
Como o rei Vishwamitra visitou o eremitério de Sri Vasishtha e aceitou a hospitalidade oferecida pela vaca dadora de desejos, Shabala.
Contemplando o eremitério, o poderoso Vishvamitra ficou muito feliz, curvou-se com grande humildade a Sri Vasishtha, que estava envolvido nas suas orações com o rosário.
Sri Vasishtha deu as boas-vindas ao rei e pediu-lhe que se sentasse e, ao fazê-lo, ofereceram-lhe os frutos e raízes que cresciam naquele lugar.
Honrado pelo santo sábio, o rei Vishvamitra perguntou ao sábio se tudo corria bem com o sacrifício do fogo, as suas práticas espirituais e com seus discípulos. Sri Vasishtha relatou-lhe tudo sobre o seu bem-estar e o bem-estar de todos os que estavam no eremitério, incluindo as próprias árvores.
Sentando-se confortavelmente, Sri Vasishtha disse ao rei Vishvamitra, eminente entre os yogis e até entre um dos filhos de Sri Brahma:
“Ó rei, está tudo bem contigo? Satisfazes os teus súbditos de acordo com a lei da justiça, governas e proteges o teu povo de acordo com a lei espiritual? Será a tua renda recebida e aumentada de maneira justa? Será administrado judiciosamente e distribuída por aqueles que são escolhidos e que o merecem? Os teus servos são remunerados como devem? Os teus súbditos obedecem-te de bom grado? Ó soberano, derrotas-te os teus inimigos? Ó rei sem pecado, vai tudo bem com o teu exército, o teu tesouro, os teus amigos, os teus filhos e netos?”
Em resposta a essas perguntas, o rei Vishvamitra disse humildemente:
“Está tudo bem, meu Senhor!”
Conversando agradavelmente por um longo período de tempo, narrando antigas tradições, assim encontraram prazer mútuo.
Ó Príncipe da Casa de Raghu, quando o rei Vishvamitra terminou, Sri Vasishtha disse-lhe com um sorriso:
“Ó rei, mesmo que tu tenhas uma óptima comitiva, é meu desejo oferecer-te hospitalidade, assim como ao teu exército. Espero que o aceites. Como tu és um convidado honrado, sei que devo fazer tudo ao meu alcance para te entreter; portanto, tem a gentileza de receber o pouco que tenho para te oferecer.”
O rei Vishvamitra respondeu-lhe:
“Ó Senhor, a tua bondade e palavras agradáveis são entretenimento mais do que suficiente. Além do mais, tu já me ofereceste frutas e a água limpa do teu eremitério. Ao encontrar-te sozinho, não terei sido já honrado o suficiente? Ó supremamente sábio, será certo que eu te ofereça reverência; Agora que já me divertiste, deixa-me cumprimentar-te e ir-me embora.”
O grande sábio recusou-se a aceitar a recusa do rei à sua oferta e insistiu novamente em entretê-lo.
Então, Vishvamitra disse:
“Que assim seja, meu Senhor, farei o que quiseres.”
Com essas palavras, Sri Vasishtha mandou chamar a sua vaca manchada favorita, Kamadhenu, e disse-lhe:
“Ó Shabala, aproxima-te e ouve-me; desejo oferecer hospitalidade ao rei e ao seu exército. Ó amável, tu és a vaca que outorga todos os desejos e que pode realizar qualquer coisa, cria agora refeições esplêndidas que lhes sejam agradáveis, de acordo com os seis tipos de gostos [2]. Produz rapidamente todo o alimento que possa ser consumido, bebido, lambido ou sorvido.”
O rei deseja possuir Shabala, mas Sri Vasishtha não renuncia a ela.
A vaca Shabala atendeu às necessidades de todos, de acordo com as instruções de Sri Vasishtha. Foram distribuídos cana-de-açúcar, doces de vários tipos, mel, cevada triturada, vinho e outras bebidas excelentes, arroz quente empilhado no alto de montanhas, leite, curry e outros pratos que combinam os seis gostos e inúmeros outros com doces feitos de jagari. [3] Cada um ficou totalmente satisfeito e encantado com a hospitalidade de Sri Vasishtha, que deu a todos os companheiros e servos do rei Vishwamitra tudo o que estes desejavam.
O rei, com os seus sacerdotes familiares, ministros e assistentes, participando da festa oferecida com generosidade e respeito pelo grande sábio, ficou muito satisfeito.
Quando todos os conselheiros, assistentes pessoais e o exército receberam a a mais completa das hospitalidades, o rei, totalmente satisfeito, disse a Sri Vasishtha:
“Ó Santo Sábio, honraste-me de uma maneira real, por favor, ouve o que te tenho a dizer, ó Eloquente! Ó Senhor, dá-me a vaca Shabala em troca de cem mil outras excelentes vacas! Shabala é uma jóia e cabe ao rei valorizar as jóias – de acordo com a lei natural. Portanto, o tesouro deve ser meu.”
Sri Vasishtha respondeu-lhe, dizendo:
“Ó rei, não me separaria de Shabala trocando-a por dez milhões de vacas, menos ainda por cem mil. Se tu me oferecesses montanhas de prata, ainda assim, recusar-me-ia a dar-te Shabala, porque é no meu eremitério o seu lugar.”
“Ó rei, tal como a um homem justo lhe importa o seu bom nome, eu também me importo com Shabala. Ela ajuda-me a satisfazer os devas, os pitris e outros seres. O meu sacrifício ao fogo sagrado e outros rituais védicos, além dos vários ramos da aprendizagem, dependem de Shabala. Ó Grande Governante, de facto, eu não posso desistir desta vaca, ela é tudo para mim e atende a todas as minhas necessidades. Por estas e muitas outras razões, recuso-me a dar-te a vaca. Ó rei, na verdade, não me separarei de Shabala.”
Estas palavras de Sri Vasishtha limitaram-se a aumentar o desejo do rei e ele, sob grande emoção, declarou apaixonadamente:
“Ó grande Muni, dar-te-ei quatorze mil elefantes adornados com ornamentos de ouro, ornamentos e esporas, e, além disto, dar-te-ei cento e oito carros de ouro maciço, cada um dirigido por quatro cavalos brancos da cor do leite. E, simultaneamente, ofereço-te onze mil cavalos bem treinados, cada um com um arnês de ouro e outros dez milhões de vacas de várias cores, jovens e saudáveis. Oh, dá-me a Shabala e eu dar-te-ei todo o ouro que quiseres em troca. Concede-me Shabala, eu imploro-te, e aceita os meus presentes, ó Sábio!”
Então o sábio Vasishtha disse:
“Sob condição nenhuma deixarrei Shabala, ó rei, ela é a minha jóia e a minha riqueza. Ela é a minha própria vida, a minha amada, e ela fornece-me as esmolas e tudo o que preciso para o sacrifício. Em resumo, ó rei, Shabala é a fonte da minha vida espiritual e, como tal, nunca a abandonarei.”
O rei Vishvarmitra tenta levá-la pela força
Ó Rama, sentindo que Sri Vasishtha não estaria disposto a consentir separar-se da vaca, Vishvamitra decidiu levá-la pela força.
Ó Raghava, enquanto Shabala era tomada pela força, perturbada pela dor, ela começou a reflectir assim:
“Por que motivo me abandona o santo Vasishtha? Quando é que terei ofendido o santo sábio? Porque é que os servos do rei me arrastam para longe do eremitério? Eu sou inocente e dócil, o santo Muni é-me querido; Que culpa cometi para que Mahatma Vasishtha me abandone?”
Suspirando repetidamente, Shabala, livrando-se dos criados do rei, pôs-se a correr rapidamente e deitou a sua cabeça aos pés do santo sábio. Diante de Sri Vasishtha, derramando lágrimas e chorando alto, ela gritou:
“Ó Senhor, ó Filho de Brahma! Ter-me-ás realmente abandonado? Porque é que os servos do rei me arrastam à força para longe da tua presença?”
Vendo Shabala, profundamente afectado, Sri Vasishtha dirigiu-se a ela como faria com a sua própria irmã, dizendo:
“Ó Shabala, não é por minha vontade que estás a ser levada de mim, nem me ofendeste de maneira alguma, ó amável. Embriagado pelo desejo, o rei está a levar-te de mim pela força. Não tenho poder para te defender. O rei é um guerreiro e um senhor da terra, ele é apoiado por um exército poderoso com cavalos, elefantes e carros, ele é certamente mais poderoso que eu.”
Shabala, especialista em argumentos, ouviu as palavras de Sri Vasishtha e disse-lhe:
“Ó Santo Sábio, o poder de um guerreiro não é nada comparado ao de um sábio sagrado. Ó ilustre Senhor, a força de um sábio é divina e baseada no exercício de práticas e disciplinas espirituais; portanto, não tem limites; Tu és, Senhor, incomensuravelmente mais forte do que um kshatriya. O poder desse poderoso rei Vishwamitra é grande, mas não pode corresponder à tua força e esplendor. Ó Senhor, através da tua força e energia, permite-me destruir o poder e o orgulho deste homem mau e miserável.”
Sri Vasishtha respondeu-lhe:
“Que assim seja! Cria um exército com a tua energia espiritual, para que destrua as forças do rei.”
Mugindo poderosamente, Shabala, obediente ao sábio, produziu instantaneamente centenas de soldados estrangeiros, que começaram a destruir o exército de Vishvamitra enquanto ele observava. Pressentindo que o seu exército estava prestes a ser destruído, o rei Vishvamitra ardia em fúria e, montando a sua carruagem, com os olhos vermelhos de raiva, lançou-se ao ataque. Com várias armas, começou a matar milhares de homens, e Shabala, vendo o exército criado por ela ser aniquilado, produziu seres estrangeiros chamados shakas, em número tão grande que encheram toda a terra. Com grande coragem, as suas peles brilhando como ouro, vestidos com armaduras amarelas, carregando cimitarras e maças, começaram a consumir o exército de Vishvamitra como um fogo furioso.
Então, o grande Vishvamitra, com a ajuda de armas yóguicas, começou a lançar a desordem nas fileiras das forças produzidas por Shabala.
Shabala cria um exército que aniquila as forças de Vishvamitra
Enquanto os poderosos guerreiros caíam, perfurados pelas armas das forças de Vishvamitra, Sri Vasishtha disse a Shabala:
“Ó Shabala, cria mais guerreiros com o poder do yoga.”
Shabala, mugindo poderosamente, produziu soldados bem armados de seus pés e úberes, e dos seus pêlos e coxas nasceram os extraordinários guerreiros Harita e Kirata. Devido a estes, todo o exército de Vishvamitra, com os seus elefantes, cavalos e carros, foi instantaneamente destruído. Contemplando todo o seu exército exterminado pelo poder de Sri Vasishtha, os cem filhos do rei Vishvamitra, com armas poderosas e várias armas comandadas pelo pensamento, avançaram furiosamente contra o santo sábio Vasishtha. Sri Vasishtha limitou-se a pronunciar o som «Hm» e todos foram imediatamente consumidos. O grande sábio Vasishtha, a infantaria, a cavalaria e os carros, juntamente com os filhos do rei Vishvamitra, foram instantaneamente transformados em cinzas.
Então, o ilustre monarca Vishvamitra, cujos filhos e exército foram aniquilados, ficou cheio de vergonha e consternação. Privado da sua glória, parecia um oceano sem ondas ou uma serpente desprovida de presas ou o sol durante um eclipse. Como um pássaro sem asas, a sua confiança abalada, o seu orgulho humilhado, ficou perturbado pela ansiedade. Dando o reino ao único filho ainda vivo, ele exortou-o a governar de acordo com o dharma e depois retirou-se para a floresta para se dedicar às práticas ascéticas.
Passado algum tempo, ele recebeu a graça de Sri Mahadeva [4], o magnânimo doador de bênçãos e, aparecendo diante de Vishvamitra, ele dirigiu-se-lhe dizendo:
“Ó rei, porque realizas tais penitências? Vou conceder-te o que pedes.”
Curvando-se para Sri Mahadeva, Sri Vishvamitra disse-lhe:
“Ó grande Deus, se eu encontrei em ti o favor, então instruí-me nas Upanishads e noutros ramos do conhecimento, ensina-me também os mistérios e a ciência do arco e da flecha. Que todas as armas conhecidas pelos danavas, yakshas, asuras e outros seres me sejam reveladas pela tua sua graça.”
Ouvindo o pedido do rei, Sri Shiva respondeu-lhe:
“Que assim seja!”
e retornou à sua residência.
O rei Vishvamitra, tendo adquirido as várias armas de Mahadeva, ficou tão feliz quanto o mar durante a lua cheia. E então ele decidiu subjugar o sábio Vasishtha, considerando-o já cativo.
Chegando ao seu eremitério, lançou as suas grandes armas como uma chuva de fogo, queimando a floresta Tapovan. Afligidos por estas terríveis armas, todos os sábios começaram a fugir nas quatro direcções do espaço, aterrorizados; até os discípulos de Sri Vasishtha, juntamente com incontáveis pássaros e animais, correram em todas as direcções. O eremitério de Sri Vasishtha tornou-se num deserto e um profundo silêncio caiu sobre ele, fazendo-o parecer um campo árido.
Sri Vasishtha gritou repetidamente:
“Não temam, não temam, destruirei Vishwamitra enquanto o sol limpa a névoa da manhã.”
Então o grande sábio Vasishtha, o primeiro de entre aqueles que praticam a oração silenciosa, dirigiu-se com raiva a Vishvamitra dizendo:
“Tu destruíste o meu antigo e auspicioso eremitério, ó desgraçado e iludido perverso, tu próprio serás destruído.”
Pegando no seu bastão, como o bastão de Yama, ele avançou como uma chama nua.
Sri Vasishtha, através da sua força espiritual, derrota Vishwamitra, que se dedica a penitências.
Ao ouvir as duras palavras ditas por Sri Vasishtha, Vishvamitra, erguendo a arma de fogo, gritou-lhe: «Prepara-te! Atenção!» Então, Sri Vasishtha, levantando o seu bastão de Brahma com raiva, exclamou: «Ó mais vil dos guerreiros, aqui estou eu, larga todas as tuas armas, excepto aquelas dirigidas pelo pensamento que obtiveste do Senhor Shiva. Ó filho de Gadhi, hoje vou privar-te de todas essas armas! Como é que o teu poder de guerreiro pode ser comparado ao de um sábio divino? Ó estúpido desgraçado, olha para a minha energia divina!»
Dito isto, Sri Vasishtha apagou a perigosa arma de fogo que Vishwamitra atirara contra ele tal como a água apaga o fogo. Então, o filho de Gadhi fez outras armas perigosas sobrevoarem o santo sábio, as armas Varuna, Rudra, Indra, Pashupata e Ishika, juntamente com as armas Manava, Mohana, Gandharva, Svapana, Jrimbhana, Viadana, Santapana e Vilapana; Shoshana, Darana e o terrível Vatra; o Brahma-pasha e o Kalapasha, o Varuna-pasha e o inestimável Pinaka e também os mísseis Shushka e Ardra, a arma Danda e Pisacha, o Krouncha e o disco Dharma, o disco Kala e o disco Vishnu, assim como a arma Vayuvya, Mathana e Haya-shira com as duas Shaktis, o Kankala, Mushala, Vidyadhara, Kala, o tridente Kapala e o Kankana. Todos estes ele lançou contra o santo sábio.
Então, Sri Vasishtha realizou uma grande maravilha e, apenas com o seu bastão, destruiu todas as armas de Vishvamitra. Vendo como suas armas haviam perdido a sua eficácia, Vishvamitra levantou o Brahman-Astra. Com isso, Agni, os sábios divinos e os seres celestiais foram inundados pelo terror e os três mundos tremeram de medo. Mas através do seu poder espiritual e do estudo e prática de Brahman-Vidya, Shri Vasishtha subjugou o Brahman-Astra. Quando Sri Vasishtha consumiu essa tremenda arma, o seu semblante encantador e agradável manifestou-se de forma terrível e raios de luz saíram de todos os poros do seu corpo, enquanto o bastão do santo sábio, brilhando como fogo, explodiu em chamas.
Todos os sábios começaram a orar a Sri Vasishtha, dizendo:
“O teu poder é inigualável e sempre produtivo do bem, pelo poder do teu Yoga, tu pacificaste o Brahman-Astra. Ó santo Sábio, tu humilhaste o orgulho de Vishvamitra. Ó grande asceta, acalma-te, para que também nós nos possamos libertar do medo.”
Sendo referido desta forma, Sri Vasishtha assumiu sua atitude habitual e Vishvamitra, tendo sido derrotado e suspirando profundamente, exclamou:
“Ai, ai do poder de um guerreiro! O verdadeiro poder é o poder espiritual. Sri Vasishtha conquistou, através da sua força espiritual, totalmente a minha. Portanto, abandonarei a minha natureza de guerreiro e procurarei obter o brahmanismo.”
[1] Ramayana, da tradução inglesa de Hari Prasad Shastri. Tradução espanhola por José Carlos Fernández.
[2] Os seis tipos de sabor: doce, amargo, ácido, salgado, picante e acre.
[3] Jagari – azúcar india gruesa marrón hecha de palmera.
[4] Gran Dios, epíteto de Shiva
[1] Ramayana, da tradução em inglês de Hari Prasad Shastri. Tradução para o espanhol por Jose Carlos Fernández.
[2] Os seis tipos de sabor: doce, amargo, ácido, salgado, picante e acre.
[3] Jagari – açúcar indiano grosso e amarelo, feito de óleo de palma.
[4] Grande Deus, epíteto de Shiva