O Mistério de Buddha e Adi Shankara

Adi Shankara foi um mestre da filosofia indiana, consolidando uma escola que ficou conhecida como Advaita Vedanta. Há, no entanto, fortes evidências que manifestam a existência de vários mestres que dão pelo mesmo nome de Shankarasharya.

A Enciclopédia Britânica[1] aceita o seu nascimento no séc. VIII d.C., em linha com a generalidade dos investigadores ocidentais desde Max Muller. No entanto, se recorrermos às fontes orientais – designadamente aquelas recolhidas por T. Subba Row junto dos mosteiros fundados por Shankara – obtemos o ano de 510 a.C. para o nascimento do mestre.[2] Isto é importante para a identificação de Adi Shankara (o Primeiro Shankara), a partir da qual se poderá estabelecer a autoria de cada um dos textos que tradicionalmente lhe são atribuídos. 

Toda esta deliberação acerca de Adi Shankara está muito bem desenvolvida nos artigos de David Reigle, tanto quanto à data, como quanto ao estabelecimento dos seu textos originais.[3] [4]

Apenas no mosteiro indiano em Kanchi, chamado Kamakoti Peetham, pertencente a um ramo do hinduísmo ainda presente nos dias de hoje[5], contam-se pelo menos oito Shankaracharyas, até ao séc. XV, entre os mestres que estiveram à frente do mosteiro.[6]

Templo Vydashankara no mosteiro Dakshinamnaya Sharada Peetha em Shringeri, um dos quatro mosteiros fundados por Shankaracharya na Índia. Wikipedia

Em todo o caso, H.P. Blavatsky afirma no seu livro A Doutrina Secreta que Shankaracharya foi “o maior iniciado dos tempos históricos” e “o maior dos mestres Esotéricos da Índia”.[7] Quanto a qual dos metres se refere, não fica imediatamente claro pela leitura desta obra. No entanto, podemos fazer uma argumentação em apoio de que se refere a Adi Shankara, de 510 a.C..

Em várias referências que H.P. Blavatsky faz a respeito de Shankaracharya, torna-se claro que não haveria qualquer contradição entre os seus ensinamentos e os de Gautama Buddha. Ainda na introdução de A Doutrina Secreta, afirma HPB que Shankaracharya é o grande sucessor de Buddha, continuando, no final do mesmo volume, dizendo que a mesma sabedoria secreta é ensinada por Krishna, Shankaracharya e Buddha.[8]

Ora, talvez nos confunda, então, aquilo que lemos no comentário aos Brahma-sutras, o texto que os investigadores atuais consideram como o mais inquestionável dos textos da autoria e Shankaracharya:

“Seja de que perspetiva tomarmos o sistema [niilista] de Buddha, ele cai de todos os seus lados, como as paredes de um poço aberto em areias oleosas. De facto, não tem qualquer base onde se apoiar, e portanto, as tentativas de o utilizar como guia prática para a vida é meramente tola.[…]Portanto a doutrina [niilista] do Buddha tem que ser inteiramente desconsiderada por todos aqueles que levam em conta a sua própria felicidade.” [9]

Este aparente paradoxo poderá, talvez, ser resolvido se atendermos às suas inúmeras causas possíveis, baseadas na doutrina esotérica exposta por HPB. Primeiro de tudo, lembrando que Gautama Buddha ensinou duas doutrinas: por um lado o aspecto exterior ou filosofia exotérica, chamada a “Doutrina do Olho”, e por outro lado, aos seus discípulos mais próximos, a “Doutrina do Coração” que continha os ensinamentos da filosofia esotérica mais profunda e completa. A Doutrina do Olho, ainda que baseada no aspecto profundo da sabedoria divina, foi paulatinamente interpretada num sentido superficial, especialmente patente no Budismo do Sul, nitidamente niilista, negando os aspectos transcendentes da natureza humana e preterindo a compaixão em prol da libertação individual.[10] Provavelmente, era esta última doutrina aquela que Adi Shankara tentava rebater, e não os ensinamentos esotéricos de Gautama.

Segundo, reconhecendo que Gautama Buddha, conquanto Avatara divino da linha budhisátvica[11], opera nos princípios espirituais da sua personalidade certos processos extremamente misteriosos, dos quais apenas conhecemos um esboço. De acordo com a explicação de HPB no seu artigo “O Mistério de Buddha”, um Avatara, resultando da iluminação de um ser humano aperfeiçoado ao ponto de receber o influxo da sabedoria divina, assenta a sua existência em três veículos, a saber:

“1° o Nirmanakaya, no qual o Bodhisatva, depois de entrar na senda do Nirvana pelos seis Paramitas, aparece entre os homens com a missão de instruí-los; 

2.° o Sambhogakaya, o corpo de bem-aventurança, impermeável às sensações físicas, de que se reveste aquele que satisfez os três requisitos de perfeição moral;

3.° o Dharmakaya. que é o corpo Nirvânico.” [12]

O ponto essencial a assinalar é que, mesmo depois de atingir o Nirvana, o Bodhisattva é aquele que reaparece (através do seu veículo Nirmanakaya) entre os homens para continuar a sua missão de Instrutor. Vejamos o que diz A Voz do Silêncio:

“Afasta-te da luz do sol para a sombra, para dares mais espaço aos outros. As lágrimas que regam o solo árido da dor e da tristeza fazem nascer as flores e os frutos da retribuição cármica. Da fornalha da vida humana e do seu fumo denso, saltam chamas aladas, chamas purificadas, que, erguendo-se alto, sob o olhar cármico, tecem por fim o tecido glorioso das três vestes do Caminho.

Essas vestes são:  Nirmanakaya, Sambhogakaya, e Dharmakaya, traje sublime.

[…] Os Budas perfeitos, que vestem a glória do Dharmakaya já não podem contribuir para a salvação humana. Ai de nós! Devem as personalidades ser sacrificadas a uma só? Deve a humanidade ser sacrificada ao bem de indivíduos? Aprende, ó principiante, que este é o caminho aberto, o caminho para a felicidade egoísta, evitado pelos Bodhisattvas do Coração Secreto, os Budas da Compaixão.

Viver para servir a humanidade é o primeiro passo. Praticar as seis virtudes gloriosas é o segundo. 

Vestir a veste humilde do Nirmanakaya é rejeitar para si a felicidade eterna, para poder auxiliar a salvação humana. Chegar à felicidade do Nirvana, mas renunciar a ela, é o passo supremo, final – o mais alto no caminho da renúncia.

Aprende, ó discípulo, que é este o caminho secreto, escolhido pelos Budas da perfeição, que sacrificaram a sua Personalidade a personalidades mais fracas.”

Isto vai ao encontro do que é afirmado no artigo de H.P. Blavatsky já mencionado:

“De tempo a tempo o Gautama “astral” [Nirmanakaya] reúne-se misteriosamente, e de modo incompreensível para nós, com Avataras e grandes santos, e atua por intermédio deles. E os nomes de alguns são conhecidos. […]

Shankaracharya era certamente um Buddha; não foi, porém, uma reencarnação de Buddha, embora o Ego “astral” de Gautama (ou melhor: seu Bodhisattva) possa ter-se associado misteriosamente a Shankara. […] Em ambos, Atman, o Eu Superior, era distinto…” [13]

Uma outra misteriosa afirmação vai no mesmo sentido:

“Cinquenta e poucos anos depois de sua morte, o “Grande Mestre” renunciou ao Nirvana e ao estado de Dharmakaya, e preferiu renascer uma vez mais, por motivos kármicos e de compaixão pela humanidade.” [14]

Fica então evidenciado o fundamento para que Adi Shankara tenha nascido, segundo HPB, no séc. VI a.C.. Chegamos assim, também, ao ponto em que HPB manifesta a existência de um vínculo esotérico, misterioso e metafísico, entre Gautama Buddha e Adi Shankara. Este último, um brâmane da índia meridional, durante os seus 32 anos de existência física, teria servido de veículo apropriado para uma continuação da obra do primeiro, já não para instituir uma nova mensagem místico-religiosa – que veio a ficar conhecida como Buddha Dharma ou Budismo – mas sim para reformar profundamente, com base nos mesmos princípios da sabedoria esotérica, o pensamento filosófico e religioso que se apoiara ao longo de séculos nos Vedas, Upanhishads, Sutras, Sruti e Smritis, que constituem uma inesgotável fonte de sabedoria. 

Tratou-se, fazendo fé nesta possibilidade, de uma reforma dupla da sabedoria da Índia. Por um lado, um novo sistema, mais límpido e puro, rompendo com o tradicional bramanismo, com o seu ritualismo exacerbado e a sua rigidez dogmática quanto à interpretação dos seus textos sagrados e filosóficos. Por outro lado – sabendo que a doutrina de Buddha não iria ser acolhida plenamente pelas mentes embebidas do ancestral conhecimento védico – através dos comentários de Adi Shankara aos textos mencionados, efetuou-se uma renovação daqueles ensinamentos ancestrais, tornando-os mais claros e afins à Doutrina Secreta promovida tanto por Gautama como por Shankaracharya, ambos ao serviço da mesma causa oculta.

Destacamos, por fim, que este é mais um sinal do trabalho oculto dos Mestres de Sabedoria que desde tempos imemoriais têm trabalhado para a evolução da consciência humana e da harmonização dos pontos de vista e das variadas correntes de pensamento. Ainda que na aparência se afigurem muito distintas, na sua essência e finalidade contribuem para o despertar interior do ser humano e para a fraternidade universal com todos os seres.

A Árvore Banyan[15] faz entrar os seus ramos de novo no solo, de onde emanam raízes criando uma nova árvore, apesar de sempre ligada à anterior. É, deste modo, um símbolo esotérico da Árvore da Sabedoria e da conexão oculta entre os Mestres de Sabedoria, que espalham a sua Mensagem em Ramos que fazem parte da mesma Árvore. Fotografia de Lovell D’souza.

De modo a ilustrar o que foi dito, conta-se uma pequena história, a favor do contacto de Shankara com os grandes Mestres de Sabedoria dos Himalaias, Coração da Hierarquia espiritual da humanidade, que aqui recriamos de forma livre:[16]

Corria o ano de 500 a.C. quando Shankara, com menos de dez anos de idade, obtém permissão da sua mãe para ingressar na sagrada ordem de Sanyasa, onde foi iniciado pelo seu mestre Govinda nos seus sistemas filosóficos, nas margens do rio Narmanda.[17]

Govinda decide então levar Shankara ao seu mestre, Gaudapada, já então com 120 anos de idade, que vivia nos Himalaias. Permaneceu nas montanhas por quatro anos, sob a orientação do seu Paramaguru (o mestre do seu mestre).

Encantado com a atividade de Shankara e com os seus comentários aos Vedanta Sutras, Gaudapadacharya decide levá-lo aos seus próprios Guru e Paramaguru, Badarayana e Suka, que naquele momento estavam nos picos do Monte Kailasa em estado de Brahmanistha, ou seja, absorvidos na contemplação de Brahma debaixo de uma amoreira. 

Shankara considerou-se, nesse momento, o mais afortunado dos homens, descrevendo tal estado com palavras que os sábios das Eras passaram a louvar do seguinte modo:

“Abençoados são aqueles por quem Brahman é contemplado com a atenção focada num só ponto da seguinte maneira:

‘Não é Aquilo o que não é,

Nem é Aquilo o que é,

Nem é Aquilo uma combinação de ambos.

Nem é grande nem subtil,

Nem é Aquilo feminino ou masculino ou neutro.

É a fonte de tudo.’

Tais pessoas brilham com glória, enquanto outros permanecem enredados nas correntes da vida mundana.” [18]

Shankara foi depois levado junto do Grande Instrutor, Mahadeva, o qual, aos pés da grande árvore Banyan, lhe apareceu na forma de Dakshinamurti – a personificação da suprema consciência, compreensão e conhecimento – para ser instruído diretamente por Shiva nos picos nevados de Kailasa.

Depois disto, Badarayana e Suka deram a Shankara a sua bênção e dirigiram-no a Benares, o grande centro de toda a aprendizagem Ária, para que iniciasse a prédica da Darsana Advaita.

Assim que o Badarayana e Suka lhe deram a bênção, desapareceram miraculosamente da sua vista, e nem mesmo de Gaudapada restou sinal para confortar Shankara naquela estranha terra dos Siddhas. Tendo cumprido as missões das suas vidas neste mundo, os três grandes instrutores foram para Kailasa, onde Mahadeva, o grande Senhor da Sabedoria, se senta em seu trono na Montanha de Prata, com a Mãe do Mundo, a Deusa Uma, ao seu lado, deixando o resto das suas tarefas nas hábeis mãos de Shankara.

O Senhor Shiva debaixo da árvore de Banyan a ensinar os sábios da humanidade. Templo Madurai Meenakshi, Índia. Wikipedia

Notas:

[1] https://www.britannica.com/biography/Shankara.

[2] T. Subba Row, Sri Sankaracharya’s Date and DoctrineTheosophist, Setembro, 1883

[3] Para a questão da data: David Reigle, The Original Sankara 

[4] Para a questão da obra: David Reigle: Works of the Original Sankara.

[5] Pode-se consultar a sua página de internet nesta ligação: http://www.kamakoti.org/

[6] Naryana Sastry, The Age of Sankara, p.196. 2ª Ed., 1971

[7] H.P. Blavatsky, The Secret Doctrine, Vol. I, p. 92 e 236. 1888

[8] H.P. Blavatsky, The Secret Doctrine, Vol. I, p. 21 e 480. 1888

[9] Brahmasūtrabhāṣya of Śrī Śaṅkarācārya 2.2.32, citado por David Reigle, The Original Sankara, p.21

[10] Sobre a Doutrina do Olho e a Doutrina do Coração ver A Voz do Silêncio de H. P. Blavatsky.

[11] Ver Jorge Ángel Livraga, Introdução à Sabedoria do Oriente.

[12] H.P. Blavatsky, A Doutrina Secreta, Vol. VI, p.33. (versão portuguesa)

[13] H.P. Blavatsky, “O Mistério de Buda”, in A Doutrina Secreta, Vol. VI, p.25 – 33. (versão portuguesa)

[14] Idem

[15] Ver o Glossário Teosófico de H. P. Blavatsky.

[16] História recriada com base nas páginas de Naryana Sastry, The Age of Sankara, p.85 e seguintes. 2ª Ed., 1971

[17] Para uma tabela cronológica da vida de Adi Shankara, ver Naryana Sastry, The Age of Sankara, p.181. 2ª Ed., 1971

[18] Dhanyáshtakam de Sri Shankaracharya

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