O Sonho de Ravana e as doenças da alma

Como diziam os pitagóricos, a carne (soma) converte-se numa tumba (sema), na qual a alma morre em vida. Só a sabedoria, o despertar da consciência, o retorno do sentido profundo da vida, pode devolver-lhe o seu vigor. E pelo contrário os “afeições” da matéria, contaminando-a, de novo a adoecem e a matam.

“O intrépido Guerreiro, com o seu precioso sangue vital brotando das suas feridas abertas e profundas, atacará de novo o inimigo, e o expulsará da força, antes que ele mesmo expire.”

Fragmento “Os Sete Portais” do livro A Voz do Silêncio, traduzido por H.P.Blavatsky

O Sonho de Ravana é um livro de autor anónimo que apareceu por parcelas em vários números da revista da Universidade de Dublin nos anos 1854 e 1855. Ainda quase desconhecido por um grande público, o futuro em dúvida, fará justiça e o converterá num dos livros mais belos, profundos e transformadores nunca escritos. 

O Sonho de Ravana, edições Nova Acrópole

Noutros artigos temos explicado já o enredo do mesmo e ainda selecionado fragmentos. O estudo introdutório e notas de Ricardo Louro Martins são verdadeiramente notáveis, um trabalho de filósofo e erudito, um pandita ocidental. 

Interpretando uma das visões da Titã Ravana, em que caminha por uma terra sombria e desolada, o autor descreve um parágrafo de modo magistral as doenças que mata a alma. 

Como no Novo Testamento, quando Jesus disse deixem que os mortos enterrem os mortos, é aludido a que quando a alma “entra” no corpo, entra numa letargia semelhante à morte. Como diziam os pitagóricos, a carne (soma) converte-se numa tumba (sema), na qual a alma morre em vida. Só a sabedoria, o despertar da consciência, o retorno do sentido profundo da vida, pode devolver-lhe o seu vigor. E pelo contrário os “afeições” da matéria, contaminando-a, de novo a adoecem e a matam. Todos os animais selvagens devoradores da alma, corporizações, como sombras, da nossa própria ignorância, são os que habitam no reino de Tamas, a inércia da matéria, o estado de decomposição ou de opacidade da luz que é própria. 

Edição ilustrada da epopeia Ramayana

“Doenças da alma” é um termo mais acertado e filosófico que o de “pecados”, também válido. Se fazemos a comparação com o corpo, não é só uma simples mancha (pecado), um buraco pelo qual desliza, quase inadvertidamente, o líquido precioso, o fluido dourado da nossa vida interior. São também diversas ruturas de harmonia, formas de caos que a alma padece e deve superar se quiser continuar o seu trabalho aqui na terra e encontrar a felicidade do dever cumprido e retornar à sua verdadeira natureza no céu. 

São mais que faltas, que debilitam as forças da alma, são vícios, que a sufocam. A enumeração tem semelhanças, evidentemente, com os pecados capitais: luxúria, gula, avareza, preguiça, ira, inveja, soberba, ainda que o tratamento que faz seja mais filosófico. 

O próprio Ravana simboliza o Eu Inferior, o espírito prisioneiro da ilusão do Eu, com 10 cabeças, o que a filosofia hindu chama Ahamkara, a raiz da doença, a cegueira da alma que deixa de reconhecer o seu mundo e experimenta o vazio da sede de possessão (quando na realidade nada há que possuir), a sede da viver (quando a alma é em si mesma vida eterna), a sede da sensação (quando não há nada que não conheça, que não sinta em si mesma sem necessidade de busca-lo na matéria e nas imagens que se refletem nela).

O Titã Ravana junto a Sita

O texto escolhido de O Sonho de Ravana diz assim: 

“Ó homem trágico! Donde provem tanta morte na tua Vida? Por Deus! É porque a destruída moral interna reina sobre tudo, manifestando-se desta forma. As almas dos homens morrem no momento que nascem, esta vida é a sua autópsia, e a doença manifesta-se em todos. Um morreu enlouquecido pelo orgulho, outro exaltado pela raiva, um leproso por causa da sensualidade, outro sofria da febre da ambição, o outro um desejo insaciável de ganhar mais, outro pelo veneno maligno da vingança, outro da icterícia do ciúme, outro devido ao cancro insaciável da vingança, outro devido ao excesso de amor-próprio, outro da paralisia da apatia. Muitas são doenças, mas a morte é o resultado comum para todas elas. 

Se aqui triunfa a morte: a morte física e moral. Os mortos dão à luz mais mortos, o morto leva o morto à funerária, o morto caminha pelas ruas saudando a outros mortos, e negoceia com eles, compra e vende, casa-se e constrói: e durante todo esse tempo não sabe que todos eles não são mais que sombras e fantasmas! Esta terra de silêncio e de sombras, pela qual a tua alma caminhou na tua visão, ó Titã! É o Mundo no qual o teu corpo morto caminha agora desperto.”

É assombrosa a perspicácia do autor, como descreve o dano que produz cada uma destas doenças. Como o lendário quadro de Dorian Grey, embora no exterior sejamos, mais ou menos sempre semelhantes a nós mesmos, dentro a doença, se não a combatemos, vai adulterando e arruinando a nossa verdadeira natureza até que seja irreconhecível. Certamente que todas estas enfermidades estão em maior ou menor grau em cada um de nós, ou somos afligidos por elas em diversos momentos da nossa vida (se queremos ser otimistas, pois a realidade é que só em diversos momentos da vida conseguimos ver o céu estrelado do ideal através, além delas, pois são rainhas neste mundo material). 

Representação do rei mitico de Lanka, Ravana

O Orgulho ou a soberba enlouquece-nos, já nem sabemos quem somos, sem somos capazes de ver quem nos rodeia. Faz-nos confundir o amigo como inimigo e vice-versa, a calma vai-se, a vida converte-se num pesadelo e desaparece o respeito pelo próximo, atentando assim contra a dignidade de quem se aproxima ou simplesmente de quem temos que sofrer. 

A ira, além do dano que podemos exercer sobre os outros, faz a alma frenética, sujeitando-a a uma pressão que facilmente pode romper, produzir fissuras, leva-a a uma excitação excessiva e atividade caótica em que perde a visão, como o navegante que no meio da tormenta é incapaz de definir o curso. 

A sensualidade é para a alma uma lepra, desfaz-lha em pedaços, pedaços da sua “pele” e “carne” caem mortos por querer abraçar o que está morto (pois é a alma quem dá a vida, e sair fora de si mesma leva-lha à morte) e obtém com ele prazer. Tal é a atração dos cantos das sereias para os tripulantes do barco sagrado, pedaços de carne da alma, lançam-se no abismo. 

A ambição é como uma febre que nos faz arder, e talvez assim cremos que estamos mais vivos, mas não, o que estamos é mais doente, dopados pelas sensações de uma carreia que não vai a lugar nenhum, pois as metas não saciam nem devolvem a paz.  

A ganância é um desejo insaciável de ganhar mais, de acumular o que jamais possuiremos de verdade, nem poderemos levar mais além das portas da morte. Uma doença incurável, segundo os egípcios, e com ela o barco da vida fica preso na areia, ou na lama, por pesar demasiado.

A necessidade de vingança é um veneno que corrói as entranhas, a vida deixa de ter sentido, pois o seu ácido é corrosivo, só encontra satisfação na reparação da ofensa, seja real ou imaginária. 

Os ciúmes são uma icterícia que nos consome, a bilirrubina da alma dispara-se e sucumbe sem vida deixando a besta que vive dentro de cada um sem controlo, dando espaço, pois o fígado psíquico já não é capaz de regular harmonicamente o delicado mundo dos sentimentos e emoções.  

A inveja é, na sua alegoria, como um cancro para a alma, uma sombra obscura que mata as suas fibras mais tenras, transmutando-as alquimicamente no inverso, de nada serve já e o inimigo segue crescendo dentro.

O excesso de amor-próprio mata-nos porque converte-nos numa pequena ilha no meio de um oceano hostil, num deserto que nenhum caminho chega. A alma animada e vinculada por raios de luz e fluxos de vida a tudo o que existe é prisioneira e sem alimento numa prisão estreita. Como diziam os clássicos, os bandidos lançam pedras contra a donzela da sua alma e a apedrejam-na e ferem-na. 

A apatia ou preguiça da alma converte-se numa paralisia, os braços da alma que permitem-nos querer e fazer, caem sem vida, imobilizam, as pernas ficam rígidas. Se o veneno de cicuta avança no sangue da vida interior, o coração detém-se e convertemo-nos em autómatas. O que fazemos já é mecânico, a barca já não é uma nave que nos permite realizar os Sonhos e levar às Fontes, é um pedaço de madeira inerte que é arrastado para o mar. A inércia, que é um atributo da pedra que vive dentro de nós, converteu a alma em pedra, cuja essência é puro dinamismo, pura adaptabilidade, pura sensibilidade e resposta. 

De todo o modo, o caminho leva-nos sempre a viver de novo, e anima-nos a combater contra estas doenças e assim descobrir novos horizontes. Nesta terra sombria e desolada, como descreve o autor, a alma sempre nos sorri e nos convida a segui-la. 

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