Muitas Sementes, Um Só Jardim: Lições dos Bosques Sagrados da Índia

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Este texto baseia-se num evento comemorativo do Dia Internacional da Mãe Terra, realizado na Nova Acrópole de Colaba, Mumbai.

A UNESCO designou o dia 22 de Abril como o Dia Internacional da Mãe Terra, com o intuito de sensibilizar o público para os desafios que ameaçam o bem-estar do nosso planeta e reconhecer a nossa responsabilidade colectiva em promover a harmonia com a natureza.
Como parte das celebrações internacionais do Dia da Mãe Terra, levadas a cabo em cerca de 500 centros da Nova Acrópole em todo o mundo, a Nova Acrópole de Mumbai, em colaboração com a Bombay Natural History Society, convidou a prestigiada autora, historiadora e ambientalista Dra. Nandita Krishna para se juntar a Yaron Barzilay, Diretor Nacional da Nova Acrópole Índia Norte, com o intuito de lançar luz sobre o conceito dos Bosques Sagrados da Índia.
A Dra. Nandita Krishna é fundadora do CP Art Center, do CPR Institute of Indological Research e do CPR Environment Education Center em Chennai, bem como do Museu Shakuntala Jagannath de Kanchipuram. É autora de múltiplos livros nas áreas da arte, cultura, religião e ambiente. Liderou a recuperação de 53 bosques sagrados na Índia e recebeu vários prémios, incluindo o Devi Award, o Nari Shakti Puraskar, o Stree Ratna, o Outstanding Women of Asia Award, o grau de Doutora Honoris Causa (D.Litt) pela Universidade Vidyasagar, tendo sido recentemente distinguida com a Bolsa Nacional do Conselho Indiano de Investigação Histórica.
A Dra. Krishna falou com profundo conhecimento e partilhou uma riqueza de informação importante sobre estes habitats multifacetados e a urgência de os proteger.
Yaron Barzilay pesquisou e escreveu um artigo académico sobre os bosques sagrados da Índia, a ser partilhado por mais de 50 países da Organização Internacional Nova Acrópole. Não satisfeito em permanecer na teoria, Yaron está a pôr o seu trabalho em prática liderando o esforço para criar um bosque sagrado em Raigad, Maharashtra, no Manav Bustan (que significa “jardim para o florescimento humano”, o braço rural da Nova Acrópole de Mumbai). Os seus comentários revelaram a sabedoria filosófica destes espaços místicos e o que deles podemos aprender para aplicar na nossa vida atual.
Apresentam-se abaixo excertos da conversa ocorrida no evento, no centro principal da Nova Acrópole em Colaba:
Yaron Barzilay começou por dizer à Dra. Krishna:
“Embora não saiba, sou seu admirador. Estava a pesquisar para um artigo académico sobre bosques sagrados e encontrei muitos textos ecológicos e científicos, mas os seus escritos foram muito mais do que informativos: despertaram em mim um novo sentido sobre o seu significado. Transmitem amor por este tema, e isso é, a meu ver, o mais importante.
Penso que há algo de especial neste conceito dos bosques sagrados que nos pode ensinar muito. Estima-se que existam mais de 100.000 bosques sagrados por toda a Índia, e se não estou em erro, apenas 10% estão oficialmente documentados. Talvez o que resta sejam apenas fragmentos de algo muito maior que existiu no passado.
A mitologia, a filosofia e os ensinamentos do Ramayana e do Mahabharata estão repletos de ligações com a natureza. E pensei: talvez aqui resida uma chave, não tanto para encontrar respostas, mas para descobrir um caminho de busca filosófica. A filosofia é uma busca, e talvez estes bosques nos possam dizer algo sobre a relação entre o ser humano e a natureza — não uma simples ligação, mas a consciência de que o ser humano é parte integrante da natureza, e que quando falamos de natureza, falamos do universo inteiro.
Para além do tesouro biológico, antropológico, ecológico e do seu enorme valor social, do folclore, das tradições e rituais, há, obviamente, uma dimensão espiritual. E é isso que devemos tentar rastrear: a razão, a filosofia e a sabedoria por detrás deste fenómeno. Como ainda existem, temos uma oportunidade única de reconectar com a terra, com a natureza e com a própria vida.”
Dra. Krishna respondeu:
“A Índia foi outrora um país densamente florestado, onde existia uma relação simbiótica profunda entre o Homem e a Natureza. Animais e árvores foram os primeiros objetos de veneração nas civilizações antigas. A ecologia sagrada indiana começa já no Vale do Indo, como atestam selos de Mohenjo-Daro, cerca de 2500 a.C.
Na Bhagavad Gītā, Krishna afirma: “Eu sou a terra, a água e o ar.” Nos Vedas, a natureza fazia parte de uma força vital indivisível, que unia os mundos do homem, do animal e do vegetal.
Os bosques e florestas sagradas também fizeram parte de outras culturas: da Europa pré-cristã, do xintoísmo no Japão, do taoismo na China, e naturalmente do hinduísmo, jainismo e budismo na Índia.
O Ramayana e o Mahabharata são um deleite para os botânicos, enumerando uma multiplicidade de florestas, rios, plantas, tanques, árvores e flores sagradas. As florestas eram locais de retiro, onde os sábios buscavam inspiração na beleza e misticismo da natureza. Os Aranyakas, parte antiga dos Vedas, foram compilados nesses bosques.
Cresciam ali plantas medicinais e árvores sagradas. Eram refúgio de fauna local. Estes espaços representavam uma forma única de biodiversidade, onde religião e cultura se uniam para conservar a ecologia, numa tradição que remonta aos povos recolectores — e são hoje um dos patrimónios mais importantes da cultura da Índia Antiga.
Hoje, estes bosques sobrevivem como pequenos fragmentos de floresta, com áreas que variam entre dois e centenas de hectares, contendo vegetação nativa e endémica, protegida pelas comunidades locais, com uma ligação espiritual entre a terra e o povo.


Normalmente dedicados a uma Deusa-Mãe, são guardados por tabus rigorosos e revestidos de grande sacralidade. Muitos povos tribais proíbem qualquer interferência humana. Cortar árvores ou caçar é estritamente proibido. Frutos, folhas ou raízes só podem ser recolhidos para fins medicinais. Em certas ocasiões, madeira morta pode ser recolhida para cozinhar o prasad (oferta aos deuses) durante festividades. Mas não se pode usar uma faca numa árvore viva, pois isso é como usá-la num ser humano. As crianças são ensinadas a venerar o bosque e a entrar descalças. Quebrar um tabu implica punições severas pelo panchayat (conselho da aldeia).
Os bosques sagrados são espaços espirituais, mágicos e sagrados, que proporcionam inúmeros benefícios: Abrigo para a fauna; Conservação de plantas medicinais; Controlo da poluição do ar e da temperatura; Preservação da fertilidade do solo; Retenção da água; Beleza cénica e inspiração; e Refúgio espiritual
Contudo, estes habitats estão hoje sob ameaça: pela erosão das crenças tradicionais, pela urbanização, pelo desenvolvimento, pelas alterações nos cultos, pelas conversões religiosas, pela pressão do pastoreio, e pela recolha de lenha.”
Yaron acrescentou:
“Talvez a razão pela qual estes espaços desapareceram tão rapidamente esteja na separação entre três conceitos: panteísmo (a divindade em tudo), politeísmo (vários deuses) e monoteísmo (um só deus).
Na filosofia acropolitana, dizemos que esta divisão é errada: os três devem coexistir e não ser separados. Uma divindade, uma vida sagrada, e a ideia de que nada está desprovido do theos, do sagrado. Precisamos de despertar a nossa consciência para isto.
Um dos livros da Dra. Krishna refere que alguns bosques são dedicados a Parbrahm, o Deus Uno, outros a vários deuses ou forças da natureza, ou a árvores e animais sagrados.
Assim, os bosques sagrados ensinam-nos que a separação entre estas três visões existe — mas elas não são incompatíveis. Separá-las é parte do problema.”
Dra. Krishna:
“Hoje, de entre tantos bosques por toda a Índia, conseguimos documentar 11.000, restaurar 53 e criar um novo, o que foi o mais difícil. Começámos com 2 hectares; falei com os anciãos da aldeia sobre as plantas nativas, os tabus, as regras.
A minha equipa, que incluía botânicos, pesquisou ainda mais. Lentamente expandimos para 5 hectares, e acabámos com um bosque de 25 hectares. A certa altura, a própria natureza assumiu o controlo — e hoje o local é abundante em vida selvagem, incluindo leopardos!”
Yaron comentou:
“Há quem diga, de um ponto de vista ecológico, que seria melhor retirar o ser humano da cadeia ecológica. É uma ideia interessante, mas eu desafio isso.
Retirar qualquer elemento, como as abelhas, pode ter consequências imprevisíveis.
Por isso, considerar que o ser humano é irrelevante na natureza parece-me contra-intuitivo.
Se temos mais capacidades e consciência, não deveremos também ter mais responsabilidades para com a natureza e os seus seres? Talvez haja aqui uma mensagem universal. Os bosques sagrados oferecem-nos um segredo, uma pista, de que estamos todos interligados.”
Dra. Krishna concluiu:
“O ser humano não tem domínio sobre a Terra. Somos um todo unificado.
O Atharva Veda diz que cabe a nós, filhos da Mãe Terra, viver em paz e harmonia com toda a vida.
O divino está em tudo, e toda a vida deve ser tratada com reverência. Vasudhaiva Kutumbakam não é apenas um slogan político: é a família da Mãe Terra, que deve promover o Sarva Bhuta Hite — o bem-estar de todos os seres.
Se as florestas, as árvores, a água limpa e o ar puro desaparecerem, toda a vida desaparecerá.
Para serem sustentáveis, as políticas ambientais devem reconhecer os valores e ideais tradicionais. Caso contrário, **falharão em obter o apoio local necessário ao seu sucesso.”
Yaron:
“Para além da ecologia utilitária, é importante falar de uma ecologia espiritual: ser uno com a natureza.
Falamos da Mãe Natureza. Será apenas uma metáfora?
Se não for, podemos tratar este planeta como um ser vivo? Eis um pensamento filosófico.
‘Conhece-te a ti mesmo’ é uma frase célebre, mas a citação completa é: “Conhece-te a ti mesmo e conhecerás os deuses e o universo.”
Isso implica que ao conhecermo-nos, conhecemos o universo, porque fazemos parte dele.
Gandhi disse: “Na natureza há uma unidade fundamental que atravessa toda a diversidade.”
Quando falamos dos bosques sagrados, muitas vezes focamo-nos no que eles nos podem ensinar. Mas talvez devêssemos focar-nos na primeira palavra: sagrados.
A unidade de que Gandhi fala. Precisamos de nos aproximar dessa unidade, para além da diversidade. A sacralidade — não necessariamente religiosa — mas a unidade da vida.
E fazemos parte dela. Se não o reconhecermos, talvez não nos conheçamos verdadeiramente.”
Dra. Krishna, em conclusão:
“Cada pessoa deve agir para o bem da Terra, da Humanidade, da Criação e de toda a vida.
Essa é a unidade essencial da nossa existência.
O Mahabharata diz: Dharma existe para o bem de todos os seres vivos; e aquilo que sustenta esse bem-estar, isso é Dharma.
Gostaria de terminar com o Shanti Mantra, a oração da paz dos Upanishads, que incorpora esta ideia:
Que a paz irradie por todo o céu e vasto espaço etéreo; que a paz reine sobre toda a Terra, nas águas, em todas as ervas, árvores e criaturas; que a paz se espalhe por todo o universo; que a paz esteja no Ser Supremo; que a paz exista em toda a criação, e só a paz;
que a paz nos toque a nós e a todos os seres. Om Shanti Shanti Shanti.

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