Naad Yoga: a Busca pelo Silêncio

Muitas tradições antigas descrevem inequivocamente o papel do som no processo divino de criação. A Bíblia declara: “No princípio era o Verbo e o Verbo estava com Deus e o Verbo era Deus”. (1) As tradições hindu e budista acreditam que o OM é o som da criação, da diversificação não manifestada em todas as variações de energia que constituem o nosso universo. Se o som caracteriza a criação, o reino da multiplicidade, será então a unidade caracterizada pelo silêncio? Uma vez que vivemos num universo profundamente sonoro, talvez a busca por esse silêncio sagrado nos possa convidar a voltar para dentro.

O som, seja ele música, melodia da natureza, a voz de um ente querido ou uma prece reconfortante, tem a capacidade de tocar, de reorganizar ou de transformar algo dentro de nós. Pode evocar memórias, despertar sentimentos e aumentar a nossa ligação com o nosso envolto e misterioso núcleo. O som pode ser uma ponte para os recessos mais íntimos do nosso ser e, por causa dessa capacidade única, o antigo sistema metafísico do Naad Yoga, usa o poder do som para alcançar uma evolução da consciência e uma união com o metafísico. Naad significa “essência do som” ou “fluxo do som”, e yoga significa “união” ou “caminho”.

O Natya Shastra, o tratado fundamental do qual se diz que todas as artes clássicas da tradição indiana emergiram, refere-se à arte como uma escada para alcançar o divino. Por meio de uma prática meticulosa, disciplina exigente e devoção inabalável, o objetivo do artista é entendido como a capacidade de usar o modo, a estrutura e o processo da arte para romper o véu entre o mundo visível e o reino do invisível: para usar a forma, para experienciar a ausência de forma, um plano de consciência que transcende as limitações de tempo ou espaço.

Consequentemente, o Naad Yoga é descrito pelos praticantes como uma concentração intensa num determinado som, seguindo-o profundamente para dentro, usando-o como um meio de tocar áreas da consciência que estão geralmente inacessíveis. A sílaba OM é particularmente adequada para esta meditação, pois ressoa intimamente com o zumbido contínuo do Tanpura, um instrumento indiano, que cria uma gama harmónica numa cascata de sobretons num ciclo contínuo. A sua constância serve de metáfora para o eterno, o imóvel e o perpétuo, que é um contraste com a condição humana comum num estado de fluxo constante; as nossas energias, humores e pensamentos subindo e descendo com as mudanças no nosso ambiente interno e externo.

Alguns discípulos de certas escolas de música indiana clássica, por exemplo, levantam-se às 4h da manhã para praticar a svar sadhna, a recitação de uma única nota, repetidamente, às vezes até 45 minutos, imergindo-se completamente no som para experimentar uma dissolução da capa que existe entre o eu e o som.

Imagem Creative Commons

O notável artista vocal Chintan Upadhyay (M.A. em Música Indiana Clássica), que tem ensinado e desempenhado a antiga forma de música Dhrupad, tanto internacionalmente quanto por toda a Índia, foi apresentado pelo Círculo de Cultura na Nova Acrópole (Colaba, Mumbai). Durante o íntimo e inspirador recital, ele explicou a sua experiência deste processo enigmático e quase alquímico: “Se eu cantar a mesma nota cem vezes, posso ter cem sabores diferentes da mesma nota devido às camadas da personalidade [humores, emoções, pensamentos, etc.] Então, estás a revelar quem és quando usas o instrumento de sa. Subitamente algo acontece dentro de ti. Os segredos dentro de ti vêm à tona se lhe deres tempo. Tu tens que esvaziar o teu vaso de pensamentos quotidianos para poderes receber do superior. Então, se tiveres muita sorte, um dia descobrirás que sa sa nahin rahetha aur aap aap nahin [que sa deixa de ser uma nota e tu deixas de ser tu]. Tu tornas-te no sa, e no som além da nota.”

“Aquilo que criou, que mantém, e no qual está sustentada toda a manifestação e todo o cosmos, é um poder e isso é vibração”. (2)

A ciência do Naad Yoga começa com a ideia de que não é a matéria, mas diferentes formas de energia que são os blocos de construção de nosso universo. Esta ideia está de acordo com a faculdade moderna da Teoria das Cordas que, correndo o risco de simplificar demais, postula que tudo no nosso universo é feito de filamentos microscópicos de energia, vibrando em frequências diferentes. Portanto, tudo, desde os planetas e estrelas, aos átomos e as células que constituem o corpo humano, está em constante vibração! E uma vez que cada vibração tem a sua própria frequência distinta, os sons resultantes à nossa volta e dentro de nós, tornam-se o assunto de meditação no Naad Yoga. (3)

Os Naad Yogis praticam a escuta profunda, atenta e reverente destes sons internos, com o propósito de descer para dentro, para descobrir a natureza divina interna. Diz-se que com prática árdua e determinação incansável, uma reversão interna começa a ocorrer; a atividade aberta, ativa e energética externamente começa a retroceder, e a parte que até então estava adormecida, desperta. Essa transformação interna exige esforço e perseverança. Mas, paradoxalmente, como qualquer discípulo no caminho atestará, quanto mais assiduamente se trabalha, mais energia excedente é gerada e mais se pode trabalhar incansavelmente.

É digno de nota que temos a capacidade de filtrar sons externos que nos engolfam continuamente e, felizmente, não estamos sintonizados com os muitos sons internos que nosso corpo faz constantemente. Caso contrário, ficaríamos completamente sobrecarregados com a quantidade de informações sonoras. O Naad Yoga cultiva ao mesmo tempo, tanto a ampliação quanto a focalização da sensibilidade, para ouvir intensa e profundamente. Ele diferencia 4 tipos de som, do mais óbvio ao mais subtil (4):

  • VAIKHARI, ou som externo bruto.
  • MADHYAMA, ou som mental que consiste em palavras que usamos para formar o discurso. Inclui nosso diálogo interno e as palavras que constituem as nossas memórias.
  • PASHYANTI é o som visual, vendo o som como formas físicas, luz ou cores.
  • PARA, que significa além. Está além do que os órgãos dos sentidos podem percecionar. Está além do som audível. Para é ir além de nós mesmos, indo para dentro de nós mesmos.

Se o para é descrito como um som além de nossa perceção humana, o que é então o silêncio? Místicos de muitas tradições antigas reconheceram o silêncio como a origem, o pano de fundo contra o qual todo o som é ouvido. No Sufismo, o silêncio “do qual todas as vibrações surgem e no qual todas as vibrações se dissolvem” é chamado de Zat, os budistas referem-se a Shunyata e os hindus chamam-no de Naad Brahman, o som sem som, a consciência universal. (3) Além disso, é fascinante que o Naad Yoga diferencie também entre diferentes níveis de silêncio. À medida que alguém “escuta” esse silêncio, pode tornar-se ciente do silêncio ainda mais profundo por detrás dele, formando um pano de fundo que o torna “audível”. É seguindo esse fio cada vez mais profundamente dentro de nós, retirando essas camadas de silêncio, que talvez nos tornemos, como Kahlil Gibran tão poeticamente descreveu, “buscadores de silêncios”. (5)

Khalil Gibran – Auto-retrato com Musa. Museu Soumaya. Creative Commons

Poderá esta prática antiga, complexa e aparentemente esotérica, que remonta ao Naad Bindu Upanishad do Rig Veda, ter significado na nossa vida diária hoje? Para mim, esta investigação inspirou uma reflexão muito mais profunda nos vários sons que encontro todos os dias. Percebendo o poder e o potencial do som que a tradição parece sugerir, talvez possamos começar a ouvir com mais atenção e sensibilidade. Enquanto tomamos banho, por exemplo, podemo-nos tentar concentrar no som da água corrente, terapêutica e purificadora, para nos limparmos por dentro, mesmo quando nos limpamos por fora. Ou podemos desenvolver a concentração para filtrar efetivamente os ruídos, para ouvir com mais precisão o chilrear dos pássaros. E se exigíssemos melhor controle dos sons que contribuímos para as vibrações da vida, escolhendo com mais discernimento as nossas palavras? Esta, na verdade, é a mudança mais crucial que podemos fazer imediatamente.

As nossas palavras têm um poder imenso. Eles canalizam uma força criativa que se expressa como ação e, por fim, criam a nossa realidade. É fundamental, então, que aprendamos a trazer mais precisão, objetividade e positividade ao nosso discurso, como O Buda instruiu os seus seguidores para que o fizessem com os seus ensinamentos sobre a Reta Palavra, ou que mantivessem o Nobre Silêncio.

Muitas tradições descrevem a condição atual do ser humano como uma “Queda do Paraíso”, um esquecimento da nossa verdadeira natureza. Parece que o Naad Yoga, o yoga do Som, foi concebido como uma ferramenta poderosa e potente para nos despertar para uma consciência universal, para lembrar o silêncio que foi e que é sempre o nosso verdadeiro lar. Talvez assim nos possamos sintonizar um pouco mais com a música e com a harmonia da Natureza; aprender a ouvir proactivamente, o que Pitágoras poderia ter chamado de “a música das esferas celestes”. E lembrar, como disse Platão, que somos Deus, para que possamos reivindicar o nosso potencial; para nos tornarmos quem podemos ser… hoje.

“Não há outro laya (absorção) que se equipare ao naad (som interno).” – Hatha Yoga Pradipika

Publicado em New Acropolis India em 31 de Março de 2021

Deixe uma resposta