Beethoven e os Upanishades

É conhecido o interesse de Beethoven, nos seus últimos anos de vida, pelos Upanishads, pelo Bhagavad Gita, e pela filosofia da Índia, em geral.
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Inspiração. Pixabay

Como em Schopenhauer e muitos outros filósofos e artistas, as primeiras traduções alemãs desses textos sagrados tiveram um grande impacto num público já habituado às especulações metafísicas e abstratas de um Kant, um Hegel ou um Schelling.

Segundo lemos no artigo “Beethoven and Indian Philosophy1”, um texto escrito, e realmente copiado por Beethoven, e que é mencionado, incluído e comentado no livro Beethoven’s Letters with explanatory notes by Dr. A.C. Kalischer (trans. J.S. Shedlock), 1926, mostra dois textos da filosofia da India, que embora não especifique de onde são, é quase evidente que são dos Upanishads e dum hino védico, respetivamente, não identificados nesta obra. 

As várias traduções a que foi submetido (às quais acrescentamos agora a minha de inglês para espanhol2) fazem com que não seja fácil de identificar, e claro, agradeço qualquer ajuda.

O autor desse artigo diz que poderá ter sido copiado dos Upanishads ou de um livro de filosofia hindu, ou que talvez Beethoven, diz, estivesse a procurar inspiração, já que o Barão Hammer-Purstall lhe havia pedido para musicar um poema que expressava as crenças religiosas da India.

Ou talvez seja um texto escrito pelo próprio Beethoven, inspirando-se noutros hindus, mas este surgiu da sua própria mente e coração. De facto, há afirmações como «não tens um ser triplo”, e que «atuas pela tua própria vontade e tua própria honra» que parecem mais ocidentais, especialmente a primeira, como que negando a natureza tripla de Deus, própria do cristianismo.

Os textos manuscritos de Beethoven são os seguintes:

«Deus é imaterial; visto que é invisível, não tem forma. Mas pelo que podemos ver nas Suas Obras, deduzimos que é eterno, todo-poderoso, omnisciente e omnipresente. Somente o poderoso está livre de todo o desejo e paixão. Não há ninguém e nada maior do que Ele, Brahm3: a sua mente é autoexistente. Ele, o Todo-Poderoso, está presente em todas as partes do espaço. A Omnisciência é o maior de todos os seus atributos, que abarca tudo. Oh, Deus! – tu não tens um ser triplo e és independente de tudo, tu és a verdadeira, eterna, bendita e imutável luz de todo o tempo e espaço. Tua sabedoria apreende milhares de leis, mas sempre atuas por tua própria vontade e por tua própria honra. Tu és anterior a tudo aquilo que adoramos. Devemos-te louvores e adoração. Só tu és o verdadeiro Bendito, a melhor de todas as leis, a imagem de toda a sabedoria. Tu estás presente em todo o mundo inteiro e sustentas todas as coisas. Sol, Ether, Brahma.»

O segundo texto, também manuscrito de Beethoven, diz:

«Espírito de espíritos
Estendido por todo o espaço e tempo
Elevando-se acima dos limites do pensamento
Tu criaste a ordem a partir do caos.
Antes que o mundo existisse, tu eras
Antes dos céus no alto e a terra em baixo
Tu existias sozinho
Através do amor tu criaste todos os que te rendem culto
Por que não manifestas o teu poder
e bondade sem limites?
Que luz brilhante direcionou o teu poder?
Como foi exposta primeiro a tua sabedoria infinita?
Dirige a minha mente e eleve-a das profundezas»

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Retrato de Beethoven com a partitura da Missa Solemnis, 1820. Public Domain

Beethoven, além de filósofo nato, ou talvez por isso, era profundamente religioso. Mas de uma religiosidade natural, sem intercessões sacerdotais. Frente a Deus no íntimo do coração, em sagrada comunhão com a alma da natureza, imperativamente imbuído dos seus deveres para com o próximo e sobretudo para com a humanidade, ardentemente idealista da fraternidade de todos os homens.

Não sabemos, ainda que seja provável que tenha sido maçom, com os ideais da revolução francesa, como Haydn, Mozart ou Goethe, embora a sua mística não seja tão cerimoniosa, é natural, é o diálogo com Deus, a exigência moral perante este, a necessidade de realizar uma obra para os séculos.

Na sua juventude e maturidade irmanava-se muito facilmente, e dada a sua cultura, com os mitos gregos e os seus significados, e com o panteísmo de todas as vozes da natureza. Disse que Sócrates e Cristo eram os seus modelos e não devia ser alheio à harmonia de tudo o que existe, a música viva de tudo o que percorre o caminho da evolução e dá assim a sua nota fundamental, conjugada com as de todos os outros.

Disse que escreveu o Quarteto em Mi menor, opus 59, nº 2, pensando na harmonia das esferas, ante o céu estrelado, e claro que a emoção que desperta em nós é sagrada, embora sejamos incapazes de compreender o que está mais além, que sustém tudo.

Escreveu em letras grandes, para ter sempre presente a famosa máxima de Kant: «A lei moral dentro de nós e o céu estrelado acima”, e também a da Deusa Atenas egípcia no seu Templo de Sais quando diz: «Eu sou aquela que foi, é e sempre será. Nunca nenhum ser humano levantou o véu que me cobre», máxima que daria o título ao livro mais surpreendente talvez de todo o século XIX, «Ísis sem Véu», escrito por H. P. Blavatsky.

Na sua época os músicos eram, em grande parte, por ofício, e não tinham fama de serem especialmente cultos, e ele esforçava-se por se demarcar desse preconceito. Como disse um dos seus biógrafos, não lia os livros da moda, mas os clássicos: Aristóteles, Platão, Tácito, Cícero, Plutarco, Ossian e Goethe nunca saíam de sua mesinha de cabeceira. Disse a um editor que o questionava sobre a sua cultura: «Nenhuma tese é demasiado erudita para mim. Sem ter a pretensão de ser um erudito, sempre procurei, desde a minha infância, compreender as palavras dos sábios e os génios de todas as épocas.»

Com este panteísmo eletrizando a sua alma, e com a sua natural elevação metafísica e amor ao conhecimento, é lógico que a leitura dos Upanishads o deixasse estupefacto. Há estudiosos que dizem que estes tiveram uma grande influência na conceção da sua Missa Solemnis, e a matemática e a música das ideias, com ensinamentos tão vitais e abstratos desses textos védicos é muito fácil compará-la aos dos Últimos Quartetos, já que é nesta época que Beethoven meditaria mais sobre esta religião-matemática-filosofia-música que são os diferentes Upanishads, e onde além de um Deus Pessoal, um simples foco de irradiação na Luz Divina, respira-se Eternidade, Lei, Ordem Perfeita (Dharma) e responsabilidade, e pugna do homem contra o destino e a morte (Karma).

Essa religiosidade natural, irmã dos Vedas, panteísta e idealista ao mesmo tempo, fazia-o extasiar-se com as estrelas e as árvores, e dizia «Ah! Se eu pudesse ir de estrela em estrela como vou de flor em flor», e sublinha um único verso em Homero «A caminho das Plêiades e da Boécia». Escrevia recostado a uma árvore e disse numa nota: «Tenho a impressão de que cada uma destas árvores me diz: Santidade! Santidade! A delícia dos bosques, o que poderá expressá-la plenamente. Se tudo desaparece, fica a terra, mesmo no inverno.»

Noutra ocasião sublinhou4 repetidamente a seguinte passagem do livro Fisiologia da Natureza de Sturm:

«Gostaria parecer-me em tudo a uma árvore. Desejaria crescer em virtude, de acordo com a posição e as capacidades que Deus me deu, com frutos no alto, enterrando as raízes até ao fundo com firmeza de alma, para dar à minha vida prática direção e força. Tenho pressa em me parecer com essas árvores, cada vez mais ligado à terra pelas raízes.»

Katha Upanishad, sânscrito. Creative Commons

Assim, Beethoven, transcendendo a sua alma horizontes e séculos, era filho da mesma mística que diziam os sábios rishis, por exemplo, no Katha Upanishad:

«Há uma árvore muito antiga cujas raízes crescem para cima e os seus ramos para baixo; que de facto se chama o Radiante, Brahma, pois só ele é imortal.»

Notas:

1 – Beethoven e a filosofia da Índia
2 – Nota do tradutor – o texto original deste artigo foi escrito em espanhol.
3 – Deixámos o nome tal como está no original.
4 – Estas citações foram retiradas do livro de Emil Ludwig “Vida de Beethoven”.

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