Discurso de Sua Excelência K. Nandini Singla, Embaixadora da Índia em Portugal

Discurso de Sua Excelência K. Nandini Singla, Embaixadora da Índia em Portugal, aquando das celebrações do Dia Mundial da Filosofia 2019, organizadas pela Nova Acrópole em parceria com o Município de Oeiras e a Comissão Nacional da UNESCO.

Em primeiro lugar, enquanto Embaixadora da Índia em Portugal, estou encantada por estar aqui e poder ver que o Dia Mundial da Filosofia está a ser celebrado invocando a memória da grande alma de Mahatma Gandhi.

Acredito que esta é uma forma muito adequada de celebrar o Dia Mundial da Filosofia. E porquê? Porque Mahatma Gandhi não nasceu como divindade – como os 33 milhões de deuses que temos na Índia ou as figuras espirituais que conhecemos. Ouvimos que quando estes nasceram tinham poderes celestiais, eram especiais e divinos. Mahatma Gandhi era como eu ou vós: tão comum como qualquer outra pessoa. Em criança tinha medo de fantasmas, de ladrões e de cobras. Quando era jovem tinha medo de se colocar de pé e falar. Imagine-se ser advogado e ter medo de falar público.

Ele fazia todas as coisas que nós seres humanos fazemos, roubou dinheiro do seu pai, tentou consumir drogas, zangou-se e agrediu outras pessoas e quebrou uma promessa que tinha feito à sua mãe. Mas quando foi assassinado pela bala de um assassino, ele morreu como o “Mahatma” – a grande alma. Ele era uma grande alma não apenas porque libertou a Índia do jugo imperial Britânico, ele foi uma grande alma porque libertou-se a si próprio das suas limitações e fragilidades humanas para tornar-se na melhor versão que lhe era possível ser.

E ele disse: “Sê a mudança que queres ver no mundo”, porque a mudança começa comigo e convosco, e não fora de cada um de nós. Acredito ser esta a mais importante mensagem de Mahatma Gandhi para a humanidade. Não culpeis a genética, nem a família nem os traumas da infância por aquilo que criastes em vossas vidas. Tomai responsabilidade pela vida que criastes porque tudo aquilo que vos aconteceu foi causado pelos vossos pensamentos, ações e energia que colocais no mundo. 

Ele disse algo muito bonito: “Um homem é acima de tudo o produto dos seus pensamentos, ele torna-se naquilo em que pensa”. Aprecio muito também esta próxima citação: “Enquanto seres humanos a nossa grandeza não está tanto na nossa capacidade de re-fazer o mundo, mas sim em sermos capazes de nos re-fazermos a nós próprios. “Devemo-nos tornar na mudança que queremos ver no mundo: “Vive como se fosses morrer amanhã; aprende como se fosses viver para sempre”.

Então qual era a sua mensagem? A sua mensagem era – “tomai controlo sobre a vossa vida, tomai controlo sobre os vossos pensamentos; purificai as vossas acções; sejai o melhor ser humano que podeis ser, e o mundo automaticamente tornar-se-á melhor.”

Porque estou a começar desta forma? Porque hoje celebramos o Dia Mundial da Filosofia, e isto é essencialmente aquilo que definia Mahatma Gandhi.


Quando um indivíduo se transforma a si próprio, a sociedade transforma-se também, e é por isso que Mahatma Gandhi desenvolvia nas suas quintas comunitárias – talvez tivésseis ouvido falar da quinta de Phoenix na África do Sul fundada por Tolstoy – estas foram experiências que mostraram ao mundo que quando os seres humanos se unem, a comunidade torna-se melhor. Por isto, nestes ashrams, Gandhi pedia a todos que vivessem vidas simples. Ele queria que as pessoas compreendessem que poderiam viver sem um grande número de coisas. Austeridade e uma vida de serviço – é incrível. Não sei quantos de vós saberão, mas Mahatma Gandhi e a sua esposa limpavam com as próprias mãos as casas de banho das pessoas que frequentavam o ashram – e não eram as casas de banho modernas que temos agora. Eram serviços manuais e de limpeza que ele fazia com as próprias mãos, porque ele disse o seguinte: “Se eu não fizer, não tenho o direito de pedir que os outros o façam”.

Ashram de Sabarmati. Creative Commons

Falava também de amor e compaixão. Haviam hindus e muçulmanos, pessoas negras e brancas no mesmo ashram. Era uma experiência social enorme. Consequentemente, ele acreditava que quando um indivíduo se transforma a si mesmo, e a comunidade em que estes indivíduos vivem também se transformam, este é o único caminho duradouro para mudanças sociais e activismo político.

Se olharmos ao que Mahatma Gandhi conquistou, é de facto incrível. Um pequeno e magro homem de pele castanha enrolado num pedaço de tecido. Ele pôde derrotar o grandioso Império Britânico e os seus milhares de armas. Como foi capaz de o fazer? Porque tinha uma forte convicção de que o universo é governado por uma ordem moral e não por força bruta. Ele acreditava convictamente que as leis do universo eram tão reais quanto as leis da física. Ele acreditava no Karma: fazeis o bem, coisas boas vos acontecerão e, um pensamento maldoso contem em si mesmo o mal. Acreditava no Hinduísmo, porque cresceu como hindu, e também em muitas das coisas que são ensinadas no Hinduísmo, como o Karma, ou seja, a acção justa sem nenhuma expectativa; na disciplina do corpo, o ascetismo; em aspirar a um sentimento de união com o universo.

Mas ele creditava também no Islão, lia o Corão e a noção de justiça que este expressa impressionava-o muito. Conhecia também a Bíblia bastante bem e, a ideia do sofrimento associada à crucificação de Jesus teve em Gandhi um impacto tremendo. 

Daqui surgiu a sua prática de jejum como uma forma de purificação, de penitência, de expiar também os pecados dos outros. Acreditava também no Jainismo, uma religião nascida na Índia, em que se acredita que a verdade tem muitas faces, e é necessário entender todas as facetas para poder compreender a verdade. Esta é uma mensagem importante e atemporal, e que pode por um fim aos preconceitos, intolerâncias e divisões.

Mahatma Gandhi inspirou-se em muitas coisas diferentes. Ele afirmou que “todas as religiões têm algo da verdade. Nenhuma religião tem toda a verdade, logo o melhor é escolher uma verdade e manter-se fiel a si próprio.”

Quando observamos um conceito como Satyagraha, por exemplo, que significa literalmente “força da alma”, foi a arma mais importante com que ele libertou milhões de indianos do jugo do Império Britânico. Muitos foram aqueles que morreram ao combaterem com bombas e armas, mas os britânicos não se foram embora. Foi este pequeno homem, que nunca sequer atirou uma pedra a ninguém, que finalmente conseguiu fazer o que os outros não conseguiram. 

Conseguiu-o através de Satyagraha. O que é afinal o Satyagraha? 

É fascinante na sua simplicidade e profundidade. Gandhi dizia que há sempre verdade neste universo, e esta verdade é imutável. A verdade é a verdade e, a verdade, era a moralidade. Há o bom e o justo, e há também o errado e o mal. Ele disse que “a moralidade é a base das coisas e a verdade é a substância da moralidade… a verdade é mais poderosa do que qualquer arma de destruição maciça.”, “se tens razão e o sabes, expressa aquilo no qual acreditas. Mesmo que sejas uma minoria de uma pessoa, a verdade continua a ser a verdade”. Porque motivo isto é importante? Porque no seu coração, alma e mente, Gandhi acreditava que a verdade iria eventualmente prevalecer. Logo, se estiveres no lado da verdade, a vitória será sempre vossa. Foi isto que lhe deu a coragem para lutar contra o poderoso Império Britânico. 

A segunda parte de Satyagraha, que lhe outorgou a sua fortaleza moral e a sua força, foi a noção de justiça. Quero citar algo muito profundo que Gandhi proferiu:

“A não cooperação com o mal é igualmente um dever como a cooperação com o bem. A não cooperação com o mal é também um dever moral porque se não nos opusermos ao mal, à injustiça, à desigualdade, estaremos a apoiar o mal, a injustiça e a desigualdade.”

Então o que significa isto? Certamente não é um posicionamento passivo. Gandhi disse que é necessário opormo-nos à injustiça porque é um chamamento moral que toca a todos os seres humanos, e este ensinamento chegou-lhe através do Bhagavad-Gitá. Neste livro a divindade Krishna, interpela Arjuna, que é um Pandava, ou seja, um dos heróis. Arjuna está no campo de batalha e os seus primos estão no lado oposto. Apesar de ele ser um guerreiro destemido, não consegue lutar e perde a coragem. Arjuna afirma que não pode matar os seus primos, e é então que Krishna diz-lhe: “Não é a ação em si mesma que é boa ou má, mas sim a intenção que está por detrás desta. É aquilo que te motiva que determinará se a tua ação será boa ou má.”

Krishna e Arjuna na carruagem, Mahabharata. Domínio Público

Gandhi foi igualmente influenciado pela noção de agir sem expectativas, que é uma das ideias-chave do Bhagavad-Gitá. Ele disse que toda a ação deve ser uma oferenda ao universo, uma oferenda a Deus. Fazemos aquilo que o karma exige de nós, fazemos aquilo que o nosso dever moral exige de nós, e depois deixamos os resultados das ações ser definido pelas forças do universo, porque o universo é muito maior e mais complexo do que aquilo que eu ou vós podeis compreender.

Mas o vosso dever é agir corretamente, fazer o que é certo, pensar o que é certo. Digo isto precisamente porque foram estas ideias que o fizeram trabalhar toda a sua vida por uma causa da qual a maioria das pessoas já teria desistido, todos pensavam que era impossível expulsar o Império Britânico da Índia. Ele fê-lo porque a força que o animava não era política nem religiosa, mas sim espiritual, vinha da sua alma. Esta força veio também da convicção de que há uma força no universo – uma força chamada de Deus. Este Deus pode ser Allah, pode ser Jesus, mas é sempre o mesmo Deus. 

Vou passar a ler algumas frases de um discurso por ele proferido em 1931 nos Estados Unidos da América, quando alguém lhe perguntou se acreditava em Deus. Gandhi respondeu: “Há um poder indefinível e misterioso que permeia tudo. Sinto-o apesar de não o conseguir ver – transcende os sentidos. Há ordem no universo, há uma lei inalterável que governa tudo e todos os seres que existem. Esta lei, que governa toda a vida, é Deus. Eu vejo-a como completamente benevolente. Vejo que mesmo na morte a vida persiste; na mentira a verdade persiste; na escuridão a luz persiste. Logo, concluo que Deus é vida, Deus é verdade, Deus é luz e amor, é o bem supremo.”

Gandhi acreditava profundamente que existia esta força de pureza, bondade, compaixão, fraternidade que faz com que todo o Universo trabalhe. Ele realmente via a unidade em todas as coisas.

Há uma história muito interessante que me toca profundamente, quando os Indianos lutavam contra os Britânicos, em determinado momento estes decidiram dividir o país em dois, o Paquistão islâmico e a Índia secular. Protestos começaram a surgir em todas as partes, milhares de pessoas foram assassinadas pelas multidões. Muçulmanos atacavam hindus e vice-versa. Este era o pior pesadelo de Mahatma Gandhi, ia contra tudo aquilo em que acreditava. Um dia alguém se aproximou e perguntou-lhe: “o meu filho é hindu e estava numa multidão que assassinou muçulmanos, por causa disto não consigo dormir à noite. Gandhi, o que posso fazer?” Gandhi disse-lhe: “adopta uma criança muçulmana. Educa-o como se fosse o teu próprio filho mas deixa-o frequentar a mesquita, deixa-o rezar ao seu deus e deixa-o aprender a não ser violento. Esta é a melhor forma de compensares aquilo que fez o teu filho.”

Há um famoso hino que era o favorito de Gandhi: “Podeis ser chamado de Rama, podeis ser chamado de Allá, mas vós sois amor. Sois tudo o que é bom, puro e verdadeiro no Universo.”

Finalmente, fiz menção do impacto que a Bíblia (o Novo Testamento) teve sobre Mahatma Gandhi – a ideia de que é necessário sofrer por uma causa justa, ele vivenciou-a toda a sua vida. Quando os protestos entre hindus e muçulmanos começaram ele decidiu jejuar. Ele simplesmente disse que não ia comer ou beber até que os motins chegassem ao fim. Jejuou por doze dias ou mais. Até que as multidões decidiram que Gandhi não Morreria por causa deles e milhões de pessoas pararam de protestar. Este era o poder moral da sua penitência. Quando lhe pediram para comer, afirmando que não lutariam mais, entregando as suas armas à sua frente, Gandhi quebrou o jejum e partiu para uma peregrinação a pé passando por 49 aldeias onde os motins estavam a acontecer. Durante cinco meses, caminhou 40 milhas por dia, trabalhou 18 horas por dia, pernoitou em pequenas barracas e comeu muito pouco porque acreditava que o seu sofrimento físico fazia parte do seu dever enquanto ser humano. Ele acreditava na oração e na meditação, foi a forma que encontrou para se renovar. Meditava de manhã e à noite. Gandhi disse que: “a oração é a chave da manhã e o parafuso da noite”. O que significa que todas a manhãs abrimos um novo capítulo, podemos conectar com a energia universal, com Deus, com o nosso espírito e alma ou aquilo que quiserem chamar. À noite, fechamos novamente o dia conectando-nos com a energia universal. Ele acreditava que todos somos energia a vibrar em diferentes frequências. 

Gandhi. Creative Commons

Gandhi afirmou também que, a não ser que se compreenda isto, de que somos energia, energia que partilhamos com todos os outros, então nunca seremos não-violentos no verdadeiro sentido da palavra. Ele acreditava ser hipocrisia ir à missa ao domingo e depois apoiar a guerra e, disse-o também a hindus e a muçulmanos. É necessário termos consciência que todos partilhamos esta vibração universal de energia como uma única consciência cósmica, logo é impossível prejudicar o outro e não compreender que também nos prejudicamos a nós próprios. É impossível cortar árvores sem qualquer propósito sem compreender que também estamos a prejudicar o ecossistema e no limite a própria humanidade. 

Acredito que as suas mensagens – todas as suas mensagens – são atemporais e universais porque são verdadeiras e, serão sempre verdadeiras. Isto está em concordância com o que disse Gandhi: “a verdade sempre prevalecerá”. Para nós hoje, no Dia Mundial da Filosofia, isto dá-nos esperança porque sendo verdade significa que o mundo vai continuar a evoluir para ser um lugar cada vez melhor. 

Terminarei dizendo aquilo que Gandhi uma vez proferiu: “Nunca percas a fé na humanidade. Mesmo que algumas gotas sejam de poluição, o oceano em si mesmo continua a ser puro.”

Gostaria apenas de acrescentar brevemente um último comentário. Porque tenho à minha frente todos estes lindos portugueses e portuguesas e quero dizer-vos que o vosso Primeiro-Ministro, Sua Excelência Dr. António Costa é o único Primeiro Ministro em funções que é membro do Comité formado pelo nosso Primeiro ministro Shri Narendra Modi para celebrar por todo o mundo, o centésimo quinquagésimo aniversário da morte de Gandhi. O Primeiro-Ministro António Costa viajará para a Índia para participar na reunião deste Comité e encontrar-se-á com o nosso Primeiro-Ministro, Presidente e Partidos Políticos. Entendo ser este um momento muito especial que sublinha algo que acredito ser verdade, os portugueses têm uma sensibilidade especial para estas verdades universais, para a espiritualidade, para o Yoga e meditação. Vejo um interesse crescente em Portugal e creio ser consequência da vossa cultura, do vosso ethos, voltados para a exploração do desconhecido. Talvez devido à vossa localização geográfica, Portugal sempre olhou para dentro e para fora e espero que Mahatma Gandhi continue a unir os nossos dois países, a aproximar os nossos povos, e agradeço a todos a oportunidade de dizer estas poucas palavras e partilhar estes pensamentos.

Muito obrigada!

K. Nandini Singla e José Carlos Fernández (escritor e diretor da Nova Acrópole Portugal)

Oeiras, 21 de Novembro de 2019, Dia Mundial da Filosofia

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