Jóias dos Upanishads (I): O Brihadaranyaka Upanishad

O Amanhecer é a cabeça do cavalo sagrado, o sol a sua vista, o vento o seu alento, o fogo elemental as suas fauces abertas. O ano é o seu corpo, o céu as suas costas, o ar o seu abdómen, a terra o seu ventre.
1 Escultura de Surya o Deus do Sol e a Luz. Creative Commons

Os deuses montaram o cavalo como um corcel.

No princípio não era nada. A Morte compreendia tudo; a Morte e a fome, pois a fome é a Morte. A Morte gerou a mente e a mente concebeu este pensamento: “Que eu tenha um atman”.

A felicidade é a essência da água. Conhecê-la enche de felicidade. Esta é a verdade. A água é a oração.

O mundo inteiro é o alimento para aquele que conhece a natureza voraz da Morte e dela se nutre.

O Poder e a Luz são a verdadeira essência da vida.

Um é o sacrifício e o outro o fogo do sacrifício, mas só há uma divindade, a Morte. Quem o sabe livra-se de voltar a morrer. A morte não o alcança e ele sume na sua essência, como um deus entre os deuses.

A sensibilidade reside em torno do Espírito, que é consciente disso e a sustenta, guia e orienta.

Do irreal leva-me ao real. Da escuridão leva-me à luz. Do reino da morte, à imortalidade.

E o Sopro vital é por sua vez canto ritual (…) Tal é na verdade o canto sagrado. Quem conhece o íntimo do canto vive em comunhão com o resto dos seres. Pois o Sopro vital é Canto alto. Alto porque sustém o mundo em alto. E Canto porque mantém o ritmo vital.

Quem conhece o canto sagrado não temerá perder o seu próprio mundo.

O medo deve-se à existência do outro. Mas não era feliz sozinho, porque não podia, o Atman compartilhar a sua alegria. Quis companhia. E como era homem e mulher intimamente abraçados, dividiu-se em dois. E dessa divisão nasceram o homem e a mulher.

Tudo neste mundo é alimento e quem o consome. O Soma é a comida e Agni o fogo que o consome.

O atman é o caminho a seguir na peregrinação da vida, pois conhecendo-o conhece-se o mundo inteiro, assim como, seguindo o rasto das coisas se as encontra.

O atman é o vínculo mais íntimo, mais querido que um filho, mais desejado que a riqueza, mais apetecido do que qualquer outra coisa. Quem disser que outra coisa lhe é mais apetecida perderá o que deseja, pois sem o atman nada se pode possuir. Por isso, deve-se cuidar do atman como o mais amado: quem faz isso não é abandonado pelo que ama e o que ama nunca morre.

Manuscrito do Brihadaranyaka Upanishad. Creative Commons

Nada é superior ao dharma. O fraco pode governar o forte através do dharma, que é a força moral. O dharma é a verdade. Por isso, quando alguém diz a verdade, dizemos que o dharma fala por ele. E quando ele diz dharma, sabemos que diz a verdade. Ambas são uma e a mesma coisa.

Quem abandona o mundo sem saber o lugar que ocupa nele nada sabe e de nada lhe serve o mundo. É como um canto védico não entoado ou um rito não celebrado.

O atman é o único que merece ser cultivado neste mundo. E para quem faz do atman o seu próprio mundo, esse cultivo perdurará, porque da colheita do atman pode-se esperar toda a sorte de frutos.

Como os homens aspiram ao bem-estar no seu mundo, assim todos os seres
Atman é a vontade original. Essa vontade compreende tudo, nada há mais que querer.

Esta é a plenitude. A mente é atman. A palavra, a sua esposa. O sopro vital, a sua descendência. A vista, a sua riqueza, pois a vista se consola nas coisas. O ouvido, o seu dom divino, pois o ouvido atende aos deuses. O corpo é o seu sacrifício, pois o corpo é oferecido no final da vida.

(Selecionado da tradução em espanhol de John Arnau, em seu livro “Upanishad: Correspondências ocultas”)

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