O que é o Karma?

Karma é a Lei Última do Universo, a raiz, a origem e a fonte de todas as outras leis que existem por toda a Natureza. O Karma é a lei infalível que ajusta o efeito à sua causa, nos planos físico, mental e espiritual da existência.

INQUIRIDOR.: Mas o que é o Karma

TEÓSOFO.: Como já lhe disse, nós consideramo-lo a Lei Última do Universo, a raiz, a origem e a fonte de todas as outras leis que existem por toda a Natureza. O Karma é a lei infalível que ajusta o efeito à sua causa, nos planos físico, mental e espiritual da existência. E como nenhuma causa deixa de produzir o seu devido efeito, da maior à menor, desde a perturbação cósmica até ao movimento da sua mão, e como tudo produz aquilo que lhe é semelhante, o Karma é aquela lei invisível e desconhecida que ajusta sábiainteligente e equitativamente todo o efeito à sua causa, rasteando a última até ao seu produtor. Ainda que esta seja em si mesma incognoscível, a sua acção é perceptível. 

INQ.: Portanto, este é, uma vez mais, o «Absoluto», o «Incognoscível», não constituindo uma mais-valia enquanto explicação para os problemas da vida.

TEÓ.: Pelo contrário. Pois ainda que não saibamos o que é o Karma per se e na sua essência, sabemos, de factocomo é que ele age, podendo assim definir e descrever o seu modo de acção com exactidão. Só não conhecemos a sua Causa última, da mesma forma que a filosofia moderna admite universalmente que a Causa última de uma coisa é «incognoscível». 

INQ.: E o que tem a Teosofia a dizer como resposta às necessidades mais práticas da humanidade? Que explicação é que esta oferece perante o terrível sofrimento e a horrível necessidade que prevalecem entre as chamadas «classes inferiores»? 

TEÓ.: Para ser exacta, de acordo com a nossa doutrina, todos estes grandes males sociais – a distinção de classes na Sociedade e a dos géneros nas questões quotidianas, bem como a distribuição desigual do dinheiro e do trabalho – devem-se todos àquilo que, concisa mas verdadeiramente, denominamos de KARMA.

INQ.: Mas não corresponderão certamente todos estes males, que parecem abater-se sobre as massas de forma algo indiscriminada, ao Karma efectivamente merecido e INDIVIDUAL.

TEÓ.: Não, estes não podem ser assim tão estritamente definidos nos seus efeitos, a ponto de nos demonstrarem que cada ambiente individual e que as condições particulares da vida onde cada pessoa se encontra não sejam mais do que o Karma retributivo que o indivíduo gerou numa vida passada. Não nos podemos esquecer do facto de que todo o átomo está sujeito à lei geral que governa a totalidade do corpo ao qual pertence e aqui entramos no mais amplo rasto da lei Kármica. Não se apercebe de que o agregado dos Karmas individuais se converte naquele da nação à qual estes indivíduos pertencem e que, posteriormente, a soma total dos Karmas Nacionais se converte naquele do Mundo? Os males que mencionou não são particulares nem do indivíduo, nem sequer da Nação, mas são mais ou menos universais, e é sobre esta ampla linhagem da interdependência Humana que a lei do Karma encontra a sua descendência legítima e uniforme.

INQ.: Deverei compreender, portanto, que a lei do Karma não é necessariamente uma lei individual? 

TEÓ.: Foi precisamente isso que eu quis dizer. Seria impossível que o Karma pudesse reajustar o equilíbrio do poder na vida e no progresso do mundo, a não ser que possuísse uma linha de acção vasta e geral. É considerada uma verdade entre os Teósofos que a interdependência da Humanidade é a causa daquilo que é chamado Karma Distributivo e é esta lei que dá resposta à grande questão do sofrimento colectivo e do seu alívio. Aliás, é uma lei oculta aquela que determina que nenhum homem pode sobrepor-se às suas imperfeições individuais, sem elevar, por pouco que seja, todo o corpo do qual é parte integrante. Da mesma forma, ninguém poderá pecar, nem sofrer os efeitos de um pecado, sozinho. Na verdade, não existe tal coisa como o «Separatismo»; e aquilo que mais se aproxima deste estado egoísta, dentro do que as leis da vida permitem, está na intenção ou motivo.

H.P. Blavatsky em 1877, ano em que publicou o seu primeiro livro Isis sem Véu.

INQ.: E será que não existem meios através dos quais o Karma distributivo ou nacional possa ser concentrado ou reunido, por assim dizer, e ser levado à sua execução natural e legítima sem todo este sofrimento prolongado?

TEÓ.: Regra geral, e dentro de certos limites que definem a época a que pertencemos, a lei do Karma não pode ser acelerada nem retardada na sua execução. Mas de uma coisa estou certa, o limite da possibilidade de ambas as direcções nunca foi alcançado. Escute o seguinte recital de um momento do sofrimento nacional e depois pergunte-se a si mesmo, admitindo o poder de acção do Karma individual, familiar e distributivo, se não é possível modificar extensivamente e, de uma forma geral, aliviar estes males. Aquilo que estou prestes a ler-lhe é da pena de uma Salvadora da Pátria, uma que, tendo-se superado a Si mesma, e tornando-se livre de escolher, elegeu servir a Humanidade, suportando sobre os seus ombros, pelo menos tanto quanto os de uma mulher podem suportar, o Karma Nacional. Isto é o que ela diz:

Sim, de facto a Natureza fala-nos sempre, não acha? Só que às vezes fazemos tanto barulho que abafamos a sua voz. É por isto que é tão relaxante sair da cidade para nos aninharmos um pouco nos braços da Mãe. Recordo-me da tarde em Hampstead Heath, quando contemplámos o pôr-do-sol; Oh, mas tamanho era o sofrimento e a miséria entre os quais este sol se punha! Uma senhora trouxe-me ontem uma grande cesta de flores silvestres. Achei que parte da minha família do East End de Londres tinha mais direito a ela do que eu, portanto levei-as esta manhã para uma paupérrima escola em Whitechapel. Gostaria que tivesse visto como aquelas caras pálidas se iluminaram! A seguir ofereci refeições a algumas crianças numa cantina. Era numa rua traseira, estreita e cheia de pessoas aos encontrões; havia um cheiro indescritível a peixe, carne e outros alimentos, tudo a fumegar sob um sol que, em Whitechapel, em vez de purificar, apodrece. A cantina era a quinta-essência de todos os odores. Pastéis de carne indescritíveis a 1 penny cada, pedaços de «comida» repugnantes e enxames de moscas, um autêntico altar de Belzebu! Por toda a parte, criancinhas à procura de restos, uma delas, com a face de um anjo, reunia caroços de cereja como forma de dieta leve e nutritiva. Voltei para o Oeste com todos os nervos em franja, questionando-me se se poderia fazer alguma coisa com certas zonas de Londres, excepto engoli-las num terramoto e dar aos seus habitantes um novo começo, depois de um mergulho nalgum Letes purificador, de onde nenhuma memória pudesse emergir! E depois recordei-me de Hampstead Heath, e – reflecti. Se através de algum sacrifício, alguém pudesse adquirir o poder de salvar esta gente, o custo não mereceria ser contabilizado; mas, sabe, ELES também têm de mudar – mas como é que isto pode ser feito? Na sua actual condição, não serão capazes de beneficiar de nenhum ambiente onde se os colocasse; e, ainda assim, nas suas circunstâncias actuais, continuariam a putrefazer-se. Isto quebra-me o coração, esta miséria sem fim e sem esperança, e a sua brutal degradação, que é simultaneamente a sua expansão e a sua raiz. É como uma figueira; cada ramo enraíza-se e projecta novos rebentos. Que tamanha diferença existe entre estes sentimentos e a pacífica cena de Hampstead! E, no entanto, nós, que somos os irmãos e as irmãs destas pobres criaturas, somos os únicos que têm direito a utilizar Hampstead Heaths para recuperar forças e salvar Whitechapels.[1]

INQ.: Esta é uma triste mas belíssima carta e julgo que representa com dolorosa veracidade a terrível obra daquilo a que chamou Karma «Familiar» e «Distributivo». Oh! Parece não haver esperança de nenhum alívio breve, para além daquela de um terramoto ou de algum tipo de afundamento geral. 

TEÓ.: Que direito temos nós de pensar assim, quando metade da humanidade se encontra em situação de poder gerar um alívio imediato das privações sofridas pelos seus semelhantes? Quando todo o indivíduo tiver contribuído com o que puder para o bem comum, com dinheiro, com trabalho e com um pensamento enobrecedor, então, e só então, é que o equilíbrio do Karma Nacional será alcançado. Até lá, não temos quaisquer razões, ou o direito, de dizer que existe mais vida na Terra do que aquela que a Natureza pode suportar. Está reservado às almas heróicas, aos Salvadores da nossa Raça e Nação, o encontrar da causa para esta pressão desigual do Karma retributivo e o reajustar, através de um esforço supremo, o equilíbrio do poder e salvar as gentes de um afundamento moral, que é um mal mil vezes mais desastroso e permanente do que uma catástrofe física equivalente e na qual você parece encontrar a única saída possível para esta miséria acumulada. 

INQ.: Bom, diga-me, então, como é que vocês definem geralmente esta lei do Karma

TEÓ.: Nós definimos o Karma como a Lei de reajustamento, que tende sempre a restabelecer o equilíbrio que foi perturbado no mundo físico e a harmonia que foi interrompida no mundo moral. Também dizemos que o Karma nem sempre age desta ou daquela maneira, mas que age sempre por forma a restaurar a Harmonia e preservar a balança do equilíbrio, em virtude do qual o Universo existe. 

INQ.: Dê-me um exemplo. 

TEÓ.: Dar-lhe-ei, mais adiante, um exemplo completo. Agora, imagine um lago. Uma pedra cai na água fazendo com que esta se agite em ondas. Estas ondas oscilam para a frente e para trás até que, por fim, graças àquele processo que os físicos definem como lei de dissipação da energia, são levadas à sua estabilidade, e a água regressa à sua condição de serena tranquilidade. Da mesma forma, toda a acção, em todos os planos, produz agitação na perfeita harmonia no Universo e as vibrações produzidas continuarão a enrolar-se para a frente e para trás, se a sua área for limitada, até que o equilíbrio seja restaurado. Mas uma vez que cada uma destas agitações tem início em lugares específicos, torna-se óbvio que o equilíbrio e a harmonia só podem ser restaurados se todas estas forças que foram colocadas em movimento convergirem para o mesmo lugar de onde partiram. E aqui tem a prova de como as consequências das acções, pensamentos, etc., de um homem, reagirão sobre ele com a mesma força com que foram colocadas em movimento.

INQ.: Mas não vejo nenhum carácter moral nesta lei. Parece-me tratar-se simplesmente de uma lei física onde a acção e a reacção são iguais e opostas. 

TEÓ.: E não me surpreende que o diga. Os Europeus apegaram-se demasiadamente ao hábito inveterado de considerarem o certo e o errado, o bem e o mal, como tópicos de um código legislativo arbitrário, quer estabelecido pelos homens, quer imposto sobre eles por um Deus Pessoal. Contudo, nós, Teósofos, dizemos que o «Bem» e a «Harmonia», tal como o «Mal» e a «Desarmonia», são sinónimos. Para além disto, acreditamos que toda a dor e sofrimentos são resultado de uma falta de Harmonia e que a única e terrível causa da perturbação da Harmonia é, sob que forma for, o egoísmo. Como tal, o Karma retribui a todo o homem as consequências exactas das suas próprias acções, sem olhar ao seu carácter moral; mas uma vez que ele recebe o que lhe é devido por tudo o que faça, é óbvio que tanto será obrigado a expiar todo o sofrimento que causou, quanto a colher em alegria e felicidade os frutos de toda a felicidade e harmonia que ajudou a produzir. Mas para o ajudar a compreender, o melhor a fazer é citar-lhe certos passos de livros e artigos escritos pelos nossos Teósofos – daqueles que têm uma noção correcta do Karma

INQ.: Gostaria muito que o fizesse, uma vez que a vossa literatura parece ser muito poupada neste tema. 

TEÓ.: Porque esta é a mais difícil de todas as nossas doutrinas. Há pouco tempo, apareceu a seguinte crítica da pena de um Cristão:

Admitindo-se que o ensinamento Teosófico em questão está correcto e que o «Homem deve ser o seu próprio salvador, deve vencer-se a si mesmo e conquistar o mal que existe na sua natureza dual, por forma a obter a emancipação da sua alma», o que fará o Homem uma vez que tenha despertado e, até certo ponto, se tenha reconvertido, do mal e da perversidade? Como é que ele alcançará a emancipação ou o perdão ou a remissão do mal e da perversidade anteriormente cometidos?

A isto, o Sr. J. H. Connelly[2] responde, com muita pertinência, que ninguém poderá esperar «operar o mecanismo teosófico sobre carris teológicos.» Ele diz o seguinte:

A possibilidade de nos furtarmos à nossa responsabilidade individual não existe dentro dos conceitos da Teosofia. Nesta fé não existe tal coisa como o perdão, ou a «remissão do mal e da perversidade anteriormente cometidos», que não sejam feitos através de uma punição adequada, claro está, do infractor e de um restabelecimento da harmonia que no universo tenha sido perturbada pelas suas más acções. O erro foi seu, e ainda que os outros possam sofrer as suas consequências, a expiação não pode ser feita por ninguém senão por ele mesmo.

A suposta condição (…) na qual um homem tenha «despertado e, até certo ponto, que se tenha reconvertido, do mal e da perversidade», é aquela onde um homem deverá ter compreendido que as suas acções são más e merecedoras de castigo. Nesta compreensão, um sentimento de responsabilidade pessoal é inevitável e o alcance deste sentimento de terrível responsabilidade terá de ser necessariamente proporcional ao seu despertar e «reconversão». Mas, logo após esta compreensão do erro, ele é levado a aceitar a doutrina da expiação vicária.   

É-lhe dito, igualmente, que deve arrepender-se, mas não existe nada mais fácil do que isso. É uma adorável fraqueza da natureza humana, aquela de estarmos tão dispostos a lamentar o mal que fizemos quando somos chamados à atenção, quer quando sofremos, quer quando usufruímos dos seus frutos. Provavelmente, uma análise mais aprofundada do sentimento demonstrar-nos-ia que nos arrependemos mais da aparente necessidade de recorrermos ao mal, como meio de atingirmos os nossos objectivos, do que propriamente do mal em si mesmo.

Por mais atractiva que seja para a mente comum esta perspectiva de se lançarem «aos pés da cruz» o fardo dos nossos pecados, esta não serve ao estudante teosófico. Ele não compreende como é que o pecador, apenas por ter adquirido conhecimento sobre a sua maldade, possa tornar-se merecedor de qualquer perdão ou remissão da sua perversidade passada; nem como é que o arrependimento e a vida recta que este agora inicia, podem suspender, a seu favor, a lei universal da relação entre a causa e o efeito. O resultado das suas más acções continuará a existir e o sofrimento causado aos outros por maldade não é remido. O estudante teosófico considera, na sua equação, o resultado que a perversidade tem sobre o inocente. Ele não considera apenas o pecador, mas também as suas vítimas.

O mal é uma infracção das leis da harmonia que governam o universo, como tal, a pena deve recair sobre o violador destas leis. Cristo alertou: «Não peques mais, para que não te aconteça coisa ainda pior»[3], S. Paulo disse: «trabalhai com temor e tremor pela vossa salvação»[4], «Pois o que um homem semear, também o há-de colher»[5]. Esta última, aliás, é uma extraordinária tradução metafórica de uma mais antiga frase dos Purāṇas, que diz: «o homem come dos seus actos».[6]

Este é o princípio da Lei do Karma, tal como é ensinado pela Teosofia. Sinnett, no seu Esoteric Buddhism, define o Karma como «a lei da causalidade ética», mas «lei da retribuição», como a Madame Blavatsky o traduz, está mais correcto. Este poder:

«Justo, embora misterioso, guia-nos à perfeição

Por caminhos onde não pisaram nem a Culpa, nem a Punição.»[7]

David Mallet, Eurydice. A Tragedy

E mais. O Karma recompensa o mérito tão infalível e amplamente quanto castiga o demérito. É o resultado de toda a acção, pensamento, palavra e feito, e através dele moldam-se os homens, bem como as suas vidas e ocorrências. A filosofia Oriental rejeita a ideia da criação de uma nova alma para cada recém-nascido. Esta acredita num número limitado de mónadas, que evoluem e se tornam cada vez mais perfeitas através da assimilação de personalidades sucessivas. Estas personalidades são o produto do Karma e é através do Karma e da reencarnação que a mónada humana regressa, no tempo devido, à sua origem – a divindade absoluta.[8]

E. D. Walker, no seu Reincarnation[9], dá-nos a seguinte explicação: 

Resumindo, a doutrina do Karma ensina que somos hoje aquilo que fizemos de nós próprios com as acções do passado e que construímos a nossa eternidade futura com as acções do presente. Não existe destino para além daquele que nós próprios determinamos. Não existe outra salvação nem condenação que não seja aquela que provocamos. (…) Como esta doutrina não dá abrigo a acções condenáveis, e como exige uma virilidade genuína, é menos atractiva para as naturezas fracas do que os fáceis dogmas religiosos da expiação vicária, do perdão e das conversões no leito de morte. (…) Naquilo que diz respeito à justiça eterna, a ofensa e o castigo estão inseparavelmente unidos como uma só ocorrência, pois não existe real diferença entre a acção e a sua consequência. (…) É o Karma, ou as nossas acções passadas, aquilo que nos traz novamente à vida terrena. A morada do espírito muda conforme o seu Karma, e este Karma proíbe qualquer continuação prolongada numa única condição, pois este está sempre em mudança. Enquanto a acção for governada por motivos materiais e egoístas, o efeito desta acção continuará a manifestar-se em renascimentos físicos. Só o homem perfeitamente altruísta é que pode esquivar-se à gravitação da vida material. Poucos o conseguiram fazer, mas é este o objectivo da humanidade.

Connelly cita o seguinte, da Doutrina Secreta

Aqueles que acreditam no Karma têm também de acreditar no destino, o qual, desde o nascimento até à morte, todo o homem tece em seu redor, fio a fio, tal como uma aranha faz com a sua teia; e este destino tanto é guiado pela voz celeste do protótipo invisível que nos é exterior, quanto pelo nosso mais familiar homem interior astral, que é frequentemente o mau génio da entidade encarnada chamada de homem. Ambos guiam o homem exterior, mas só um deles é que pode prevalecer; e desde o início da rixa invisível que a severa e implacável lei da compensação intervém e segue o seu curso, acompanhando fielmente as suas flutuações. Quando é tecido o último fio e o homem fica aparentemente envolto na teia dos seus próprios actos, ele fica totalmente dominado pelo império do seu destino autocriado. (…) Um Ocultista ou um Filósofo não falarão nem na bondade nem na crueldade da Providência; pelo contrário, identificando-a com o Karma-Némesis, ensinará que esta, independentemente de tudo o resto, protege os bons e vela por eles nesta vida, tal como o fará nas vidas futuras; e que castiga os malfeitores – sim, até ao seu sétimo nascimento. Até que, resumindo, os efeitos produzidos pela sua perturbação, até do seu menor átomo, do Infinito Mundo da harmonia, tenham sido finalmente corrigidos. Pois o único decreto do Karma – um decreto eterno e imutável – é a Harmonia absoluta, tanto no mundo da matéria, quanto no mundo do Espírito. Portanto, não é o Karma que recompensa ou que castiga, mas somos nós próprios que nos recompensamos ou castigamos, dependendo de se trabalhamos com a natureza, através dela e juntamente com ela, obedecendo às leis das quais depende esta Harmonia, ou se as quebramos. Nem os caminhos do Karma seriam impenetráveis se os homens trabalhassem em união e harmonia, em vez de o fazerem em desunião e conflito. Pois a nossa ignorância sobre estes caminhos – a que uma parte da humanidade chama de desígnios da Providência, obscuros e complexos; outra vê neles a acção do Fatalismo cego; e uma terceira, só como possibilidade, não lhe daria deuses nem demónios por guia – certamente desapareceria, se fôssemos capazes de os atribuir a todos à sua verdadeira causa. (…) Admiramo-nos perante o mistério da nossa própria criação e dos enigmas da vida que não somos capazes de resolver e depois queixamo-nos de ser devorados pela grande Esfinge. Mas, na verdade, não existe um único acidente nas nossas vidas, um mau dia, ou um só azar, que não possa ser traçado até às nossas próprias acções nesta ou noutra vida. (…) A Lei do KARMA está indestrinçavelmente entrelaçada com aquela da Reencarnação. (…) só esta doutrina, mantemos, é capaz de nos explicar o misterioso problema do Bem e do Mal e reconciliar o homem com a terrível e aparente injustiça da vida. Nada além de tal certeza é capaz de acalmar o nosso revoltado sentimento de injustiça. Porque, quando aquele que não está familiarizado com esta nobre doutrina olha à sua volta e observa as desigualdades de nascimento e de fortuna, de intelecto e capacidade; quando vê serem dadas honras a tolos e a depravados, a quem a fortuna prestou os seus favores por mero privilégio de nascimento, enquanto que os seus vizinhos mais próximos, com todo o seu intelecto e nobreza de virtudes – que, por todas as razões, mais a mereciam – morrem de fome e falta de simpatia; quando vê tudo isto e tem de virar-lhes a cara, incapaz de aliviar o sofrimento imerecido, com zumbido nos ouvidos e dor no coração devido aos gritos de dor que o rodeiam – só este abençoado conhecimento do Karma o pode prevenir de amaldiçoar a vida e os homens, bem como o seu suposto Criador.[10] (…) Esta Lei – quer Consciente, quer Inconscientemente – não predestina nada nem ninguém. Esta existe, verdadeiramente, da e na Eternidade, pois é a própria ETERNIDADE; e, como tal, uma vez que nenhum acto pode ter a mesma natureza que a eternidade, não se pode dizer que aja, porque é a própria ACÇÃO. Não é a Onda que afoga o homem, mas sim o acto pessoal do infeliz que se coloca, deliberadamente, a si mesmo sob a acção impessoal das leis que governam o movimento do Oceano. O Karma não cria nem projecta nada. É o homem quem projecta e cria as causas, a lei Kármica só ajusta os seus efeitos; cujo ajustamento não é uma acção, mas harmonia universal, que tende sempre à recuperação da sua posição original, como um ramo que, ao ser demasiadamente dobrado, ressalta com um vigor correspondente. Se provocasse a deslocação do braço que o tentou desviar da sua posição natural, diremos que foi o ramo que deslocou o nosso braço ou que foi a nossa própria insensatez que nos causou a dor? O Karma nunca pretendeu destruir a liberdade intelectual e individual, como o Deus inventado pelos Monoteístas. Este não envolveu os seus decretos na escuridão com o propósito de confundir o homem; nem castigará aquele que ousar penetrar nos seus mistérios. Pelo contrário, aquele que desvela, através do estudo e da meditação, os seus confusos caminhos e derrama luz sobre as suas vias obscuras, em cujos enroladouros tantos homens perdem a vida devido ao tão ignorantes que são sobre o labirinto da vida, trabalha para o bem dos seus semelhantes. O KARMA é uma lei Absoluta e Eterna no Mundo da manifestação; e como só pode existir um Absoluto, assim como Uma Causa eternamente presente, os crentes no Karma não podem ser considerados nem Ateus, nem materialistas – e ainda menos, fatalistas[11]: porque o Karma é uno com o Desconhecido, do qual ele é um aspecto dos seus efeitos no mundo fenoménico.[12]

Outro competentíssimo escritor Teosófico, o Sr. P. Sinnett, no Purpose of Theosophy, diz[13]

Todo o indivíduo cria Karma, quer bom, quer mau, em todas as acções e pensamentos da sua ronda diária e dissolve nesta vida, simultaneamente, o Karma gerado pelas acções e desejos da última. Quando vemos pessoas afligidas por doenças congénitas, podemos assumir, com alguma segurança que estas doenças são os inevitáveis resultados de causas que elas mesmas geraram num nascimento anterior. Poder-se-á argumentar que, como estas doenças são hereditárias, não podem ter nada que ver com uma encarnação passada; mas devemos recordar-nos de que este Ego, o Homem real, a individualidade, não tem uma origem espiritual na linhagem onde encarnou, mas sim que é atraído – pelas afinidades que, no seu anterior modo de vida, trouxe do seu entorno para a cadeia que o transporta –, quando chega a hora de renascer, para o lar mais apropriado para o desenvolvimento dessas tendências. (…) Esta doutrina do Karma, se bem entendida, está feita para guiar e auxiliar aqueles que compreendem a sua verdade, num modo de vida superior e melhor, pois não nos deveremos esquecer de que, não só as nossas acções, mas também os nossos pensamentos, são inquestionavelmente seguidos por uma multidão de circunstâncias que influenciarão, para o bem e para o mal, o nosso próprio futuro e, mais importante ainda, o futuro de muitos dos nossos companheiros. Se os pecados por omissão ou comissão pudessem, de alguma forma, dizer respeito só a nós próprios, a questão do Karma do pecador seria da menor importância. O facto de cada pensamento e acção, bons ou maus, gerarem ao longo da vida uma influência correspondente sobre os outros membros da família humana, permite-nos ir desenvolvendo um rigoroso sentido de justiça, de moralidade e de altruísmo, tão necessários à felicidade e ao progresso futuros. Um crime, uma vez cometido, ou um mau pensamento projectado pela mente, tornam-se irrevogáveis – nenhum arrependimento, maior ou menor, poderá impedir os seus resultados no futuro. O arrependimento, se for sincero, impedirá o homem de repetir os seus erros; mas não o poderá salvar, nem a si, nem aos outros, dos efeitos daqueles que já foram cometidos, que o alcançarão, infalivelmente, nesta vida ou na próxima encarnação.[14]

O Sr. J. H. Connelly prossegue: 

Aqueles que crêem numa religião baseada em tal doutrina mal podem esperar por compará-la com outra onde o eterno destino do homem seja determinado pelos acasos de uma única e breve existência terrena, durante a qual lhe é oferecida a promessa de que «como cai a árvore, é como fica»[15]; na qual a sua mais iluminada esperança, quando nele desperta o conhecimento da sua maldade, é aquela da doutrina da expiação vicária, mas onde até esta é falível, pelo menos a julgar pela Confissão de Fé Presbiteriana:

«Pelo decreto de Deus e para a manifestação da sua glória, alguns homens e alguns anjos são predestinados para a vida eterna e outros preordenados para a morte eterna.

Estes homens e estes anjos, assim predestinados e preordenados, são particular e imutavelmente designados; o seu número é tão certo e definido que não pode ser nem aumentado nem diminuído. (…) Como Deus destinou os eleitos para a glória (…) não há nenhum outro que seja remido por Cristo, que seja eficazmente chamado, justificado, adoptado, santificado ou salvo, além dos eleitos.

Segundo o inescrutável conselho da sua própria vontade, pela qual ele concede ou recusa a misericórdia conforme lhe apraz, para a glória do seu soberano poder sobre as suas criaturas, o resto dos homens, para louvor da sua gloriosa justiça, decidiu Deus não contemplar e ordená-los para a desonra e para a ira por causa dos seus pecados.»[16]

Isto é o que o hábil defensor diz. Nem nos resta nada melhor a fazer do que encerrar este tema, como ele faz, com a citação de um poema magnífico. Conforme as suas palavras:

A requintada beleza da descrição do Karma de Edwin Arnold, no The Light of Asia, é tentadora a ponto de a querermos reproduzir aqui, mas é demasiado longa para uma citação completa. Segue-se uma porção da mesma:

«O Karma – toda essa soma de uma alma

Que é as coisas que fez e os pensamentos pensados, 

O «Eu» que teceu, com a trama do tempo sem-fim

Atravessada sobre a urdidura invisível dos actos. 

Antes do princípio e sem fim, 

Como espaço eterno e, com certeza, guiado,

É fixado um Poder divino dirigido ao bem,

E apenas as suas leis perduram.

Ele não esquecerá ninguém;

Quem o contraria só perde, e quem o serve sai vitorioso;

Ao bem oculto ele paga com paz e bem-aventurança, 

Ao mal escondido, com dor.

Ele tudo vê e tudo regista;

Faz o bem – ele recompensa! Faz um mal

E retribuição igual será preparada,

Ainda que o Dharma se demore.

Ele não conhece a ira nem o perdão, verdade verdadeira!

A sua fita mede, a sua irrepreensível balança pesa;

Para ele o tempo é nada, amanhã julgará,

Ou daqui a muitos dias.

Tal é a lei que caminha para a justiça,

Da qual ninguém se desvia, a qual ninguém impede.  

O seu coração é amor, a sua meta

É doce paz e realização. Obedece.»[17]

Ora, peço-lhe que compare as nossas opiniões Teosóficas sobre o Karma, a lei da Retribuição, e que me diga se não são muito mais filosóficas e justas do que este dogma cruel e absurdo que transforma «Deus» num insensato inimigo; nomeadamente, naquele dogma onde «só os eleitos» é que serão salvos, e tudo o resto condenado à perdição eterna!

INQ.: Sim, compreendo o que quer dizer; mas gostaria que me desse um exemplo concreto da acção do Karma

TEÓ.: Isso não posso fazer. Só podemos ter a certeza, como já tive oportunidade de lhe dizer, que as nossas vidas e circunstâncias presentes são o resultado directo das nossas próprias acções e pensamentos em vida, que já são passado. Mas nós, que não somos nem Videntes, nem Iniciados, não podemos saber nada sobre os detalhes da acção da lei do Karma.

INQ.: Poderá alguém, ainda que de entre Adeptos ou Videntes, seguir este processo Kármico de reajustamento em todo o seu detalhe? 

TEÓ.: Certamente. «Aqueles que sabem» podem fazê-lo, através da exercitação de poderes que, aliás, existem de forma latente em todos os homens.


Notas:
Este artigo foi traduzido por Ricardo Louro Martins, o qual elaborou também as seguintes notas.
[1]   Assinado por um nome demasiadamente respeitado e bem conhecido para que seja dado a qualquer um. (N. da A.)
[2]   James Henderson Connelly (1840-1903). (N. do T.)
[3]   João 5.14. (N. do T.)
[4]   Filipenses 2.12. (N. do T.)
[5]   Gálatas 6.7. (N. do T.)
[6]   Viṣṇupurāṇa 1.1.17: «yataḥ svakṛtabhuk pumān». (N. do T.)
[7]   David Mallet, Eurydice. A Tragedy, London, A. Millar, 1731, p. 58. (N. do T.)
[8]   Ver «Theosophy and Christianity irreconcilable», The Homiletic Review 29, 1895; J. A. Anderson, «From Orient to Occident: Karma», The New Californian 1.2, 1891; etc. (N. do T.)
[9]   Reincarnation: A Study of Forgotten Truth, New York, American Publishers Co., 1888, pp. 299-300, 302-303. (N. do T.)
[10] Aqueles que rejeitam a doutrina do Karma devem recordar-se do facto de ser absolutamente impossível tentar responder aos Pessimistas com outros dados. Uma compreensão firme dos princípios da Lei Kármica derruba toda a base da estrutura criada pelos discípulos de Schopenhauer e von Hartmann. (N. da A.)
[11] Alguns Teósofos, por forma a tornar o Karma mais compreensível à mente Ocidental, uma vez que esta está mais acostumada à filosofia Grega do que à Ária, tentaram traduzi-lo por Némesis. Tivesse esta sido compreendida na Antiguidade pelos profanos, como o foi pelos Iniciados, e a tradução seria irrepreensível. Tal como está, foi demasiadamente antropomorfizada pela imaginação Grega para que nos permita utilizá-la sem uma explicação elaborada. Entre os Gregos primitivos, «de Homero a Heródoto, ela não era uma deusa, mas sim um sentimento moral», diz-nos Decharme, o entrave ao mal e à imoralidade. Aquele que a transgride, comete um sacrilégio aos olhos dos deuses, e é perseguido pela Némesis. Mas, com o tempo, este «sentimento» foi deificado, e a sua personificação tornou-se numa deusa sempre fatal e punitiva. Assim, se quisermos unir o Karma à Némesis, isto terá de ser feito tendo em conta o triplo carácter da última, viz., enquanto Némesis, Adrasteia e Témis. Pois, enquanto que a última é a deusa da Ordem e da Harmonia Universais, a qual, como Némesis, possui poderes para reprimir, com pena severa, todo o excesso e manter o Homem dentro dos limites da Natureza e da rectidão, Adrasteia – a «inevitável» – representa Némesis enquanto efeito imutável das causas criadas pelo próprio Homem. Némesis, enquanto filha de Diké, é a deusa justa, que reserva a sua ira só para aqueles que ficaram enlouquecidos pelo orgulho, egoísmo e impiedade. (Mesomedes, Hino a Némesis 2: «kyanō̂pi theá, thýgater Díkas». Ver Richardo Brunck, «Μεσομήδης 1: Ύμνος εις Νέμεσιν» in Analecta Veterum Poetarum Graecorum, vol. 2, Argentorati, 1773, p. 292; P. Decharme, Mythologie de la Grèce Antique, Paris, Garnier Frères, 1886, p. 304.) Resumindo, enquanto que Némesis é uma deusa mitológica e exotérica, ou um Poder personificado e antropomorfizado em vários aspectos, o Karma é uma verdade altamente filosófica, uma expressão nobre muitíssimo divina da intuição primitiva do Homem em relação à Divindade. É uma doutrina que explica a origem do Mal, e que enobrece os nossos conceitos sobre o que a Justiça divina e imutável deve ser, em vez de degradar a Divindade desconhecida e incognoscível, tornando-a no caprichoso e cruel tirano a que chamamos Providência. (N. da A.)
[12] Secret Doctrine 1.639, 643-644; 2.303-306. (N. do T.)
[13] A Edição da Chave de Katherine Tingley substitui esta citação por excertos de um artigo anónimo, publicado por W. Q. Judge. Ver «Karma», The Path 1.6, 1886:
      «Pode dizer-se que o Karma, regra geral, é a continuação da natureza da acção, onde cada acto contém em si mesmo o seu passado e seu o futuro. Todo o defeito que possa existir num acto deve estar implícito no próprio acto, caso contrário nunca poderia manifestar-se. O efeito não é mais do que a natureza do acto e não pode existir distinto da sua causa. O Karma só produz a manifestação daquilo que já existe; sendo acção, este produz a sua manifestação no tempo, como tal, pode dizer-se que o Karma é a mesma acção noutro ponto do tempo. Para além disto, como é evidente, não só existe uma relação entre a causa e o efeito, como também uma relação entre a causa e o indivíduo que experimenta o seu efeito. Se assim não fosse, qualquer homem poderia colher o efeito das acções de outro homem. De facto, parece que às vezes colhemos os efeitos da acção dos outros, mas isto é apenas aparente. Na verdade, é a nossa própria acção:
      “(…) mais nada te obriga,
      mais ninguém te impede, da tua morte e da tua vida.”
      (Edwin Arnold, The Light of Asia 8.215)
      É, portanto, necessário, por forma a compreender a natureza do Karma e a sua relação com o indivíduo, considerar a acção em todos os seus aspectos. Todo o acto procede da mente. Para lá da mente não existe acção e, como tal, não existe Karma. A base de todo o acto é o desejo. O plano do desejo, ou egoísmo, é, em si mesmo, acção e matriz de todo o acto. Este plano pode ser considerado não-manifestado, no entanto, tem uma manifestação dual a que chamamos de causa e efeito, ou seja, o acto e as suas consequências. Na verdade, tanto o acto como as suas consequências são os efeitos, uma vez que a causa está no plano do desejo. O desejo é, portanto, a base da acção e a sua primeira manifestação no plano físico e o desejo determina a continuação do acto na sua relação kármica com o indivíduo. Para que um homem se liberte dos efeitos kármicos de qualquer acto, ele deverá evoluir para um estado onde já não exista uma base na qual este acto possa realizar-se. A ondulação na água causada pela acção de uma pedra estender-se-á até ao mais longínquo limite da sua expansão: mas é limitada pela costa. O seu curso termina quando deixa de haver uma base, ou meio adequado, aos quais possam pertencer; este perde a sua força e deixa de existir. Portanto, o Karma depende tanto da personalidade actual para se cumprir, quanto dependeu da anterior para se gerar. Podemos compreender melhor a questão através de um exemplo.
      Uma semente de mostarda, por exemplo, produzirá uma árvore de mostarda, e nada outra coisa, mas para que se produza, é necessário que a cooperação entre o solo e a cultura exista. Sem a semente, por mais que o terreno esteja lavrado e regado, não gerará só por si a planta, mas a semente é igualmente ineficiente sem o acto conjunto do solo e da cultura.» (N. do T.)
[14] A. P. Sinnett, The Purpose of Theosophy, Boston, Occult Publishing Co., 1888, pp. 15-16, 18-19. (N. do T.)
[15] Provérbio Inglês baseado no Eclesiastes 11.3: «Quer a árvore caia para o sul ou para o norte, onde cair, aí ficará.» (N. do T.)
[16] Confissão de Fé de Westminster. Ver The Humble Advice of the Assembly of Divines, London, E. Tyler, 1647. (N. do T.)
[17] Edwin Arnold, The Light of Asia or The Great Renunciation (mahābhiniṣkramaṇa): being the Life and Teaching of Gautama, London, Trübner & Co., 1879, 6.172, 8.215, 218-219. (N. do T.)

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