Conceitos Filosóficos dos Upanishads

Os Upanishads com os seus hinos, diálogos, poemas e explicações são o corpus de filosofia mais formidável e, ao mesmo tempo, mais antigo que chegou até nós quase intacto.
1 Adi Shankara, comentarista dos Upanishads. Domínio Público recortada

Na realidade, a aprendizagem oral, memorizada, durante mais de mil anos serviu paradoxalmente de conservação pois não se confiava na letra escrita sob materiais perecíveis, sendo necessário forçar as capacidades mentais para assegurar a sua continuidade, como no famoso livro Farenheit 451.

A filosofia europeia, no século XIX, especialmente a filosofia alemã, elevou-se mas também perdeu-se um pouco, no idealismo subjetivo transcendental, auxiliada por estes textos.

De qualquer forma, quem abre a porta do misterioso Oriente de uma maneira decisiva, revolucionando o século XX é Helena Petrovna Blavatsky (1831-1891) que, direta ou indiretamente, muitos dos conceitos da filosofia védica, incluindo os Upanishads, são familiares para todo o mundo ocidental.

Helena Blavatsky. Domínio Público

Hoje, quase todos ouviram e conhecem o significado básico do Karma, a Lei da Ação e Reação; Dharma, a Lei Universal da Ordem, Verdade e Justiça; Maya, a ilusão da existência, que apresenta-se como um sonho efêmero no meio da eternidade.

E são cada vez mais familiares os conceitos das Três Gunas, ou qualidades da matéria que compõem em diferentes proporções tudo o que existe em todos os planos da consciência; Atma, o Eu verdadeiro e eterno; Brahman,  o Absoluto, a realidade; Sat, Chit e Ananda (Ser, Consciência e Felicidade perfeita, o Triplo Logos de Platão);  Samsara, a peregrinação através das infinitas vidas ou reencarnação, a sucessão de tudo o que nasce, vive e morre; Budhi, a luz do discernimento, sabedoria ou inteligência pura; o AUM ou símbolo de Deus na sua Expressão Tripla (Brahma, que se abre; Vishnu que preserva e Shiva que destrói, fecha e renova);  Prakriti ou natureza material e Purusha, o Espírito; Moksha ou libertação definitiva, equivalente ao Nirvana ou à extinção do eu ilusório; Eka Advaita, o Uno sem segundo, e um longo etecetera.

Todos estes termos, cada vez mais atuais na nossa língua, nasceram nos Vedas e nos Upanishads e foram o esqueleto filosófico e espiritual da cultura Indiana durante, pelo menos, 3000 anos. Como é lógico, muitos destes conceitos experimentaram transformações desde os hinos védicos e durante o hinduísmo, ou ainda, em diferentes matizes, no Jainismo e Budismo, mas não deixaram de ser conceitos básicos, definitivos, quase como os números da matemática.

No entanto, a sua linguagem não é assim tão formal (esotericamente sim, é matemático) pois os filósofos que as utilizavam não ficavam presos nela. Como acontece hoje, em grande parte com a filosofia ocidental, onde a rede de palavras, de tão puramente abstratas, já não significam nada nem existe uma forma de as referir com a natureza da vida. Todos estes termos, desde o seu significado em sânscrito até ao uso em diferentes contextos, aludem a imagens mentais muito claras, símbolos ou metáforas daquilo que indica o céu da ideação pura. Mas também nas suas explicações reina a alegoria, a comparação, a analogia que, como H. P. Blavatsky nos lembra, é a chave que permite abrir as portas do mistério: “Assim acima como abaixo”.

Por exemplo, as Três Gunas são chamadas de “cabra de tres cores” ou simplesmente enumeradas nos Upanishads como Vermelho (Rajas – Excesso), Negro (Tamas – Defeito, Inércia) e Branco (Satva – Justo Meio), curiosamente as três cores da Alquimia.  

Aludindo à luz e energia aprisionada na matéria, como no carvão (Tamas), onde depois da sua dolorosa libertação convertida através do fogo (Rajas) pura, feliz e já sem correntes, banha com a sua alegria tudo quanto toca, outurgando a Reta Medida (Satva).  Os três símbolos do estado em que tudo se encontra, com diferentes proporções destas três qualidades. Assim como a infinidade de cores é traçada pelas diferentes proporções de três cores primárias, a infinidade de qualidades, ações, objetos, pensamentos, emoções, etc, etc, é medida e nasce das diferentes proporções destes Três Gunas. A própria Trimurti, ou os Três Deuses, estão associados a eles: Shiva, deus dos ascetas (Tamas), Brahma, o criador do mundo (Rajas) e Vishnu, o Conservador, a bondade de Satva.  Três deuses que, como diz o Upanishad, foram e são um, e convertem-se em 8, em 11, depois 12 e logo infinito.

Shiva, Vishnu e Brahma. Domínio Público

O conceito de Purusha traduz-se como “espírito” que provoca na matéria (Prakriti) todas as suas transformações evolutivas, como uma bailarina perante o sujeito que olha para ela. Como nos lembra a Doutrina Secreta, Purusha ou Pensamento Divino é a condição de sujeito da própria existência e Prakriti a condição de objeto ou fundamento. Purusha é coxo e Prakriti cega, devendo agir em conjunto e, nada são, na vida manifestada um sem o outro. No entanto, em sânscrito, Purusha significa “homem”, e é assim muito semelhante a Parashu (Machado de Duplo Fio) como no mito grego em que Ares Dionísio constrói o universo com movimentos espirais, cavando no caos da matéria primordial. Purusha nos Vedas é representado, num hino, como um gigante de mil cabeças e mil pés que é sacrificado e desmembrado para dar nascimento ao mundo, como o gigante Ymir na religião escandinava (que também é indoariana). Na verdade, significa o mesmo que o Adam Kadmon da Cabala, é o Homem Celestial ou a Pirâmide de Arquétipos ou Pensamentos Divinos, eternos, que assumem forma no universo que nasce, vive e morre.  Mas a imagem é muito gráfica. Tal como acontece com o ADN que identifica o ser humano e, com as substâncias químicas que o gestam, poderíamos gerar tudo o que existe no universo e vive na natureza (se não tudo, grande parte). As unidades ou estruturas formais que permitiram que se manifeste no ser humano, o Microcosmos, são os mesmos que abarcam o infinito do Cosmos. Como no filme Missão a Marte, excelente, a propósito, em que o ADN de um único marciano teria gerado, numa Terra quimicamente preparada, toda a natureza viva da Terra.

Budhi, que em sânscrito significa “luz”, é a luz espiritual, o discernimento, a inteligência que não nos permite perder no labirinto da vida e faz que não sucumbamos diante das suas dificuldades. É a Voz Interior ou a Consciência que, para além de nosso raciocínio, verdadeiro ou falso, sempre aponta para o rumo como uma bússola, independentemente de a seguirmos ou não.

No Taitiriya Upanishad, Budhi é comparado a um pássaro, em que sraddha (fé firme, determinação) é a sua cabeça, a asa direita é a ordem cósmica (rita), a asa esquerda a verdade (sathya), o próprio corpo é mahat (literalmente “grande”, o princípio da Consciência Universal ou “verdadeira natureza do Ser”), a sua cauda é yoga (que significa “união”, mas que aqui deve significar sujeição das potências inferiores). 

Que discurso filosófico num único símbolo! Budhi é o Cisne no interior da alma, ou a Águia da nossa verdadeira natureza na jaula do espaço e do tempo e das limitações do karma, a alma divina. Nos Upanishads encontramos o jogo de palavras que ao repetir sucessivamente Sah (Ele, isto é, Brahman) e Aham (“Eu”) dá origem à palavra Hamsa, cisne, de eternidade, que gera o Hamsa gayatri, que se traduz:

Ó Mestre! Que cheguemos a conhecer-te!

Que possamos meditar no Mestre Supremo!

Que este Mestre nos conduza!

Hamsa Damayanti. Domínio Público

Este Mestre é o Eu Divino, Atma-budhi irradiando a sua luz desde o coração e vivificado na presença daqueles que nos guiam pelo caminho, com quem misteriosamente chega a identificar-se

E se Budhi é a luz divina, quem a irradia é Atma, o eu interior e último, o centro da nossa existência para além de toda a separatividade e toda a sombra, o “Um-apenas-Um” que é ao mesmo tempo a raiz do universo (Brahman). O discurso do Bhagavad Gita sobre Atma é sublime; nem o fogo, nem a água, nem as armas de metal ou o vento podem feri-lo e está além de todo o elogio ou crítica, de toda definição ou qualidade.

No Mundaka Upanishad é dito sobre ele:

“O olho não o pode ver; a mente não o pode captar. O Ser imortal não tem casta nem raça, nem olhos nem orelhas, nem mãos nem pés. Os sábios dizem que este Ser é infinito no grande e no pequeno, eterno e imutável, a fonte da vida”.

E sobre a vida como uma corrente, que Platão chama devenir, a sucessão de momentos, em cujas ondas tudo nasce, vive, desenvolve e morre, o rio que o budismo diz ser necessário atravessar no barco de uma mente firme e sem dúvidas para chegar à outra margem, o Nirvana; esta corrente ou sucessão de presentes sem realidade é chamada nos Upanishads de “Samsara”. E nestes mesmos livros é comparada a uma roda, a Roda da Vida (já vemos onde nasceram símbolos que são comuns em mais de três mil anos de história e em todo o mundo):

“Este vasto universo é uma roda, a roda de Brahman. Nele, todas as criaturas estão sujeitas ao nascimento, à morte e ao renascimento. Dá voltas e voltas e jamais para.”

Roda de Samsara. Creative Commons

Svetasvatara Upanishad:

Como a roda do Sol, em cuja luz tudo nasce, vive e morre, ou a Roda da Galáxia, a nossa, a Via Láctea que, segundo a nossa Cosmologia gira a cada 220 milhões de anos arrastando a infinidade de estrelas naquilo que é um simples piscar de olhos da eternidade, como tudo o que vive nesta samsara.  

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