O Sermão de Benares

Vendo o seu velho mestre aproximar-se, os cinco bhikkhus combinaram entre si não o cumprimentarem nem tratarem como mestre, mas apenas pelo seu nome. «Porquê?», disseram, «ele quebrou os votos e abandonou a ascese. Não é um bhikkhu mas Gotama, e Gotama tornou- se num homem que vive em abundância e entregou-se aos prazeres do mundo.» 1
1 Buddha. Pixabay

Mas quando o Abençoado aproximou-se de forma digna, eles levantaram-se involuntariamente dos seus assentos e saudaram-no, apesar do que pensavam. Mesmo assim, chamaram-no pelo seu nome e dirigiram-se a ele como «amigo Gotama». 2 

Ao terem recebido o Abençoado desta forma, ele disse: «Não chamem o Tathāgata pelo seu nome nem se dirijam a ele como «amigo», porque ele é Buddha, o Bem-aventurado. Buddha olha de igual forma com um coração carinhoso para todos os seres vivos e por isso chamam-lhe «Pai»(5). É errado desrespeitar um pai, é escandaloso menosprezá-lo.» 3 

«O Tathāgata», continuou «Buddha não procura a salvação pelas austeridades, mas também não a procura entregando-se aos prazeres do mundo nem vivendo na abundância. O Tathāgata encontrou o caminho do meio.» 4 

«Há dois extremos, Ó bhikkhus, que o homem que desistiu do mundo não deve seguir ― por um lado, a prática habitual da autoindulgência que é desmerecedora, vã e somente apropriada para aqueles que têm uma mente vulgar ― por outro, a prática habitual da auto mortificação, que é dolorosa, desnecessária e infrutífera.» 5 

«Nem a abstinência de carne ou peixe, nem o nu, nem rapar a cabeça, nem usar o cabelo emaranhado, nem usar vestes grosseiras, nem cobrir o corpo com cinza, nem sacrificar a Agni, purificarão um homem que não esteja livre das ilusões.» 6 

«Ler os Vedas, fazer oferendas aos sacerdotes ou sacrifícios aos deuses, auto mortificando-se pelo calor ou pelo frio e muitas abstinências com o objetivo de atingir a imortalidade, tudo isto não purificará o homem que não se livrou das ilusões.» 7 

«O ódio, o alcoolismo, a obstinação, o fanatismo, o logro, a inveja, a vaidade, descreditar os outros, a arrogância e as más intenções constituem imperfeições, e não verdadeiramente o consumo de carne.» 8 

«Um caminho do meio, Ó bhikkhus, evitando os dois extremos, foi descoberto pelo Tathāgata ― um caminho que abre os olhos e confere entendimento, que leva à paz de espírito, à sabedoria elevada, à iluminação, ao Nirvāna!» 9 

«Qual é esse caminho do meio descoberto pelo Tathāgata, Ó bhikkhus, que evita estes dois extremos ― esse é o caminho que abre os olhos e confere o entendimento, que leva à paz de espírito, à sabedoria elevada, à iluminação total, ao Nirvāna?» 10 

«Deixem que vos ensine o caminho do meio, Ó bhikkhus, que se mantém distante dos dois extremos. Pelo sofrimento, o ermita emagrecido, fica confuso e tem pensamentos doentios. A mortificação não conduz sequer ao conhecimento terreno, muito menos ao triunfo sobre os sentidos!» 11 

«Aquele que enche a sua lâmpada com água não afastará a escuridão, e aquele que tenta acender o lume com madeira podre falhará. E como pode alguém libertar-se do ego levando uma vida miserável, se não consegue extinguir os fogos da luxúria e se ainda oscila ardentemente pelos prazeres mundanos e celestes? Mas aquele em quem o ego se extinguiu está livre da luxúria; não desejará nem os prazeres do mundo nem os do céu e a satisfação dos seus desejos naturais não o incomodará. Porém, que seja moderado, que coma e beba de acordo com as necessidades do corpo.» 12 

«A sensualidade é irritante; o homem auto-indulgente é um escravo das suas paixões, e a constante procura do prazer é degradante e vulgar. 13

«Mas satisfazer as necessidades da vida não é mau. Manter o corpo saudável é um dever, porque de outra forma não poderemos ornamentar a lâmpada da sabedoria e manter a nossa mente forte e lúcida. A água rodeia a flor do lótus, mas não molha as suas pétalas.» 14

«Este é o caminho do meio, Ó bhikkhus, que mantém afastado os extremos.» 15 

Discípulos de Buda. Pixabay

E o Abençoado falou amavelmente aos seus discípulos, admoestando-os pelos seus erros, sublinhando a inutilidade dos seus comportamentos e, a má vontade que gelou os seus corações derreteu-se sob o suave calor persuasivo do Mestre. 16 

Então o Abençoado colocou em movimento a roda da mais excelente lei, começou a pregar aos cinco bhikkhus, abrindo-lhes a porta da imortalidade e mostrando-lhes a felicidade do Nirvāna. 17 

Buddha disse: 18 

«Os raios da roda são as regras da pura conduta: a justiça é a sua distância uniforme; a sabedoria é a roda; a modéstia e o bom senso são o centro por onde passa o eixo imóvel da verdade.» 19

«Aquele que reconhece a existência do sofrimento, a sua causa, o seu remédio e a sua dissolução alcançou as quatro nobres verdades. Ele andará pelo caminho correto.» 20 

«Os pensamentos corretos serão os fachos que iluminarão o seu caminho. Os ideais corretos serão os seus guias. As palavras corretas serão a sua morada pelo caminho. O seu passo será direito porque tem um comportamento correto. Os seus contentamentos serão a forma correta de ganhar a sua vida. Os esforços corretos serão os seus passos, os pensamentos corretos serão a sua respiração e a correta contemplação dar-lhe-á a paz que será a sua marca.» 21 

«Ouvi agora Ó bhikkhus, esta é a nobre verdade relativa ao sofrimento: 22

«O nascimento está ligado à dor, o envelhecimento é doloroso, a doença é dolorosa, a morte é dolorosa. A união com o que é desagradável é dolorosa. Doloroso é o afastamento do que é agradável e qualquer desejo que não seja satisfeito é igualmente doloroso. Resumidamente, as condições físicas que emergem do desejo são dolorosas.» 23

«Esta é então, Ó bhikkhus, a nobre verdade relativa ao sofrimento.» 24 

«Ouvi agora, Ó bhikkhus, esta é a nobre verdade relativa à origem do sofrimento:» 25 

«Verdadeiramente, é esse desejo que origina a renovação da existência, juntamente com a sensualidade, com a procura da satisfação, ora aqui ora ali, a procura de gratificação pelas paixões, a procura por uma vida futura e o desejo de felicidade nesta vida.» 26 

A Roda da Vida e os raios de Saṃsāra. Creative Commons

«Esta é então, Ó bhikkhus, a nobre verdade relativa à origem do sofrimento.» 27 

«Ouvi agora, Ó bhikkhus, esta é a nobre verdade relativa à destruição do sofrimento:» 28 

«Verdadeiramente, é a destruição, na qual não resta paixão alguma, desta mesma sede, é afastar, estar livre, não permanecer mais nesta sede.» 29 

«Esta é então, Ó bhikkhus, a nobre verdade relativa à destruição do sofrimento.» 30 

«Ouvi agora, Ó bhikkhus, esta é a nobre verdade relativa à maneira como se destrói a tristeza. Esta nobre verdade é constituída exatamente por oito partes, que são as seguintes:» 31 

«Pontos de vista corretos; ambições corretas; fala correta; comportamento correto; vida correta; esforço correto; pensamentos corretos e contemplação correcta. 32

«Esta é então, Ó bhikkhus, a nobre verdade relativa à destruição da tristeza.» 33

«Pela prática do amor e da amabilidade, libertei o coração e por isso tenho a certeza de que nunca voltarei a nascer. E mesmo agora atingi o Nirvāna.» 34

E quando o Abençoado colocou a majestosa roda da verdade em movimento, uma vibração percorreu todos os universos. 35

Os devas abandonaram as suas moradas para ouvir a doçura da verdade, os santos que partiram desta vida juntaram-se à volta do grande mestre para receber as felizes novas, até os animais da terra sentiram a bênção que se soltou das palavras do Tathāgata. E todas as criaturas das hostes dos seres sensíveis, deuses, homens e feras, ao ouvirem a mensagem da libertação, receberam e entenderam-na nas suas respetivas línguas. 36 

E quando a doutrina foi propagada, o venerável Kondañña, o mais velho dos cinco bhikkhus, compreendeu a verdade com a sua intuição e disse: «Em verdade, Ó Buddha, nosso Senhor, tu encontraste a verdade!» Então, os outros bhikkhus também se juntaram a ele exclamando: «Em verdade, tu és Buddha, tu encontraste a verdade.» 37 

E os devas e os santos, e todos os espíritos bons das gerações anteriores que ouviram o sermão do Tathāgata, alegremente receberam a doutrina e gritaram: «Em verdade, o Abençoado fundou o reino da retidão. O Abençoado moveu a terra, ele colocou em movimento a roda da Verdade, que ninguém no universo, seja deus ou homem, pode fazer retroceder. O reino da Verdade será pregado pela terra, será difundido, e a retidão, a boa-vontade e a paz reinarão entre a humanidade.» 38 

Publicado em “Evangelho de Buda” (capítulo XVI). Paul Carus. Editorial Ésquilo

(5). Aqui refere-se a atitude usual indiana de respeito por todo o sábio ou mestre, que em regra é o guru (mestre), mas que de forma mais distinta é bāba (pai). Um mestre é considerado na tradição clássica como a representação de pai, mãe e deus.

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