O Princípio Septenário no Esoterismo

Publicado por Universal Theosophy, 4 de Agosto de 2016

Desde que se começou a expor a doutrina esotérica Arhat, muitos dos que desconheciam a base oculta da doutrina Hindu, imaginaram que havia diferenças entre ambas. Alguns dos mais intolerantes, acusaram diretamente os ocultistas da Sociedade Teosófica de propagar a heresia budista, e chegaram a afirmar que todo o movimento Teosófico não era mais que uma propaganda budista disfarçada. O movimento Teosófico foi insultado por Brâmanes ignorantes e académicos europeus, dizendo que as nossas divisões setenárias da Natureza e de todo o seu conteúdo, incluindo o homem, eram arbitrárias e não confirmadas pelos mais antigos sistemas religiosos do Oriente.

Propomo-nos agora fazer uma vigem superficial pelos Vedas, os Upanishads, os Livros da Lei de Manu e particularmente o Vedanta, como forma de demonstrar que eles suportam a nossa posição. Mesmo no seu exoterismo mais vulgar aparece claramente a afirmação da divisão septenária. Linha após linha poderia ser utilizada como prova de citação, e não só pode ler-se o misterioso número em cada página das mais antigas Escrituras Sagradas Arias, mas também nos livros mais antigos do zoroastrismo, nos anais que conseguimos salvar das antigas Babilónia e Caldeus, no Livro dos Mortos e Rituais do antigo Egito, até nos livros mosaicos, sem fazer menção as obras secretas judaicas, como a Cabala. 

O limitado espaço de que dispomos obriga-nos a cingirmos a umas breves citações, não permitindo sequer extensas explicações. Não é exagerado assegurar que poderiam escrever-se extensos artigos para cada uma das breves referências que aparecem nos slokas citados.Desde o bem conhecido hino ao tempo do Atharva Veda (XIX, 53):

O tempo, como um corcel com sete raios,
Cheio de fecundidade, arrasta tudo enfrente. 
Tempo, como uma carruagem de sete rodas e sete compartimentos segue enfrente,As rodas rolantes são todos os mundos, o seu eixo é a Imortalidade.”

Até Manu, “o primeiro e o sétimo homem”, os Vedas, os Upanishads, e todos os sistemas filosóficos posteriores são prolíficos em alusões a este número. Quem foi Manu, o filho de Swayambhuva? A Doutrina Secreta diz-nos que este Manu não era um homem, mas a representação das primeiras raças humanas que evoluíram com a ajuda dos Dhyan-Chohans (Devas), no início da Primeira Ronda.

Mas é-nos dito nas suas Leis (Livro 1. 80) que há catorze Manus para cada Kalpa ou “intervalo entre criação e criação” (leia-se intervalo de um “Pralaya” menor para outro) e que “na presente idade divina houve até agora sete Manus”. Os que sabem que há sete Rondas, das quais três já passaram, e que estamos atualmente na quarta, e que existem sete auroras e sete crepúsculos ou catorze Manvantaras, que ao princípio de cada Ronda e no seu fim e sobre e entre os planetas, há “um despertar da vida ilusória” e “um despertar à vida real”; que existem ainda “Manu-Raizes” e os que os traduzimos imperfeitamente como “Manu-Sementes”- as sementes da Raça humana da Ronda vindoura (um mistério somente divulgado a aqueles que passaram o terceiro grau de iniciação).

Os que aprenderam tudo isto estão mais preparados para perceber tudo o que segue. É-nos dito nas Sagradas Escrituras Hinduístas que “o primeiro Manu produziu outros seis (sete Manus primários na totalidade), e estes produziram por sua vez cada um mais sete Manus (Bhrigu 1. 61-63)1, resultando a produção destes últimos nos tratados ocultos como 7 x 7.Aparece claramente que Manu – o último, o progenitor da nossa humanidade, da Quarta Ronda – terá de ser o sétimo, visto que nos encontramos na nossa Quarta Ronda e que há um Manu-Raiz no Globo A e um Manu-Semente no Globo G. Assim como cada Ronda planetária começa com a aparição de um Manu-Raiz (Dhûan-Chohan) e termina com um Manu-Semente, de igual modo aparecem respetivamente um Manu-Raiz e Semente ao princípio e fim do período humano em cada planeta particular.

Facilmente se pode ver pela declaração anterior que um período Manu-antárico significa, como o termo indica, o tempo entre o aparecimento de dois manus ou Dhyan-Chohans, e consequentemente um Manu-antárico menor é o tempo de duração de sete raças em um planeta particular, e um Manu-antárico maior é o período de duração de uma ronda humana na cadeia planetária. Ainda, como nos dizem que cada um dos sete Manus cria 7 x 7 Manus e que há 49 Raças-raízes sobre os sete planetas durante cada Ronda, cada Raça-Raiz tem, assim, o seu Manu. O sétimo Manu atual é chamado “Vaivasvata”, e aparece nos textos exotéricos como o Manu que na Índia representa ao Xisustro Babilónico e ao Noé Judaico. Mas ensinam-nos os livros esotéricos que Manu Vaivasvata, o progenitor da nossa quinta Raça – o que a salvou do Dilúvio que quase exterminou a quarta raça (a Atlante) – não é o sétimo Manu mencionado na nomenclatura dos Manu-Raízes ou primitivos, mas um dos 49 “emanados deste Manu-Raiz”.

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/d/d4/The_fish_avatara_of_Vishnu_saves_Manu_during_the_great_deluge.jpg/640px-The_fish_avatara_of_Vishnu_saves_Manu_during_the_great_deluge.jpg
Matsya, o peixe avatar de Visnhu, protegendo Sraddhadeva Manu e os sete sábios durante o Dilúvio. Public Domain.

Matsya, o peixe avatar de Visnhu, protegendo Sraddhadeva Manu e os sete sábios durante o Dilúvio. Public Domain.

Para uma compreensão mais clara damos em baixo o nome dos 14 Manus na sua respetiva ordem para cada Ronda. 

Assim, apesar de ser sétimo na ordem indicada, Vaivasvata é o Manu-Raiz primitivo da quarta onda de vida, a Humana (o leitor deve ter em mente que Manu não é um homem, mas sim a coletividade Humana), enquanto o nosso Vaivasvata era somente um dos sete Manu menores que presidem as sete Raças deste planeta.

Cada um destes será testemunha de um dos cataclismos periódicos eternamente reproduzidos (pelo fogo ou pela água alternativamente) que finalizam o ciclo de cada Raça-Raíz. E é este Vaivasvata – a encarnação do ideal Hinduísta, chamado Xisustro, Deucalião, Noé e outros nomes – o nome alegórico que salvou a nossa Raça quando quase a totalidade da população de um hemisfério sucumbiu pela água, enquanto acordou do seu obscurantismo temporal o outro hemisfério. 

O número sete eleva-se proeminentemente e ocupa um papel importante quando se compara a décima primeira tábua das lendas de Izdhubar da história caldeia do dilúvio com os chamados livros mosaicos. As bestas são separadas em números de sete2, os pássaros também em sete, é indicado a Noé que choverá na terra durante sete dias, mas ele espera ainda “outros sete dias” e ainda mais sete dias, enquanto que na versão caldeia do dilúvio a chuva finalizou ao sétimo dia3.

No sétimo dia é libertada a pomba, Xisustro apanha por sete “jarras de vinho” para o altar, etc. Porquê tantas coincidências? E no entanto, pretendem os orientalistas europeus que creiamos neles quando julgam as cronologias babilónicas e árias e dizem que são extravagantes e ilusórias! Apesar disso, como eles não ofereceram nenhuma explicação nem alguma vez observaram, que nós saibamos, a estranha paridade existente nos totais das cronologias Semítica, Caldeia, Indo-Ária, os estudantes da Filosofia Oculta encontram o seguinte bastante sugestivo.

Enquanto o período do reinado de 10 reis babilónicos pré-diluvianos é de 432 000 anos4, a duração do Kali-Yuga pós-diluviano é também de 432 000 anos e as quatro idades ou divinos Maha-Yuga somam na totalidade 4 320 000 anos. Porque é que sendo extravagantes e ilusórias apresentam números idênticos, quando certamente nem os Arios, nem os Babilónios se copiaram uns aos outros? Chamamos a atenção dos nossos ocultistas para que revejam os três números identificados – 4 representa o quadrado perfeito, 3 a tríade (os sete princípios universais e os sete individuais), 2 o símbolo do nosso mundo ilusório, uma figura ignorada e rejeitada por Pitágoras. 

É nos Upanishads e no Vedanta, que temos de procurar pelas melhores corroborações dos ensinamentos ocultistas. No mítica doutrina os Rahasya ou os Upanishads – “o único Veda de referência para os Hindus com entendimento hoje em dia” conforme confessa Monier Williams, – cada palavra, como o seu próprio nome indica,5 contém um significado secreto. Este sentido só pode compreender-se por aquele que tem completo conhecimento do Prâna, a Vida Una, “o centro a partir do qual nascem os sete raios da Roda Universal” (Hino a Prâna, Atharva Veda, XI, 4).

Até os orientalistas europeus reconhecem que todos os sistemas na Índia consideram o corpo humano composto por: (a) um corpo exterior ou grosseiro (Sthûla-Sharîra), (b) um corpo interno ou vaporoso/sombrio (sukshma), ou linga-sharîra (o veículo), ambos unidos por (c), a vida Jîva ou Kârana Shârira, o corpo casual.6 O sistema oculto ou esotérico divide estes corpos em sete, adicionando ainda mais quatro sistemas – Kama, Manas, Buddhi e Atman

A filosofia Nyaya, ao tratar dos Prameyas (por meio dos quais os objetos e sujeitos de Pramâna podem ser entendidos corretamente), inclui entre os 12, os sete “princípios raiz” ou fundamentais (veja-se o sutra IX), que são, 

1A AlmaÂtman
2O Espírito superiorJivâtman
3O CorpoDhârira
4Os SentidosIndriya
5A Atividade ou vontadePravritti
6A MenteManas
7O IntelectoBuddhi

Os sete Padârthas (predicados ou atributos das coisas existentes) de Kanâda no Vaisesshikas refere na doutrina Oculta às sete qualidades ou atributos dos sete princípios.

Assim, quer vejamos o Uno como o Purusha Védico ou Brahman (neutro) a “essência que tudo entrelaça”, ou como o espírito universal, a luz de luzes” (jyotisham jyotih) o Total independente de toda relação dos Upanishads, ou como o Paramatman do Vedanta, ou ainda como Kanada’s Adrishta, “a força invisível”, ou átomo divino, ou como Prakriti, a “essência eternamente existente”, de Kapila. Encontramos em todos estes princípios impessoais e universais a capacidade latente de desenvolvimento a partir deles próprios “seis raios” (sendo o sétimo o princípio evolutivo). O terceiro aforismo do Sânkhya Kârikâ, diz sobre Praktiti, que é a “raiz e substância de todas as coisas” e não o produto, que ele próprio é o produtor de “sete coisas que se convertem também em produtores”, oferece um significado puramente oculto. 

O que são os “produtores” evolucionados a partir deste Princípio-Raiz Universal, Mulaprakriti ou a matéria cósmica primitiva indiferenciada, que se desenvolve a partir da sua própria consciência e mente, e é geralmente chamada “Prakriti” ou Amûlam Mûlam, “a raiz sem raiz” e Avyakta, o “evoluir não evoluído”, etc.? Este tattwa primordial ou “Aquilo eternamente existente”, a Ignota Essência, produz, segundo os ensinamentos, como primeira manifestação a Buddhi – o Intelecto – quer seja que apliquemos este último ao sexto princípio macrocósmico ou ao microcósmico. Este primeiro produto, produz (ou é origem de) Ahankâra, a “própria consciência” e Manas, a “mente”. 

O leitor precisa de ter sempre em mente que Mahat ou grande fonte daquelas duas faculdades internas, “Buddhi” per se, não pode possuir nem consciência própria nem mente, ou seja, o sexto princípio do homem só pode conservar uma essência de autoconsciência pessoal ou “individualidade pessoal” absorvendo em si mesmo as suas próprias águas, que fluíram através dessa característica finita. Para Ahankâra isso é a perceção do “Eu”, ou sentido de individualidade pessoal, corretamente representado pelo termo Egoísmo, que pertence ao segundo, ou até ao terceiro produto dos sete, ou seja, ao quinto princípio ou Manas. É este último que desenha o “princípio raiz”, como a aranha desenha a sua teia usando o fio de Prakriti, os quatro princípios elementais ou partículas subtis, – Tanmatras, a partir dos quais a “terceira classe” os Mahabhytas ou o princípio elementar grosseiro, ou melhor, os sharîras e rûpas, se desenvolveram – o Kâma, Linga, Jîva e Sthûla Sharîra. Os três gunas de “Prakriti” – Satwa, Rajas e Tamas (pureza, atividade passional e ignorância ou obscuridade) – formando um fio triplo ou corda, penetram os sete, ou melhor, os seis princípios humanos. 

Depende do quinto – Manas ou Ahamkâra, o Eu – converter a corda Guna num só fio, o Satwa, e assim ao tornar-se o um com o “evoluir não evoluído“, ganhar a imortalidade ou existência consciente eterna. 

Caso contrário irá resolver-se novamente na sua essência Mahâbhautica. Enquanto a corda de três fios não estiver desfiada, o espírito (a mónada divina) fica ligado pela presença de Gunas nos três fios, “como um animal” (purusha pasu). O espírito, âtman ou jivatman (o 6º e 7º princípio), quer seja ou macrocosmos ou microcosmos, embora esteja ligado por estas gunas durante a manifestação objetiva do universo ou homem, é ainda nirguna, i.e., está inteiramente livre delas. Dos três produtores ou desenvolvedores, Prakriti, Buddhi e Ahankâra, é o último que pode ser apanhado (tratando-se do homem) e destruído quando é pessoal. A “mónada divina” é aguna (isenta de qualidades), enquanto Prakriti, uma vez que passa do estado passivo Mula-Prakriti para o de Avyakta (um evoluído ativo), é então Gunavat, dotado de qualidades. Com este último, Purusha ou Atman não podem ter nenhuma relação (sendo incapazes de o percecionar no seu estado gunavâtico). Com o anterior – ou Mulaprakriti ou essência cósmica indiferenciada – tem relação, pois é Um e idêntico com ele 

O Atma Bodha, ou “conhecimento da alma”, tratado escrito pelo grande Sankaracharya, fala claramente dos sete princípios no homem (ver versículo 14). A estes denomina-os os cinco véus (panchakosa) nos quais está contida a monada divina – o Atman, e Buddhi, o 7ª e 6ª princípio, ou a alma individualizada quando se diferenciou (sob a ação de avidya, maya e as gunas) da Alma Suprema – Parabrahma

O primeiro véu é Ananda-maya – a “ilusão de suprema beatitude” – é o Manas ou quinto princípio dos ocultistas, quando unido com Buddhi

O segundo véu é Vjnana-maya-kosa – a cápsula ou “véu da própria ilusão” – o Manas quando considera que o “Eu” ou Ego pessoal é o seu veículo. 

O terceiro véu é Mano-maya, a “mente ilusória” associada com os órgãos da ação e da vontade, é o Kamarupa e Linga-sharira combinados, produzindo a ilusão do “Eu” ou Mayavi-rupa.

O quarto véu é Prana-Maya – a “vida ilusória” – o nosso segundo princípio e vida ou Jîva no qual reside a vida, o alento do véu. 

O quinto véu é Anna-maya – o véu conservado pelo alimento – o nosso corpo material. 

Todos estes véus produzem outros véus menores, ou seis atributos ou qualidades cada um, sendo sempre o sétimo o véu raiz ou fundamental. E o Atman ou espírito, ao passar como um fio por todos estes corpos etéreos, é chamado a Alma-fio ou Sûtrâtman

Sankaracharya, Ravi Varma. Pulic Domain

Com isto podemos dar por finalizada a presente demonstração. Na verdade, poderíamos considerar a doutrina Esotérica como a “doutrina do fio”, visto que, como Sutratman ou Pranatman penetra e une a todos os antigos sistemas filosófico-religiosos, e o que é mais importante, os reconcilia e explica. Mesmo que pareçam tão diferentes exteriormente entre si, descansam todos numa base única, cuja extensão, profundidade, amplitude e natureza são conhecidas por aqueles que se tornaram, em semelhança aos “Homens Sábios do Oriente”, em adeptos da Ciência Oculta. 


1. O fato de indicar que o próprio Manu foi criado por Virâj, e produziu depois os dez Prajâpatis, que por sua vez produziram sete Manus, os quais deram nascimento a outros sete Manus (Manu, 1. 33-36), refere-se a outros mistérios anteriores e constitui ao mesmo tempo um véu da doutrina da Cadeia septenária. 

2. Ver Génese, Capítulo VII, 2-4, 10-12.

3 Poema de Gilgamesh, tábua XI, 128-129, 146 e 157. Editora Nacional, Madrid, 1980.

4. Ver “Babylonia”, de George Smith, p.36. Aqui outra vez, como com os Manus e os 10 Prajapatis e os 10 Sephiroths no Livro dos Números – eles se reduzem para sete!

5. Upa-ni-shad significa, de acordo com as autoridades Bramânicas, “conquistar a ignorância revelando o Conhecimento Espiritual Secreto”. De acordo com Monier Williams, o título é derivado da raiz sad com a preposição upa e ni, e implica “algo místico que está sob a superfície”. 

6. O Kârana-sharîra é muitas vezes confundido, pelos não iniciados, por Linga-Sharîra, e desde que é descrito como o embrião latente e rudimentar do corpo unido a ele. Mas o ocultista considera-o como a vida (corpo) ou Jîva, que desaparece após a morte, é reabsorvida, deixando o primeiro e terceiro princípio desintegrar-se e voltar aos seus elementos.

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