A polinização e a Transmissão da Sabedoria

Em inúmeras culturas clássicas a Natureza foi considerada como um grande ser vivo que se desenvolve relacionando e equilibrando cada uma das suas partes. Ao analisar os elementos que constituem o nosso ambiente é possível observar que cada um tem um lugar e um papel específico do qual depende a vida na Terra.

Como uma abelha que não danifica a flor,

nem a sua cor, nem a sua fragância…

retira o seu néctar e segue;

assim deveria o sábio

atravessar por uma aldeia

Dhammapada, verso 49

A polinização e a resistência da vida

Polinização. Pixabay

Em inúmeras culturas clássicas a Natureza foi considerada como um grande ser vivo que se desenvolve relacionando e equilibrando cada uma das suas partes. Ao analisar os elementos que constituem o nosso ambiente é possível observar que cada um tem um lugar e um papel específico do qual depende a vida na Terra.

Os elementos naturais: átomos, minerais, vegetais, animais, humanos e todos os seres vivos relacionam-se entre si, completando-se e evoluindo com o passar do tempo. 

Tal como o ser humano pode ver nas sociedades, os sistemas da natureza têm a capacidade de responder aos estímulos provocados pelos ambientes onde estão inseridos, relacionando-se uns com os outros e transformando-se para sobreviver como indivíduos e como espécie.

Um dos processos em que podemos ver distintas espécies a trabalhar em harmonia e evoluindo em conjunto é a polinização. Mediante esta tarefa, o pólen gerado nos órgãos reprodutores masculinos de uma flor (estames) é transportado até ao órgão feminino receptor de outra flor (estigma) possibilitando a produção de frutos e sementes. Para a sobrevivência destas plantas é essencial a colaboração dos agentes polinizadores, que facilitam todo o processo como a água e o vento e alguns animais como as borboletas, beija-flor, morcegos, abelhas e outros insetos.

Abelha. Pixabay

Na constante transformação deste plano de realidade é possível observar como algumas espécies vegetais se adaptaram, tornando as suas flores mais atrativas e acessíveis aos agentes polinizadores. Sendo que estes últimos também modificaram o seu corpo e comportamento para sobreviver às mudanças e adaptações do seu ambiente. Por exemplo, os beija-flor alteraram os seus bicos e as borboletas as aberturas bocais (espiritrompas) para melhor alcançar os tubos florais e retirar o néctar das profundidades da flor.

Borboleta. Pixabay

De acordo com a biologia atual, no desabrochar das flores as plantas deveriam desenvolver, por um lado, estratégias de camuflagem para passarem despercebidas aos herbívoros e, por outro, chamar à atenção dos seus aliados, os polinizadores. Com o tempo, cada flor começou a desenvolver as suas próprias cores, cheiros, formas e tamanhos, resultando numa imensa e fascinante diversidade que podemos admirar.

Durante este dito processo evolutivo, as flores começaram a produzir o néctar, uma substância atraente pelo seu cheiro e sabor, que entregava como “recompensa” pelo serviço da polinização. Assim, quando estes animais visitavam as flores na procura do néctar que os alimentaria, levariam consigo o pólen carregado nos seus pelos e penas. Ao visitar a seguinte flor, estariam a fecundar outros óvulos e a possibilitar a continuidade do processo natural da vida, o desenvolvimento de frutos, a germinação das sementes e o nascimento de uma nova planta.

Simbolismo das borboletas, dos beija-flor e das flores

Para as culturas clássicas, cuja conceção da vida estava estritamente ligada à natureza, cada ser que observavam poderia transmitir um ensinamento ou uma reflexão. Mediante esta ideia, cada elemento poderia ser reconhecido como um símbolo. Para estas culturas, as flores estariam relacionadas com a finalização de uma obra, com uma conquista profunda, com a pureza e em última estância com a perfeição. Por exemplo: a rosa no ocidente ou a flor de lótus no oriente, como relata a mitologia hindu: do umbigo de Vishnú desabrocha um lótus cuja corola aberta contém um Brahma.

As obras das grandes personagens da História, simbolizadas como flores que sintetizavam os seus ensinamentos, permitiram que a sabedoria se mantivesse viva através das gerações. Tal como os polinizadores, os filósofos, que buscam o néctar dessas flores como alimento da sua alma, são os responsáveis por colaborar nessa transmissão.

Beija-flor. Pixabay

Curiosamente, numerosas culturas identificaram nas borboletas e nos beija-flor o processo evolutivo da alma humana pois as suas formas de voar unificando diferentes planos, observavam a beleza e a subtileza que atribuíam à alma. Maias, Incas, Birmanos e alguns povos americanos, entre outros, entendiam que o nosso corpo físico – de natureza terrestre – era animado pelo espírito – de natureza celeste – que transcende o tempo. A alma constituía um terceiro elemento capaz de unificar a matéria com o espírito, ou seja, estabelecer uma ponte entre a Terra e o Céu.

Pensando biologicamente nas particularidades de cada uma dessas espécies, os beija-flor, pelas suas características anatómicas, são as únicas aves capazes de voar em sete direções no espaço. É neste voo que ele revela toda a sua beleza e liberdade semelhante à alma que se liberta da superfície até às alturas. Por sua vez, de acordo com a civilização Inca, as borboletas ao vibrarem as suas asas com as cores chamativas, convidam a consciência a retomar o seu caminho de volta ao Sol.

Em síntese, os beija-flor e as borboletas, enquanto se alimentam das flores colaboram com a sobrevivência das plantas. Do mesmo modo que as almas filosóficas, que procuram, nas tradições clássicas, o néctar da sabedoria, permitem que este se mantenha vivo atravessando o rio do tempo. 

Metamorfose das borboletas. Pixabay

Contudo este processo não é simples nem instantâneo. Na primeira etapa da vida as borboletas são lagartas, que se arrastam sobre a superfície alimentam-se da folha das plantas. Na etapa seguinte a lagarta envolve-se num casulo. Neste momento, de profunda metamorfose interior e exterior, a lagarta refugia-se no seu casulo e ao cumprir o tempo necessário à transmutação começa lentamente a sair, enquanto o seu novo corpo adquire a fortaleza necessária para o seu novo labor.  No final do processo a borboleta está pronta para expandir as suas asas o lançar-se no voo, deixando para trás a sua etapa terrena, vinculando-se com o céu. É deveras interessante observar que a estiritrompa da borboleta nos recorde as coroas do Baixo Egito e do Egito Unificado.

Coroas do Baixo Egito e do Egito Unificado

O processo de polinização e transmissão da sabedoria parecem ser analogias diretas. Alimentar-se e transmitir, desenvolver-se e servir os outros parecem ser mecanismos dos seres vivos para evoluir; fazer com que a vida continue e a roda do destino siga o seu movimento infinito.

 

Publicado en RevistAcrópolis. Revista digital de filosofia, cultura e voluntariado em Córdoba (Argentina) em 30 de enero de 2021.

 

 

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