Ramayana de Valmiki

Continuação do artigo: O Rishi Vashishta e a Vaca que outorga todos os desejos. Publicado na revista Pandava III


Livro I: Balakanda

Capítulo 52

Como o rei Vishwamitra visitou o eremitério de Sri Vasishtha e aceitou a hospitalidade oferecida pela vaca dadora de desejos, Shabala.

Visvamitra visita o eremitério de Vasishtha. Public Domain

Contemplando o eremitério, o poderoso Vishvamitra ficou muito feliz, curvou-se com grande humildade a Sri Vasishtha, que estava envolvido nas suas orações com o rosário.

Sri Vasishtha deu as boas-vindas ao rei e pediu-lhe que se sentasse e, ao fazê-lo, ofereceram-lhe os frutos e raízes que cresciam naquele lugar.

Honrado pelo santo sábio, o rei Vishvamitra perguntou ao sábio se tudo corria bem com o sacrifício do fogo, as suas práticas espirituais e com seus discípulos. Sri Vasishtha relatou-lhe tudo sobre o seu bem-estar e o bem-estar de todos os que estavam no eremitério, incluindo as próprias árvores.

Sentando-se confortavelmente, Sri Vasishtha disse ao rei Vishvamitra, eminente entre os yogis e até entre um dos filhos de Sri Brahma:

“Ó rei, está tudo bem contigo? Satisfazes os teus súbditos de acordo com a lei da justiça, governas e proteges o teu povo de acordo com a lei espiritual? Será a tua renda recebida e aumentada de maneira justa? Será administrado judiciosamente e distribuída por aqueles que são escolhidos e que o merecem? Os teus servos são remunerados como devem? Os teus súbditos obedecem-te de bom grado? Ó soberano, derrotas-te os teus inimigos? Ó rei sem pecado, vai tudo bem com o teu exército, o teu tesouro, os teus amigos, os teus filhos e netos?”

Em resposta a essas perguntas, o rei Vishvamitra disse humildemente:

“Está tudo bem, meu Senhor!”

Conversando agradavelmente por um longo período de tempo, narrando antigas tradições, assim encontraram prazer mútuo.

Ó Príncipe da Casa de Raghu, quando o rei Vishvamitra terminou, Sri Vasishtha disse-lhe com um sorriso:

“Ó rei, mesmo que tu tenhas uma óptima comitiva, é meu desejo oferecer-te hospitalidade, assim como ao teu exército. Espero que o aceites. Como tu és um convidado honrado, sei que devo fazer tudo ao meu alcance para te entreter; portanto, tem a gentileza de receber o pouco que tenho para te oferecer.”

O rei Vishvamitra respondeu-lhe:

“Ó Senhor, a tua bondade e palavras agradáveis são entretenimento mais do que suficiente. Além do mais, tu já me ofereceste frutas e a água limpa do teu eremitério. Ao encontrar-te sozinho, não terei sido já honrado o suficiente? Ó supremamente sábio, será certo que eu te ofereça reverência; Agora que já me divertiste, deixa-me cumprimentar-te e ir-me embora.”

O grande sábio recusou-se a aceitar a recusa do rei à sua oferta e insistiu novamente em entretê-lo.

Então, Vishvamitra disse:

“Que assim seja, meu Senhor, farei o que quiseres.”

Com essas palavras, Sri Vasishtha mandou chamar a sua vaca manchada favorita, Kamadhenu, e disse-lhe:

“Ó Shabala, aproxima-te e ouve-me; desejo oferecer hospitalidade ao rei e ao seu exército. Ó amável, tu és a vaca que outorga todos os desejos e que pode realizar qualquer coisa, cria agora refeições esplêndidas que lhes sejam agradáveis, de acordo com os seis tipos de gostos [2]. Produz rapidamente todo o alimento que possa ser consumido, bebido, lambido ou sorvido.”

Capítulo 53

O rei deseja possuir Shabala, mas Sri Vasishtha não renuncia a ela.

Sri Vasishtha. Wikipedia

A vaca Shabala atendeu às necessidades de todos, de acordo com as instruções de Sri Vasishtha. Foram distribuídos cana-de-açúcar, doces de vários tipos, mel, cevada triturada, vinho e outras bebidas excelentes, arroz quente empilhado no alto de montanhas, leite, curry e outros pratos que combinam os seis gostos e inúmeros outros com doces feitos de jagari. [3] Cada um ficou totalmente satisfeito e encantado com a hospitalidade de Sri Vasishtha, que deu a todos os companheiros e servos do rei Vishwamitra tudo o que estes desejavam.

O rei, com os seus sacerdotes familiares, ministros e assistentes, participando da festa oferecida com generosidade e respeito pelo grande sábio, ficou muito satisfeito.

Quando todos os conselheiros, assistentes pessoais e o exército receberam a a mais completa das hospitalidades, o rei, totalmente satisfeito, disse a Sri Vasishtha:

“Ó Santo Sábio, honraste-me de uma maneira real, por favor, ouve o que te tenho a dizer, ó Eloquente! Ó Senhor, dá-me a vaca Shabala em troca de cem mil outras excelentes vacas! Shabala é uma jóia e cabe ao rei valorizar as jóias – de acordo com a lei natural. Portanto, o tesouro deve ser meu.”

Sri Vasishtha respondeu-lhe, dizendo:

“Ó rei, não me separaria de Shabala trocando-a por dez milhões de vacas, menos ainda por cem mil. Se tu me oferecesses montanhas de prata, ainda assim, recusar-me-ia a dar-te Shabala, porque é no meu eremitério o seu lugar.”

“Ó rei, tal como a um homem justo lhe importa o seu bom nome, eu também me importo com Shabala. Ela ajuda-me a satisfazer os devas, os pitris e outros seres. O meu sacrifício ao fogo sagrado e outros rituais védicos, além dos vários ramos da aprendizagem, dependem de Shabala. Ó Grande Governante, de facto, eu não posso desistir desta vaca, ela é tudo para mim e atende a todas as minhas necessidades. Por estas e muitas outras razões, recuso-me a dar-te a vaca. Ó rei, na verdade, não me separarei de Shabala.”

Estas palavras de Sri Vasishtha limitaram-se a aumentar o desejo do rei e ele, sob grande emoção, declarou apaixonadamente:

“Ó grande Muni, dar-te-ei quatorze mil elefantes adornados com ornamentos de ouro, ornamentos e esporas, e, além disto, dar-te-ei cento e oito carros de ouro maciço, cada um dirigido por quatro cavalos brancos da cor do leite. E, simultaneamente, ofereço-te onze mil cavalos bem treinados, cada um com um arnês de ouro e outros dez milhões de vacas de várias cores, jovens e saudáveis. Oh, dá-me a Shabala e eu dar-te-ei todo o ouro que quiseres em troca. Concede-me Shabala, eu imploro-te, e aceita os meus presentes, ó Sábio!”

Então o sábio Vasishtha disse:

“Sob condição nenhuma deixarrei Shabala, ó rei, ela é a minha jóia e a minha riqueza. Ela é a minha própria vida, a minha amada, e ela fornece-me as esmolas e tudo o que preciso para o sacrifício. Em resumo, ó rei, Shabala é a fonte da minha vida espiritual e, como tal, nunca a abandonarei.”

Capítulo 54

O rei Vishvarmitra tenta levá-la pela força

Um rei ajoelhado diante de Shabala. Creative Commons

Ó Rama, sentindo que Sri Vasishtha não estaria disposto a consentir separar-se da vaca, Vishvamitra decidiu levá-la pela força.

Ó Raghava, enquanto Shabala era tomada pela força, perturbada pela dor, ela começou a reflectir assim:

“Por que motivo me abandona o santo Vasishtha? Quando é que terei ofendido o santo sábio? Porque é que os servos do rei me arrastam para longe do eremitério? Eu sou inocente e dócil, o santo Muni é-me querido; Que culpa cometi para que Mahatma Vasishtha me abandone?”

Suspirando repetidamente, Shabala, livrando-se dos criados do rei, pôs-se a correr rapidamente e deitou a sua cabeça aos pés do santo sábio. Diante de Sri Vasishtha, derramando lágrimas e chorando alto, ela gritou:

“Ó Senhor, ó Filho de Brahma! Ter-me-ás realmente abandonado? Porque é que os servos do rei me arrastam à força para longe da tua presença?”

Vendo Shabala, profundamente afectado, Sri Vasishtha dirigiu-se a ela como faria com a sua própria irmã, dizendo:

“Ó Shabala, não é por minha vontade que estás a ser levada de mim, nem me ofendeste de maneira alguma, ó amável. Embriagado pelo desejo, o rei está a levar-te de mim pela força. Não tenho poder para te defender. O rei é um guerreiro e um senhor da terra, ele é apoiado por um exército poderoso com cavalos, elefantes e carros, ele é certamente mais poderoso que eu.”

Shabala, especialista em argumentos, ouviu as palavras de Sri Vasishtha e disse-lhe:

“Ó Santo Sábio, o poder de um guerreiro não é nada comparado ao de um sábio sagrado. Ó ilustre Senhor, a força de um sábio é divina e baseada no exercício de práticas e disciplinas espirituais; portanto, não tem limites; Tu és, Senhor, incomensuravelmente mais forte do que um kshatriya. O poder desse poderoso rei Vishwamitra é grande, mas não pode corresponder à tua força e esplendor. Ó Senhor, através da tua força e energia, permite-me destruir o poder e o orgulho deste homem mau e miserável.”

Sri Vasishtha respondeu-lhe:

“Que assim seja! Cria um exército com a tua energia espiritual, para que destrua as forças do rei.”

Mugindo poderosamente, Shabala, obediente ao sábio, produziu instantaneamente centenas de soldados estrangeiros, que começaram a destruir o exército de Vishvamitra enquanto ele observava. Pressentindo que o seu exército estava prestes a ser destruído, o rei Vishvamitra ardia em fúria e, montando a sua carruagem, com os olhos vermelhos de raiva, lançou-se ao ataque. Com várias armas, começou a matar milhares de homens, e Shabala, vendo o exército criado por ela ser aniquilado, produziu seres estrangeiros chamados shakas, em número tão grande que encheram toda a terra. Com grande coragem, as suas peles brilhando como ouro, vestidos com armaduras amarelas, carregando cimitarras e maças, começaram a consumir o exército de Vishvamitra como um fogo furioso.

Então, o grande Vishvamitra, com a ajuda de armas yóguicas, começou a lançar a desordem nas fileiras das forças produzidas por Shabala.

Capítulo 55

Shabala cria um exército que aniquila as forças de Vishvamitra

Shabala, a vaca dadora de desejos. Public Domain

Enquanto os poderosos guerreiros caíam, perfurados pelas armas das forças de Vishvamitra, Sri Vasishtha disse a Shabala:

“Ó Shabala, cria mais guerreiros com o poder do yoga.”

Shabala, mugindo poderosamente, produziu soldados bem armados de seus pés e úberes, e dos seus pêlos e coxas nasceram os extraordinários guerreiros Harita e Kirata. Devido a estes, todo o exército de Vishvamitra, com os seus elefantes, cavalos e carros, foi instantaneamente destruído. Contemplando todo o seu exército exterminado pelo poder de Sri Vasishtha, os cem filhos do rei Vishvamitra, com armas poderosas e várias armas comandadas pelo pensamento, avançaram furiosamente contra o santo sábio Vasishtha. Sri Vasishtha limitou-se a pronunciar o som «Hm» e todos foram imediatamente consumidos. O grande sábio Vasishtha, a infantaria, a cavalaria e os carros, juntamente com os filhos do rei Vishvamitra, foram instantaneamente transformados em cinzas.

Então, o ilustre monarca Vishvamitra, cujos filhos e exército foram aniquilados, ficou cheio de vergonha e consternação. Privado da sua glória, parecia um oceano sem ondas ou uma serpente desprovida de presas ou o sol durante um eclipse. Como um pássaro sem asas, a sua confiança abalada, o seu orgulho humilhado, ficou perturbado pela ansiedade. Dando o reino ao único filho ainda vivo, ele exortou-o a governar de acordo com o dharma e depois retirou-se para a floresta para se dedicar às práticas ascéticas.

Passado algum tempo, ele recebeu a graça de Sri Mahadeva [4], o magnânimo doador de bênçãos e, aparecendo diante de Vishvamitra, ele dirigiu-se-lhe dizendo:

“Ó rei, porque realizas tais penitências? Vou conceder-te o que pedes.”

Curvando-se para Sri Mahadeva, Sri Vishvamitra disse-lhe:

“Ó grande Deus, se eu encontrei em ti o favor, então instruí-me nas Upanishads e noutros ramos do conhecimento, ensina-me também os mistérios e a ciência do arco e da flecha. Que todas as armas conhecidas pelos danavas, yakshas, asuras e outros seres me sejam reveladas pela tua sua graça.”

Ouvindo o pedido do rei, Sri Shiva respondeu-lhe:

“Que assim seja!”

e retornou à sua residência.

O rei Vishvamitra, tendo adquirido as várias armas de Mahadeva, ficou tão feliz quanto o mar durante a lua cheia. E então ele decidiu subjugar o sábio Vasishtha, considerando-o já cativo.

Chegando ao seu eremitério, lançou as suas grandes armas como uma chuva de fogo, queimando a floresta Tapovan. Afligidos por estas terríveis armas, todos os sábios começaram a fugir nas quatro direcções do espaço, aterrorizados; até os discípulos de Sri Vasishtha, juntamente com incontáveis pássaros e animais, correram em todas as direcções. O eremitério de Sri Vasishtha tornou-se num deserto e um profundo silêncio caiu sobre ele, fazendo-o parecer um campo árido.

Sri Vasishtha gritou repetidamente:

“Não temam, não temam, destruirei Vishwamitra enquanto o sol limpa a névoa da manhã.”

Então o grande sábio Vasishtha, o primeiro de entre aqueles que praticam a oração silenciosa, dirigiu-se com raiva a Vishvamitra dizendo:

“Tu destruíste o meu antigo e auspicioso eremitério, ó desgraçado e iludido perverso, tu próprio serás destruído.”

Pegando no seu bastão, como o bastão de Yama, ele avançou como uma chama nua.

Capítulo 56

Sri Vasishtha, através da sua força espiritual, derrota Vishwamitra, que se dedica a penitências.

Vasistha convoca Shabala, a vaca da abundância, para prover um banquete. Public Domain

Ao ouvir as duras palavras ditas por Sri Vasishtha, Vishvamitra, erguendo a arma de fogo, gritou-lhe: «Prepara-te! Atenção!» Então, Sri Vasishtha, levantando o seu bastão de Brahma com raiva, exclamou: «Ó mais vil dos guerreiros, aqui estou eu, larga todas as tuas armas, excepto aquelas dirigidas pelo pensamento que obtiveste do Senhor Shiva. Ó filho de Gadhi, hoje vou privar-te de todas essas armas! Como é que o teu poder de guerreiro pode ser comparado ao de um sábio divino? Ó estúpido desgraçado, olha para a minha energia divina!»

Dito isto, Sri Vasishtha apagou a perigosa arma de fogo que Vishwamitra atirara contra ele tal como a água apaga o fogo. Então, o filho de Gadhi fez outras armas perigosas sobrevoarem o santo sábio, as armas Varuna, Rudra, Indra, Pashupata e Ishika, juntamente com as armas Manava, Mohana, Gandharva, Svapana, Jrimbhana, Viadana, Santapana e Vilapana; Shoshana, Darana e o terrível Vatra; o Brahma-pasha e o Kalapasha, o Varuna-pasha e o inestimável Pinaka e também os mísseis Shushka e Ardra, a arma Danda e Pisacha, o Krouncha e o disco Dharma, o disco Kala e o disco Vishnu, assim como a arma Vayuvya, Mathana e Haya-shira com as duas Shaktis, o Kankala, Mushala, Vidyadhara, Kala, o tridente Kapala e o Kankana. Todos estes ele lançou contra o santo sábio.

Então, Sri Vasishtha realizou uma grande maravilha e, apenas com o seu bastão, destruiu todas as armas de Vishvamitra. Vendo como suas armas haviam perdido a sua eficácia, Vishvamitra levantou o Brahman-Astra. Com isso, Agni, os sábios divinos e os seres celestiais foram inundados pelo terror e os três mundos tremeram de medo. Mas através do seu poder espiritual e do estudo e prática de Brahman-Vidya, Shri Vasishtha subjugou o Brahman-Astra. Quando Sri Vasishtha consumiu essa tremenda arma, o seu semblante encantador e agradável manifestou-se de forma terrível e raios de luz saíram de todos os poros do seu corpo, enquanto o bastão do santo sábio, brilhando como fogo, explodiu em chamas.

Todos os sábios começaram a orar a Sri Vasishtha, dizendo:

“O teu poder é inigualável e sempre produtivo do bem, pelo poder do teu Yoga, tu pacificaste o Brahman-Astra. Ó santo Sábio, tu humilhaste o orgulho de Vishvamitra. Ó grande asceta, acalma-te, para que também nós nos possamos libertar do medo.”

Sendo referido desta forma, Sri Vasishtha assumiu sua atitude habitual e Vishvamitra, tendo sido derrotado e suspirando profundamente, exclamou:

“Ai, ai do poder de um guerreiro! O verdadeiro poder é o poder espiritual. Sri Vasishtha conquistou, através da sua força espiritual, totalmente a minha. Portanto, abandonarei a minha natureza de guerreiro e procurarei obter o brahmanismo.”

[1] Ramayana, da tradução inglesa de Hari Prasad Shastri. Tradução espanhola por José Carlos Fernández.
[2] Os seis tipos de sabor: doce, amargo, ácido, salgado, picante e acre.
[3] Jagari – azúcar india gruesa marrón hecha de palmera.
[4] Gran Dios, epíteto de Shiva

[1] Ramayana, da tradução em inglês de Hari Prasad Shastri. Tradução para o espanhol por Jose Carlos Fernández.
[2] Os seis tipos de sabor: doce, amargo, ácido, salgado, picante e acre.
[3] Jagari – açúcar indiano grosso e amarelo, feito de óleo de palma.
[4] Grande Deus, epíteto de Shiva

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