As cinco Leis Cósmicas ou inevitabilidades do Budismo

A inevitabilidade das estações e sementes, e a inevitabilidade de ações e dhammas; e a inevitabilidade dos pensamentos deve ser conhecida como as cinco inevitabilidades.
Noite nos campos floridos do Parque Nacional das Sempre Vivas. Creative Commons

Quanto ao aparecimento de frutos e flores de uma só vez, em todas as árvores; esta é a inevitabilidade das estações.

Tal como seja a semente, esta torna-se no seu próprio fruto, o coqueiro cortado [não cresce], isso é o resultado da semente.2

Três causas, duas causas e nenhuma causa, dão o resultado adequado: esta é a inevitabilidade das ações.3

O nascimento de um bodhisattva acompanhado pelo tremor da terra, e os muitos universos, etc; esta é a inevitabilidade dos dhammas.

No entanto, atingido o órgão dos sentidos pelo campo dos sentidos, deter o produto, esta é a inevitabilidade do pensamento.

O Buda pregando o Abhidhamma para sua ex-mãe, agora uma Deva e outras pessoas no Paraíso de Tavatimsa. Creative Commons

Em todas as civilizações, foram feitos esforços para determinar quais são as leis do universo, os elementos imutáveis, invariáveis e causais que determinam todo o resto. Também a nossa, obcecada com os domínios do material, acredita que tudo é efeito de quatro forças ou leis: a eletromagnética, a gravitacional, a forte – que mantém a coesão dos quarks nos núcleos atómicos – e a fraca responsável pela desintegração do neutrão e interações dos neutrinos.

Seguindo o hermetismo egípcio, nos textos de Kybalion também se estabelecem sete leis, que mais tarde foram amplamente comentadas no século XX por um livro anónimo – assinado sob o nome coletivo “Três Iniciados”- chamado assim, o Kybalion, e amplamente desenvolvido agora por Lúcia Helena Galvão num curso de 16 horas que despertou grande interesse (no canal de vídeo de Nova Acrópole Brasil com mais de meio milhão de visitas, no momento em que escrevo estas linhas).

Aqui são formuladas estas leis:

1-Princípio do Mentalismo: “Tudo é mente, o universo é mental”
2-Princípio da Correspondência: “Assim é acima como é abaixo, como é abaixo é acima”
3-Princípio de Vibração: “Nada é imóvel tudo se move, tudo vibra”
4-O Princípio da Polaridade: “Tudo é o dobro; tudo tem dois pólos; tudo é o seu par de opostos: os semelhantes e os antagónicos são o mesmo; os opostos são idênticos em natureza, mas diferentes em grau; os extremos tocam-se; todas as verdades são semi-verdades; todos os paradoxos podem ser reconciliados”
5-O Princípio do Ritmo: “Tudo flui e reflui; tudo tem os seus períodos de avanço e retrocesso; tudo sobe e desce, tudo se move como um pêndulo: a medida do seu movimento para a direita, é a mesma do seu movimento para a esquerda, o ritmo é compensação.”
6-O Princípio da Causa e do Efeito: “Toda a causa tem o seu efeito; cada efeito tem a sua causa; tudo acontece de acordo com a Lei; o azar não é nada mais do que o nome se dá a uma lei desconhecida; há muitos planos de causalidade, mas nada escapa à Lei”
7-O Princípio da Geração: “A geração existe em todos os lugares; tudo tem o seu princípio masculino e feminino; a geração manifesta-se em todos os planos”

Hermes Trismegistus. Public Domain

Em certos textos herméticos fala-se das 49 leis que regem o Sistema Solar, que seriam a base da astrologia esotérica; associa cada lei com um dos seus planos de consciência ou de vida.

O professor Jorge Angel Livraga (1930-1991), fundador da Nova Acrópole (em 1957), mencionou de outra forma, e magistral, as Sete Leis da Existência na sua pirâmide de formas e vidas, desde o Logos à matéria, que é o suporte aos seus poderes criadores. 

1.Lei de Unidade
2.Lei de Iluminação
3.Lei de Diferenciação
4.Lei de Organização
5.Lei de Causalidade ou Psiquisidade
6.Lei de Vitalidade
7.Lei de Periodicidade

Em vários cursos e artigos ele explicou-as sob diferentes perspectivas, e o interessado pode ver o desenvolvimento na bela conferência “o universo como resposta”, que pode encontrar no link:

No budismo estas Leis do Universo também são mencionadas, e são chamadas de Cinco Niyamas e traduzidas como necessidade, ordenação, restrição e inevitabilidade. Também se traduz como “fixação”, ou “aquele que fixa”, ou “curso fixo”, que atribuímos às leis da natureza, embora no budismo tenha mais um sentido do inevitável trabalho de condicionalidade. Mais do que no sentido da ordem, que é como geralmente entendemos a lei, é o que necessariamente restringe, ou o que impulsiona a ação como causa (isto é, mais como força, potencial ou em ação), o que obriga a manifestar-se, numa sucessão de intemporalidades, num fluxo de impermanências que chamamos samsara.

O monge Theravada, mestre budista, Olande Ananda deu uma palestra na Sociedade Teosófica em 2012, certamente esclarecedora e que recomendo. Ele traduz Niyama diretamente como lei. As Pancha Niyamas seriam as 5 Leis, que noutras versões foram absorvidas pelo karma (4) e uma pelo dharma. Os cinco caminhos pelas quais as coisas acontecem.

O Bhavacakra ou Roda do Tornar-se é uma representação simbólica de processos de existência contínua na forma de um círculo, usado principalmente no Budismo Tibetano. Public Domain

Estes são, de acordo com a ordem que ele lhe dá:

1- A Lei da Semente (Bija Niyama): A semente de uma macieira dará uma maçã e não uma pêra, a de uma rosa uma rosa e a de uma sarça uma sarça. Fisicamente aqui poderíamos incluir tudo o que entendemos como determinação genética, a criança se parece com os pais ou os avós. Nascemos com certas tendências físicas e psicológicas, o sangue chama, exige, transmite, como no ditado, “de tal pau, tal lasca”, e isto não é apenas válido no físico, mas em tudo o que faz parte das condições inatas herdadas. A parte mantém as propriedades do todo a qual pertence, embora as genealogias não sejam apenas de sangue físico e em todas as escolas uma linhagem espiritual é estabelecida, tal é “filho” ou discípulo de tal, que foi “filho” de tal, etc., o que, naturalmente se leva muito a sério.

2- A Ley do Ambiente (Utu Niyama): Também é chamada de lei natural da matéria não viva, no que hoje chamamos de “fenómenos inorgânicos”. Se estiver frio ou quente (no sentido físico e psicológico), a pressão a que estamos submetidos (idem), que elementos prevalecem, não é o mesmo estar na montanha como no mar, ou no ar, o que nos rodeia, não gera em nós o mesmo ordem e harmonia que desordem e ruído. O ambiente familiar, económico, político, educativo, a língua que falamos e ouvimos que nos faz pensar de forma diferente, viver cercado de justiça ou interesses mesquinhos e criminosos, o ambiente mental, ou seja, as crenças que martelam as nossas mentes ou que nos seduzem incessantemente, a nobreza ou a vilania do ar que respiramos: a pureza ou não das águas que bebemos, dos alimentos que comemos, a ação das serpentes ou  correntes telúricas ou eletromagnéticas ou endócrinas, ou cosmopsicológicas. Lembrando que ambiente é circunstância, é tudo o que te rodeia direta ou indiretamente.

3- Lei do Karma (Kamma niyama): Lei de Causa e  Efeito, no nível ético. Formada pela energia inerente de nossos atos, palavras e pensamentos que gerarão em nós efeitos benéficos ou angústia e sofrimento, de acordo com as boas e sábias ou más e ignorantes intenções, respectivamente.

Karma como ação e reação: se mostrarmos bondade, colheremos bondade. Creative Commons

4- Lei da Mente (Citta niyama): Da palavra sânscrita Chitta, que significa mente, consciência, coração. A mente é o rei dos sentidos (mais um sentido, no budismo) e, portanto, seus atos impelem à ação, geram consequências. Aqui também reside a nossa chamada “liberdade”, querendo e sendo capaz de fazer algo ou não, ou fazê-lo de uma forma ou de outra, as eleições, o poder da consciência que se torna a lei da vida. Pode haver uma série quase infinita de causas interligadas que nos empurrarão numa ou noutra direção, mas sempre o poder da mente e a vontade afirmará ou negará com uma certa liberdade interior.

E lembramos aqui que “mente é o nome dado a todos os estados de consciência incluídos nas denominações de pensamento, vontade e sentimento4

5- Lei dos Dharmas (Dhamma niyama): Embora em geral no budismo a palavra dhamma (em pali, do sânscrito “dharma”) signifique a palavra ou ensinamentos do Buda, aqui aplica-se no seu sentido antigo. Ou seja, “dharma” como verdadeira natureza, ideal, dever, condição, o caminho a ser percorrido. 

Olande Ananda explica isto como o efeito de tudo o que existe na natureza, as influências estelares, astrológicas, as do Sol e da Lua, das manchas solares e a sua atividade. Mas, isto mais nos parece Lei do Ambiente. Poderíamos talvez vê-lo como a exigência da nossa própria condição, não apenas por ser “semente de”, mas a exigência da nossa natureza intrínseca, do próprio ethos. Lembremos que esta palavra grega originalmente significava a natureza distinta de algo.

Os nossos passos ao longo do caminho podem ser determinados por inúmeras causas (aquelas que nos tiram do caminho também), mas o “caminho” em si é uma causa fundamental. É o próprio caminho -“não podes percorrer o caminho até te converteres no próprio caminho”, que te encoraja, te chama, te exige, é a tua própria condição ideal, é a força do dever ser. Como diria Kant, não responder aos imperativos da própria consciência moral – que ele chama de Razão Prática – é violentar-nos a nós próprios5.

Olande Anande também inclui aqui catástrofes geológicas, ou acidentes por “estar na hora errada no lugar errado”, ou seja, ser arrastado pela força da natureza, a ação dos diferentes dharmas desta, no mesmo sentido que às vezes dizemos que o karma é a mesma ação do dharma que retorna à sua natureza perfeita e ideal, ou estar exposto às mesmas leis da natureza, que respondem à nossa presença, mais ou menos adequada.

Vinte e cinco Bodhisattvas Descendo do Céu, c. 1300, Japão, período Kamakura. Museu de Arte Kimbell. Public Domain

Talvez este verso do comentário ao Abhidhamma que mencionamos anteriormente seja aquele que determina que o interprete desta forma:

O nascimento de um bodhisattva acompanhado pelo tremor da terra, e dos muitos universos, etc; esta é a inevitabilidade dos dhammas.

Mas o que eu li aqui é o surgimento da verdade no meio das circunstâncias, da jóia oculta no lótus, da verdadeira natureza da sua concha limitante, opressora e necessária antes, como o ovo do qual a serpente nasce, ou o recém-nascido da dor da mãe. Ou seja, essa lei seria da manifestação do interno que se torna externo no meio da luta e da limitação. O caminho chama e empurra o caminhante, mas o rastro é de dor, de tudo o que não somos e deve ser abandonado, da guerra contra o que nos sustenta no meio do caminho, mas não nos deixa avançar. E antes, durante e depois, a verdade, e o dharma permanecem inalterados, puros, idênticos a si mesmos. 

Como dizemos, Atma inserido na Mente Divina é como uma estrela no céu, é um Arquétipo em si mesmo, é o Eu Destino. Portanto, pelo menos desde onde estamos, Atma é igual ao Karma, pois a sua luz é e reflete-se neste. 

Notas:

1 – Ver fonte do texto “the Five-fold Niyama”. Segundo indicam estes versos pertencem a um resumo do Abhidhamma atribuído a Uddhadatta, contemporâneo do famoso Budaghosa, por volta do século V da nossa era.

2 – No artigo mencionado explicam como o coqueiro, ao contrário das outras árvores, se o cortas não cresce, ou seja, cada semente gera uma árvore diferente que tem a sua própria natureza e características.

3 – Aqui também, explicam que três causas são as causadas pela ausência do triplo veneno, o  orgulho, a inveja e a ignorância (ou seja, humildade, bondade e sabedoria), e que fazem nascer nos reinos superiores (deuses e homens). A não-causa é não se opor a este triplo veneno e fazer renascer nos quatro reinos inferiores. Não se especifica o significado da causa dupla.

4 – H.P.Blavatsky, em Doutrina Secreta I, Estância I

5 – Como diz o livro místico Voz do Silêncio

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