Comentário ao Capítulo VIII do Dhammapada – Milhares (Sahassavagga)

Os versos do Dhamma (em páli; Dharma, em sânscrito) podem ser considerados como conselhos do quotidiano, uma vez que reportam a problemas da vida com que todos os seres humanos se deparam. Oferecem à humanidade ensinamentos do Buda, transmitidos de forma sublime e extremamente simplificada, para a libertação do sofrimento. E quem não gostaria de se libertar do sofrimento? Não apenas milhares, mas, com certeza, milhões de almas…

A simplicidade da sua comunicação não deverá ser considerada reducionista. Tratam-se de cânones espirituais, instrutórios, de profunda seriedade moral e beleza singular. Qualquer que seja o nível de desenvolvimento espiritual de cada um, ou as suas capacidades de entendimento, os ensinamentos foram expressos de forma a alcançar cada ser humano. E quem os seguir, quem os colocar em prática na sua vivência, alcançará a paz, ou seja, o bem-estar humano e espiritual, o renascimento favorável na próxima vida (considerando a lei do Kamma – em sânscrito, Karma) e a realização da felicidade, com o objectivo último do caminho a percorrer e do seu fruto.

“Melhor do que mil palavras inúteis é uma palavra útil, com a escuta da qual, se alcança a paz. Melhor do que mil versos inúteis, é um verso útil, com a escuta do qual, se alcança a paz. Melhor do que recitar uma centena de versos sem sentido é o recitar um verso do ‘Dhamma’, com a escuta do qual, se alcança a paz.” (versos 100 a 102)

Muitas palavras levam-nos à superficialidade, mas poucas e assertivas têm o poder de levar ao íntimo. Os grandes ensinamentos ancestrais foram transmitidos através de parcas palavras. Como exemplos, encontram-se os versos do «Dhammapada», do «Tao te Ching», ou os grandes e intemporais Mitos, que têm a capacidade de concentrar uma miríade de sabedorias expressas numa primordial alegoria.

É mais útil colocar atenção numa só coisa, se nela nos colocarmos inteiros, em vez de dividir-nos em partes e por várias atenções, onde não estaremos inteiros, mas fragmentados. Vivemos a vida insatisfeitos, na procura por algo que nos realize, que preencha o vazio que muitas vezes sentimos no peito. E para colmatar esse vácuo, procuramos a diversidade e a quantidade, na tentativa de que, no meio de tanta coisa, algo nos sirva ou seja profícuo a um propósito que não conseguimos identificar. É como lançarmos a mão num areal e agarrarmos um punhado bem grande de areia. Com a ganância da abundância, de milhares de grãos de areia (entenda-se o paralelismo com experiências ou momentos), ou na expectativa de que no meio de tantos, algum seja diferente, especial…. E quanto mais apertamos aquele punhado, com a avareza de um eupático, mais a areia se esvai, mais a dor se instala, somando a culpa de tudo perder, quando nada havia sido ganho.

Na realidade, o que ganhámos, o que poderemos dizer que alcançamos, será o particular, apenas aquele grão de areia pelo qual detemos a nossa observação e atenção plena. Aquele grão de areia que sobressaiu no meio de tantos outros e que a ele nos inclinamos com delicada devoção. Aquele grão pelo qual realizamos uma subtil vénia, esse movimento curvo disfarçado de abaixamento, é o que na verdade nos eleva…. Quantos movimentos da nossa vida têm a mesma singularidade de uma vénia pouco pronunciada, mas em tudo declarada? Há tanto no mundo pelo qual nos deveríamos curvar: o sol, a terra, a Natureza, a vida em si… e tantos outros milhares de peculiaridades do quotidiano.

No entanto, não nos devemos perder na descrição dessas singularidades. Não são esse tipo de palavras que elevam o homem, mas as parcas e dirigidas do centro, a par de acções, sentimentos e pensamentos conscientes. Para além do número, os versos apontam a questão da utilidade. Devemos saber discernir o que é útil, ou inútil, na busca espiritual e que espécie de serventia damos às coisas pelas quais nos detemos. É, por exemplo, na recta condução do tipo de assuntos que levamos a discussão nos nossos círculos de relacionamentos, que cuidamos dos mais elevados objectivos espirituais do ser.

“Embora se possa conquistar mil homens mil vezes em batalha, contudo aquele que se vence a si mesmo é sem dúvida o mais nobre dos vencedores. A auto-conquista é de longe melhor que a conquista de outros. Nem mesmo um deus, um anjo, ‘Mara’ ou ‘Brahma’ pode transformar em derrota a vitória de uma pessoa com auto-domínio, sempre com controlo na conduta.” (versos 103 a 105)

A maior vitória que um grande e nobre guerreiro pode alcançar, não é vencer milhares de batalhas ou homens, mas antes a disciplina e domínio da própria mente e correcção da sua ignorância. Esta é a supremacia do triunfo de quem se vence a si mesmo. No pensamento Budista, Attadantassa posassa, designa a pessoa que se conquista a si mesma, tendo origem num dos seus principais princípios, Anatta, ou seja, “não-eu”.

O primeiro sermão de Gautama, o Buda, no parque de veados. Creative Commons

Se o Eu é apontado como a causa do sofrimento humano, a inexistência ou negação desse Eu, seria a solução para a ausência desse sofrimento. Para fazer emergir esse “não-eu”, precisaríamos de nos dominar por completo. Neste sentido, os ensinamentos do Budismo são fundamentados em “quatro nobres verdades”, descritas em volta da superação do sofrimento.

Este sofrimento, movido pelo impulso volitivo próprio da condição humana, pela força dos desejos, expectativas e apegos gerados no Homem, caracterizam-se por dores polifacetadas, originadas no contacto dos sentidos com o mundo exterior, com o que é impermanente, ao qual se subjuga inconsciente e voluntariamente. Este condicionamento retira ao Homem o sentimento de si, o poder de domínio sobre si mesmo e da consciência do seu mundo interior e permanente. Se formos “ao fundo da alma”, à essência, descobrimos que existe algo que jamais sucumbe às oscilações mundanas.

A mente é a principal responsável pela personalidade. Esta define uma identidade com a qual nos reconhecemos e defendemos – o Eu Inferior. Se não a domarmos, ela comportar-se-á como uma espécie de animal selvagem, desumanizado e permeável às inconstâncias características da mente inferior movida por desejos. No entanto, o ser humano identifica-se completamente com a personalidade, criando sempre a ilusão de um “Eu”.

Na «Bhagavadgita», o conceito de “não-eu” também está presente. “O não-ser não acede à existência, o ser não cessa de existir.” Considerando a constituição septenária, entendemos que a mente inferior ou mente de desejos (Kama Manas), não é real, pois não corresponde à essência do ser humano, que é permanente e imutável. Esta essência é expressa através da mente superior ou mente pura (Manas), que define o “ser”. “O homem que, abandonando todos os desejos, vai e vem, livre de laços, já não diz: ‘É meu’, nem ‘Eu’; esse acede à paz.” Ou seja, quem abandona todos os desejos e vive desapegado e não se identifica com um ser ou personalidade (não tem nenhuma noção de “eu” ou “meu”), é livre de sofrimento e alcança a tranquilidade.

A contribuir para o sofrimento, encontra-se também a manifestação dual característica da matéria. A dualidade intrínseca ao mundo físico surge como uma necessidade de harmonização dos opostos. Só que a mente, escrava de anseios, cria a ilusão de separação. Este logro, contamina o homem e o seu sentimento de si. Daí que a sua constante vigilância, controlo e melhor entendimento de si, constitui o maior desafio do ser humano – conhecer-se a si mesmo, superar-se e até mesmo vencer-se, sem que, em oposição, tenha de existir um derrotado ou aniquilado. Deste modo, a mente, poderá definir-se como o maior aliado ou, quando indisciplinada, o maior inimigo do Homem. A existência humana é impreterivelmente pautada pela constante busca de equilíbrio do movimento entre a polaridade ou dualismo. Precisamos superar-nos para nos elevarmos da mente inferior (animal ou primitiva), para dar lugar a uma mente superior, mais próxima do divino e dos arquétipos. E de que forma? Por meio do exercício de uma conduta e recta acção, proporcionadas pelo seguimento do nobre caminho Óctuplo, que corresponde à quarta nobre verdade.

“Mesmo que mês após mês, mesmo que por cem anos se oferecessem sacrifícios aos milhares, contudo, se apenas por um momento se reverenciassem aqueles de mentes aperfeiçoadas, essa honra é sem dúvida melhor do que um século de sacrifício. Mesmo que se observasse o sacrifício do fogo na floresta por cem anos, contudo, se apenas por um momento se reverenciassem aqueles de mentes aperfeiçoadas, essa reverência é sem dúvida melhor do que um século de sacrifício.” (versos 106 a 107)

Não fará parte do sentido da vida que o homem viva como um sacrificado. Mais vale um único sacrifício, consciente e consentido, com o empenho e a dedicação de um santo, para que sejam alcançadas graças e virtudes. O aperfeiçoamento da mente, tão acentuado nos ensinamentos do Buda, é obtido através de acções de pureza interior e de uma cândida conduta, e não de acções exteriores que não tem qualquer valor. 

Ilumina-se aquele que desenvolve a própria mente, pois ela é a criadora do que somos. Uma mente que não seja obediente, torna-se instável e difícil de dominar. Logo, é fundamental o seu aperfeiçoamento, e não a perfeição, através de uma atenção plena e de uma assídua auto-disciplina.

“Quaisquer presentes e oblações, que alguém ofereça neste mundo por um ano inteiro em busca de mérito, nada disso vale, nem um quarto do mérito obtido por reverenciar os Justos, o que é verdadeiramente excelente. Para aquele sempre pronto a reverenciar e servir os mais velhos, estas quatro bênçãos resultam: vida longa, felicidade, beleza e poder.” (versos 108 a 109)

Não nos devemos deter no fruto da acção, mas antes na acção livre ou desinteressada de qualquer proveito, tal como cita a Bhagavadgita: “Nunca tomes como motivo o fruto da tua acção; não cries laços com o não-agir.” Para além do desapego aos seus frutos, o caminho do desenvolvimento imaterial deve basear-se na acção – o Karma yoga como disciplina espiritual. A não-acção ou a inércia constringem o ser, uma vez que viver ou pensar significa actuar.

A Bhagavadgita num manuscrito do século XIX. Domínio Público

E para alcançar bênçãos, há que honrar e servir os anciãos, pois estes possuem maior sabedoria e desenvolvimento espiritual. Mesmo na nossa cultura ainda persiste, de uma forma ou de outra, este tipo de honras vertidas na sociedade, através da superioridade da idade ou da superioridade de carácter.

“Vale mais viver um dia virtuoso e meditativo do que viver cem anos, imoral e descontrolado. Vale mais viver um dia sábio e meditativo do que viver cem anos, tolo e descontrolado. (versos 110 e 111)

O processo de “purificação” da mente, caracterizado pelo aquietamento dos sentidos, é a absorção meditativa. Embora sendo gradual e temporário, este estado meditativo, de maior lucidez e atenção plena (Sati), um dos sete factores da iluminação, promove um elevado grau de tranquilidade do ser. Aquele que se controla e disciplina a si mesmo, mantem a calma e a concentração, virtudes que contribuem para o fortalecimento da equanimidade (Upekkha), outro factor da iluminação, também considerado um dos quatro estados sublimes da mente e uma das dez qualidades desenvolvidas por um Bodhisatta (ser iluminado).

Vale mais viver um dia a ver a Verdade Suprema do que viver cem anos sem nunca ver a Verdade Suprema.” (verso 115)

A Verdade Suprema refere-se ao Supremo Dhamma, os nobres ensinamentos do Buda ou o caminho para transcender, que inclui quatro estágios da iluminação para culminar no Nibbana (Nirvana).
Nota: Transcrições do «Dhammapada», da edição das Publicações Mosteiro Budista Theravada, na tradução portuguesa de Bhikkhu Dhammiko. 2013. Foram consultadas outras publicações para comparação e interpretação.

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