Ramayana: A Lenda do Príncipe Rama

Este filme animado é uma produção indo-japonesa, dirigida e produzida por Yugo Sako. Realizado por ocasião da celebração do 40º aniversário das relações diplomáticas entre a Índia e o Japão, e o conceito foi combinar um elemento da tradição indiana – o argumento fundamenta-se no épico da Índia antiga, o Ramayana; e um elemento da tradição nipónica – a técnica de animação conhecida como anime e que muitos fãs tem pelo mundo.

A animação começa com a contextualização do momento em que a ação irá decorrer, falando de um rei maléfico e despótico chamado Ravana, governante da ilha de Lanka; e da origem de Rama, o herói deste épico, que nasceu em Ayodhya (“A cidade que ninguém pode desafiar na guerra”, alusão à sua força e prosperidade), um dos quatro filhos do rei Dasharatha. Este último é descrito na versão escrita do Ramayana como sendo um governante cuja “principal riqueza era a preeminência da verdade e da virtude; (…) alguém que nunca quebrava a sua palavra, que era sempre prudente, majestoso e amado pelos seus súbditos1”. Uma das suas principais virtudes era nunca quebrar uma promessa feita, o que será a causa do seu maior desgosto, como se verá mais à frente.

Conta a história que quando Rama tinha 15 anos, o poder de Ravana estava no seu auge. O épico, na versão escrita, refere que “Esse senhor dos Rakshasas2 tem oprimido os três mundos (…). Provocando os sábios, contemplativos, brâmanes e os deuses, ele mesmo controla os raios do sol e o poder do vento, o próprio oceano fica imóvel na sua presença”3. Ou seja, Ravana é a causa da instabilidade no mundo dos humanos e dos deuses, perturbando a ação de ambos e interferindo com a Natureza, manuseando-a a seu gosto.

Farto de estar a ser sempre incomodado nos momentos cerimoniais pelos demónios sob o comando de Ravana, um sábio, chamado Vishvamitra, a conselho de Vishnu, decide dirigir-se para a corte do rei Dasharatha, para lhe solicitar que deixasse o seu filho, Rama, vir com ele para poder matar as criaturas maléficas, principalmente a mais ameaçadora delas, Tadaka.

Vishnu aconselha que o sábio requisite Rama porque este guerreiro havia nascido como uma encarnação sua e fazia parte do plano do Supremo Deus Brahma para matar Ravana, acedendo, deste modo, à solicitação de seres celestiais, gandharvas4 e siddhas5

Era habitual um Deus encarnar num corpo mortal sempre que a injustiça e a violência imperassem, e fosse necessário fazer regressar a justiça e a harmonia. Neste caso, o príncipe, era um Avatar, um Deus encarnado, e seria a arma utilizada para matar o maléfico Ravana, porque a este último tinha sido concedido o pedido de que nenhum ghandarva, yaksha6 ou deva7 alguma vez o conseguisse matar. Mas, por desprezo aos mortais, Ravana não tinha incluído os humanos nesse seu pedido. Assim sendo, somente um mortal conseguiria colocar um fim à sua existência.

Estão apresentados os dois principais personagens deste épico: Rama, o herói, que simboliza o Eu Superior, a parte divina em todo o ser humano; e Ravana, o maléfico demónio, que representa o Ego, a parte egoísta e ambiciosa que reside no interior do ser humano. O confronto entre ambos representa a luta entre a parte Espiritual e a parte Material que coexistem no interior do Homem. O campo de batalha será a ilha de Lanka, o campo da consciência, à semelhança do Kurushetra no Bhagavad-gita.

A ação no filme prossegue com Vishvamitra a insistir com o rei para que deixasse Rama ir com ele, apesar do rapaz ainda ser um adolescente. Conseguida a autorização, ambos partem na companhia de Lakshmana, irmão e fiel companheiro do herói.

Chegados a um bosque, à noite, Vishvamitra começa a ensinar aos dois irmãos um mantra8 para os ajudar a matar a maléfica, demónio fêmea Tadaka, que aterrorizava constantemente aquelas paragens, com a assistência do seu filho Maricha.

A sua imagem era pavorosa, com um corpo descomunal e aspeto bestial, simbolizando a força dos poderes tenebrosos, à semelhança do enorme Dragão que combate S. Jorge, ou da grande serpente que combate Apolo. É a primeira prova do herói, o despertar da consciência para o lado mais obscuro que existe no Homem.

Com uma flecha lançada enquanto recitava um mantra, Rama consegue matar Tadaka e colocar um fim ao tormento a que os sábios se encontravam submetidos, acossados constantemente pelos demónios.

Como recompensa, os dois irmãos recebem das mãos do sábio, armas mágicas, denominadas, na tradição hindu, de astra. Constituem um conjunto de armas sobrenaturais com poderes espirituais e que se encontram associadas a Divindades específicas. Devido à sua natureza, elas deviam ser utilizadas sabiamente, na defesa da Justiça e do Dharma9.

Após este episódio, Rama e Lakshmana dirigem-se à cidade de Mithila, onde o rei se encontra a lançar um desafio a vários príncipes: quem conseguir encordoar o enorme arco de Shiva terá a mão da sua filha, a princesa Sita, em casamento. 

O lançamento de desafios para determinar qual seria o melhor pretendente para as princesas era normal na antiga Índia, pois era uma maneira dos governantes avaliarem a habilidade e o valor de cada príncipe guerreiro, enquadrado dentro do espírito kshatrya10.

Na versão escrita do Ramayana, é referido que Sita nasceu da terra, mais especificamente, surgiu de um sulco enquanto o rei Janaka arava para a realização de um sacrifício. Literalmente Sita significa “sulco”. Ela representa a alma que surge pura e descontaminada da natureza. Será alvo de muitos pretendentes, mas somente o mais puro de coração é que conseguirá obter a sua mão.

O filme mostra como Rama consegue encordoar o arco e, deste modo, obter a mão da princesa em casamento. Este episódio simboliza a união entre o Eu Superior e a alma. 

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Friso com cenas esculpidas do Ramayana na parede norte do templo monolítico de Kailasa, Bombaim, Índia (725-755 d.C.). Creative Commons

O teste do arco está relacionado com uma prova de masculinidade, de virilidade. Outros personagens mitológicos, como Ulisses, também são submetidos ao mesmo género de teste com essa arma. O arco, em conjunto com as flechas, surge em muitos mitos sendo transportado por heróis e deuses como Apolo, Indra, Astarté, Arjuna e Ninurta, só para citar alguns. 

A ação prossegue, relatando que algum tempo de paz decorre sem grandes incidentes. Porém, estes tempos de harmonia não tardariam a sucumbir. O sábio Vashishtha lança um aviso ao rei Dasharatha, afirmando que se aproximavam tempos difíceis. Já com uma idade avançada, o rei diz estar cansado para poder estar à altura dos futuros acontecimentos e decide abdicar em prol do seu filho Rama.

Porém, a intriga espalha-se na corte do rei, pois Manthara, uma anciã, serva de Kaikeyi, uma das esposas de Dasharatha, implanta a semente da ambição no coração da sua senhora. Afirma que ela não deveria ficar contente com o facto de Rama ficar com o trono já que este poderia perfeitamente ser dado ao seu filho, Bharata. As duas traçam um plano para ludibriar Dasharatha e fazer com que Rama fique sem o poder.

Numa noite, Kaikeyi chora desconsoladamente e o rei vai ter com ela perguntando a razão daquele desalento. A rainha recorda-lhe um episódio do passando, em que o governante, ferido numa guerra, é amparado por ela. Nessa altura, Dasharatha afirmou que concederia a Kaikeyi dois desejos que ela poderia reclamar quando quisesse. Afirma a rainha que tinha chegado o momento e pede algo que vai marcar o curso dos acontecimentos e causar um imenso desgosto no rei: em primeiro lugar ordena que o trono seja concedido ao seu filho Bharata, e em segundo que Rama seja exilado durante 14 anos.

Apesar da dor intensa que o preenche, Dasharatha não tem outra opção senão aceitar a imposição da sua esposa. Como rei que era não poderia quebrar a palavra dada.

Rama teria que partir, mas não irá sozinho já que Sita e Lakshmana decidem ir com ele, partilhando a sua sorte. Simbolicamente isto está relacionado com o facto de após ter descoberto o Eu Superior (Rama), a alma (Sita) já não o querer abandonar. Lakshmana, numa das chaves simbólicas, é a Inteligência (Buddhi, na Índia), ou seja, o elemento que permite o enlace entre a alma e o Eu Superior

É interessante observar o episódio da despedida de Rama do palácio. O seu pai tortura-se perante ele, questionando sobre a razão deste não se revoltar e de não sentir rancor pela decisão tomada. Com uma grande serenidade e paz de espírito Rama diz ao pai que não ambiciona o reino nem o poder e que simplesmente quer a sua bênção antes de partir. Mesmo perante Kaikeyi, a pessoa responsável pela sua presente condição, ele ajoelha-se e pede a sua bênção. 

Como filho devia respeitar a decisão do pai, e como príncipe devia aceitar a vontade do rei. Finalmente, os três partem rumo à floresta.

Nesta cena podemos constatar que o Eu Superior não tem ambição pelo poder terrenal, ele sabe que o mais importante é seguir o caminho das virtudes, do cumprimento do dever. No caso de Rama isso passaria por obedecer como filho e como subordinado.

A cena também ilustra a entrada do Eu Espiritual no seio da multiplicidade, aqui representada pela floresta, que é, também, o labirinto da vida, onde se encontram os perigos e as tentações capazes de desviar a alma da sua união com a parte divina.

Passado pouco tempo, relata-nos o filme, o Rei falece mergulhado num profundo desgosto, chamando pelo nome do seu amado filho Rama. Bharata dirige-se rapidamente ao palácio ao saber do ocorrido. 

Chega ao palácio do Rei sem ter a noção de que Rama estava ausente. Questiona-se sobre a sua ausência e apercebe-se da trama que a sua mãe urdiu em conjunto com a sua criada para exilar Rama e conceder o trono a ele, Bharata.

A reação que teve não era aquela que Kaikeyi esperava. A versão escrita relata como zangado e aflito Bharata repudia a ação da mãe e repreende-a duramente: “De que me servirá o trono, visto que estou ferido pela morte de meu pai e desprovido do meu irmão, que era como um pai para mim? Tu destruíste o rei, e baniste Rama, levando-o a tornar-se um asceta! (…) Meu pai sem saber que eras um fogo devorador, te sustentou. Ó pecaminosa, tu privaste o rei de vida!11” 

A natureza de Bharata não era a da sua mãe, as suas ações não eram impulsionadas pela ambição, mas pela honra e pela piedade filial. Sem perder tempo parte para o bosque em busca do seu irmão. Ao chegar ao sítio onde Rama morava, informa-o sobre a morte do pai e pede-lhe encarecidamente que volte para reinar sobre Ayodhya. Rama, porém, não aceita. Apesar do seu pai ter morrido ele não iria contrariar, como bom cumpridor do dharma, a última determinação do rei.

Bharata compreende, e aceita governar, mas em nome do seu irmão e até ao momento em que ele saia do exílio. Um nobre sentimento de concórdia preenche o coração de ambos irmãos e, fraternalmente, despedem-se um do outro.

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Rama, a sua esposa Sita e irmão Lakshmana no exílio na floresta, manuscrito de 1780. Pulic Domain

A vida na floresta decorre tranquilamente para Rama e os seus acompanhantes até ao momento em que Shurpanakha, irmã mais nova de Ravana, entra em cena disfarçada de uma bonita mulher e, encantada com a beleza do herói, tenta seduzi-lo. Recusada por este, pois Rama diz que é feliz no seu casamento, a demónio feminina mostra a sua verdadeira aparência e tenta matar Sita, mas vê a sua tentativa travada quando Lakshmana lança uma faca que lhe corta o nariz. 

Shurpanakha surge como a tentação, o desejo que se apresenta sob uma bela forma e que tenta separar o Eu Superior da sua união com a alma. Os perigos do desejo são subtis, pois no início surge como algo agradável de desfrutar. Porém, à medida que o ser humano vai procurando reproduzir essa sensação de agrado, vai gerando paulatinamente uma necessidade. 

Quando o ser humano se entrega ao deleite sensorial, começa a negligenciar o seu mundo interior, a sua dimensão espiritual, pois a sua atenção começa a virar-se para fora. Com o tempo, a necessidade vai-se enraizando e com isso surge o apego aos prazeres do mundo sensível, criando a ilusão de que não se pode viver sem eles. Essa é a face obscura que Shurpanakha esconde sob a ilusão da beleza com que se apresenta a Rama. Nesta situação, a Inteligência desempenha um papel importante pois é ela que permite distinguir entre o supérfluo e o essencial, entre o mau e o bom, entre o ilusório e o real. Lakshmana rejeita liminarmente Shurpanakha, ferindo-a e afastando-a com determinação.

Continua a ação. Cheia de dor, o ser demoníaco foge e apresenta-se perante o seu poderoso irmão, Ravana, a chorar. Relata que foi atacada por Lakshmana e descreve a cintilante beleza de Sita, uma princesa digna de um rei poderoso como ele, Ravana. Este sente-se imediatamente tentado e decide-se a raptar Sita. É a ambição do Ego, que pretende ter a alma para si seja por qual meio for.

Engendra um ardil: iria com Maricha, um demónio com o poder da transformação, à morada de Rama e raptaria Sita após afastar os seus dois protetores de casa.

Então, num belo dia, os dois demónios aparecem perto da cabana onde Rama e os seus companheiros vivem. Maricha transforma-se num lindo cervo com pelo dourado que capta a atenção de Sita. Esta fica tão encantada que pede a Rama que capture o animal para ela. Este acede e parte deixando o seu irmão com a esposa. Só que Lakshmana também é atraído para longe da cabana ao ouvir a voz de Rama a pedir ajuda, Sita fica sozinha e é enganada por Ravana que, disfarçado de um asceta que mendiga comida, consegue raptar a bela princesa partindo no seu carro voador.

Esta situação mostra-nos a incapacidade que a alma ainda tem de resistir às tentações. É certo que não são tentações sensoriais, como desfrutar de uma boa comida, mas são tentações mais subtis, como desejar algo belo. Sita deixa-se seduzir pela beleza e elegância do cervo dourado e quer tê-lo para ela. Com isso deixa-se levar pela influência do Ego (Ravana), que tem a capacidade de criar muitas ilusões mentais de modo a distrair a alma daquilo que realmente importa, a sua ligação com a dimensão espiritual. Com as suas ilusões o Ego consegue puxar a alma para o mundo material, simbolizado pelos domínios de Ravana na ilha de Lanka.

Quando se apercebe do rapto de Sita, Rama fica furioso, mas Lakshmana, no seu papel de fiel conselheiro, tenta apaziguar o seu irmão referindo que a ira não é uma boa via para a ação justa.

É aconselhado a pedir ajuda a Sugriv, rei dos Vanaras, o povo dos macacos.

Estes Vanaras desempenham um papel importante nesta saga, pois podemos ver na versão escrita do Ramayana que entre eles se encontravam vários deuses encarnados como consequência de um pedido que o Supremo Deus Brahma dirigiu aos outros deuses: “O abençoado Senhor Vishnu (…) está engajado numa tarefa justa para o bem de todos [a luta contra Ravana], vocês, portanto devem apoiá-lo encarnando como grandes seres na tribo de macacos, hábeis nas artes da magia, velozes como o vento, conhecedores dos ditames da virtude, sábios e iguais em força ao Senhor, invencíveis, dotados de corpos celestes e hábeis na ciência da guerra. Alguns dentre vocês devem assumir as formas de ninfas, gandharvas e mulheres ascetas que darão à luz heróis na tribo dos macacos [Vanaras]”12.

Entre esses heróis encontravam-se o próprio rei, Sugriv, gerado pelo Sol, e o seu ministro, Hanuman, filho de Pavana, Senhor dos Ventos, e que superava todos os outros guerreiros em sabedoria e poder. Para além de ser rápido como o vento devido à sua ascendência paterna, Hanuman tinha sido agraciado pelos outros deuses com diversos atributos: Agni tinha-lhe concedido a imunidade ao fogo, Indra tinha-lhe concedido a força de um relâmpago, Brahma atribuiu-lhe a capacidade de mudar de tamanho consoante a sua vontade e Vishnu concedeu-lhe uma arma mágica, uma enorme maça. A tradição indiana considera-o um Brahmacharia, ou seja, alguém que segue o caminho de Brahma. Ao encontrar-se com Rama, Hanuman acaba por tornar-se um devoto seu e simboliza o Discípulo perfeito, pleno de humildade, de amor incondicional pelo seu Mestre e puro de intenções.

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Representação de Hanuman. Pxfuel

Sugriv promete assistência a Rama se este o ajudar a recuperar o trono, que tinha sido usurpado pelo seu irmão Bali.

Rama acede e recupera o reino para Sugriv e este, sem demora, envia vários grupos de macacos por todo o território em busca de pistas sobre o paradeiro de Sita.

Hanuman é quem, utilizando a sua capacidade de voar para atravessar o oceano, consegue encontrar Sita na ilha de Lanka.

Ele pretende libertá-la oferecendo-se para a transportar pelos ares, mas Sita refere que somente Rama a pode libertar. Ou seja, a alma somente pode ser libertada da sua prisão material pelo Eu Superior.

Antes de ir embora, Hanuman apresenta-se a Ravana e pede-lhe que liberte Sita, mas o demónio prende-o e ordena que lhe incendeiem a cauda. Sabendo-se invulnerável ao fogo, o fiel guerreiro deixa que isso aconteça e depois liberta-se incendiando Lanka no seu trajeto de fuga.

Aqui vê-se como o Ego, movido pela sua sensação de força e pelo seu sentido de posse, não aceita ceder. Ele quer conquistar e esmagar todos aqueles que se oponham aos seus desejos e ambições. Tal como Duryodhana no Mahabharata, Ravana pensa que consegue tudo e que não há nada que o detenha. Tomado pelo seu orgulho sente-se poderoso e invencível. Na sua cegueira toma uma decisão extremada que resulta no grande incêndio do seu reino.

Hanuman chega ao continente e conta o que aconteceu a Rama e este dirige-se com o exército de macacos para o ponto de onde poderão partir para Lanka.

Ali chegado depara-se com um problema: como atravessar o mar de modo a atingir as costas de Lanka? Rama recebe a informação de que deveria rezar ao deus do mar para obter os seus favores. Ele passa 7 dias e 7 noites em oração e ao 8.º dia o deus aparece. Diz a Rama para colocar o seu nome escrito em pedras e para lança-las ao mar que elas iriam flutuar.

Imediatamente, o herói e os seus aliados lançam-se ao trabalho e conseguem construir uma ponte de pedras até à ilha.

Ravana apercebe-se destas movimentações e prepara-se para a guerra.

Este conflito não é muito diferente daquele que coloca frente a frente Pandavas e Kuravas no Bhagavad-gita. De um lado estão as forças que representam as virtudes humanas e as forças espirituais; do outro encontram-se as forças da ignorância, do egoísmo e do materialismo, ambas presentes no interior do Homem. Este é um confronto inevitável, pois mais cedo ou mais tarde a consciência desperta para a dualidade existente no ser humano. Os dois elementos da dualidade poderão coexistir durante um tempo, mas num determinado momento terá que haver uma escolha: a via espiritual ou a material.

Durante vários dias os dois exércitos lutam entre si, num confronto intenso e titânico.

Numa das noites, após um dia de combates, Rama pede que sejam feitas as cremações de todos os corpos, incluindo as dos inimigos.

Lakshmana questiona-o sobre isto, pois que sentido tem fazer a cremação dos corpos daqueles que pretendem fazer o mal?

Como resposta, surge um grande ensinamento daquele que vê mais além das formas. Afirma Rama que depois de mortos todos são humanos e que todas as almas resultam do mesmo molde. É na vida encarnada que surgem as diferenciações, as oposições, os conflitos. Continua Rama dizendo que ele luta pela justiça, para que irmão não levante armas contra outro irmão. Ou seja, se a maldade e a violência estão presentes no coração humano, há que lutar para eliminá-las, arrancar essas sementes de modo a que jamais germinem para que no interior dos Homens possa florescer a Concórdia, o sentimento que une com um fio invisível os corações humanos.

Vendo-se a perder a guerra, pois os seus melhores guerreiros vão sendo sucessivamente eliminados, Ravana decide acordar o terrível e colossal Kumbhakarna. Este permanecia em estado de adormecimento durante meses. Acordá-lo não era uma tarefa fácil devido ao seu imenso tamanho e à profundidade do seu sono. Mas o gigante é acordado com sucesso.

Kumbhakarna era extremamente poderoso e está relacionado com a força bruta. Também simboliza a energia de Tamas, a inércia, difícil de ser colocada em movimento, mas que quando é posta em ação tende a passar para o extremo oposto, ou seja, uma ação impetuosa e difícil de controlar, aquilo que na Índia antiga chamavam de Rajas. Mal entra em combate começa a desbaratar o exército de Rama, apesar do esforço dos soldados em oporem-se a tão temível inimigo.

Os demónios tentam acordar o gigante Kumbhakarna, batendo-lhe com armas e gritando-lhe aos ouvidos, séc. XVII. Public Domain

Hanuman, utilizando o seu poder de crescimento, tenta travar o maléfico guerreiro de Ravana, mas não sem antes lhe entregar os corpos dos seus dois filhos, Kumbha e Nikumbha, mortos em combate. Um gesto de respeito a que o próprio demónio não fica indiferente, agradecendo a atenção. Por aqui se vê a grandeza de sentimentos que um guerreiro deve ter. Ele não deve odiar o seu adversário, mesmo que este esteja do lado da injustiça. Um guerreiro combate por Amor e por Justiça e isso deve-se manifestar nos seus sentimentos e nos seus atos.

Apesar dos seus esforços, Hanuman não consegue travar Kumbhakarna. O Ego é poderoso, não cede perante qualquer elemento que surja à sua frente. Só o Eu Superior tem a capacidade para o confrontar e o submeter. É a Rama que cabe o papel de derrotar Ravana.

O herói apresenta-se para o combate e após alguns golpes trocados consegue cortar a cabeça do maléfico rei, mas esta começa a crescer novamente, o que dá origem, depois às múltiplas cabeças de Ravana onde ele exibe todo o seu poder. Simboliza isto a multiplicidade do Ego, os seus muitos desejos e apegos. O facto de uma cabeça ser cortada e renascer relaciona-se com a dificuldade de erradicar os desejos, pois mesmo quando o Homem pensa ter eliminado um deles, este tem a capacidade de se regenerar e multiplicar-se. 

Percebendo que essa não era a forma de matar o demónio, Rama arremessa a sua arma mágica chamada Sudarshana Chakra contra o tronco de Ravana, cortando-o ao meio.

Esta arma está associada a Vishnu, e numa versão, terá sido oferecida por Shiva a este deus. Diz a história que quando Vishnu adorava Shiva oferecendo-lhe 1000 flores de lótus, este último, para testar o primeiro, escondeu uma das flores. Para poder completar a oferenda Vishnu colocou no altar um dos seus olhos. Isto faz alusão ao próprio nome do astra, já que Sudarshana quer dizer “Boa Visão”.

Assim sendo, indica que para erradicar o Ego há que ir mais além do óbvio, os desejos (as cabeças) que se manifestam no ser humano e ir atrás das causas que estão por trás deles. Pois da mesma maneira que uma árvore nutre os seus ramos através da seiva que percorre o seu tronco alimentado pelas raízes, também os desejos são alimentados pelas fraquezas e debilidades humanas.

É curioso que Ravana tenha sido cortado na zona da cintura porque é aí que segundo as artes marciais japonesas se encontra o hara, o reservatório de energia vital e, também, o centro de gravidade do corpo. Muitos movimentos marciais devem partir deste ponto, indicando que a pessoa deve-se movimentar a partir do centro do seu próprio ser. Ao apontar a essa zona Rama aniquilou a fonte de energia vital de Ravana.

Após a derrota de Ravana, a paz é restaurada. Lanka fica sob o governo de um novo rei e Rama parte na companhia de Sita e Lakshmana para Ayodhya, o seu reino.

O Eu Superior conseguiu resgatar a alma e os dois podem partir para o seu lugar de repouso, o palácio real, símbolo do Mundo Ideal, ou Mundo Espiritual, onde os justos podem repousar.

Ramayana resulta numa animação bem conseguida, fruto de um esforço por alcançar a síntese deste extenso épico indiano de modo a apresentá-lo numa narrativa cinematográfica que não fosse aborrecida e longa.

A sua leveza encanta e a profundidade dos seus ensinamentos sensibiliza a alma de qualquer um.

Um filme que vale a pena ver e rever, sem dúvida.

Notas:

1 – Valmiki, Ramayana, tradução de Eleonora Meier, 2015, p. 35.
2 – Demónios, inimigos dos deuses.
3 – Valmiki, Ramayana, tradução de Eleonora Meier, 2015, p. 46.
4 – Músicos celestiais.
5- Seres semidivinos que moram na região entre a terra e o sol.
6- Espíritos da natureza, usualmente benevolentes mas que por vezes podem ser caprichosos.
7 – Deuses, literalmente quer dizer “brilhante”.
8- Palavra ou frase que se recita para conseguir libertar a mente para a meditação ou para invocar uma divindade.
9 – Lei que promove a ordem em todo o universo.
10 – Casta guerreira na tradição indiana.
11 – Valmiki, Ramayana, tradução de Eleonora Meier, 2015, p. 223.
12 – Valmiki, Ramayana, tradução de Eleonora Meier, 2015, p. 48.

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