Appamadavaggo dutiyo: A Vigilância

O segundo capítulo do Dhammapada é dedicado à Vigilância, Appamadavaggo dutiyo (Appamada = a não-negligência, o cuidado, zelo ou vigilância; vaggo = capítulo; dutiyo = segundo). Esta é a qualidade essencial no Caminho do progresso interior.
1 Templo Bangkok. Pxfuel

Comentário ao Capítulo II do Dhammapada

Uma das representações mais icónicas de Buda são os seus pés, em que sobre cada uma das palmas emerge uma flor de lótus, significando o caminho e o seu progresso, desabrochando uma nova consciência em cada passo dado, pois cada passo é um avanço no caminho do aperfeiçoamento.

Por que razão cada um dos seus passos representa a felicidade do desabrochar do lótus e os nossos são, na sua maioria, tropeções em pedras com dores e sofrimentos? Porque no sábio reside a Vigilância e na nossa ignorância a negligência.

Este capítulo é assim dedicado ao desenvolvimento da qualidade discipular de se resguardar dos perigos, não só externos, mas muito especialmente internos e de saber cuidar de cada pérola que vai juntando ao seu colar de conquistas da alma.

Este capítulo é composto de 12 versos (do 21 ao 32), tendo aqui realizado a difícil tarefa de selecionar apenas alguns deles para nos aproximarmos deste ensinamento de Buda, mas que de forma alguma deve dispensar a leitura dos restantes versos.

[21] “A vigilância é o caminho para a imortalidade; a não vigilância é o caminho para a morte; o vigilante não morre, o não-vigilante, embora vivo, é como se estivesse morto.”

A vigilância é o princípio da vida, sempre que ela se retira surge a ameaça da morte, sendo isso válido nos planos físico, psíquico e mental. Se o corpo em algum momento negligenciasse a vigilância, toda uma série de microrganismos colocariam em perigo a sua saúde e existência; passa-se o mesmo com a nossa alma e as suas componentes emocionais e mentais, pois no momento de quebra de vigilância, entra em nós uma emoção ou pensamento indesejável, que como um vírus vai proliferando, tomando posse dos nossos melhores pensamentos e emoções, corrompendo-os, destruindo-os e sem nos darmos conta, aquele lado melhor de nós morre e fica um campo de batalha repleto de cadáveres dos nossos mais nobres guerreiros, dos nossos mais nobres ideais, vagando-se na vida como fantasmas perdidos, como sombras geradas da ausência da luz que desapareceu da nossa alma.

Enquanto Vigilantes permanecemos vivos, pois de todos os combates, todas as batalhas, sejam com derrotas ou vitórias, sempre saímos vivos, mais fortes e luminosos, uma vez que a vigilância nos permitiu aprender, recolher experiência, reconhecer quais e onde se ocultam os nossos inimigos internos, assim como as forças que devemos cuidar e as fragilidades que temos que fortalecer.

[22] “Conhecendo esta excelente característica da vigilância, o sábio delicia-se na vigilância, alegrando-se como “aqueles que são nobre”

O sábio delicia-se na vigilância tal como o guerreiro se delicia no seu posto de vigia, pois para ambos, a alegria está no cuidar do seu tesouro de valores, de impedir que aquilo que é precioso se possa perder, pois nunca podemos dar por adquirido o conquistado. Buda dizia que o mais difícil não é conquistar, mas sim manter. É no cuidado de cada valor, de cada qualidade e virtude que as integramos em nós, tal como uma semente que podemos possuir na nossa mão nunca germinará, nem se tornará árvore e não dará frutos se não a colocarmos na terra, a cuidarmos, a vigiarmos e protegermos de todas as possíveis pragas daninhas. A maior alegria de um agricultor é cuidar e ver crescer as suas plantações, pois conseguiu com a sua vigilância vencer intempéries e pragas. A maior alegria de um sábio é fazer crescer a sabedoria em si e dar frutos à sua volta, graças a ter sido vigilante e não ter permitido que definhasse.

[25] “Através da diligência, da vigilância, do autodomínio e do controlo dos sentidos, o sábio aspirante faz uma ilha para si próprio que nenhuma cheia pode inundar.”

A vigilância, junto com o autodomínio e diligência permite-nos manter uma vigorosa fortaleza interior, um profundo enraizamento que possibilita resistir às investidas circunstanciais da vida que nos podem arrancar dos nossos propósitos e determinações. Quando temos a finalidade e o propósito de vida claros em nós, então pomo-nos ao caminho como peregrinos da vida sem nunca saber que circunstâncias vamos encontrar, e que pode ser um caminho obstruído que nos obriga a encontrar alternativa, uma tempestade, bolhas nos pés,… tantas são as possibilidades. 

Mas nenhuma delas irá demover o peregrino de chegar até ao seu lugar sagrado, pois a vigilância lhe permitirá estar atento aos perigos assim como às oportunidades; o seu autodomínio permitirá que a voz interior fale mais alto que os queixumes do corpo e o controle dos sentidos impedirá a distração da sensualidade do mundo. 

Se fossemos almas peregrinas, seriam pois estas as nossas determinações, tal como o são para os sábios que não vacilam por muito que as forças centrifugas se agitem procurando demovê-los do seu Centro. Nós somos mais parecidos com almas vagabundas, que não têm metas claras e por isso não sabemos tão pouco o que vigiar e para quê. Desta forma,  qualquer circunstância adversa faz-nos mudar de direção, distrai-nos qualquer gafanhoto saltitante que nos arrasta para algum atalho, faz-nos desistir de qualquer dificuldade ou qualquer lamuria não satisfeita dos prazeres do nosso corpo. Qualquer apelo dos sentidos vai marcando a mudança de caminhos enredados num labirinto sem centro.

Imagens de Budha. Pxfuel

[27] “Não sejais complacentes com a negligência; não sejais benevolentes com os prazeres sensuais, porque o vigilante e pensativo aspirante adquire imensa felicidade.”

Talvez  o nosso maior problema não seja a negligência e os prazeres sensuais, mas sim a nossa complacência para com eles, utilizando a expressão sempre fácil do “eu sou assim…” e desse modo fica justificado,  quando não arranjamos toda uma série de outras justificações elaboradas que conseguem transformar as nossas fraquezas em “virtudes”. Os sábios sempre nos indicaram que devemos dar nome aos nossos defeitos e fraquezas para que desse modo as possamos reconhecer e transmutar. 

Pensarmos que negligenciar e simplesmente aceitar as debilidades nos trará a alegria de não termos o trabalho de agir sobre elas, é esse o caminho da infelicidade, pois serão as pedras sobre as quais iremos tropeçar sempre no caminho porque não as queremos ver. Por outro lado a vigilância sobre elas permite-nos removê-las do caminho, se possível, ou pelo menos permite-nos vê-las e não tropeçarmos e magoarmo-nos. Por isso diz este verso que tais qualidades permitem adquirir uma verdadeira felicidade.

[29] “Vigilante entre os descuidados, desperto entre os adormecidos, o homem sábio vai em frente, e como um corcel rápido ultrapassa um cavalo de menos força”

Enquanto nós somos descuidados, deixando o mal instalar-se e o bem passar-nos ao lado, o sábio é vigilante e nem o mal penetra nele nem despreza o bem. Enquanto nós estamos de consciência adormecida na vida, a maior parte do tempo, e a vida passa por nós como se toda a existência se resumisse apenas num breve instante de vivência, o sábio encontra-se desperto e a vida dilata-se como se cada segundo da vida comportasse a eternidade. Essa é toda a diferença entre a nossa vida e a de um sábio. Enquanto a nossa jornada é lenta, girando sem sairmos do mesmo sítio, a jornada do sábio é veloz porque conhece a direcção e não a perde nunca de vista sabendo fazer de cada passo, pela sua vigilância, um avanço firme e seguro. 

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