A TARTARUGA NO RITUAL VÉDICO – Segunda Parte

A forma da tartaruga é recorrentemente identificada com os três mundos: a carapaça inferior é o mundo terreno, a carapaça superior é o céu, e aquilo que está entre as duas carapaças é a atmosfera, ou que «a tartaruga é o céu e a terra» (dyāvāpṛthivīyaḥ kūrmaḥ).

Assim, a tartaruga está igualmente relacionada com o sol, já que o sol se arrasta lentamente pelos três mundos na forma de uma tartaruga, representando, a passagem do tempo.

No Vājasaneyisaṃhitā, a tartaruga é chamada de «senhor das águas». Isto porque, na mitologia, a tartaruga está geralmente associada a Varuṇa, o deus das águas, representando-o sob o epíteto de «senhor das águas».

O nome kūrma é sinónimo de kaśyapa. Ambos são identificados com Puruṣa, que foi sacrificado pelos primeiros deuses para que se criasse o universo, os deuses e os homens. Kaśyapa é referido como pai de todas as criaturas e tem um papel importante na conceção genealógica védica, representando a fertilidade e a estabilidade do mundo. Kaśyapa tem qualidades semelhantes às de Prajāpati, enquanto deus criador, que criou todos os seres, assumindo a forma de uma tartaruga. Como tal, é-nos dito que todas as criaturas descendem da tartaruga e que a tartaruga é o sopro vital que deu vida a todas as criaturas.

No Taittirīyāraṇyaka, num diálogo entre Puruṣa e Prajāpati, diz-se que Puruṣa apareceu nas águas sob a forma de uma tartaruga, gerado a partir dos ossos e sangue de Prajāpati. O que relaciona o processo de criação com aquele sacrifício ritual.

Este mito está em relação com os vários mitos cosmogónicos védicos. Por vezes, a terra resulta de um processo de coagulação, outras vezes surge de um ovo que está relacionado com a coagulação das águas ou do criador, ou então, de um javali que trouxe lama do fundo do mar, formando a terra.

No Jaiminīyabrāhmaṇa, conta-se que a tartaruga Ākūpāra (ākūpāra kaśyapa) desceu com os Kaligandharvas (seres mediadores) para o oceano, procurando nele um local firme (pratiṣṭhā) onde pousar. Assim, ela encontrou um local firme, que era a terra, e os Kaligandharvas pousaram na sua carapaça. A tartaruga Kaśyapa, de dimensão ilimitada, é a tartaruga cósmica que encontra a terra no oceano. 

Na mitologia pós-védica, Prajāpati é substituído por Visṇu, e a tartaruga torna-se, assim, a encarnação do deus. No mito do revolvimento do oceano de leite, o eixo ou a vara de remexer está pousada sobre a tartaruga. O revolvimento do oceano de leite está presente no Mahābhārata, Rāmāyaṇa, e em muitos Purāṇas. Os deuses e os demónios remexeram o oceano de leite com a finalidade de gerar o amṛta (seiva, néctar da imortalidade). Para isto, Visṇu transformou-se numa tartaruga (kūrma) e suportou, com a sua carapaça, o monte Mandara, que serviu de vara de remexer. A serpente Vāsuki, por sua vez, foi usada como corda de remexer. Não deixa de ser curioso que as ferramentas utilizadas para o revolvimento do oceano de leite sejam as mesmas que se utilizam para acender o fogo, bem como o movimento que é exercido por uma vara vertical sobre uma base horizontal. Tendo como objetivo representar o surgimento do fogo, do calor ou do sémen, a partir da interação entre um elemento vertical e o horizontal, como sucede nas descrições do acendimento de Agni (fogo), no ritual védico. 

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Kurma, Domínio Público

No Mahābhārata, a tartaruga não é um avatāra. Apenas no Rāmāyaṇa é que esta se torna numa encarnação de Visṇu. Portanto, Kaśyapa, enquanto poder criador, deverá ter começado por representar o poder terreno, a terra, que sustinha o monte Mandara, mais tarde interpretado como forma de Visṇu. Isto porque Visṇu é, essencialmente, um deus da preservação e da continuidade.

Existe ainda uma relação etimológica entre kūrma e o verbo kṛ- (karma) «fazer», o que explica, de outra forma, a associação entre a tartaruga e a criação, enquanto projeção. Na Bhagavadgītā, diz-se que o sábio recolhe os seus sentidos dos objetos externos, da mesma forma com que uma tartaruga recolhe os seus membros. Representando, assim, a expansão e o recolhimento da consciência, bem como da criação. A par do altar de fogo, existe um altar em forma de tartaruga no agnicayana, comum a outros rituais, que é circular e elevado ao centro, semelhante a um altar circular típico, mas com um aratni (ângulo) virado a oriente. 

De acordo com o Baudhāyanaśulbasūtra, num ritual onde se pretenda a elevação do homem ao mundo de Brahman, isto é, que pretenda a união entre o Eu e o Todo, deve construir-se um altar de fogo em forma de tartaruga. Isto porque ela funciona como mensageira entre os dois mundos, ou melhor, ela é a síntese entre o céu e a terra.

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Varuna, o Deus das águas, Domínio Público.

Também a esposa do yajamāna se senta, durante o ritual, no lado ocidental do altar doméstico, que é o seu lugar habitual, sobre um assento de tartaruga (kūrmāsana), uma tábua de madeira em forma de tartaruga. A tartaruga mantém, assim, o seu simbolismo aquático, que se expressa aqui no feminino. A relação entre o fogo criador, a água e a tartaruga está ainda patente nalguns votos, os agnicidvratas (votos para o agnicayana), que são proclamados durante o ritual.

Num deles, presente no Taittirīyāraṇyaka, lê-se o seguinte: «Aquele que constrói este fogo não deve desistir se chover; as águas são verdadeiramente imortais, e este voto é tomado para adquirir a [esfera] imortal. Ele não deve urinar nem defecar na água; ele não deve cuspir, nem tomar banho nu, pois este fogo está escondido [nas águas] e [este voto serve para] prevenir a contundência deste fogo. Este fogo não deve sair das folhas de lótus nem do ouro para prevenir um aumento do mesmo.

Ele não deve comer uma tartaruga [porque] a água não contém criaturas aquáticas que lhe sejam prejudiciais; as águas [são] não-prejudiciais.» Ou seja, este ritual tem um propósito fertilizador, expresso nas águas das chuvas, mas também nas terrenas, pelas quais o sacrificador deve demonstrar, de uma forma geral, respeito e temor, para que estas não lhe sejam prejudiciais, isto é, que não o tornem, em vários sentidos, infértil. A identificação da tartaruga com o surgimento da terra deve-se essencialmente à forma da sua carapaça, que gera a compreensão do surgimento da terra a partir do mar, local que ela própria também pode habitar, que é representada pela sua carapaça em forma de colina ou, se preferirmos, ilha.

As marés em torno desta “ilha” são uma visão demasiado fácil da aparição ou ocultamento do corpo da tartaruga, e a espuma, resultado da interação dos dois mundos, ainda é mais fácil de comparar com a seiva da vida, gerada pela criação e recordada no ritual.

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Os 9 Devas. Creative Commons

O facto de a tartaruga poder ocultar-se dentro da carapaça e projetar-se a partir dela, bem como a sua relação com os três mundos, geram naturalmente a ideia de ciclo, em vários sentidos, entre a expansão e a contração da vida e do tempo, resultando daqui a sua relação com o tempo, o caminho e o ato de criação.

O facto de a tartaruga nascer de um ovo, auxilia na sua relação com a terra e com o sol. Se considerarmos o exemplo da tartaruga marinha que deposita os ovos em terra, dirigindo-se depois para o mar, auxilia, naturalmente, a ideia de uma tartaruga que se dirige para a água, para de lá trazer a terra, ou melhor, a vida.

Muitas outras interpretações podem, facilmente, ser feitas quanto à carapaça, que vão além do simples formato da terra e do céu. Esta carapaça pode ter formatos e padrões variados, mas encontramos-lhe recorrente a forma de um, ou mais, hexágonos, no centro elevado da carapaça. Note-se que a tartaruga que se expande a partir da sua carapaça desenha ela mesma um hexágono nas suas quatro patas, cabeça e cauda. Bastará compará-la com o simbolismo do favo da abelha, por exemplo, e com outras formas hexagonais, para lhe encontrarmos múltiplas e interessantíssimas significações. Mais curiosa ainda é a relação que se faz entre a tartaruga e o formato do globo da terra, que é composto pela junção de duas carapaças de tartaruga, o kūrmavibhāga «hemisfério», já que a carapaça da tartaruga marinha é frequentemente oval, mais estreita num lado do que noutro, o que corresponde mais concretamente ao formato da terra do que a forma esférica propriamente dita.

Para terminar, não podemos deixar de, ao menos, mencionar a longevidade, a passividade, a lentidão, a aparência robusta e enrugada e as migrações da tartaruga no reino animal, que são, seguramente, aspetos vitais na compreensão da mesma, enquanto símbolo vivo da criação, da fertilidade, do tempo e da ciclicidade.

Esta expressa-se ainda em muitas e admiráveis representações artísticas, que valem bem a pena serem revisitadas, como, por exemplo, na Afrodite Ouranía de Fídias, que repousa o seu delicado pé sobre uma tartaruga, como o toque do celeste sobre o terreno, ou em várias produções literárias, como nas fábulas de Esopo, “A Tartaruga e a Lebre”, ou a “A Tartaruga e a Águia”, esta última, especialmente, que repete, não só uma conhecida prática do reino animal, mas também a imagem do ritual agnicayana, onde uma tartaruga é enterrada viva debaixo de um altar com forma de ave (uma águia ou falcão) prestes a levantar voo, como se a ave levasse nas suas patas a tartaruga para o céu, arrancando-a da sua lenta evolução, elevando-a e, por fim, largando-a no oceano cósmico, de onde surgirá, uma vez mais, a vida.

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