Fragmentos de Yoga Vasishtha

Qualquer que seja a companhia com que possa encontrar-se quando cumpre os deveres da vida, o homem sábio controla os movimentos da sua mente. Não deve ser absorvido pelas preocupações do mundo nem ocupar-se com pensamentos relativos às coisas desta vida. À mente não se a deve deixar errar pelo extenso âmbito dos prazeres exteriores nem apegar-se aos objetos e às ações dos sentidos. 

Deixa que descanse apenas em buddhi [discernimento] sem que goste de qualquer prazer se não é um prazer próprio. O homem sábio permanece completamente concentrado em si mesmo e a sua tranquilidade de espírito é comparável à firmeza de um cume dos Himalaias, imutável em todos os momentos e em todas as estações. 

Assim como a perceção de uma flor é acompanhada pela perceção do seu perfume, também o conhecimento de Atman é inseparável do conhecimento da mente. Como num espelho não se vê mais que uma parte dos céus que cobrem tudo, assim é o omnipresente Atman que não pode ser percebido mais do que uma parte no espelho da mente. 

O Espírito Supremo, não limitado pelo tempo nem pelo espaço, dá a Si mesmo, por sua própria vontade e em virtude da Sua omnipotência, as formas limitadas do tempo e do espaço. Sabe, que o mundo não tem nada de substancial, mesmo que possa parece-lo: não é mais que um vazio, apenas uma aparência criada pelas imagens e fantasias da mente. 

Sabe que o mundo é um teatro de sortilégios procedente da magia de maya. 

Este mundo inteiro é Brahman. O que está fora dele? De onde poderia vir? 

O mestre espiritual é quem, com a justeza da sua argumentação, desperta a mente indolente e adormecida e quem, continuamente, instila nela a palavra da verdade. 

Primeiro servindo com diligência aos bons e compassivos gurus e, depois, graças ao raciocínio, os homens de intenção pura alcançam a luz da Verdade percebida como esplendor divino na sua mente. 

A mente daquele que em tudo vê Deus e permanece firme no caráter já não tem razão para flutuar segundo as variações da natureza ou as vicissitudes da fortuna. O Senhor manifesta os poderes que residem n´Ele, como o mar manifesta as ondas sem sair de si mesmo. A mente que é testemunha das verdades espirituais e se estabelece em perfeita equanimidade sem ser afetada por acidentes exteriores, chega a vislumbrar que a luz da Verdade reside nela. 

Quando há uma lâmpada, também há luz; e o sol radiante traz consigo o dia; onde há uma flor também há perfume; assim, onde está o Espírito vivo, está o conhecimento do mundo. O mundo que aparece ao seu redor é como a luz de Atman. As almas dos homens estão dotadas deste conhecimento desde o nascimento. Depois, à medida que crescem, desdobram-se no decurso do tempo na forma deste amplo bosque do mundo. 

Inúmeros mundos têm sido criados e destruídos desde a origem dos tempos. Neste exato momento, o número de universos existentes é inconcebível. Tudo isso pode ser imediatamente compreendido pelo próprio coração, porque os mundos criados são apenas desejos que brotam no coração como castelos no ar. 

Os seres vivos evocam esses mundos no seu coração e, enquanto estão vivos, permanecem sujeitos à ilusão que eles próprios imaginam; quando morrem, evocam outro mundo que reproduz de certa forma a sua experiência, de modo que alguns mundos vão surgindo de outros, como as camadas das plantas vão nascendo umas sobre as outras. 

Nem o mundo material nem esta forma de criação são verdadeiramente reais; no entanto, tanto o vivo como o morto pensam e sentem que são reais. O engano só é prolongado pela ignorância da verdade.

O mesmo que a água, quieta ou em movimento, é sempre água, a sabedoria dos libertos permanece idêntica apesar do seu aspeto de mudança exterior. Esse aspeto só parece real aos olhos do ignorante. 

Fogos. Pxfuel

Existem dois tipos de esforço pessoal: o que está conforme a lei e as escrituras, e o que é contrário a estes ensinamentos. O que chamamos destino é apenas o eco do esforço realizado em reencarnações passadas. Na vida presente há sempre conflito entre as ações passadas e as presentes, mas em todo o momento prevalece a ação mais poderosa e determinada. 

A ação correta no momento presente é mais poderosa do que qualquer uma das passadas. Portanto, devemos recorrer ao próprio esforço com uma decisão inabalável e vencer o nosso suposto destino rangendo os dentes, se necessário. 

Um homem preguiçoso é pior que um asno. Nunca devemos nos render à preguiça, mas obstinadamente buscar a libertação, percebendo que a vida se escapa num momento. Não devemos desfrutar dos prazeres sensíveis que são como feridas infetadas e mal cicatrizadas. 

Aquele que crê que o destino o obriga a fazer isto ou aquilo, é um tolo que logo será abandonado pela deusa fortuna. Se perseguires a sabedoria com esforço intenso e prolongado, comprovarás que esse esforço te conduz diretamente até à realização da verdade. 

O fruto é proporcional à intensidade do esforço que cada um tem realizado. Esse é o sentido do esforço pessoal ou força de vontade, que os ignorantes conhecem como destino. O que uns chamam destino e outros poder divino (daivam), não é mais que o resultado das nossas ações. Mas deves ter em conta que o esforço presente é muito mais poderoso do que o passado. Aqueles que se conformam com os frutos de ações passadas, acreditando que são irremediáveis, são uns insensatos que não conhecem a verdadeira força da vontade pessoal. 

Devemos nos concentrar no próprio esforço que conduz à verdade, sem nos preocuparmos com o êxito ou o fracasso, sabendo que esse esforço é o verdadeiro nome do que chamamos de poder divino ou providência. 

Os fatalistas apenas nos parecem ridículos. O verdadeiro esforço brota do conhecimento correto que nasce no nosso coração quando recebemos o ensinamento das escrituras e os conselhos dos homens santos. 

Se um astrólogo predisse que um jovem será um grande estudante, consegue esse jovem ser um bom estudante sem estudar? 

Claro que não! Então, como devemos entender os favores divinos? 

Neste mundo tudo está em movimento, exceto os cadáveres, e cada ação produz um resultado inevitável. 

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Pintura de uma transcrição persa do manuscrito Yoga Vasistha, 1602.

Na mente humana há inúmeros vásanás ou tendências latentes que dão lugar a palavras, pensamentos e ações, de forma irrevogável. O karma ou ação tem resultados inevitáveis e nesse sentido pode-se falar sobre o destino fatal, mas as nossas ações estão sempre nas nossas mãos, e por isso as suas fatais consequências dependem de nós mesmos.

 Este é o curso natural da ação: a ação não é mais do que o resultado das tendências latentes que configuram a mente humana, pois o homem não é distinto da sua mente. 

A omnipresente sabedoria do ser cósmico brilha eternamente como conhecimento e vazio. Quando neste ser cósmico surge uma vibração, nasce o senhor Vishnu como uma onda na superfície do oceano agitado pelo vento. Do coração de lótus de Vishnu nasce Brahma, o criador, que começa a formar as múltiplas variedades de seres animados e inanimados que povoam a Terra. 

O Monte Meru é o seu centro, os pontos cardeais as suas pétalas e as estrelas os seus estames e os seus pistilos. E este universo começa a ser o que era antes da dissolução cósmica. 

Querido Rama, a porta do reino da libertação (Moksha) está protegida por quatro fiéis guardiães: o autocontrolo, o espírito de investigação, a alegria e as boas companhias. O buscador inteligente deve cultivar, pelo menos, a ajuda de um deles. 

Com o coração puro e mente despojada do véu da incerteza, escuta a exposição da natureza da libertação e os meios para consegui-la. Até que não realizes o ser supremo, não poderás pôr fim ao doloroso ciclo do nascimento e da morte. Se não acabas aqui e agora com a temível serpente da ignorância, continuará causando-te sofrimentos não só nesta vida, mas em incontáveis existências posteriores. Evitar esse sofrimento é impossível, mas através da sabedoria que te vou ensinar, poderás libertar-te dele no futuro. 

Quando superares a dor do samsara, viverás nesta terra como o próprio Brahma e o Senhor Vishnu. Quando a ilusão desaparece e se compreende a verdade através da investigação da própria natureza, quando a mente está em paz e o coração arde no verdadeiro conhecimento, quando todas as ondas perturbadoras dos pensamentos cessaram e da mente apenas flui uma torrente de paz que preenche o coração com a felicidade do Absoluto, quando se contemplou a verdade no coração, este mundo converte-se na mais feliz das moradas. 

Alegria serena. Piqsels

O terceiro guardião da porta da libertação é a alegria o shanta. Aquele que tenha saboreado o néctar desta alegria, não ansiará por qualquer outro prazer sensível, pois nenhum deleite deste mundo pode comparar-se a este shanta que dissolve as mais sombrias mágoas. 

De que alegria falamos? A verdadeira alegria chamada shanta, é a satisfação que se tem sem se a ter procurado e a renúncia de toda a tristeza ou preocupação pelo que não podemos conseguir, sem nunca se sentir entusiasmado nem deprimido por uma coisa ou por outra.

Enquanto não se estiver satisfeito com o que se tem nem deixar de ansiar o que não possui, é-se escravo da dor. O homem que não possui nada e está feliz (shanti) apesar disso, é dono do mundo inteiro. 

A alegria (shanta), a companhia dos sábios (satsanga), o auto-conhecimento (vichara) e autocontrolo (shamam), são os quatro meios mais seguros para atravessar o oceano do samsara. Shanta é a meta suprema, satsanga o melhor companheiro de viagem, vichara o instrumento mais adequado, e shamam a maior fonte de felicidade. Se não és capaz de seguir estas quatro vias, pratica pelo menos uma delas, pois o cultivo diligente de qualquer uma das quatro te descobrirá as outras três e a sabedoria suprema sairá então ao teu encontro.

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