilação e o desprezo por todas as coisas; e nesta doutrina, treina os seus discípulos. Tu ensinas a fazer o caminho da alma
e o modo de queimar a maneira de ser do homem? Senhor, dizei-me se o que dizem é verdade, ou se são falsos testemunhos contra o Abençoado, fazendo passar um Dharma corrompido pelo teu Dharma?»
O Abençoado disse:
«Simha, há uma maneira sobre a qual aquele que assim diz fala a verdade sobre mim; por outro lado, Simha, há uma maneira sobre a qual aquele que diz o contrário está a falar igualmente a verdade sobre mim. Ouve, eu explico-te:
«Simha, eu ensino a não-acção daquelas acções que não são rectas, quer pela acção quer pela palavra, quer pelo pensamento. Eu ensino a não provocar todas aquelas condições de coração que são más e inúteis. Porém, Simha, eu ensino a prática daquelas acções que são rectas pela acção, pela palavra e pelo pensamento. Ensino a provocar todas aquelas acções de coração que são boas e não más.
«Eu ensino, Simha, que todas as condições do coração que são más e inúteis, acções incorrigíveis pela acção, pela palavra e pelo pensamento, devem ser afastadas. Simha, aquele que se afastou de todas as condições do coração que são más e inúteis, aquele que as destruiu como a uma palmeira desenraizada, de tal modo que não pode crescer outra vez, tal homem conseguiu arrancar o ego.

«Simha, eu declaro a aniquilação do egoísmo, da luxúria, da má vontade, da ilusão. Porém, eu não declaro a aniquilação da paciência, do amor, da caridade e da verdade.
Simha, eu julgo injustas as acções desprezíveis, sejam elas feitas pela acção, pela palavra ou pelo pensamento; mas eu julgo virtuosa e louvável a rectidão.»
E Simha disse: «Uma dúvida persiste no meu espírito com respeito à doutrina do Abençoado. Consentirá o Abençoado em afastar a nuvem para que eu possa entender o Dharma como o Abençoado o ensina?»
Quando o Tathāgata deu o seu consentimento, Simha continuou: «Sou um soldado, Ó Abençoado, e fui nomeado pelo rei para cumprir as suas leis e para executar as suas guerras. Permite o Tathāgata, que ensina a bondade sem limites e a compaixão para com todos os sofredores, a punição do criminoso? E mais, declara o Tathāgata que é errado ir para a guerra para proteger as nossas casas, as nossas mulheres, os nossos filhos e a nossa propriedade? Ensina o Tathāgata a doutrina da total auto-entrega, de tal modo que eu deva sofrer às mãos do malvado fazendo o que lhe bem aprouver e ser-lhe submisso, ameaçando tirar-me o que é meu? Defende o Tathāgata que se deveria proibir toda a discussão, incluindo a guerra, tal como é empreendida para a defesa de uma causa justa?»
Buddha replicou: «Aquele que merece ser punido deve ser punido, e aquele que merece ser louvado deve ser louvado. Mas ao mesmo tempo, ele ensina a não fazer mal aos seres vivos e a estar cheio de amor e bondade. Estas interdições não são contraditórias, porque quem quer que deva ser punido pelos crimes que cometeu, suporta o seu mal não pela má vontade do juiz, mas por causa das suas próprias más acções. Os seus próprios actos trouxeram-lhe os males que o executor da lei inflige. Quando um magistrado pune, que ele não acolha em seu coração o ódio, mesmo que seja um assassino condenado à morte, pois deverá considerar que isto é o fruto das suas próprias acções. Tão logo entenda que o castigo irá purificar a sua alma, ele não mais lamentará o seu destino mas alegrar-se-á com ele.»
E o Abençoado continuou: «O Tathāgata ensina que toda a guerra pela qual o homem tenta matar o seu irmão é lamentável, mas ele não ensina que aqueles que vão para a guerra por uma justa causa, depois de terem esgotado todas as possibilidades para preservar a paz, sejam censuráveis. Deve ser censurado aquele que é a causa da guerra.
«O Tathāgata ensina uma total capitulação do ego, mas ele não ensina a capitulação de nada aos poderes daquilo que é mau, sejam homens, deuses ou os elementos da natureza. Deve haver luta, pois toda a vida é uma luta de alguma forma. Mas aquele que luta deveria escolher não lutar em função do ego contra a verdade e a rectidão. «Aquele que luta a favor do ego, para que ele próprio fique maior, mais poderoso, rico e famoso, não terá recompensa, mas aquele que luta pela rectidão e pela verdade, terá uma grande recompensa, pois até mesmo as suas derrotas serão uma vitória.
«O ego não é um cântaro apropriado para receber qualquer grande sucesso; o ego é pequeno e frágil e os seus conteúdos serão brevemente derramados para benefício de outros, e talvez para sua maldição.

«A verdade, porém, é suficientemente grande para receber os anseios e aspirações de todos os egos, e quando todos se desfizerem como bolas de sabão, os seus conteúdos serão preservados e, na verdade, eles levarão uma vida duradoira.
«Aquele que vai para a guerra, Ó Simha, mesmo pensando que é por uma justa causa, deve estar preparado para morrer pelas mãos dos seus inimigos, pois esse é o destino dos guerreiros; e se o destino lhe bate à porta não tem razão para se queixar.
«Mas aquele que é vitorioso deveria lembrar-se da instabilidade das coisas terrenas. O seu sucesso pode ser grande, mas seja ele sempre grande até a roda da fortuna girar outra vez e levá-lo ao pó.
«Porém, se ele for moderado e, afastando todo o ódio do seu coração, levantar o seu adversário derrubado dizendo-lhe, ‘Anda, vamos fazer as pazes e sejamos irmãos’, ele ganhará uma vitória que não é transitória, pois os seus frutos perdurarão para sempre.
«Grande é um general de sucesso, Ó Simha, mas aquele que conquistou o ego é o maior vencedor.
«A doutrina da conquista do ego, Ó Simha, não é ensinada para destruir a alma dos homens, mas para a preservar. Aquele que conquistou o ego é mais apto para a vida, para ter sucesso e para ganhar vitórias do que aquele que é escravo do ego.
«Aquele cujo espírito está livre da ilusão do ego será firme e não cairá na batalha da vida.
«Aquele cujas intenções são rectas e justas encontrar-se-á sem se enganar, mas sê próspero nos seus intentos e o sucesso será duradoiro.
«Aquele que aporta no seu coração o amor da verdade viverá e não morrerá, pois bebeu a água da imortalidade.
«Luta então, Ó general, corajosamente, e trava as tuas batalhas vigorosamente, mas que sejas um soldado da verdade e o Tathāgata abençoar-te-á.»
Quando o Abençoado falou, Simha, o general, disse: «Glorioso Senhor, glorioso Senhor! Tu revelaste-me a verdade. Grande é a doutrina do Abençoado. Em verdade tu és Buddha, o Tathāgata, o Venerável. Tu és o mestre da humanidade. Tu mostraste-nos o caminho da salvação, pois isto é realmente a verdadeira libertação. Aquele que segue a sua vontade
não perderá a luz que iluminará o seu caminho. Ele encontrará a bênção e a paz. Senhor, refugio-me no Abençoado, na sua doutrina e na sua irmandade. Que o Abençoado me receba a partir de hoje, enquanto a minha vida durar, como um discípulo que se refugiou nele.»
E o Abençoado disse: «Simha, primeiro considera o que estás a fazer. Será melhor que as pessoas da tua posição não devam fazer nada sem ponderarem bem.»
A fé de Simha no Abençoado cresceu. Ele replicou: «Senhor, caso outros mestres tivessem sido bem sucedidos em fazerem de mim seu discípulo, levariam as suas bandeiras pela cidade de Vesāli gritando: ‘Simha, o general, tornou-se meu discípulo!’ Senhor, pela segunda vez, refugio-me no Abençoado e no Dharma, e no Sangha; que o Abençoado me receba a partir de hoje, enquanto a minha vida durar, como um discípulo que se refugiou nele.»
Disse o Abençoado: «Por muito tempo Simha, foram feitas muitas oferendas aos Nigganthas em tua casa. Deverias então considerar correcto, de futuro, dar-lhes comida quando te visitam a pedir esmola.»
E o coração de Simha ficou cheio de alegria. Ele disse: «Disseram-me, Senhor: ‘O samana Gotama diz: Só para mim e para mais ninguém deveriam as dádivas ser oferecidas. Só os meus pupilos e mais nenhuns deveriam receber oferendas’. Mas o Abençoado exorta-me a dar igualmente aos Nigganthas. Bem, Senhor, veremos o que é apropriado. Senhor, pela terceira vez me refugio no Abençoado, no Dharma e na sua fraternidade.»