Abhayarajakumarasutta

“Magnífico, venerável senhor! Magnífico, venerável senhor! O Bem-Aventurado tornou o dhamma10 claro de várias maneiras... A partir de hoje, que o Bem-Aventurado se lembre de mim como o seguidor leigo que foi ter com ele em busca de refúgio para a vida.”

Ao Príncipe Abhaya

1. ASSIM EU OUVI. Numa certa ocasião, o Bem-Aventurado1 estava perto de Rajagaha2, no Bambual, no Santuário de Esquilos.

2. Quando o Príncipe Abhaya3 foi ter com Nighanta Nataputta4, depois de lhe prestar reverência, sentou-se ao seu lado. Então Nighanta Nataputta disse-lhe:  

3. “Vem, Príncipe, refuta a doutrina contemplativa de Gotama e esta admirável notícia a teu respeito espalhar-se-ápor grandes distâncias: ‘O Príncipe refutou a doutrina contemplativa de Gotama, que é tão forte e poderosa.’”

“Mas como, venerável senhor, poderei eu refutar a sua doutrina?”

“Vem, príncipe, vai ter com o contemplativo Gotama e diz-lhe o seguinte: ‘venerável senhor, poderia o discurso absoluto do Tathagata5 ser indesejável e desagradável para os outros?’ Se o contemplativo Gotama, ao ser assim questionado, responder: ‘O Tathagata, príncipe, poderá proferir um discurso indesejável e desagradável para os outros’, então dir-lhe-ás: ‘Então, venerável senhor, qual é a diferença entre o senhor e uma pessoa comum? Uma pessoa comum também proferiria um discurso indesejável e desagradável para os outros.’ Mas se o contemplativoGotama, ao ser assim questionado, responder: ‘O Tathagata, príncipe, não proferiria um discurso indesejável e desagradável para os outros’, então dir-lhe-ás: ‘Então, venerável senhor, que tens a declarar sobre as tuas palavras sobre o Devadatta6: “Devadatta está destinado aos estados de privação, Devadatta está destinado ao inferno, Devadatta permanecerá no Inferno por Éones7, Devadatta é incorrigível?” Devadatta está zangado e descontente com este vosso discurso.’ 

Quando o contemplativo Gotama for confrontado com estas perguntas que são como um pau de dois bicos, ele não será capaz de responder (cuspir) ou calar (engolir). É como se um espigão de ferro estivesse preso na garganta de um homem, ele também não seria capaz nem de o engolir, nem de o cuspir, ou atirar com ele para fora; por isso, príncipe, também o contemplativo Gotama, quando confrontado com estas questões, que são um pau de dois bicos, por ti, também ele, não será capaz nem de calar (engolir), nem de responder (cuspir).” 

4. “Sim, venerável senhor”, respondeu o Príncipe Abhaya. Levantou-se do seu lugar, depois de prestar reverência a Nighanta Nataputta, mantendo-o à sua direita, saiu e dirigiu-se ao Bem-Aventurado. Depois de lhe prestar reverência, sentou-se ao seu lado, olhou para o sol e pensou: “Hoje já é muito tarde para refutar a doutrina do Bem-Aventurado. Refutarei a doutrina do Bem-Aventurado, amanhã, na minha própria casa.” Então disse ao Bem-Aventurado: “Venerável Senhor, que o Bem-Aventurado, juntamente com outros três, aceite o meu convite para a refeição de amanhã.” O Bem-Aventurado consentiu em silêncio.

5. Sabendo que o Bem-Aventurado tinha anuído, levantou-se do seu lugar, depois de lhe prestar reverência, mantendo-o à direita, partiu. Quando a noite acabou e amanheceu, o Bem-Aventurado vestiu-se, pegou na sua tigela e no manto, foi para casa do Príncipe Abhaya e sentou-se no lugar preparado para o efeito. O Príncipe Abhaya, serviu e satisfez, com as suas próprias mãos, o Bem-Aventurado com comida boa e variada. Quando o Bem-Aventurado acabou de comer e largou a sua tigela, o Príncipe Abhaya, tomou um assento mais baixo, sentou-se a seu lado e disse-lhe: 

6. “Venerável senhor, seria o Tathagata capaz de um discurso indesejável e desagradável para os outros?”

“Não há uma resposta categórica, de sim ou não, para essa pergunta, Príncipe.”

“Então, venerável senhor, neste caso os Niganthas perderam.” 

“Porque dizes isso, Príncipe: ‘Então, venerável senhor, neste caso os Niganthas perderam’?”

O Príncipe Abhaya conta ao Bem-Aventurado toda a conversa que tivera com Nighanta Nataputta.

7. Naquele momento, uma criança estava deitada de bruços no colo do Príncipe Abhaya, então, o Bem-Aventuradodisse ao Príncipe Abhaya: “O que é que tu pensas, Príncipe? Se tu ou a tua ama não estivessem a prestar atenção eesta criança colocasse um graveto ou uma pedrinha na boca, o que lhe farias?”

“Venerável senhor, eu o tiraria da sua boca. Se não pudesse tirar de uma vez, colocaria a sua cabeça na minha mão esquerda, e com um dedo encurvado (em gancho) da minha mão direita, tiraria mesmo que tivesse que fazer sangue. O porquê disto? Porque tenho compaixão pela criança.” 

8. “Da mesma forma, Príncipe: no caso de um discurso que o Tathagata sabe que é falso, incorrecto e não benéfico, indesejável para os outros e que também não é bem-vindo: esse discurso o Tathagata não profere. Se dissesses que o discurso do Tathagata é verdadeiro e correto, mas não benéfico, nem bem-vindo e indesejável para os outros: tal discurso o Tathagata também não profere. O discurso que o Tathagata sabe que é verdadeiro, correto e benéfico, mas que não é bem-vindo e que é indesejável para os outros: tal discurso, o Tathagata, sabe quando o proferir. O discurso que o Tathagata sabe que é falso, incorrecto e não é benéfico, mas que é bem-vindo e desejável para os outros: tal discurso, o Tathagata, não profere. O discurso que o Tathagata sabe que é verdadeiro, correto, mas não é benéfico, e é bem-vindo e desejável para os outros: tal discurso, o Tathagata, não profere. O discurso que o Tathagata sabe que é verdadeiro, correto, benéfico, e é bem-vindo e desejável para os outros: tal discurso, o Tathagata sabe quando proferir. Qual a razão disto? Porque o Tathagata tem compaixão pelos seres.”

9. “Venerável senhor, quando sábios guerreiros, sábios Brahmanes8, sábios chefes de família e sábios contemplativos, formulam uma pergunta, e depois a colocam ao Bem-Aventurado, já havia na mente do Bem-Aventurado o pensamento: ‘Se eles me vierem perguntar isto, eu respondo aquilo’? Ou a resposta ocorre ao Tathagatana altura?”

O sermão do fogo em Varanasi. British Library, Or. 14297, f.36.

10. “Quanto a isso, Príncipe, devo fazer-te uma contra pergunta. Responde como quiser. O que é que tu pensas, Príncipe? Conheces bem as partes de uma carruagem?”

“Sim, venerável senhor, conheço.”

“O que é que tu pensas, Príncipe, quando vão ter contigo e te perguntam: ‘Qual é o nome desta parte da carruagem?’ Já estava na tua mente o pensamento: Se eles me vierem perguntar isto, eu respondo aquilo’? Ou a resposta ocorre-te na altura?”

“Venerável senhor, eu sou bastante conhecido como cocheiro e conheço muito bem todas as partes da carruagem. A resposta surgir-me-ia no momento.”

11. “Da mesma forma, Príncipe, quando sábios guerreiros, sábios Brahmanes, sábios chefes de família e sábios contemplativos, formulam uma pergunta, e depois a colocam ao Tathagata, a resposta ocorre ao Tathagata no momento. Porque é que isto acontece?” Porque ‘o elemento da natureza das coisas9 foi completamente absorvido pelo Tathagata, através dessa completa impregnação, ele encontra as respostas no momento.”

12. Quando disse isto, o Príncipe Abhaya disse:

“Magnífico, venerável senhor! Magnífico, venerável senhor! O Bem-Aventurado tornou o dhamma10 claro de várias maneiras… A partir de hoje, que o Bem-Aventurado se lembre de mim como o seguidor leigo que foi ter com ele em busca de refúgio para a vida.”

Notas:
1) BEM-AVENTURADO: Bhagava; refere-se a Siddhartha Gautama (Siddhatha Gotama), o Buda.
2) RAJAGAHA: significa ‘Morada do Rei’, era a capital do Reino de Magadha e é cenário de muitos eventos na vida de Buda. A cidade tinha duas partes, a cidade antiga construída entre as colinas e a nova cidade localizada na planície, um pouco ao norte das colinas. Ambas estavam cercadas por enormes muralhas. Os dois lugares favoritos do Buda são o Bambual e uma baixa colina rochosa chamada Pico dos Abutres, logo depois do portão leste da cidade. Rajagahaactualmente é chamada de Rajgir e fica no moderno estado indiano de Bihar, no norte da Índia.
3) PRÍNCIPE ABHAYA: era filho do rei Bimbisara de Magadha, porém não era o herdeiro ao trono.
4) NIGANTA: O professor Jainista da mesma época do Buda, é mencionado nos escritos budistas como um dos principais inimigos de Buda.
5) TATHAGATA: Em vez do título “Buda”, Siddhartha Gautama às vezes era chamado de “Tathagata”. O título Tathagata é um tanto paradoxal e pode significar alternativamente “Assim vem” ou “Assim se foi”. Numa das poucas declarações místicas que ele proferiu, o Buda disse que o Tathagata é “corpo do Dhamma, corpo supremo, o Dhammaque se torna, o supremo que se torna”.
6) DEVADATTA: Devadatta era filho do irmão de Shuddhodana, Suprabuddha, era primo de Buda. O seu nome significa “dado por Deus”. Quando o Buda retornou a Kapilavastu pela primeira vez após a sua iluminação, vários jovens Shakyas, incluindo Devadatta, decidiram tornar-se monges. Por alguns anos, Devadatta provou ser um monge bom e diligente. O Buda nomeou-o, juntamente com outros, como um monge exemplar. Mas as coisas mudaram, Devadatta tornou-se gradualmente orgulhoso. Mais tarde, ele percebeu que o Buda se estava a afastar das práticas ascéticas tradicionais e conseguiu que outros monges concordassem com ele. Confrontando o Buda nesta questão, Devadatta insistiu que ele tornasse várias práticas obrigatórias para todos os monges. As exigências de Devadatta foram recusadas e, assim, ele e os seus apoiantes separaram-se do Buda e dos seus discípulos. A tradição diz-nos que os seus apoiantes acabaram por o abandonar para retornar ao Buda e que mais tarde ele morreu desacreditado e sozinho.
7) ÉON: é um termo utilizado para designar“o que é para sempre”, umperíodo longo de tempo ou a eternidade.
8) BRAHMANES: Sacerdotes. 
9) ELEMENTO NATUREZA DAS COISAS”: (dhammadhatu) refere-se ao conhecimento omnisciente do Buda. É a “natureza mais profunda, ou essência”.
10) DHAMMA: Dharma em Sânscrito, é uma palavra com múltiplos significados. Geralmente é usado para se referir a todo o corpus dos ensinamentos do Buda. Nesse sentido, o Dhamma é o segundo dos três refúgios. Também é usado no sentido de ‘verdade’, ‘actualidade’ ou ‘como as coisas são’. Outro significado comum do dhamma é “justiça” ou “rectidão”. 

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