Comentários ao Capítulo IX do del Dhammapada – Papavagga: O Mal

“Bem e harmonía, mal e desarmonia são sinónimos”

H. P. Blavatsky

Este capítulo do Dhammapada fala-nos de como o mal encontra eco nas ações do ser humano. Como se de um junco se tratasse, a personalidade humana pode inclinar-se tanto para o bem como para o mal, segundo o vento que sopre que, no caso, não pode ser outro que não a própria vontade. Vários versos do Papavagga, alertam-nos de que é a própria consciência que faz a vez de peso na balança das nossas decisões, deixando portanto a responsabilidade do fruto das nossas ações ao próprio ser humano que determina assim o seu futuro. Prova disso são estes versos que nos dizem:

“Se uma pessoa cometer o mal, que ela não o repita. Que não encontre aí prazer, pois penosa é a acumulação do mal.”

“Se uma pessoa fizer o bem, que o faça repetidamente. Que aí encontre prazer, pois abençoada é a acumulação do bem”

Em ambos os casos a acumulação, tanto do mal como do bem, traduz-se num futuro karma, a conhecida Lei da Ação e Reação que, baseada numa justiça natural, restabelece o necessário equilíbrio no caso do mal ou devolve as graças derramadas no caso do bem. A diferença fundamental entre estes dois versos é a advertência de que não se deve frequentar o caminho do mal pois não são doces os frutos das más ações e constituem um obstáculo para a nossa alma que se acorrenta cada vez mais. Enquanto que no caminho do bem, as ações generosas e altruístas, não acorrentam e sim libertam a alma da sua prisão de egoísmo; constituem a felicidade do cumprimento do Dever e a realização do Justo. 

Outro ensinamento contido nestes versos é a necessidade de se estar atento aos nossos estados de consciência e às sementes que vamos deixando na nossa alma. O bem e o mal estão latentes no nosso interior, talvez não em termos iguais, uma vez que o nosso próprio desenvolvimento evolutivo terá determinado se há mais de um do que do outro; mas o que desencadeia uma coisa ou a outra, o bem ou o mal, são as nossas escolhas. E a repetição dessas escolhas. Daí ser necessário estar atento porque, ainda que uma má ação, realizada de forma esporádica, possa parecer inofensiva, está a deixar a semente do mal, que apenas precisa de um terreno fértil para florescer. E o que faz germinar estas sementes são os vícios da alma, a desatenção e o abandono interior. Dizem os versos:

“Que não se pense levianamente acerca do mal, dizendo: “A mim ele não me tocará.” A água que cai em gotas enche um cântaro. Da mesma forma, o tolo, pouco a pouco, enche-se de mal.”

“Que não se pense levianamente acerca do bem, dizendo: “A mim ele não me tocará.” A água que cai em gotas enche um cântaro. Da mesma forma, o sábio, pouco a pouco, enche-se de bem.”

Manter uma vida interior fértil e cuidada ajuda-nos a manter a nossa personalidade coesa, forte e sem fendas pelas quais a tentação possa entrar. É o que nos diz o verso  “se na mão não existe nenhuma ferida, até veneno nela pode levar. O veneno não afeta quem está livre de feridas. Para quem não faz o mal, não existe prejuízo”, onde se entende que não estar errado é o resultado de uma boa escolha. Estes ensinamentos também nos falam da necessidade de manter o bom senso, pois é lógico pensar que cada um quer o melhor para a sua vida, afastando-se dos problemas e da escuridão representados pelo mal: “Assim como um comerciante com uma escolta pequena e grande riqueza evitaria uma rota perigosa, ou como quem deseja viver evita o veneno, da mesma maneira se deve evitar o mal”.

Justiça. Pixabay

Em todos os versos deste capítulo, podemos observar a importância de nos mantermos dentro do caminho do Dharma, que é o único caminho que o ser humano pode seguir para se elevar lentamente, através das várias encarnações, e chegar ao topo da montanha onde se encontra a Sabedoria. A maneira como fazemos este caminho depende de cada um, daí a Lei do Karma, que redireciona os nossos passos cada vez que nos desviamos do Caminho ou, como dissemos antes, recompensando as boas ações. Mas seja qual for a cor dos nosso actos, é impossível fugir desta Lei, tudo fica registado na Memória da Natureza, que está sabiamente organizada e que tudo reajusta segundo as necessidades da mónada. Como diz o verso “Nem no céu nem no meio do oceano, nem entrando nas fendas da montanha, não há lugar algum no mundo, onde se possa libertar dos resultados das más ações.”

Podemos esconder a cabeça na areia, como a avestruz, para não ver nem reconhecer o que fazemos, dizemos ou pensamos. E mesmo o que deixamos de fazer, dizer ou pensar. Mas isso não nos isenta da responsabilidade. As sementes do bem e do mal fazem parte da natureza humana, como uma dualidade necessária para a nossa própria evolução. São dois caminhos, o que eleva e o outro que perde; o que constrói e o que destrói. Um que conduz à harmonia e o outro à dissolução. É a encruzilhada da vida.

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