Editorial Revista Pandava

Sendo Portugal o país que, sem dúvida, abriu, com as suas viagens, a porta ao Oriente na Era Moderna, é triste o desconhecimento do público em geral da arte, literatura e filosofia da India, China, Japão, etc.

As primeiras traduções de grandes clássicos como a Bhagavad Gita, os livros de Confúcio ou de Mêncio, alguns dos Puranas, etc. foram realizados por jesuítas portugueses e no entanto este país deve ser dos poucos na Europa em que não se estuda o Sânscrito na Universidade, ou só muito recentemente. Iniciativas como o “Curso de Sânscrito e Literatura Indiana” no Museu Nacional de Grão Vasco, em Viseu, pelo nosso amigo Ricardo Louro Martins são quase uma bendita excepção.

Esta revista nasce, e daí o nome, PANDAVA, com a intenção de despertar o interesse pela Índia antiga, na sua mais pura expressão. Pela sua excelente Filosofia, precursora, com os seus Darsanas, das Escolas de filosofias gregas; pela literatura sânscrita; pela sua arte requintada e sagrada; pela sua história com gestos dignos de um Alexandre, mas quase desconhecidas aqui e agora; pela sua religião tão exuberante e simbólica e a sua mística tão direccionada ao mistério do Eterno, aos mil Nomes de Deus.

E fá-lo, coincidindo com a homenagem a Mahatma Gandhi nas comemorações do 150º aniversário do seu nascimento, pois ele não só foi herói artífice da independência da Índia, mas também um grande enamorado dos Ideais que a constituiram como uma civilização que foi senhora do mundo em todos os sentidos do termo.

Uma cena do Mahabharata, grande epopeia da Índia / wikipedia

Mas antes de tudo, PANDAVA quer ecoar perante os Ideais que elevaram esta Cultura Mãe e lhe deram vida, como o eco bem sonoro de um AUM prodigioso.  São os ideais da primitiva Aryavarta os que ainda brilham, cristalizados no seu momento histórico, nos versos das Upanishads, ou nas alegorias dos Puranas, nos apotegmas do místico Narada, ou na gramática de Panini, na arte de viver de Artha Shastra, ou na serena compaixão da filosofia budista, na dança Bharatanatyam e um longo etcétera que de alguma forma pode enriquecer o nosso devir histórico, enobrecendo-o e inspirando-nos a melhores realizações, em todas as áreas da vida.

E como o nome indica, o grande foco de interesse, estudo e comentários será a grande epopeia do MAHABHARATA, um tesouro de poesia, de religião e filosofia, livro tão sagrado e poderoso como o é a Bíblia para os cristãos. E como ela, se cuidarmos de não interpretá-la literalmente, capaz de responder às mil perguntas que surjam desde o mais profundo da alma, saciando a nossa sede de viajantes que retornam a um Lar Celeste, chamados sempre pela pureza, absoluta beleza e perfeição luminosa do Fogo de Agni, ou seja, o Espírito Universal que residindo em todas as coisas as leva à culminação do seu destino.

PANDAVA porque assim são chamados os cinco heróis deste poema grandioso, o Mahabharata, e que representam as forças do divino na alma humana, como uma estrela de cinco pontas reflectidas nela. As cinco direcções da mente reinam sobre o tempo e o espaço como uma montanha ou uma pirâmide reinam sobre o horizonte.

1 – YUDHISHTHIRA, que representa o Dharma, a Justiça, ou seja, a Grande Lei Moral, a perfeita realeza e compaixão por tudo o que vive. O seu nome significa “firme em combate”, como uma lança, mas também é chamado “aquele que não tem inimigos”.

2 – BHIMA, cujo nome significa “terrivelmente poderoso”, filho do deus do vento (Vayu), representa a Fortaleza e a defesa contra a injustiça  com o seu nome “uivo de lobo” (Vrikodara).

3 – ARJUNA, filho do deus do céu (Indra) é a Nobreza, a perfeita cortesia e cavalheirismo, o serviço às causas justas e não egoístas.

4 e 5 – NAKULA e SAHADEVA, filhos dos Ashvins, deuses curadores, representam a Saúde, o conhecimento e o domínio harmonioso da Natureza, da humildade que nos faz dignos filhos do céu e da laboriosidade e perseverança que nos permitem ir abrindo caminho.

A esposa comum a todos eles, DRAUPADI, é precisamente a LUZ, o Esplendor, como filha que é do Fogo. É o eixo da pirâmide que formam ambos, ou o amor que tudo une, transforma e regenera. Se na constituição septenária do Homem e da Natureza, os Kauravas, agentes do caos representam as potências da personalidade egoísta, e os 5 Pandavas a estrela de cinco pontas da Mente Ideal (MANAS), Draupadi seria BUDDHI, a luz espiritual e essência da vida, e o próprio Krishna ao redor  do qual gira toda a obra, ATMA.

A compreensão desta cultura e dos seus ideais pode levar-nos a um mar de vivências filosóficas, espirituais e estéticas cujas brancas espumas curadoras tão úteis serão para uma nova cultura e umas novas e generosas relações humanas.

NAMASTE! PANDAVA, revista de fraternidade e de concórdia, de optimismo pela natureza humana e suas vitórias sobre a adversidade.

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