Bhakti Yoga

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O que é o Yoga?


Falar de Yoga é falar de união. Falar de união é falar de adição, soma, construção. Quando construímos, estamos a edificar algo. O que é que se edifica com o Yoga? O nosso Ser interior, a nossa Luz, a nossa voz Espiritual, através da união do nosso Eu inferior com o nosso Eu superior.
O Yoga é um caminho multidirecional, pois dentro do Yoga, há várias modalidades sendo que nenhuma é única e são todas complementares. Não é necessário começar por uma e acabar na mais elevada, é necessário trabalhar com todas e todas com as suas características promovem o autoconhecimento e a evolução.
Poderíamos dizer que há um Yoga básico, primário e inicial que é o Hatha Yoga, ou o yoga das asanas, das posições físicas em que cada posição tem ideias associadas e a sua prática promove a saúde do corpo físico. É o Yoga que qualquer Yogui tem de dominar para poder encetar o caminho dos 4 grandes Yogas, Karma, Bhakti, Jnana e Raja Yoga. Cada um tem as suas características, mas todos fazem parte de nós. O Karma yoga está relacionado com a ação, e a nossa responsabilidade nos atos, o Bhakti é o yoga da devoção, da dação plena ao espiritual através da emoção o Jana é o Yoga da mente, do raciocínio e do caminho científico e o Raja é o Yoga da vontade, da iluminação plena pelo controlo absoluto do corpo por parte da vontade espiritual.
São todos complementares, pois não poderíamos ter Vontade, sem controlo do corpo, sem ação, sem emoção e sem raciocínio lógico. Não podemos pensar, sem colocar em prática sentindo o resultado das nossas ideias, vivenciando o que pensamos. Não podemos sentir, sem antes, planear o que queremos fazer com coerência interna, com luz espiritual e com ação no mundo. Não podemos ter ação no mundo, sem sentir os resultados da ação, sem pensar antes de agir, sem a vontade estando no comando.
Como vemos, todos os Yogas são necessários no caminho espiritual, sendo que o Yoga básico, o Hatha yoga é o que dá vitalidade ao corpo, o que permite depois que os outros 4 yogas se possam desenvolver de forma natural desde o nosso interior.

O que é o Bhakti Yoga?


O Bhakti yoga é o yoga da devoção, o yoga da dação total e plena ao caminho espiritual através do amor que se manifesta na compreensão pelo terrenal e devoção pelo espiritual.
Mas a quem ou ao quê é que somos devotos? Devotamos as nossas vidas para que propósito? Dependendo a quem perguntarmos, a resposta a estas perguntas será muito variada, porque está dependente dos interesses e aspirações das pessoas. Se perguntássemos ao Jesus histórico, ou ao Sidharta Gautama o Buda, ou a Maomé, a resposta seria que a sua devoção é ao princípio espiritual que os empurra e ilumina, no seu percurso terrenal. Se perguntamos a pessoas comuns que vingam no seu dia a dia e superam os seus obstáculos e dificuldades, poderão responder igualmente que ao princípio espiritual que os impulsiona, mas certamente misturado com os seus interesses e gostos pessoais terrenos e finitos.
Diz Vivekananda, parafraseando um mestre,
“A aqueles que estão constantemente dedicados a mim e que me adoram com amor, eu dou à sua Vontade a direção pela qual eles cheguem a mim”
Toda devoção é um ato de amor. Sem amor não podemos ver a Deus, nem em nós nem nos outros, porque levantamos barreiras invisíveis e tudo são contradições, dificuldades, defeitos e obstáculos. O amor é a base que permeia tudo porque tudo é filho do impulso divino. Quando tenhamos amor em nós, seremos capazes de ver o divino nos outros.
Neste mundo veloz, rápido e intransigente, parar para ver Deus é uma miragem. Qual Deus? Isso é coisa do passado, histórias de antes do nascimento da ciência que tudo o sabe. Desde quando uma planta tem algo de divino? Como é que uma pedra pode ter a Deus no seu interior? É possível que haja Deus se os animais são todos cruéis uns com os outros? O mundo cada vez tem mais guerras, as pessoas cada vez têm menos paciência. Será possível que tenhamos uma ordem divina detrás de toda esta confusão?
SIM
A prática do Bakhti Yoga desperta esta perceção do divino em todas as coisas. Quem entra no caminho de Bakhti, não reza para pedir, pois isso é mercantilizar o sagrado, simplesmente age em harmonia. Observa os minerais e vê que a sua natureza é divina pela perfeição das formas, a beleza das cores, as diferentes durezas, brilhos e propriedades. Observa as plantas e vê os padrões geométricos, a matemática e a aritmética detrás das formas, a perfeição e beleza das flores, caules e folhas. Observa os animais e vê como cada um tem a sua função e o equilíbrio é mantido por estarem cada um no seu lugar, expressando o seu arquétipo. Observa os homens, e vê o que de mais maravilhoso já se fez pela humanidade, os grandes idealistas que deram as suas vidas para que toda a humanidade avançasse, os pequenos voluntários anónimos que nas diversas associações dão o seu tempo pelo bem de todos, etc.
E esta experiência de ver o amor nos outros, de encontrar a empatia e a solidariedade, leva-nos à Fraternidade Universal, um princípio a partir do qual vemos o que nos une e não o que nos separa. O Bhakti yogui é fraterno porque considera a todos como seus irmãos, considera o mundo como uma irmandade onde a cooperação, ajuda e superação conjunta é uma realidade.

A Oração


Irremediavelmente o Bhakti Yogui ora para se familiarizar com o divino. Trata o sagrado como uma parte de si mesmo e entra em comunhão interna através da oração. Não é uma oração egocêntrica onde se pede o que egoisticamente precisamos para nós, é uma conversa interna com o nosso Ser interior, que é o representante de Deus em nós e que leva ao autoconhecimento. Este autoconhecimento irremediavelmente leva a forjar o carácter e a ter novas atitudes por permitir ver o resultado das nossas ações, ou seja, os acertos e erros que vamos cometendo.
Por outro lado, a melhor prece é o cumprimento do nosso dever no mundo. Como diz Alan Kardec,

“A prece do dia é o cumprimento dos vossos deveres, sem exceção de nenhum, qualquer que seja a natureza deles.”
“Deus sabe discernir o bem e o mal: a prece não oculta as faltas. Aquele que pede a Deus o perdão de suas faltas não o obtém se não mudar de conduta. As boas ações são a melhor prece, porque os atos valem mais do que as palavras.”

A ação no mundo, o cumprimento dos nossos deveres a correção das nossas falhas são a melhor oração. Quando encontramos e corrigimos as nossas falhas, vamos destapando o amor que temos no nosso interior.

O caminho mais curto e seus perigos

Diz-se que o Bhakti Yoga, de entre todos os Yogas, é o caminho mais curto para alcançar a libertação, no entanto, tal opção tem os seus perigos associados.
O verdadeiro devoto, o praticante de Bhakti, encurta o caminho ao escolher uma via em que a meta se mistura com o próprio caminho. O objeto devocional está no próprio caminho. Há uma aceitação com base no amor, de todos os processos da existência.
O problema de ser o caminho mais fácil, é que facilmente se deturpa esse amor devocional e se transforma em fanatismo. Ama-se o seu ideal não por o compreender, mas por odiar o outro. Solidifica o seu fanatismo através da exclusão do outro. O que acontece na realidade, é que se cultuam rituais e objetos em vez do Bem em si que é emanado por esse tipo de movimento ou religião. Mistura-se o amor devocional espiritual puro, com o instinto de proteção de uma instituição, movimento ou interesse pessoal.
Todo caminho espiritual é um caminho de desenvolvimento de poderes internos. Quando este caminho se faz de forma rápida, podemos desenvolver capacidades e não estar preparados para as receber. Diz Sri Ram, “A devoção pode ser uma coisa maravilhosa e bela, um foco espiritual que, na sua pureza e intensidade, é tal qual uma chama que se espalha rapidamente, seguindo adiante, superando obstáculos, e acelerando muito os processos destrutivos e construtivos”.
Diz ainda Sri Ram
“Quando a devoção é fanática, é porque existe uma certa dureza, ou algo, que fere a natureza do devoto, o qual é estimulado e gratificado pelo objeto de sua devoção. Embora a causa seja justa, o que lhe atrai é o que atrai a sua natureza.
A devoção pode ser tão egoísta quanto, frequentemente, é o amor; pode ser intensamente egocêntrica; pode ser uma atitude de impotência e dependência, ao invés de força; ou de parcialidade, ao invés de totalidade, podendo nos tornar exclusivos, duros, violentos e até cruéis, ao invés de inclusivos e bondosos.”
Com tal ferramenta e seu poder, temos de ser muito cautelosos com a nossa devoção, explorá-la e analisá-la ao detalhe, para evitar desentendimentos e futuras crises existenciais e problemas pessoais.

O caminho do Bhakti Yoga

O caminho de Bakhti, apesar de ser o mais fácil, tem em si várias etapas, que podem ser resumidas da seguinte forma.

  • Autoconhecimento.
  • O Mestre.
  • O Ideal.
  • Símbolos e ritualística.
  • Devoção.
  • O desapego

Autoconhecimento

Dizia no frontispício do templo de Delfos “Conhece-te a ti mesmo e conhecerás o universo e os Deuses”. O autoconhecimento é essencial para entender as nossas ações e omissões, para poder olhar para o nosso interior com olho critico e aceitar aquilo que não gostamos. A nossa personalidade vai querer ser engalanada de honrarias e virtudes que talvez não tenha, pelo que iremos encontrar coisas que não gostamos.
Para sermos um Bhakty yogui de plenos poderes, a voz da alma tem de ser a que se ouça mais alto para que as necessidades e pedidos pueris da personalidade se diluam como os rios ao chegarem ao oceano.
Neste estágio evolutivo, irá aparecer uma segunda ferramenta no caminho, o Mestre, alguém que nos ilumina nos momentos de dificuldade. O mestre não aparece de um dia para o outro, não se lançam sementes num campo infértil ue não está preparado para as receber.

O Mestre

O Mestre está sempre relacionado com a voz da nossa Consciência, mas também pode ter uma figura associada, um Mestre físico, alguém que orienta os nossos passos. Não é uma figura autoritária, é uma voz da consciência externa a nós, que nos conhece, conhece o nosso potencial, vê o melhor de nós e desinteressa-se gentilmente pelos nossos defeitos. Ele não diz o que fazer, simplesmente orienta os nossos passos, sendo nossa a responsabilidade de o percorrer e arcar com as consequências.
Quem não aceita esta figura, simplesmente tem curiosidade intelectual de explorar alguns temas, mas não quer aprofundar talvez por saber inconscientemente que não vai gostar do que vai encontrar.
No momento da procura, temos de estar alerta, porque tem muitos falsos mestres. Como diz Vivekananda,
“Há muitos que, mesmo mergulhados na ignorância, têm tal orgulho nos seus corações que pensam que sabem tudo, e não ficam aí, mas oferecem-se para orientar a outros e levá-los aos seus ombros. Assim, o cego guia ao cego e ambos caem no buraco. O mundo está cheio deles, cada um quer ser mestre, cada mendigo quer doar um milhão de dólares. Assim como são ridículos estes mendigos, são também estes mestres”
Visto que somos responsabilizados em última instância pelos nossos atos, cabe ao discípulo ter discernimento para saber se as orientações do Mestre e as suas consequências promovem a fraternidade universal, ou simplesmente o seu próprio benefício egoísta através dos seus discípulos.
Quando associamos o Mestre como a voz da Consciência, temos de considerar que internamente, quando pensamos que estamos a ouvir a voz da Consciência, podemos estar a ouvir o nosso Eu inferior, a personalidade, aquele que vai lutar pela sobrevivência do corpo através das suas necessidades básicas e/ou gostos pontuais. Daí a importância do autoconhecimento, para poder distinguir se é o nosso Eu superior, ou o nosso Eu inferior a falar.
Neste caminho, o Mestre vai utilizar muitas ferramentas que promovem o autoconhecimento, sendo que duas das mais importantes são o Ideal e os símbolos e a ritualística.

O Ideal

Como ideal devemos entender todo e qualquer caminho que leva à Unidade. O autêntico Bhakti sabe que todos os caminhos levam à Unidade, pelo que observa todas as religiões e caminhos espirituais como uma forma diferente de elevação.
Quando iniciamos um dia de trabalho, vestimos a farda e com ela efetuamos o trabalho necessário sem mudar de farda. Quando encarnamos um ideal, vestimos esse ideal, e com ele fazemos o nosso trabalho nessa encarnação. Semeamos uma semente no nosso coração, e temos de ter a coragem de a proteger para que cresça. Na obra magistral Isis Sem Véu em que Helena Blavatsky refere as formas e conteúdo de diversas tradições de oriente dando um pouco da seiva de cada um dos movimentos, vem a dizer o seguinte,
“Fiz apenas um ramalhete de flores do Oriente, e não acrescentei nada meu senão o laço que as amarra”
Colocou um laço porque soube explicar a essência de cada movimente e como cada um explica o mesmo de forma diferente com recurso a ferramentas diferentes. Cada uma destas flores é uma tradição com os seus símbolos, deuses e formas de avançar no caminho.
O que se pretende ao ter um Ideal, é que a flor nasça no nosso coração e se desenvolva de tal forma que consiga dar os seus frutos. Estes frutos darão origem a outras sementes que cresçam noutros corações, e desta forma fecha-se a roda que gira incansavelmente nos nossos corações e vai despertando o espírito que mora em nós.
No momento em que esta planta está a crescer no nosso coração, teremos de a proteger e não plantar sete sementes diferentes de sete ideais diferentes, porque senão, teremos a dificuldade de saber que planta deveremos escolher para regar, sabendo que não podemos regar todas ao mesmo tempo sob pena de limitação de água e tempo para se desenvolverem de forma robusta. Esta planta só irá crescer de forma robusta, se sentirmos no nosso coração que o ideal é uma fonte de água pura. Como diz Sri Ram,
“A devoção a um Ideal é proporcional à verdade que está corporificada no conceito desse Ideal”

Símbolos e ritualística

Analisando a história das religiões, vemos como todas acabam por colidir com as pré-existentes, aparecem as diferenças e as acusações, sendo uma muito comum, a de Idolatria.
Os crentes da maioria das religiões são devotos a um deus que na maior parte das vezes é pessoal, especial desse movimento e quase que com características humanas. Muitas religiões ao iniciar, eliminam os símbolos e cultos anteriores, rejeitando-os simplesmente por não estarem inspirados pelo “Deus certo”. No entanto, estes mesmo cultos irão ser substituídos por outros semelhantes, mas com nome diferente. Esta dinâmica repete-se uma e outra e outra vez. Parece que o último é que é o certo, por ser o mais “moderno”.
Das religiões mais recentes e de grande projeção mundial, os primeiros cristãos consideraram pagãos todos os cultos animistas e anteriores a Jesus, eliminaram os seus deuses e colocaram os seus santos. Os maometanos eliminaram todos os ídolos e cultos que estavam em meca e foram substituídos pela caaba. O que a história nos ensina é que os símbolos são substituídos uns pelos outros, são dados nomes diferentes, características aparentemente diferentes, e novos impulsos espirituais são efetivados.
Com isto, vemos que na realidade, dada a nossa baixa progressão espiritual, precisamos de novos símbolos e ritualística para dar novo impulso ao nosso Ser Interior. Temos tendência a considerar o velho e antigo como desfasado, de outra época, de outro tempo, como se o Espírito alguma vez ficasse desfasado. No fim de contas, a nossa infância espiritual precisa de novos brinquedos, novas ferramentas e aparentemente novas ideias, para se sentir plena e contente e aqui vemos que os símbolos e a ritualística fazem a ligação com o divino, por serem elementos próprios de cada movimento religioso.
A ritualística e os símbolos estão para o caminho espiritual como a alfabetização está para o ensino. Somos alfabetizados no primeiro ano, e passamos o resto da vida a utilizar essa ferramenta. Se a ritualística e os símbolos se aprendem no primeiro ano da escola espiritual, quanto mais teremos de aprender no nosso caminho para nos licenciarmos como mestres sábios neste mundo?
A ritualística e os símbolos são instrumentos para nos levarem ao espaço sagrado. Através do símbolo encontramos uma realidade psicológica que não existe no mundo físico. Através da ritualística conformamos e disponibilizamos o nosso ser para poder ouvir o sagrado. Não se chega a Deus no profano.
A ritualística e os símbolos como ferramentas evolutivas só serão necessárias até que consigamos ser verdadeiros Bhakti Yoguis e sintamos a verdadeira Devoção. Como diz Vivekananda,
“A Devoção para ser verdadeira e espiritual, deve ter a qualidade de um amor constante, concentrado e altruísta que, na sua forma mais elevada, é filantropia e essencialmente impessoal.”

A Devoção

Chegados a este ponto, deu para perceber que a verdadeira Devoção é algo que está muito longe de nós, e que o amor constante e altruísta é um objetivo, um ideal que todos deveríamos ter, mas que não se consegue de um dia para o outro, não é através de um momento eureka ou uma inspiração momentânea. O evangelista Mateus resume-o muito bem na seguinte frase,
“Bem-aventurados os puros de coração, pois verão a Deus”
Quando conseguirmos ver a Deus nos outros, teremos conseguido ser Bhakti yoguis de pleno direito. O homem só poderá ver a Deus quando este se manifeste através dos seus atos, quando a mensagem faça parte do mensageiro. Para saber se os nossos atos são filhos da devoção, do amor incondicional, da pureza de coração, poderemos aplicar os três filtros de Vivekananda,

  • O amor não negoceia, simplesmente dá.
  • O amor não conhece o medo.
  • O amor é o ideal mais elevado.

Se porventura existe algum rasto de interesse egoísta nos nossos atos, poderemos ter a certeza de que não são atos de amor puro. Se agirmos por medo ou coação, há um interesse por trás dos nossos atos. Se não soubermos que ideal seguir, ou não tivermos um Ideal, agir de forma amorosa, promovendo a fraternidade universal, é a solução.
Diz o mesmo Vivekananda, nesta frase que já foi analisada a primeira parte,
“A aqueles que estão constantemente dedicados a mim e que me adoram com amor, eu dou à sua Vontade a direção pela qual eles cheguem a mim”
Quando agimos por amor, a nossa parte divina direciona a nossa vontade para poder percorrer o caminho. Há um despertar interior e paulatinamente as nossas decisões filhas do livre-arbítrio estarão cada vez mais alinhadas com o Dharma. Este alinhamento acontece, porque a voz do nosso EU superior estará cada vez mais audível, e a do nosso Eu Inferior apesar de se ouvir igualmente forte, não será do nosso interesse.

O Desapego

Depois de todo o trajeto para chegar a ser devotos do espiritual, depois do longo percurso de autoconhecimento, chega a altura do desapego da devoção. Se por um lado temos de ser devotos para poder chegar à meta, temos de nos desapegar da ferramenta, mesmo sabendo que precisamos dela.
O objetivo é entender a natureza da nossa devoção, pois ela é nossa filha e como tal, é filha das nossas características com as suas virtudes e defeitos. Sabendo que não somos Budas nem Cristos, temos de aceitar facilmente que é difícil ser devotos do espiritual. Quem de nós dá a outra face ou sente compaixão universal por todos os seres?
Na falta desta capacidade de alma, temos de escrutinar muito detalhadamente quais são as nossas intenções e necessidades, os nossos objetos de devoção, temos de voltar sempre ao inicio, ao autoconhecimento. Quais é que são os nossos interesses e aspirações, que ideias vivem connosco e fazem parte ativa da nossa vida?

  • Quando mantemos a nossa opinião afincadamente, fazemo-lo por convicção firme, determinação e constância, ou simplesmente por orgulho?
  • Quando agimos de forma altruísta e ajudamos os outros, fazemo-lo por abnegação, caridade e indulgência, ou simplesmente por vaidade?
  • Quando queremos ganhar mais e mais, fazemo-lo por força de trabalho, dedicação, planeamento futuro ou simplesmente por avareza?
  • Quando nos alimentamos com os pratos mais requintados e esmerados na confeção, fazemo-lo para saciar a nossa fome e contentar a nossa necessidade física, ou é simplesmente gula e vaidade?
  • Quando partilhamos as nossas conquistas nas redes sociais, fazemo-lo por convencimento interno, alegria ou por ostentação e vanglória?

Estas e muitas mais perguntas podemo-nos fazer internamente e a resposta a elas é algo pessoal e intransmissível. Devemos estar muito atentos às nossas devoções.
Com o nosso avanço no caminho, os nossos gostos vão mudando, símbolos são substituídos por outros, ideias são atualizadas com a experiência, enfim, não somos os mesmos hoje do que há 1, 5, ou 10 anos. Este ciclo de autoconhecimento e desapego da devoção desenvolvida, tem de ser percorrido uma e outra vez, até que sintamos realmente a Deus no nosso coração.
“Uma vez que este amor supremo entre no coração do homem, a sua mente pensará continuamente em Deus e não recordará outra coisa. Não vai querer dar espaço a outros pensamentos que não sejam os de Deus e a sua alma será invencivelmente pura e quebrará por si mesma, todas as amarras da mente e da matéria, e tornar-se-á serenamente livre. Só este homem pode adorar ao Senhor no seu próprio coração. Para ele, todos os símbolos, formas, escrituras e doutrinas são desnecessárias e não têm nenhuma utilidade. Não é fácil amar ao Senhor desta forma”

Conclusão

O Bhakti yoga é um caminho de difícil travessia, mas essa dificuldade só está no nosso coração, que está coberto por camadas “protetoras” que na realidade fazem é impedir a radiação pura da nossa alma. Neste trecho, Vivekananda descreve dois tipos de pessoas, e neste ponto, identificamos claramente quem é o bhakti yogui.
“Existe muita gente no mundo que está convencida de que só é útil e proveitoso o que lhe proporciona conforto físico ao ser humano. A religião, Deus, a eternidade, a alma, nada disto lhes é útil, porque não lhes angaria dinheiro ou conforto físico… Para aqueles em que os interesses eternos da alma têm um valor muito maior que os interesses fugidios desta vida mundana, para quem a gratificação dos sentidos não é mais que irrefletidos jogos de bebé, para eles, Deus e o amor a Deus formam a única e mais elevada utilidade da existência humana.”
O bhakti yogui entende que na vida, as dificuldades, sucessos, desventuras e tristezas são necessárias para fazer girar a mó que tritura as camadas da nossa personalidade.
“O bhakti yogui perfeito não vai ver mais a Deus nos templos ou igrejas. Ele não conhece lugar onde o possa encontrar. Ele encontra-o no templo, assim como também fora dele, ele encontra-o na santidade do santo, assim como nos ímpios, ou na maldade dos homens, porque ele tem-no sentado na glória do seu próprio coração, como o todo-poderoso inextinguível, luz de amor que está sempre a brilhar e está eternamente presente. “
Vemos o bhakti yogui e vemos alguém puro, santo, praticamente perfeito, e nós, desde a nossa posição longínqua, com todas as nossas dificuldades e defeitos, quase sem possibilidades de lá chegar, temos de iniciar o caminho no autoconhecimento, seguir ouvindo a voz do mestre, a luta por um ideal, os símbolos que nos recordam diariamente o sagrado, entender a nossa devoção, e recomeçar novamente o ciclo para balizar o caminho, Figura 1.

No final de todos estes ciclos que parecem infinitos, segundo Vivekananda, chegaremos à seguinte conclusão,
“No final vem uma Luz resplandecente, na que o nossos Eu inferior parece que se converteu num só com o infinito. O próprio homem se transfigurou na presença desta Luz de Amor, e finalmente é consciente da bela e inspiradora verdade de que o Amor, o Amante e o Amado são UM”.

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