Contributos fundamentais de H. P. Blavatsky

CONTRIBUTOS FUNDAMENTAIS DE H. P. BLAVATSKY


Desde a minha primeira juventude, há mais de quarenta anos, os ensinamentos de H. P. Blavatsky, vertidos através dos seus livros editados e de cadernos e apontamentos de tiragem limitada, fascinaram a minha alma e a minha inteligência. Os seus conhecimentos pareceram-me –e ainda me parecem– verdadeiramente colossais, de uma omnibrangência e de uma profundidade incríveis para alguém nascido no materialista século XIX e não no Século de Péricles.

Mas um filósofo, se quiser sê-lo e procurar a verdade onde ela se encontrar, deve ter em atenção as suas simpatias e as suas antipatias, pois estas atuam como verdadeiras lentes coloridas entre o observado e o observador. Por isso, quero pôr neste artigo os conhecimentos e as teorias fundamentais que H. P. Blavatsky nos deixou, necessariamente resumidos e sem comentários. Numa obra tão vasta, complexa e desordenada como a dela, é muito difícil extrair uma lista de temas, mas vamos tentar.


DEUS
Explica-nos, repetidamente, que esta grande perceção mística daquilo a que chamamos Deus é imanente ao estado humano, não concebe homens ateus, pois a perda da captação do Divino levaria o ser humano a um estado de hibernação espiritual e a sua humanidade seria somente potencial. Explica de que maneira os diferentes povos, em épocas distintas e regiões dissímeis, revestiram com a sua própria forma de vida essa perceção mística.
E que os confrontos religiosos são frutos podres da cegueira humana, pois, aqueles que poderíamos denominar de Livros Sagrados, mesmo nos poucos originais que nos ficaram deles, não se contradizem. Deste modo, os homens do deserto imaginam um inferno quente e os das periferias polares, vêem-no como escuro e gélido.

Para H. P. Blavatsky não existe um Deus pessoal. A sua posição é nitidamente panteísta. Tão-pouco acredita que alguém se possa apropriar do facto de representar Deus sobre a Terra. Melhor, afirma que qualquer ser humano, à medida que vai despertando para a parte espiritual, participa cada vez mais nessa Essência Divina e, portanto, percebe a sua Presença.

Helena Petrovna Blavatsky. Creative Commons

Deus, se nos referimos a Aquilo, é inominável com nome próprio e inconcebível racionalmente, é um Mistério. O homem somente pode entender o inteligível e, assim, dá atributos a Deus muito parecidos aos que, em cada época e lugar, foram considerados como melhores. E chegou-se a tal extremo, que muitos povos afirmaram que Deus lhes pertencia e que havia povos eleitos, convertendo os seus inimigos em povos malditos aos quais esse “Deus” de uso particular, afogava, pisava, queimava, destruía.

H. P. Blavatsky mostra-se contrária a toda a discriminação baseada em crenças, pois sabe que todas elas são relativas no tempo e no espaço. Ninguém possui a Verdade, mas uma visão particular e deformada desta. Rejeita todas as inquisições, seja a de Asoka ou a de Torquemada. Recorda-nos que as nossas próprias crenças estão condicionadas, geralmente, ao lugar onde nascemos, à época e ao ambiente familiar. É inimiga de todo o racismo, especialmente do racismo espiritual.

O que o homem pode perceber, misticamente, são concreções e intelectualizações do que presumimos como “Aquilo”. Daí que coincide e reproduz o pensamento antigo de que existem “Deuses Intermediários”, criaturas inumeráveis, normalmente invisíveis, que regem a natureza dos homens e das coisas. Nesta hierarquia, nenhuma coisa material escapa de estar “cavalgada” por uma entidade de natureza mais subtil, desde os átomos às galáxias. Além disso, existem Mestres de Sabedoria que oferecem a oportunidade do Discipulado.

COSMOGÉNESE
Ressurge, nos seus ensinamentos, aquilo que o Ocidente platónico conheceu como Caos + Theos = Cosmos. O Cosmos é, como disse o neoplatónico Marcião, um Macróbios, uma grande forma vivente, que se renova constantemente como o corpo de qualquer mineral, vegetal, animal ou humano. O próprio homem não seria nada de especial neste
Cosmos, mas uma das suas tantas manifestações passageiras no plano físico.
O Cosmos não tem dimensão inteligível, mas, no entanto, isso não o condiciona a ele como Cosmos, mas a nós, como Homens. O nosso conhecimento do Cosmos cresce ou decresce segundo os nossos avanços ou retrocessos científico-astronómicos. Em último caso, o que temos do Universo, é uma imagem, um conceito variável dentro da História. Transbordando esse conhecimento de época que reflete a cultura e perceção de cada tipo e momento do devir humano, existem velhos ensinamentos, presumivelmente entregues pelos Deuses aos homens. H. P. Blavatsky utiliza maioritariamente o Livro de Dzyan, tibetano. Estes ensinamentos descrevem o Cosmos visível como aquilo que dele podemos perceber no nosso atual estado. Haveria uma imensa complexidade cósmica, com uma infinidade de formas de matéria e energia. E isso seria tal como o “nosso cosmos” ao qual haveria outros mais ou menos semelhantes, inconcebíveis para a vulgar razão humana. As partes, bem como o conjunto do Cosmos, nascem, vivem, reproduzem-
-se e morrem, como qualquer ser vivo. Expande-se e contrai-se (Pralaya e Manvantara) numa respiração (kriya) cósmica baseada na harmonia por oposição.

Através dos seus diagramas pedagógicos de “Cadeias”, “Globos” e “Rondas», H. P. Blavatsky trata de explicar o «Caminho das Almas», já que as velhas tradições mostram como as almas vão despertando (evoluindo?) através de milhões de reencarnações e passam de planeta em planeta, para ocuparem corpos cada vez mais perfeitos, desde as obscuridades inconcebíveis da matéria primordial ultrapesada, até às pedras, aos vegetais, aos animais, aos homens, aos deuses, etc.

Escadaria de Jacob, William Blake. ©dominio público.

Os planetas que menciona não são, necessariamente, os que existem agora, mas os que existiram, já destruídos e os que haverá, ainda inexistentes. Tudo isto relacionado com a “Linha Humana”, pois há muitas outras “linhas” de vida no Cosmos; por exemplo a “Angelical”, que anima os Espíritos da Natureza ou Elementais, certas pedras, vegetais e animais. O porquê e o último para que é que existe este Cosmos… “nem o maior
vidente dos mais altos céus o sabe
”, segundo os velhos textos. Mistério, Mistério dentro de Mistério. O princípio e o fim escapam à perceção humana, mesmo às exaltadas pela Iniciação e pelo Adeptado.


ANTROPOGÉNESE
H. P. Blavatsky rejeita as ideias de Darwin tão em moda no seu tempo… e tão exageradas pelos seguidores deste sábio cientista-viajante. Ela sustenta as velhas doutrinas que se referem a uma Humanidade que “desembarca” de maneira espiritual de outro planeta, então vivo, a atual Lua, e que se vai corporizando à medida que a nascida Terra se vai condensando. Esta é uma etapa de um longo caminho. Já na Terra física e com corpo físico, o Homem desenvolve-se, como tal, há 18 milhões de anos. Primeiro, como um gigante intelectualmente limitado, que alberga sub-raças que possuíam um olho no
meio da fronte: os Ciclopes. Há 9 milhões de anos, o Homem já se encontrava num estado parecido ao atual, embora o tamanho dos corpos de alguns grupos fosse gigantesco. Há um milhão de anos, estava em pleno apogeu a chamada “Civilização Atlante”, que tinha a sua capital num continente semelhante à atual Austrália e que existia entre o escudo Continental Euro-asiático e o Americano. Estes Atlantes possuíam grandes avanços técnicos, tendo máquinas voadoras (Vimanas) movidas por uma unidade antigravitacional e “remos” de impulsão, que eram, na realidade, uma espécie de motores de reação. As máquinas de guerra tinham formas semelhantes aos pássaros e lançavam “ovos” sobre os exércitos inimigos, suficientes para matar um milhão de soldados em campo
aberto. Também possuíam raios paralisantes. Os reis seguiam estas batalhas através de “espelhos mágicos” que nos fazem, no momento de escrever este artigo, recordar os atuais aparelhos de televisão, o que H. P. Blavatsky desconhecia na sua época (1831-1891).

Este continente, devido a catástrofes geológicas provocadas, em parte, pelo uso abusivo do Marmash (algo semelhante à energia atómica atual?) foi-se despedaçando, embora ficassem focos coloniais em várias partes do Globo. A grande ilha, com a sua capital, continuou a fragmentar-se até se converter na Poseidónis que os egípcios mencionaram a Platão e que este descreve no Timeu. O último resto afundou-se há cerca de 11.500 anos nas águas do oceano que recebeu o nome de “Atlântico” no século CII a. C.
No mundo, ficaram representantes da Raça dos Gigantes, Terceira Raça, que são os atuais negros; os descendentes dos Atlantes, peles vermelhas americanos e peles amarelas asiáticos, os da Quarta Raça; e os atuais donos do mundo, os da Quinta ou Ária: os brancos atualmente sediados na Europa, América e Ásia.


LEIS NATURAIS

Utilizando uma terminologia inspirada no sânscrito, H. P. Blavatsky menciona duas leis fundamentais: o Dharma e o Karma. O Dharma é uma lei universal que conduz tudo até uma finalidade, um destino. É como um caminho (Sadhana) programado por Deus para todos. Aquele que tenta sair do Dharma é rejeitado dolorosamente, aquele que se ajusta ao Dharma não sofre. A possibilidade dos seres se desviarem é múltipla. No Homem, esta possibilidade é dada pelo seu relativo livre arbítrio. A Roda das Reencarnações (Samsara) proporciona-lhe a oportunidade de atuar, correta ou incorretamente; qualquer excesso, em ambas as direções, gera Karma, “Ação”, na qual as causas se unem inexoravelmente aos efeitos. Para H. P. Blavatsky, o perdão não passa de um ato de cortesia, de nobreza, com efeitos meramente psicológicos. H. P. Blavatsky tão-pouco acredita na absolvição dos pecados, mas sim na compensação através de obras piedosas. Como ninguém pode “cobrar” nem “pagar” todo o Karma acumulado numa só encarnação, as Sementes Kármicas (Skandas) levam a novas reencarnações, as quais não terminam (por um espaço de tempo), até que não se esgote o motor karmico. Então, atinge-se o Nirvana (fora do bosque da pluralidade), que não é um verdadeiro fim, mas
uma pausa no Caminho das Almas.

Todas as Almas são diferentes na sua aparência, mas essencialmente iguais para além das raças e sexos. Todas têm os mesmos direitos, segundo os méritos adquiridos. No “Caminho das Almas” pode-se progredir ou não, de acordo com as maneiras de pensamento, sentimento e ação. Mas, no caso humano, há um limite para isso (segundo o programa do Dharma) e não se pode baixar à altura dos animais nem ascender à dos deuses. Um ser humano reencarna sempre num ser humano, na raça e sexo que mais lhe convenha ou necessite a sua sede de experiência (Avydya).

Como no mito do Golfinho nos Mistérios de Elêusis, tudo desaparece com o tempo, para voltar a reaparecer; mas nada cessa, nem morre realmente. Simplesmente se submerge e emerge… e assim, ciclicamente, pois no nosso mundo tudo é cíclico, tudo é curvo no transcendente e tudo se reencontrará numa Unidade de Destino.


VIDA POST-MORTEM

Para H. P. Blavatsky, os humanos continuam a ser mais ou menos os mesmos, estejam encarnados ou não. Cumprem o seu ciclo inexorável de nascimento, permanência e morte. Não foi muito adepta de tocar em detalhe este tema, pois no seu tempo proliferava o Espiritismo, que ela considerava negativo . Segundo ela, o que acudia ao corpo dos médiuns, nos casos verdadeiros, não era mais do que um resto astral ou “casca” do
defunto, e outras vezes um Elemental que usurpava a sua identidade; tudo isso carregado “vampiricamente” pela contribuição psico-magnética dos assistentes. Como tantos livros antigos, e mesmo o próprio Platão, H. P. Blavatsky recomendava vivamente absterem-se deste tipo de reuniões. Depois da morte sobreviria (estamos a referir-nos a casos gerais) um sono mais ou menos profundo e mais ou menos prolongado, de acordo com o nível
do falecido. O despertar seria paulatino e a Alma, ou Consciência, tanto iria até ao mundo dos vivos, se por ele ainda estivesse atraído, como para algum plano subtil. Os mais elevados espiritualmente iriam para o Devachan (Cidade dos Anjos) onde se experimentaria a paz e a felicidade. Aqueles que não tivessem valores espirituais e estivessem muito apegados às coisas terrestres, iriam para o Kamaloka (Lugar dos desejos), no qual as ânsias insatisfeitas torturariam, de alguma forma, os que estivessem nesse estado. Estes últimos procurariam os contactos espiritistas e reencarnar muito
depressa.

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A forma em que se reencarna é semelhante ao que Platão explica no seu Mito de Er, no final da República. A novidade está em certos detalhes, como por exemplo, no facto das almas sedentas de encarnar girarem naquilo que os Neoplatónicos chamavam “Cinturão de Vénus”, que é como um anel em redor do Planeta, que coincide, aproximadamente, com o Equador magnético terrestre (coincidiria com a que agora é conhecida como Banda de Van Hallen). Tal como o apresenta Platão nas suas obras, o desejo dos mortos impulsiona a líbido sexual dos casais aptos para a reprodução. A alma entraria no corpo do feto a nível humano só ao quarto mês de gestação. Pouco a pouco, os princípios etéreos e mais subtis se introduziriam, trazendo as suas vivências anteriores no curso dos anos, tendo momentos especiais aos 7 anos de idade, aos 14 e aos 21.

Também, na morte natural por velhice, os princípios humanos adormecem paulatinamente, começando de baixo para cima, ou seja, pelo corpo físico, o que, num processo de retardamento, vai permitir aos restantes veículos irem-se preparando para largar este mundo. H. P. Blavatsky não dá muita importância a este processo, antes pelo contrário, acredita que, na velhice, cresce a sede de desencarnar. (Obviamente, dão-se muitos casos diferentes, provocados pela deformação produzida pela pressão do mundo circundante). Ela não era partidária da morte violenta nem do suicídio.


FENÓMENOS PARAPSICOLÓGICOS

Tinha para com eles um sentimento de desprezo. Somente acreditava que os povos, na sua incapacidade de entender certas verdades, eram animados e inspirados por este tipo de fenómenos. Ela afirmava que não eram “sobrenaturais”, pois nada pode escapar da Natureza. Desde logo não acreditava em milagres, nem atribuía aos aptos para a
concretização destes fenómenos (dos quais ela foi um extraordinário exemplo) nenhuma valorização espiritual. Tão-pouco aceitava que alguns destes prodígios procedessem do Bom e outros do Mau. Considerava-os como algo mecânico, deixando a sua classificação moral ao sentido e intenção de quem os executava ou os aproveitava. Não os estimava como excecionais, mas potenciais em todos os homens, sejam espirituais ou não.

Repetimos que tratar de condensar num artigo jornalístico todas as contribuições desta grande filósofa e maga do século XIX, é impossível, mas confiamos em ter despertado a curiosidade do leitor de modo a promover um contacto ou um aprofundamento dos conhecimentos, recompilados e relacionados por analogia, por este ser tão estranho e humanamente incompreensível que foi H. P. Blavatsky.

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