Cittavagga: A Mente, comentário ao Capítulo III do Dhammapada

No Capítulo sobre a Mente (Cittavagga), Buda a compara logo no primeiro verso com a "haste de uma flecha” que, sendo “difícil de dominar”,”volúvel e instável” como as águas de um rio, tem de ser endireitada pelo “homem firme”.
1 Guerreiro Japonês. Domínio Público

Todo o capítulo procura demonstrar que a mente mal dirigida, que é o seu estado habitual, é produtora do mal e, consequentemente, da infelicidade. Como tal, cabe ao seu possuidor dirigi-la, por muito instável que ela seja, produzindo assim o bem e, consequentemente, a sua própria felicidade. 

O Homem é aquele que, pela sua circunstância mundana, utiliza as suas duas mãos – a dualidade com a qual é capaz de entender e trabalhar no mundo – para dirigir e controlar o arco, que é o símbolo da tensão brutal que existe entre o que está em cima e o que está em baixo. Este arco que, em algum momento da história humana foi lançado do céu à terra, é aquilo que nos lembra do caminho e do qual só somos capazes de compreender a sua misteriosa curvatura. Este arco, que quase se tornaria uma trave vertical, não fosse o fio que o mantém assim em dolorosa tensão, subentende a base tencionada da qual lançamos uma mente humana em busca de ideais divinos. 

Guerreiro Japonês. Dominío Púlico

É um objecto sagrado que pode lançar flechas como quem lança notas musicais, pode salvar, pode matar e pode tornar-se inútil, se deixarmos de saber trabalhar com ele. A mente, que assim se lança, por sua vez, depois de catapultada do insaciável mundo dos desejos (pois é do desejo que nasce o querer conhecer de uma mente eternamente insaciável), é a flecha instável que colocamos no centro deste aparelho. Com ela tensionamos o arco ainda mais; com ela aproximamos o céu e a terra; com ela quase que cedemos à tentação de querer pôr toda a unidade à prova, ou matar já qualquer expressão da mesma. Com ela assim preparada a disparar, por meio de uma forma de Fé que é sempre corajosa na sua essência – ou não lhe poderiamos chamar Fé – que nos arranca de uma ideia para outra, que nos faz perceber e querer atingir o alvo, tocar o céu ou repetir a queda. Em suma, fazer o melhor uso possível da dualidade que Deus nos deu, produtora da maior das instabilidades: a mental. 

O disparo da mente, que quisemos comparar a uma certa forma de Fé é, decididamente, um acto corajoso perpetrado pelo menos corajoso dos guerreiros: o arqueiro. Este é aquele que ainda não tem experiência no combate e que é jovem; é aquele que faz tudo à distância, por medo e por incapacidade; é aquele que pode causar as mortes menos dignas. Uma representação da nossa inteligência, ainda em trabalho de parto, e da nossa mente há pouco tempo chegada à infância. Mas como a nossa mente não pode tocar nem o espírito nem a matéria, sem que se anule no processo, tem de lançar-se de longe, com toda a cautela, procurando alcançá-los por meio de um disparo bem dirigido, que depende mais da Fé do que da Esperança.

Budhas, Tailandia. Pikist

 Todos nós temos de começar no lugar onde estamos e todos somos o lugar de onde partimos. Se a flecha vem da aljava de um arqueiro, temos de contar com as suas condicionantes e não esperar outras. Mas, antes um arqueiro inexperiente do que arqueiro nenhum, antes um idealista inexperiente do que ideia nenhuma, antes fé do que medo do escuro, antes uma mente que procura nas trevas o alvo e o ponto de convergência de todas as coisas do que uma mente iluminada pela variedade e contradição das quatro paredes da personalidade. 

A mente é difícil de dominar, sobretudo num mundo tão polarizado, mas a firmeza e a experiência do Homem fazem-na falhar cada vez menos e encontrar, entre todas as coisas, um caminho certeiro. É que a nossa origem divina e vertical puxa-nos com a mesma força e brutalidade com que nos puxa a nossa circunstância terrena e horizontal. Não devemos menosprezar uma em nome da outra, nem querer separar aquilo que assim as mantém unidas. É o fio tenso que as une e que nos permite fazer um uso recto da mente, que nos permite trabalhar na dualidade em busca da unidade e unir tudo aquilo que foi separado. Este fio é a união que vigiamos por toda a vida, aquela que nos salva e tranquiliza, e que só se deverá quebrar na hora da morte, quando não precisarmos mais desta mente pessoal. Se este fio se romper ou se este arco se quebrar, seremos o arqueiro impotente a quem a foice do tempo decretou um fim, incapaz de agir onde e por quem quer que seja, com aparência de vida seremos um cadáver abandonado pelo espírito, sem mente e sem razão. 

Assim sendo, o que nos diz Buda é que a nossa mente deve ser rectificada, dirigida e acalmada, como que sustendo a respiração antes do disparo, apesar de todas as dualidades e de todos os ventos. Esta deve ter uma origem bem manejada e ser lançada com todo o vigor ao alvo, pois é da dualidade do arco, harmonizada pelo fio, que a flecha parte, mas é na unidade do alvo que encontra a sua finalidade, onde poderá ser ponto de circunferência, ou seja, regressar misteriosamente à sua essência. 

Depois de comparar a mente com uma flecha instável, dizendo-nos que esta deve ser tranquilizada e bem dirigida, isto é, usada de forma consciente e firme, Buda passa a compará-la com “um peixe retirado da água” para o exterior, que “salta e estrebucha” e que por este motivo “se deve abandonar o reino de Mara”, da ilusão, da morte e do mal mentais. Isto porque a mente está identificada com este reino, está habituada a nadar nas águas circulares da vida, a seguir as suas correntes sensoriais e a procurar o seu alimento dentro delas, iludida e vagueando na única rotina que conhece, como se dormitasse ou estivesse morta, não aceitando, por isto, que a tentemos dirigir ou estabilizar. A mente deve, por muito que ame a felicidade e tranquilidade mundanas das águas horizontais, e por muito que se revolte contra aquilo que é a nossa Vontade, ser arrancada (pescada) destas águas. 

Batalha de Budha com Mara. Creative Commons

Isto também nos diz que, embora o trabalho de firmar a mente resulte de um esforço individual, este não é solitário, pois podemo-nos puxar uns aos outros, ou seja, alguém pode “pescar-nos” durante a vida, salvar-nos com a sua experiência e bondade. A nossa mente não deve esperar que alguém a salve das águas do mundo, mas deve reconhecer todo aquele que, conscientemente ou não, a puxa para terra firme ao longo da vida. Ou, simplesmente, diz-nos que a mente é retirada da água por algo que lhe é superior, pela nossa Inteligência ou Vontade. Mas como isto é retirar a mente da sua natureza material, ela, ao sair da sua circunstância e dos seus dogmas amados, como o peixe que sai da água, agita-se numa ânsia de regressar ao que já conhece ou procura, com dificuldade, adaptar-se a este novo meio, pois não sabe ainda como se movimentar fora do mundo das ideias que conhece, sem estar limitado e condicionado pelas correntes da vida e da morte, pela ciclicidade e pelo pensamento redondo e repetitivo das águas. 

O disparo de uma flecha é semelhante, até certo ponto, ao disparo de um peixe, assim como o arco que ambos desenham ao saírem do seu primeiro elemento em direção ao segundo. No caso da flecha, esta deve atingir o alvo, no caso do peixe ele deve atingir terra firme e permanecer calmo. O peixe que salta fora de água em busca de uma verdade mais elevada procura, na realidade, terra firme, tal como faz a mente, que se lança para fora destas águas quotidianas na esperança de “tocar” alguma realidade firme, mas ao tocá-la, ao percebê-la, vê-se obrigada a adaptar-se a este novo meio e a deixar de desejar aquele no qual se encontrava segura. Tanto o embate da flecha no alvo, como o encontro da terra fora de água, constituem para um peixe ações violentas, símbolos de conflitos internos, sempre necessários, que revelam de uma ou outra forma os movimentos da mente em busca de ideias elevadas, lançando-se a um alvo pretendido ou a uma terra firme que pressente. Tanto um símbolo quanto o outro nos levam invariavelmente à ideia de estabilização e de finalidade.

Perante este estrebuchar da mente, aproveitando o eco da metáfora do peixe, diz-nos Buda nos dois versos seguintes que, na realidade, é bom controlar assim a mente, que a felicidade vem de uma mente dominada e vigiada, por muito que ela estrebuche, pois ela é “difícil de subjugar”, “difícil de detetar”, “veloz” e “subtil”, como um peixe deixado no seu ambiente natural ou como uma flecha que abandona o seu arco. A flecha ou o peixe podem ser “disparados” como a mente em todas as direções do espaço, ampliando a sua esfera de ação, mas o que aqui se diz é que a mente deve tomar uma direção e uma finalidade, em vez de ser deixada a vaguear, e que daqui advém a felicidade. 

Museu Reitberg. Pikist

Não vemos nem controlamos a mente enquanto não a arrancarmos daquilo que ela conhece e dos locais que se habituou a habitar, enquanto não a dirigirmos. Mas se a conseguirmos ver e controlar, levamo-la aonde queremos e experimentamos alguma forma de felicidade. O peixe que deixamos de ver debaixo das águas, por pena ou chantagem, o termos deixado regressar da terra firme ao rio, e a flecha que se perde, ou ainda que nos atinge, por não ter sido detectada, causam-nos repetidamente a perda ou a dor, como tal, a infelicidade. Por outro lado, diz-nos Buda que a mente “sem forma” deambula longe e sozinha, mergulhada nos seus próprios pensamentos, tecendo pensamentos solitários, um de cada vez, incapaz de os congregar e incapaz de os abandonar, no fundo, incapaz de lhes dar uma forma ou propósito definitivos. Ela permanece “na gruta (do coração)”, nas águas obscuras, talvez no meio das sombras dos desejos e das paixões, aos quais sempre regressa e aos quais responde. 

Só quando controlar-mos esta mente, diz-nos Buda, é que nos libertaremos da morte e da ilusão. Esta mente sem forma, que não pode (ou não deve) ser limitada pela nossa própria forma, tem um comportamento narcisista, é a causadora de todos os sofrimentos humanos, pois está voltada para dentro, onde encontra a solidão, a tristeza e a sua própria pequenez. Se, por outro lado, a mente voltar para fora de si mesma, encontrará o outro, encontrará sempre algo maior, encontrará Deus, tornar-se-á humilde e encontrará a sua finalidade passando a ser altruísta na sua expansão em vez de egoísta na sua contracção. Mas é necessária muita determinação interior para levar a mente a largar as pequenas ideias horizontais e a abraçar os Ideais verticais. 

De facto, “a sabedoria nunca será perfeita na mente sem determinação”, nessa que deambula longe e sozinha, voltada sobre si mesma, como um peixe inconsciente, aparentemente desprovido de memória e inconsciente dos perigos que poderia evitar. Nem a sabedoria será perfeita naquele que “não conhece o Bom Ensinamento e cuja fé oscila”, pois o bom ensinamento é sempre dirigido, unificado, vertical e convergente, está fora da circularidade das águas, da alteração das marés e das correntes, das quais a mente tem de sair através de uma investigação zenital e a fé é aquilo que a faz sair destas águas, que mantém o arco tensionado, é a devoção corajosa que impulsiona a mente em direção, não ao que vê, mas ao que desesperadamente procura. 

A sabedoria que aqui se refere só é possível de alcançar, ou tornar-se perfeita, quando a mente se pôs ao serviço de algo que a transcenda, ou seja, quando a mente está determinada e bem dirigida ao alvo, levada pela investigação e pela fé. Aqui desaparece o mal, a infelicidade e, sobretudo o medo que resiste e que nos paralisa. Pois “não existe medo” do desconhecido nem dúvida para “aquele que despertou, cuja mente não está embriagada (pela luxúria) nem aflita (pelo ódio)”, para aquele que superou o “mérito” e o “demérito”, ou seja, para aquele que superou a dualidade do arco, a ilusão das águas e o narcisismo da gruta. 

Monge Budista. Pixabay

O medo que produz a instabilidade da mente e a sua contração interior não pode existir no seu despertar, pois foi corajosamente dada à luz e amavelmente posta em movimento sobre a superfície das águas. Chegados a este ponto, é-nos dito que aquilo que a mente deve, assim desperta, fazer é procurar compreender a forma mayavica que habita, a condição “frágil como um vaso de barro” do seu corpo, e tratar de fortalecer “esta mente como uma cidade bem fortificada”, para que não seja vítima dos ventos emocionais e temporais sobre os quais gravita. Ao compreendermos a natureza temporal e transitória do nosso corpo e da nossa personalidade, que se estilhaça sempre perante o vento do espírito, usando a mente como uma fortaleza, podemos fazer uso da “espada da sabedoria”, para nos libertarmos da ilusão e da morte. 

No entanto, diz-nos Buda que nenhuma conquista assim realizada deve gerar novo apego, pois existe uma misteriosa atração do espírito pela matéria, da mente pelo seu reflexo e torna-se difícil manter a mente desapegada, para que se continue a libertar o mais possível do peso do quotidiano e da personalidade. A mente firme que se desapega não deve trocar, portanto, uma morte por outra, uma ilusão por outra, um mal por outro. Ou seja: devemos ter alguma cautela no ato de identificarmos uma “máscara” transitória e de a vencermos, para que não chamemos essência à “máscara” seguinte. Devemos ceder à tentação de nos apegarmos à nova “personalidade” que surge detrás desta primeira. É o mesmo com a investigação da verdade, vamos largando uma verdade para alcançarmos outra maior, sem nos apegarmos a nenhuma, salvo para tomarmos balanço e mantermos o equilíbrio, da mesma forma que um pé se sustém num degrau para subir a outro, sempre comprometidos com a subida e não com o degrau. 

Em todo o caso, o que Buda nos pede é que deixemos de nos identificar mentalmente com o corpo: “Cautela! Em breve este corpo se deitará sobre a terra, ignorado e sem vida, como um tronco inútil”, portanto, não façamos depender a nossa fortaleza dele, nem daquilo que depende dele, mas sim daquilo que é duradouro e verdadeiro. No entanto, esta fortaleza mental e esta espada da sabedoria que podemos usar num “combate” interno, onde a mente vence a ilusão, age especialmente sobre si mesma mais do que sobre os outros. Isto é: esta mente serve para nos lançarmos ao outro, para o conhecermos e compreendermos, mas não serve, ou não deverá servir, para atacar outra coisa que não a nós mesmos. Alerta-nos Buda que “uma mente mal dirigida inflige a si mesma um dano ainda maior” do que aquela que se pode gerar entre dois inimigos. Dizendo-nos também que, por outro lado, “ninguém pode fazer um bem maior do que cada um a si próprio, com a sua mente bem orientada”. Assim sendo, a mente pode ser ou a nossa melhor aliada ou a nossa pior inimiga.

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