Fragmentos do Yoga Vasishtha II: Sobre o conhecimento (jñána) e o sábio (jñáni)

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Devemo-nos esforçar por ser um jñani1 e não um jñánabandhu2. Este último é o que estuda as escrituras pelo prazer pessoal, tal como o pintor estuda a arte, mas não vive o que estuda. O seu conhecimento teórico não se reflete no quotidiano da sua vida e apenas está interessado em potenciar o seu bem-estar e a sua felicidade sensível. Considero que um ignorante é superior a um jñánabandhu, como este que te falo. 

Jñána é autoconhecimento, o conhecimento do ser, as demais formas de conhecimento são apenas um pálido reflexo seu. Temos de trabalhar neste mundo o tempo necessário para levar uma vida honrada e suportar o que é essencial para mantermos a nossa força vital. Mas só temos de manter a força vital para adquirir conhecimento e, para isso, temos de investigar o nosso interior e compreender o que nos livra definitivamente da dor.

O jñani, ou homem do conhecimento, é inconsciente dos efeitos das ações porque domina o autoconhecimento e ignora a mente individual e os seus objetos. Superou também as tendências mentais e a sua inteligência carece de qualquer perversão, de modo que o seu conhecimento não o conduz a uma reencarnação futura. Só realiza atos simples como comer ou vestir-se, que não precisam de desejo ou atividade mental determinada. Também é conhecido como pandit.

As criaturas não têm o propósito de existir nem de continuar a viver. Não são entidades reais, embora o pareçam. A relação causal projeta-se mais tarde para racionalizar esta criação irreal. Os propósitos dos seres vivos têm a natureza da miragem. Os que pretendem descobrir a razão destas ilusões é como se tentassem carregar sobre os seus ombros o neto do filho de uma mulher estéril. A única causa destas ilusões é a não perceção, pois quando se as observa com atenção, desaparecem. Quando são seriamente investigadas, descobre-se que são apenas o ser supremo, mas quando se percebem através da mente, nasce o jiva condicionado, que não pode ver o ser, embora, quando este jiva é investigado atenta e cuidadosamente, ele resulta ser o próprio ser. Apenas quando é captado pela mente, parece ser um jiva que sofre todo o tipo de mudanças, nascimentos, adversidades, etc… Os que entendem diretamente o ser cósmico não percebem esta diversidade objetiva, apesar dos seus olhos estarem a contemplar o mundo. Na sua mente, apesar de estar a funcionar, não se produzem movimentos desordenados do pensamento em todas as direções e, como consequência, a sua mente é não mente e nela não há qualquer movimento3. A conduta destes jñani, como as folhas secas arrastadas pelo vento, não é volátil de modo algum.

O jñánabandhu, que vive sujeito aos condicionamentos psicológicos, enaltece as regras das escrituras pois ainda não despertou espiritualmente. Os seus sentidos lutam ainda pelos objetos, enquanto que um sábio domina os seus sentidos e concentra-se no ser. Não existe ouro sem forma, assim como não existe Brahmán sem manifestação, mas a moksha é a superação do conceito da manifestação. Na conclusão deste ciclo cósmico, no decorrer do período da dissolução, uma completa escuridão cobrirá toda esta criação, mas para os olhos dos jñanis, este também é o momento em que o universo está envolto na realidade de Brahmán. O oceano que é uno e homogéneo apesar da diversidade de movimentos que existem no seu interior, não é mais do que um Brahmán sem segundo, que inclui toda esta diversidade de movimentos que chamamos de mundo. O universo está dentro do ego e o ego dentro desta manifestação, ambos são inseparáveis. O jiva vê esta manifestação no seu interior, sem uma causa determinada nem motivo algum. A pulseira só é de ouro quando deixa de ser vista como pulseira, aqui surge o ouro. Do mesmo modo, os que veem a verdade de não estarem vivos mesmo que vivam, de que morram mesmo não morrendo, porque não existem mesmo que existam. As suas ações apenas são funções corporais involuntárias ou não expressamente desejadas.

O jiva existe em cada corpo como um copo de neve, aparentemente volumoso entre os seres volumosos e subtil entre os subtis.

O eu cai nas garras da sua própria conceção e ao tomar consciência de si mesmo acredita ser um corpo, apesar de ser irreal.

Neste conceito do eu, que é a sede do karma, o jiva, da mesma natureza que o esperma, existe no corpo como a fragância na flor. 

Embora este jiva esteja dentro e fora e em todas as partes, ele identifica-se especialmente com a energia vital do prána, que considera a sua morada. Desta forma, existe no coração de todos os seres vivos e durante isso experiência tudo o que concebe como real, mas não alcança a paz enquanto não abandonar todo o movimento do pensamento e se converter numa não-mente, abandonando a falsa ideia de ser um corpo individual e concreto. 

Em consequência, querido Rama mesmo que continues a alimentar pensamentos e sentimentos variados, se esqueceres o egoísmo ou o sentimento do ego, ficarás em paz com o espaço infinito.

Há sábios de autoconhecimento (jñánis) que vivem neste mundo como se fossem estátuas. Os seus órgãos (karmendríya) continuam a funcionar, mas o mundo não produz a menor distração na sua consciência. Aquele que não se deixa afetar pelas ações é um homem livre.

Aquele que é feliz com qualquer roupa, alimento ou lugar resplandece como um imperador.

Mesmo que pareça viver uma vida condicionada, não está condicionado pois interiormente é livre e vazio. Mesmo que pareça ativo, não se esforça na ação e opera como um sonâmbulo.

A única diferença que existe entre o ignorante e o sábio é que este último está livre de uma mente condicionada. O que à mente condicionada parece o mundo, é visto pela mente incondicionada como Brahmán.

Tudo o que parece existir, perece uma e outra vez para depois se manifestar de novo. 

Quando surge o autoconhecimento, este mundo objetivo é incapaz de deixar qualquer impressão em ti, como uma semente queimada que não pode renascer de novo e transformar-se numa planta. 

Essa pessoa permanece no ser tanto se está ativo ou inativo. Aquele que cessou por completo os desejos do prazer, experiência a paz suprema e não aquele que apenas conseguiu tranquilizar a mente de qualquer outra forma.

Deves seguir o exemplo do piedoso Monki e seguir o teu caminho em direção ao estado supremo, vazio de desejos e livre de todo o condicionamento mental.

História de Monki

Numa certa ocasião, fui convidado pelo teu avô  Aja para uma cerimónia religiosa. Pelo caminho tive de atravessar um denso, poeirento e caloroso bosque de onde ouvi as lamúrias de outro caminhante que percorria a mesma incómoda paisagem. “Maldita seja! – gritava o homem – este calor abrasador só é comprável à companhia de gente malvada que sempre produz dor. Tenho de chegar a alguma cidade onde encontre descanso e possa refrescar-me!”

Como estava muito próximo de uma aldeia disse-lhe:

Amigo, estás no caminho errado. Neste lugar habitado por ignorantes, não podes encontrar mais satisfação do que aqueles que têm sede e bebem água salgada, o que lhes aumenta ainda mais a sede. Os ignorantes deambulam sem rumo fixo e, frequentemente, erram o seu caminho. Não se preocupam com a autoinvestigação nem se afastam das más ações. Funcionam como se fossem máquinas. Mais lhes valia ser uma serpente escondida numa cova ou um verme escondido num buraco de uma rocha ou, então, um veado coxo perdido num deserto, do que permanecer na companhia de gente ignorante. Esta companhia produz um momentâneo prazer mas é venenosa porque destrói o ser.

Quando me ouviu dizer isto, respondeu-me:

Quem é o senhor? Apesar de não possuir nada, parece radiante como um imperador. Por acaso bebes-te o néctar? Está desprovido de tudo e pareces saciado de todas as coisas. Que forma é essa que tens, sábio, que parece não ser nada e tudo ao mesmo tempo, que parece terreno, porém transcendental? Pareces livre de todos os desejos e esperanças, mas ao mesmo tempo pareces manter esperanças e desejos.

 Na tua consciência nascem os conceitos e as ideias de acordo com os teus desejos e no teu interior este universo parece existir como a semente no fruto.

Sou o peregrino chamado Monki. Venho de muito longe e só desejo encontrar o caminho de volta para casa. Mas não tenho força suficiente para o conseguir. Senhor, os grandes Homens praticam a amizade à primeira vista. Estou convencido que jamais sairei deste mundo de ilusões. Ajuda-me, por favor!

Respondi-lhe:

Amigo peregrino, chamo-me Vasishta. Não temas. Encontraste a porta da libertação. Encontraste a companhia de um homem e, portanto, estás mais próximo de alcançar a outra margem deste mundo objetivo. Na tua mente brotou o desapego e reina a paz. Quando o véu que cobre a verdade cai, a verdade brilhará por si própria. O que é que queres saber? Como é que te propões a destruir este mundo ilusório?

O peregrino Monki respondeu:

Senhor, procurei por todo o lado o homem que me pode ajudar a ultrapassar as minhas dúvidas, mas ainda não o encontrei. Hoje consegui este grande privilégio com a tua presença que me faz o mais sortudo dos homens.

Todos os prazeres deste mundo acabam inevitavelmente em sofrimento, e por isso prefiro sofrer do que viver esse prazer que acaba por se tornar dor.  

Sujeito à experiência repetida do prazer e da tristeza, a minha mente está cheia de más ideias que a impedem de refletir a luz interior de uma inteligência desperta.  

Acorrentada às tendências que brotam desta vida ignorante, a mente só me leva à atividade de uma existência pecadora. Foi assim que passei toda a minha vida.  

Este desejo de prazer nunca está totalmente satisfeito e embora todas as suas pretensões culminem no fracasso, nunca deixa de alimentar novos propósitos. No outono as folhas secam e caem das árvores, mas este desejo de prazer e a ansiedade que causa no meu coração nunca se esgota. 

Mesmo o homem mais bem-dotado e possuidor de uma maior prosperidade fica reduzido ao estado mais miserável. A fortuna é muitas vezes a isca que prende os incautos no poço do sofrimento.

Como o meu coração está contaminado com estas tendências negativas que não encontram descanso, os sábios não querem saber nada sobre mim porque veem que só me importo com prazeres sensíveis.  

Por causa disto, a minha mente persegue incansavelmente a sua própria destruição até encontrar a morte.  

A densidade da minha ignorância na qual o ego se espalha ainda não foi limpa pelo luar do estudo das escrituras e pela companhia dos iluminados. O elefante da minha ignorância ainda não enfrentou o leão do conhecimento. A relva do meu karma ainda não encontrou o fogo que o destrói e o sol do autoconhecimento não surgiu em mim, dissipando a escuridão dos condicionamentos mentais.

Caro sábio, o que eu entendi teoricamente não tem para mim entidade ou substância real. Os meus sentidos continuam a devorar-me e o mesmo conhecimento das escrituras parece outro véu ainda mais grosso que não me serve para rasgar o véu da ignorância.

Por isso, estou cercado de ignorância e confusão.  

Peço-lhe, Senhor, que me diga o que é conveniente fazer neste momento.

O sábio Vasishtha, com pena do pobre Monki, disse:

A experiência, o pensamento, as condições mentais e a imaginação não fazem sentido e só servem para produzir distúrbios psicológicos. Todas as tristezas e infortúnios da vida criam raízes e desenvolvem-se na experiência sensível e no pensamento.

Este modo de vida, apelidado de Samsára, é retorcido e tortuoso para aquele que se deixa guiar pelos condicionamentos mentais e tendências latentes. 

No entanto, ele desaparece para aquele que está desperto enquanto cessam os condicionamentos mentais.

A única coisa que há no pensamento é a consciência pura, como a única coisa que existe no espaço é o vazio. O que conhecemos como o sujeito que experiência a ação não é nada mais do que consciência pura, apesar de quando o sentimos como sujeito se expande com a forma deste mundo objetivo. 

O que surge na ausência da atenção desaparece completamente quando voltamos sobre ele a luz da atenção. Este espectador fictício, que é apenas um reflexo do verdadeiro ser, desvanece-se quando examinamos a sua verdadeira natureza.

A divisão sujeito-objeto, criada pela perceção, cessa no preciso momento em que se vê a indivisibilidade da consciência. Os vasos não existem independentemente do barro, pois são apenas modificações do mesmo. 

Os objetos percebidos são feitos de consciência e como objetos de consciência, não são diferentes da própria consciência. 

O que se conhece com o entendimento não é diferente do próprio conhecer, o que não se conhece é simplesmente desconhecido. A consciência é o fator comum do sujeito, o objeto e o ato de conhecer. Portanto, não há outra coisa que esse conhecer que é consciência. Se algo mais existisse, não poderia ser conhecida, pois seria algo completamente diferente do próprio conhecer. 

Portanto, até a madeira e a pedra têm a mesma natureza que a consciência, caso contrário, não poderiam ser percebidas. Tudo o que há neste mundo é consciência.  

Embora os objetos pareçam diferentes entre si, eles não são diferentes em absoluto desde o ponto de vista do espectador, que é o mesmo que os contempla a todos eles, e esse espectador é apenas consciência.

O ego individual que contempla a diversidade objetiva é o criador dessa diversidade.  

O ego é a corrente que nos escraviza e a sua cessação é a libertação. Assim tão simples. Onde está a dificuldade que nos impede de compreendê-la?

A divisão objetiva surgiu tal como aparecem duas luas nos olhos de quem sofre de diplopia e, portanto, parece inapropriado afirmar que duas luas apareceram.

A consciência e a matéria inerte não admitem nenhuma relação. Nem a consciência pode transformar-se em algo inconsciente, nem a matéria pode converter-se em consciência.  

Só existe consciência, apesar de algumas vezes se pense que é inerte da mesma forma que uma rocha que rola do topo de uma montanha, fica inerte aos seus próprios pés.

Quando se cai nesta ilusão da objetividade é-se aprisionado por muitas outras ilusões que surgem dessa ilusão original, como nasce uma multitude insetos após a chuva. A mente é como um bosque na primavera, tão espessa com ideias e conceitos que a claridade não consegue atravessar a folhagem. Devido a esta limitação da ignorância, as pessoas experimentam muitos prazeres e pesos neste mundo.

A lua e o sábio irradiam alegria. São pacíficos, frios e silenciosos, cheios de néctar da imortalidade que nos impede de os ver como o resto dos mortais.

Ninguém, desde o criador Brahma até ao menor dos insetos pode alcançar a paz suprema sem adquirir o controlo perfeito da sua mente. Pela própria investigação da natureza da escravatura, essa deixa de nos escravizar, porque para aquele se dá ao trabalho de analisar cuidadosamente os obstáculos do caminho, estes desaparecem completamente. Os fantasmas não assustam aquele que está atento e desperto.  

Quando fechamos os olhos, a visão das coisas externas é apagada. Se eliminarmos da nossa consciência a ideia do mundo só existe a consciência pura. Inclusive neste momento não há nada além de consciência, o mundo que vemos diante de nós não é nada mais do que uma aparência irreal nascida de uma agitação impercetível dessa consciência. Isto é o que parece ser a criação da mente cósmica que alimenta a ideia de tal criação, apesar de carecer das substâncias materiais necessárias para construir verdadeiramente um mundo material. O mundo é apenas um quadro pintado sobre a tela de Brahman, sem cores e sem pincéis. Como podemos dizer que este mundo foi realmente criado? Por quem, onde, como, quando poderia ter sido?

A ideia “Sou feliz” provoca a experiência da felicidade e a ideia “Sou miserável”, a correspondente experiência da miséria, mas ambas as ideias não são outra coisa que consciência pura, e por isso essas experiências são tão falsas como as ideias que as provocam. Uma vez que o ser ou consciência infinita é incondicionado e ilimitado, não sofre qualquer agitação ou movimento. No ser não há desejos, nem apegos e, portanto, não pode sofrer qualquer inquietude. O apego é a escravatura, o não apego é a libertação. Aquele que permanece no que indicamos com o termo Todo, Infinito ou Absoluto, não deseja nada. Se o corpo físico é tão irreal como aquele que vemos num sonho, o que pode o sábio desejar para agradá-lo?

No estado desperto e iluminado, o sábio alcança o ser e todos os seus desejos são imediatamente satisfeitos. Ao ouvir as palavras de Vasishtha, Monki entrou em profunda contemplação e abandonou a sua ilusão. A partir daí viveu a realizar ações espontâneas e inevitáveis (praváhapatitam káryam).

No ser há unidade e diversidade, mas não como opostas uma à outra. Como podemos dizer que há diversidade no ser? O ser é o único que existe, subtil e omnipresente como o próprio espaço. Não é dividido pelo nascimento e morte dos corpos. O sujeito-espectador, o objeto-visto e o ato de vê-lo não passam de modificações mentais. O ser não esta dividido em sujeito e objeto e, portanto, está para além de toda a contemplação (dhyána). Tudo o que há é o indivisível Brahmán e não todas essas coisas que parecem constituir o mundo. Como pode aparecer esta ilusão? A perceção errada do mundo foi clareada por esta instrução que te dei, agora não há razão para sofreres qualquer escravatura. Tanto na prosperidade como na adversidade, sê livre e vive sem desejos nem ego de qualquer tipo.

Notas:

1 –  Um verdadeiro sábio ou Homem do conhecimento;
2 – Um Homem escravizado ao conhecimento, o falso sábio;
3 – Já se disse antes que esta mente se chamava stava, porque nela só aparece esta guna da claridade e a consciência, e não as de rájas e tamas, que pressupõem a ação, o desejo e a inércia;

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