As versões do Ramayana e a Diversidade do Mito no Espaço Indo-Javanês

1 Khon – Dança tradicional tailandesa que reproduz cenas do Ramayana. Pxfuel.com

O Ramayana, atribuído a Valmiki, constitui um dos textos fundacionais da tradição literária e religiosa indiana. No entanto, a sua difusão no Sudeste Asiático originou variantes narrativas com elementos distintos, especialmente nas literaturas javanesas, balinesas e malaias. Este artigo analisa a diversidade de versões do Ramayana, com especial atenção às diferenças estruturais e simbólicas entre as versões indianas e indonésias, procurando compreender o modo como as alterações narrativas reflectem distintos contextos culturais, religiosos e ideológicos.
O Ramayana valmikiriano apresenta uma estrutura coesa, organizada em sete kandas (livros), centrando-se na figura de Rāma como avatāra de Viṣṇu, e em Sītā como modelo de fidelidade conjugal. A intriga central — o rapto de Sītā por Rāvaṇa e a subsequente batalha — é enriquecida com episódios de profunda significação simbólica: a aliança com os vānaras, a ponte para Laṅkā, a prova de fogo (agniparīkṣā), entre outros.
A fidelidade textual e doutrinal desta versão foi assumida como norma, dando origem a uma “ortodoxia ramayânica”. No entanto, outras versões indianas — como o Adbhuta Rāmāyaṇa ou os Rāmāyaṇas jainistas e budistas — introduzem variações significativas: Sītā aparece como filha de Rāvaṇa, Rāma como asceta jainista, ou Lakṣmaṇa como figura central.
O prestígio cultural e religioso da Índia impulsionou a circulação do Ramayana para regiões como a Indonésia, a Malásia, a Tailândia e o Camboja. Nestes contextos, o mito foi adaptado às cosmologias locais e reconfigurado segundo valores políticos, morais e estéticos próprios.
Em Java, por exemplo, encontramos o Serat Rama e o Rama Keling, textos em javanês médio que integram tradições islâmicas, hindus e locais. As representações teatrais do Wayang Purwa oferecem versões do Ramayana nas quais Rāma é retratado não apenas como rei, mas também como figura trágica e hierática, ao lado de personagens secundários tornados centrais, como Hanumān ou Śūrpaṇakhā.
Segundo J. Kats, as variantes indonésias do Ramayana dividem-se em dois grandes grupos (A e B), consoante a maneira como integram as três narrativas subjacentes: (I) o exílio de Rāma, (II) o rapto de Sītā, (III) a aliança com os vānaras.
Na versão A (mais próxima da tradição valmikiriana), os elos narrativos são formais e externos: Śūrpaṇakhā, irmã de Rāvaṇa, é rejeitada por Lakṣmaṇa e motiva o rapto de Sītā.


Na versão B (ex: Serat Rama Keling, Hikayat Seri Rama), surgem relações familiares mais complexas: Sītā é filha de Rāvaṇa, Rāma e Hanumān são aparentados, e as relações causais entre personagens adquirem densidade simbólica, frequentemente com base em arquétipos locais ou estruturas míticas pré-hindus.
Estas diferenças revelam tanto uma reinterpretação cosmológica como uma apropriação cultural do mito, em que a centralidade ética do Rāma valmikiriano é substituída por um dinamismo narrativo mais difuso.
Além da narrativa, importa sublinhar a dimensão simbólica do Ramayana nas suas múltiplas versões. Na Índia, a obra é veículo de valores dhármicos: fidelidade, justiça, renúncia. Na Indonésia, é também um espaço de performance ritual e ensino moral colectivo.
O episódio da prova de Sītā — cujo significado varia do sacrifício autoimposto à humilhação injusta — é exemplar dessa polissemia. Na versão valmikiriana tardia, Rāma expulsa Sītā apesar da prova; no Serat Rama, ela tenta suicidar-se e é salva por intervenção divina; noutras, torna-se mãe de heróis (Gusi, Tabalavi), símbolos de reconciliação e continuidade.
A multiplicidade de versões do Ramayana, especialmente no espaço indo-javanês, revela o carácter profundamente vivo e adaptável do mito. Longe de constituírem “distorções” do original, as variantes reflectem distintas necessidades culturais, formas de religiosidade, e modelos de legitimação política e ética. O Ramayana não é apenas um poema épico; é um organismo simbólico em constante metamorfose.

Bibliografia
J. Kats, “The Ramayana in Indonesia”, Journal of the Royal Asiatic Society, 1925.
D. C. Sen, The Bengali Ramayanas. University of Calcutta, 1920.
Paula Richman (org.), Many Ramayanas: The Diversity of a Narrative Tradition in South Asia. University of California Press, 1991.
Robert Goldman, The Ramayana of Valmiki: An Epic of Ancient India. Princeton University Press.

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