Notas sobre a Bhagavadgita

A Bhagavadgita faz parte do grande épico hindu Mahabharata. Neste épico é narrada a luta entre dois grupos rivais que disputavam entre si a conquista da gloriosa cidade de Hastinapura.

É difícil de identificar exactamente quando a Bhagavadgita foi escrita, pois as opiniões sobre o assunto são muito diversas. Para alguns, a sua idade é de 5000 anos ou mais, e para outros, é reduzida para quatro ou dez séculos após a era cristã. De qualquer forma, não importa especificar a idade desta obra, pois, em última análise, a sua Mensagem é tão antiga quanto o próprio Homem. Através das suas páginas, podemos encontrar não apenas a história do homem como tal, mas a de todo o universo. Tudo o que existe tem a sua explicação na Bhagavadgita.

Isto fica mais claro se procurarmos o significado etimológico na Bhagavadgita: “Cântico do Senhor” ou “Cântico do Mestre”. Entendemos por ‘Cântico’ aquelas palavras mágicas da Divindade que, com seu imenso fluxo de conhecimento, nos mostram o significado da vida. Esta música não é para os ouvidos externos; somente os ouvidos da alma podem percebê-la e voar com ela. Esta é a melodia perfeita que nos fala sobre a lei do mundo, e poder ouvi-la é começar a viver harmoniosamente com a lei.

À medida que mergulhamos mais profundamente nesta obra, a nossa atenção é atraída por cinco elementos simbólicos de especial importância.

A Cidade de Hastinapura

Também chamada Cidade dos Elefantes ou Cidade da Sabedoria. O que representa esta cidade e por que está relacionada a elefantes e sabedoria? Para responder a isto, devemos recordar que os Orientais usam muitos símbolos e após analisar o comportamento, a aparência, a conduta e os costumes do elefante, eles escolheram-no como um símbolo da Sabedoria. 

Apesar da sua aparência grande e pesada, ele caminha devagar: tem tal sensibilidade que os seus passos não interferem no menor caminho de formigas. Os olhos do elefante são pequenos, eles não se destacam em relação ao seu tamanho e, da mesma forma, no Sábio, a visão do mundo externo pouco importa; mas quem poderia abranger o que os seus olhos internos vêem! As orelhas são grandes, acostumadas a ouvir muito, mas também a entender muito.

No entanto, quando aquele elefante gentil ouve na selva o grito da sua manada, não há obstáculo capaz de o deter: corre e arrasta tudo para se juntar à voz que o chama. É assim também que o Sábio funciona: quando a Voz Superior o chama para a elevação, não há obstáculos no mundo material que o possam retardar.

Sem dúvida, Hastinapura é a Cidade da Sabedoria: o Reino que todo o homem acordado anseia e deve conquistar. Essa é a única possessão do ser humano, porque não é uma sabedoria perecível e fruto de uma cultura específica. É o Conhecimento Eterno que não muda com o tempo. É o que forma a essência de todas as coisas: ele nunca nasceu e também não morrerá.

Os Kurus ou Kauravas

Eles simbolizam a personalidade do homem com os seus múltiplos defeitos. É a imagem do ser mundano, totalmente dividido na ânsia de responder às numerosas solicitações. Ele é o homem que, tão preocupado com o que vê fora de si, se esquece de olhar para dentro. Ele é aquele que perdoa os seus vícios porque se sente mais à vontade em não lutar contra eles. Ele é quem silencia, pela força, a voz da sua consciência, porque dói ser imperfeito, porque o incomoda o que ouve; mas, ao mesmo tempo, sofre quando imagina qualquer esforço para se corrigir.

Esse conforto, essa inércia, são sinais de morte, porque se a cidade de Hastinapura, a dos altos ideais, não for conquistada, onde viveremos quando a personalidade morrer?

Os Pandavas

Representam as forças benéficas e positivas que forçam o homem a crescer. Neste grupo, estão aqueles que ouviram a sua voz interior e estão dispostos a seguir as suas instruções. Seguir esta Voz significa levantar-se com esforço das próprias ruínas e reconstruir-se, mas desta vez para cima. O homem percebe o Divino e compadece-se da sua pobre condição humana, anula-a, reconstrói-a, aperfeiçoa-a, até que se assemelhe ao modelo proposto.

Yudhisthira, o mais velhos dos cinco Pandavas, chega a Hastinapura no final da guerra no Kurukshetra no épico Mahabharata. Wikipedia

Arjuna

É a imagem de toda a humanidade. Cada um de nós trava, ou algum dia travará, a mesma batalha que Arjuna. Quem nunca sentiu o desejo de vencer? Quem não entendeu que esta superação é acompanhada de esforço e dor? Quem, em algum momento, não se acostumou perante esta perspectiva?

Mentiríamos se disséssemos que nunca nos sentimos abatidos perante as dificuldades. Mas também mentiríamos se tentássemos convencer-nos de que é melhor não lutar. Há algo que nos faz sentir mais seguros, mais acompanhados: o saber que não estamos sozinhos na luta. Se nos virarmos e perguntarmos a quem está ao nosso lado, veremos que de maneira semelhante à nossa, esse ser também está a viver as suas batalhas.

Sentir e saber que toda a Humanidade trabalha para a superação, é o maior incentivo que nos leva a unir-nos e a não perder um instante, porque uma fraqueza nossa poderia pôr em causa o trabalho do mundo.

E não vamos pensar apenas nos homens. Já vimos uma planta crescer e observámos a paciência que uma flor precisa até se abrir? Se toda a Natureza colabora no mesmo plano, o homem, sendo dotado de razão e vontade, vai desistir? Não. Não vamos desanimar. A pequena derrota de um dia não significa a batalha perdida. A batalha é vencida dia após dia, semeando esforços, ganhando vida. O Homem, para ser chamado assim, deve ganhar este nome com trabalho. Não são Homens todos os que nascem, mas aquele que se faz a si mesmo. Não vamos pensar que estas são palavras vazias; também não acreditamos que se consiga alguma coisa aprendendo-as de cor: é necessário vivê-las. Sentir os “puxões” do que está acima e do que está abaixo diariamente, e ir traçando o caminho.

Krishna

Representa, na Bhagavadgita, a encarnação da Divindade Suprema, mas ele também é o Mestre, o conselheiro que abre o caminho de Arjuna. Possivelmente acreditamos que na rotina da nossa vida diária não encontraremos nenhum Krishna para nos ajudar durante a batalha, mas vamos pensar um pouco melhor: não vamos procurar um Krishna externo, porque se aprendermos a conhecer o nosso Eu Superior, encontraremos o Grande Mestre. Como reconhecer o nosso Eu Superior? Quando nos tocam o coração palavras de amor, de arrependimento pelos erros, de total altruísmo; quando ouvimos palavras que nos embaraçam por vivermos de forma tão antagónica a estas; quando tentamos afogar esta voz, porque pensamos que obedecer-lhe representa um sacrifício, então, este é o Eu Superior que nos está a falar. Sim, é sem dúvida difícil agir de acordo com a voz do altruísmo. É possível que no início da luta haja mais dores do que alegrias. Mas, no final deste caminho, a Felicidade Suprema espera-nos: sermos nós mesmos, permitirmo-nos caminhar na direcção desse Eu que é naturalmente capaz de percorrer o Caminho.

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