Os Dois Caminhos

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Os Dois Caminhos é um tratado que Helena P. Blavatsky revelou ao Ocidente, trazendo à luz um tesouro espiritual oculto nas montanhas silenciosas do Tibete. Extraído do antigo de venerável “Livro dos Preceitos de Ouro”, esse tratado foi transmitido com reverência por aqueles que guardam os segredos da alma. Podemos encontrá-lo na obra profundamente transformadora conhecida como a Voz do Silêncio, um livro que não apenas se lê, mas se escuta com o coração. Nele, três portais se abrem diante do buscador, são três livros distintos: “A Voz do Silêncio”, “Os Dois Caminhos” e “Os Sete Portais”.
Os dois caminhos fazem referência a duas formas de percorrer e/ou finalizar o caminho, seguindo uma doutrina específica,

  • A doutrina do coração – Denomina-se do coração, por ter sido emanada do coração de Gautama Buda. Sabedoria do coração. É o caminho esotérico.
  • A doutrina do olho – Denomina-se do olho, por ter sido emanada da cabeça de Gautama Buda. Sabedoria da cabeça, ou intelectualismo. É o caminho exotérico.

São dois caminhos que estão dentro da senda individual de cada um de nós, pois todos, antes ou depois, iremos percorrê-los.
O tratado vai iniciar com a explicação de que qualquer um dos caminhos, revela a presença da dor, elemento essencial para se poder avançar. Não há facilidades, não há atalhos nem formulas especiais, no caminho verdadeiro, a dor está presente e só transmutando a dor em vivências de alma, é que poderemos ser conscientes das nossas limitações e dos avanços reais.
Antes de avançar pela senda da vida é necessário ser puro e ter discernimento para poder saber a diferença dos caminhos, pois antes ou depois, estaremos marchando por um ou outro caminho. Chega a dizer que a dado momento, é preferível a ignorância à sabedoria da cabeça, pois sem a sabedoria da alma para saber iluminar o caminho, podemos ficar estagnados nas teias de aranha do intelectualismo.
Neste sentido, o tratado indica chaves internas para trilhar o caminho com consciência:

  • Limpar a mente do pó da ilusão – A nossa mente reflete aquilo em que pensamos, e precisa da sabedoria atemporal para a limpar das nossas necessidades mundanas.
  • Desconfia dos sentidos – Os sentidos são falsos porque refletem um mundo que é por si uma ilusão, Maya. Temos de encontrar o eterno que está no nosso interior.
  • Afasta o elogio e a censura – Ambos levam autoilusão. O nosso EU verdadeiro existe para além das nossas ações do mundo, não sendo atingido pelos elogios ou censuras.
  • Afasta o orgulho – O autoconhecimento pode fazer que nos apeguemos às nossas vitórias, sendo como uma elevada torre à qual subimos por orgulho e nos isolamos do mundo.
  • Evita o isolamento do mundo – O controlo dos sentidos, não é feito pelo afastamento das dificuldades. Não encarar os desafios apenas os atrasa, não os resolve.
  • Não há fórmulas especiais – Há vivências individuais. Não por beber água do himalaia, realizar um retiro num sítio especial, ou ingerir apenas alimentos com determinadas características, vai levar-nos à libertação.
  • Aprende com humildade – Quem usa a doutrina do olho diz: “Vejam, eu sei”. Quem usa a doutrina do coração diz: “Assim eu ouvi”.
  • Sê perseverante“As tuas sombras (corpos) vivem e desaparecem; aquilo que em ti viverá para sempre, aquilo que em ti conhece, porque é o conhecimento (Manas), não é da vida fugaz: é o homem que foi, que é e será, para quem a hora nunca soará.”

Depois de dar os conselhos, vai sentenciar de forma belíssima a diferença dos dois caminhos na metáfora do pão:
“A roda da boa Lei gira rapidamente. Mói noite e dia. Separa o dourado grão das cascas inúteis e o farelo da farinha. A mão do Karma guia a roda; as rotações marcam as palpitações do coração Kármico.
O verdadeiro saber é a farinha, o falso conhecimento é a casca. Se queres comer o pão da Sabedoria, tens de amassar a tua farinha com as águas límpidas de Amrita (Imortalidade). Mas se amassares cascas com o orvalho de Maya apenas poderás criar alimento para as negras pombas da morte, as aves do nascimento, decadência e tristeza. “

Por um lado, indica que o caminho se percorre em conjunto, ou seja, para ter sabedoria de coração, temos de ter sabedoria da cabeça. Para termos pão, temos de ter grão, e para ter grão, temos de ter casca. Poderemos acumular muitos grãos no nosso celeiro, mas se não o transformamos em pão, não nos vai alimentar.
Por outro lado, há uma ligação clara entre a imortalidade e o caminho do coração. Só experienciando ou tendo vivências com elementos imortais, é que poderemos realmente avançar na senda do caminho do coração. Isto leva-nos a uma questão muito sutil. O que é que existe no mundo de Maya que seja imortal? A resposta vem de forma rápida e eficaz, real autoconhecimento e ações caridosas.
O real autoconhecimento são os aprendizados que nos permitem avançar na senda, todo o grão que se transformou em farinha e nos alimentou. O encontro com os ensinamentos que por sua vez foram aplicados nalgum momento da nossa vida. Entender conscientemente os nosso defeitos e virtudes e progredir com eles.
As ações caridosas são ações altruístas que não são necessárias para o nosso EU Inferior, mas que nos tiram do nosso sossego, e nos remetem a aplicar a nossa energia em prol dos outros, permitindo o reequilíbrio do Karma individual e do Karma coletivo.
“Se queres colher a doce paz e descanso, Discípulo, semeia com sementes de mérito os campos de futuras colheitas. Aceita o infortúnio do nascimento. Afasta-te da luz do sol para a sombra, a fim de abrires mais espaço para os outros. As lágrimas que regam o solo árido da dor e da tristeza fazem nascer as flores e os frutos da retribuição Kármica. Da fornalha da vida humana e do seu fumo negro elevam-se chamas aladas, chamas purificadas que, erguendo-se sob o olhar Kármico, tecem por fim o glorioso tecido das três vestes da Senda.”
Estas três vestes da senda, faz referência a três corpos ou condições que atinge o adepto iniciado na parte final da Senda.
Estas três vestes da Senda são mais do que símbolos, são estados de consciência, corpos subtis que o verdadeiro iniciado conquista ao transpor o último umbral do caminho. Representam condições sagradas, atingidas por aqueles que encaram os degraus finais da jornada:

  • Nirmanakaya – Corpo astral desenvolvido em vida. Mantém os conhecimentos adquiridos.
  • Sambhogakaya – É o mesmo corpo, mas com “três perfeições” adicionais, sendo uma o corte de qualquer ligação com o mundo material.
  • Dharmakaya – É um Buda completo. Não é um corpo específico, é a Consciência imersa na Consciência Universal. Não há individualização. Já não pode ajudar a humanidade.

Quem entra no Dharmakaya, sai da roda da dor propiciada pelos renascimentos, no entanto, também elimina qualquer possibilidade de realizar atos de compaixão pois não pode encarnar.
Gautama Buda, o que se diz ter sido o primeiro a poder fazer a escolha de sair ou não da roda da compaixão, preferiu a veste de Nirmanakaya à veste de Dharmakaya, mantendo-se na senda do coração ajudando a humanidade no seu caminho evolutivo.


“Devem os EUS ser sacrificados ao Eu; a humanidade ao bem-estar de Unidades?” “Adotar a humilde veste de Nirmanakaya é rejeitar a bem-aventurança eterna para Si a fim de ajudar a salvação do homem. “
Há uma associação direta da doutrina do coração com a compaixão máxima oferecida por Buda e os diferentes Buddas que estão na mesma condição, por ser um caminho de dação para a humanidade. Daí que estes Buddhas são denominados Budas da Compaixão.
Nós, no nosso caminho evolutivo, visto que estamos muito longe de alcançar esse nível de dação pela humanidade, diz o tratado, que “se precisas de te auxiliar a ti próprio e receias oferecer auxílio aos outros, então, tu de coração tímido, acautela-te a tempo: mantém-te contente com a Doutrina do olho da Lei”.
Dada esta dificuldade em seguir o caminho do coração, o tratado vai avisar que todo o universo é regido pela Lei, pela Justiça e “com este poderoso impulso de infalível ação”, as nossas ações irão gerar karma de curto ou longo raio, i.e., karma desta vida ou das próximas vidas.
“Aceita, então, tudo quanto o mérito te reserva. Ó tu de coração paciente. Anima-te e contenta-te com o teu destino. Tal é o teu Karma do ciclo dos teus nascimentos, o destino daqueles que, na sua dor e tristeza, nascem relacionados contigo, regozijam-se e choram de vida em vida, encadeados às tuas ações anteriores. Age tu por eles “hoje”, e eles agirão por ti “amanhã”. “
O hoje e o amanhã fazem referência às várias vidas no nosso percurso evolutivo. As nossas ações dentro ou fora do caminho do coração vão gerar o karma respetivo, necessário à nossa evolução. Dentro deste karma, vai alertar dos efeitos de ter medo de agir, e o karma consequente à inação, através da metáfora do peregrino,
“O peregrino que queira refrescar os seus fatigados membros em águas correntes, mas não ousa mergulhá-los por ter pavor à corrente, arrisca-se a sucumbir de calor. A inação baseada no medo egoísta apenas pode produzir maus frutos.”
(…)
Segue a roda da vida; segue a roda do dever para com a raça e a família, para com o amigo e o inimigo, e cerra a tua mente aos prazeres assim como à dor. Esgota a lei da retribuição kármica.”
Nesta ação no mundo, vai indicar que cada um à sua medida, tem de servir de guia e orientação às almas que estão ainda mais perdidas que nós, “mostra o Caminho – ainda que vagamente perdido entre a multidão – tal como a estrela da tarde àqueles que trilham o seu rumo na escuridão.”

Volta a focar novamente na importância do orgulho e amor-próprio como virtudes negativas a eliminar, sendo que a receita é a Devoção, a entrega ao nosso EU Superior, a parte Divina em nós. Através desta entrega, será possível chegar ao verdadeiro conhecimento, o conhecimento que já foi nosso em encarnações passadas.

“Sê humilde se queres alcançar a Sabedoria.
Sê ainda mais humilde, quando fores possuidor da Sabedoria.
Sê como o Oceano que recebe todas as torrentes e rios. A poderosa calma do Oceano permanece inalterada. Ele não os sente
Refreia pelo teu Divino o teu Eu Inferior.
Refreia pelo Eterno o Divino.
Sim, grande é aquele que mata o desejo.
Maior ainda é aquele em quem o Eu Divino matou o próprio conhecimento do desejo.
Vigia o inferior para que não macule o Superior.
O caminho da libertação está dentro do teu EU.
Aquele caminho começa e termina fora do EU.”


Como vemos, há uma preponderância para focalizar a nossa atenção na nossa parte espiritual, no nosso EU Superior em detrimento do inferior. Quem assim o fizer, conseguirá matar o desejo, o que leva ao desapego do fruto das nossas ações. Ambicionar um certo resultado num mundo que é ilusão, Maya, só pode levar ao descontentamento e infelicidade.
No fim, há apenas um caminho, sagrado, silencioso e interior. Mas a meta, essa é dupla. E chega o momento em que cada alma deve escolher.
“A SENDA é uma, Discípulo, mas dupla no final. Marcados estão os seus estágios, por quatro e sete portais. Num lado está a beatitude imediata, no outro a beatitude adiada. Ambas são a recompensa do mérito: a escolha é tua”
Dissemos anteriormente que o caminho é uno e que dependendo das nossas vivências, poderíamos estar a escolher o caminho do coração ou o caminho do olho, mas tudo isso integrado no nosso único caminho. Quando este caminho chega ao seu final, temos uma bifurcação efetiva, e aí a escolha leva à finalização do ciclo de renascimentos ou não.
A beatitude imediata é o caminho do olho, pois o que se atinge é pessoal e intransmissível, alcançamos o corpo Dharmakaya e não precisamos de entrar na roda dos renascimentos, é a LIBERTAÇÃO.
A beatitude adiada é o caminho do coração, alcança-se o corpo Nirmanakaya e entra-se novamente na roda dos renascimentos para ajudar as almas ainda presas nela, à sua própria libertação. É a RENÚNCIA, o caminho da Compaixão.
Em resumo, os dois caminhos vivem dentro de nós, e ambos são essenciais na nossa jornada evolutiva. Um deles, o caminho do olho, é mais solitário e lento, onde cada passo é dado na solidão da experiência individual, sem eco no coletivo, sem contribuir diretamente para o avanço da humanidade. Já o outro, mais luminoso e acelerado, é trilhado com o coração e com os outros: as vivências partilhadas, o esforço é comum, e o aprendizado coletivo torna-se uma força propulsora que nos eleva a todos ao mesmo tempo. É neste caminho que o eu e o nós se encontram e caminham juntos no processo evolutivo.
A escolha de qual deles podemos percorrer, é nossa, sabendo que, se queremos apressar o caminho, a escolha é clara, o caminho do coração. Para tal a receita é ter Compaixão. Sem compaixão, sem a capacidade de nos colocarmos no lugar do outro para aliviar a sua carga, não haverá evolução coletiva, apenas individual.
Quando chegamos aos últimos passos do Caminho, somos chamados a fazer a escolha mais profunda de todas. Buscar a nossa Liberação, troféu merecido após tantas vidas de esforço, ou renunciar a ela, com o coração cheio de compaixão, para servir e iluminar a Humanidade. É nesse instante que se revela o verdadeiro espírito de Buda.

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