Reencarnação e Concepções Budistas IV – Movimento Rimé e Blavatsky

…Resumamos, portanto, da maneira mais simples possível, o que foi dito anteriormente. Existem duas posições quanto à reencarnação. 

A primeira é a defendida pelo budismo hinayana e, hoje em dia, também pelo mahayana tibetano moderno, e que propõe que tudo é um processo material evolutivo, no qual o pensamento, as emoções, a matéria gasosa, a matéria sólida e os sentidos se misturam no processo da vida, tanto em planos materiais visíveis quanto nos invisíveis. Cada ação tem uma reação e, como tal, aparecem novas formações dependentes que dão lugar a novas ações e reações sem um fim previsível. O homem condicionado desde o nascimento pela ignorância (avidya) e pelo karma com o qual nasce, comete novos erros, numa cadeia interminável de renascimentos.

Perante este problema, a única solução proposta é a extinção do eu, impedindo-nos de projetar, a partir das nossas experiências e expetativas de futuro, e memórias do passado, um eu pessoal. O Nirvana não seria nada mais do que a aniquilação final desse ser condicionado que, ao não gerar novo Karma, cessaria a sua existência, deixando de entrar na cadeia do samsara, extinguindo, assim e definitivamente, as causas do sofrimento. Não há outro eu para além do ilusório, nem outro plano para além deste.

A segunda posição é aquela que entende que existe, efectivamente, um eu condicionado – quem duvida disto? – mas esse eu não é um mero robot, precisamente porque a capacidade de mudar, a vontade de mudar, nos indica que há um fator para além dos elementos dependentes, incluindo a mente. 

Roda do Dharma Tibetana. Creative Commons

Se o ser humano fosse absolutamente dependente, não teria a capacidade de mudar o seu destino. Certamente, trabalhar as nossas dependências com vista à libertação, afeta o composto da personalidade, mas o primeiro impulso parte de algo externo a esse composto ilusório. E essa é, precisamente, a magia do ser humano, é aquilo a que alguns budistas, como veremos mais tarde, chamam de “Natureza do Buda”, algo que está presente em todos nós, incluindo no Iluminado conhecido por Gautama Shakyamuni, o Buda. É também aquilo que, poeticamente, chamam de “A Joia no Lótus”, a tradução do famoso mantra “Om Mani Padme Hum”, que muitos budistas repetem sem entender verdadeiramente o seu significado, ou seja, que cada um de nós possui no seu interior a semente potencial do Buda ou a “Natureza do Buda”: a capacidade e a possibilidade de alcançarmos a Iluminação e de nos libertarmos deste mundo de aparências. 

Estas duas posições existiram no budismo desde os tempos mais remotos, tratam-se das doutrinas de Rantong e Shentong, ou das duas verdades, ou pontos de vista, sobre o Vazio (sunyata).

O mantra de Avalokiteshvara, OM MANI PADME HUM. Creative Commons

O Rantong é a doutrina do “vazio do ser”, exposta pela maioria da tradição Madhyamaka, ou seja, a de que todos os fenómenos são vazios ou carecem de um “ser”, e que este vazio resultante desta afirmação é apenas e só um nome, não representa nenhum outro plano da realidade. O Rantong corresponde, portanto, à primeira posição que explicámos.

O Shentong, o “outro vazio”, é outra doutrina, também dentro da tradição Madhyamaka, ainda que minoritária. Está em concordância com a anterior, onde se diz que este mundo é ilusório ou carente de “ser”, mas que existe uma Realidade Absoluta (Paramarthasatya) vazia, mas de coisas ilusórias, de fenómenos relativos, mas que em si mesma não está vazia, e que “realmente existe”. É uma realidade para além das negações deste mundo de ilusão. Este ponto de vista corresponde à segunda posição que explicámos anteriormente.

Qual o motivo desta segunda doutrina? Ter-se-á tornado o Shentong numa minoria, e desconhecida, para o Ocidente? Esta doutrina foi sistematizada pelo monge Dolpopa Sherab Gyaltsen (1292-1361). Nesta, ele identificava esta Realidade Absoluta com a essência da “Natureza do Buda” presente em todos os seres. Para isto, baseou-se em muitos sutras canónicos mahayanas, onde estas ideias aparecem:

O Imutável (Ud VIII.1-3)

“Existe um reino onde não há o sólido nem o fluido, nem o calor, nem o movimento, nem este mundo nem qualquer outro, nem o Sol nem a Lua. A isto eu não chamo nem de surgir, nem de perecer, nem de ficar quieto nem de nascer, nem de morrer. Não há ponto de apoio nem desenvolvimento, nem nenhuma fundação. Este é o fim do sofrimento.

Existe um Não-nascido, Sem Origem, Incriado e Informe. Se não existisse este Não-nascido, este Sem Origem, este Incriado, este Informe, escapar do mundo do nascido, do originado, do criado, do formado, teria sido impossível.

Mas, a partir do momento em que existe um Não-nascido, Sem Origem, Incriado, Informe, é possível escapar-se do mundo do nascido, do originado, do criado, do formado.”

As Palavras do Buda

Dolpopa foi considerado um grande revitalizador das doutrinas budistas tibetanas e da Escola de Jonang, fundada no século XIII; foi considerado, no seu tempo, como um grande sábio, e nos seus últimos anos, na sua peregrinação final, foi seguido por milhares de devotos. A sua principal obra é “O Oceano do Significado Definitivo: Ensinamentos para o Eremita da Montanha”, que contém os fundamentos da doutrina Shentong e uma explicação completa, e um desenvolvimento, da Doutrina das Três Voltas da Roda da Lei. Cada volta representa uma revelação parcial da doutrina budista, a primeira volta estaria representada pela escola hinayana, ou o pequeno veículo, a segunda volta está representada pela escola mahayana tibetana, a terceira volta também se refere a certos ensinamentos do mahayana e à adição do conceito da “Natureza do Buda”, para além da introdução da ideia do Reino de Shambala e da vinda do futuro Buda Maitreya.

Esta doutrina, e com ela toda a escola Jonang, desapareceu por causa do confronto com o 5º Dalai Lama, por razões doutrinárias e diferenças políticas. O Dalai Lama ordenou a destruição dos seus textos e a ocupação dos seus mosteiros, ora convertendo-os ora destruindo-os. Como resultado, a doutrina Shentong desapareceu e passou a predominar a doutrina Rentong.

Recentemente, estudiosos tibetanos encontraram nas regiões do Leste do Tibete, mosteiros que sobreviveram a essa destruição, podendo-se traduzir e revitalizar novamente, graças a isto, essas doutrinas quase perdidas. A corrente Jonagpa foi aceite como a 7ª corrente oficial reconhecida pelo atual Dalai Lama com pleno direito. De facto, o atual Dalai Lama compôs uma oração em sua homenagem: “Oração e Aspiração pelo Florescimento dos Ensinamentos Jonang”.

Rimé em letras tibetanas

No século XIX, a pressão e perseguição da seita maioritária gelugpa contra as outras escolas budistas continuou e, inclusivamente, fortaleceu-se, até se tornar intolerável. Como resultado e reação, surgiu o chamado movimento “Rimé”, ou de Renascimento, que consistia em criar espaços libertos do sectarismo, valorizando e respeitando outras tradições budistas. A nova abordagem era a de dar liberdade de escolha a cada um para escolher o seu próprio caminho, apreciando a contribuição de cada escola, procurando um ponto de encontro entre elas. É um movimento budista eclético. Entre as suas propostas estão:

a) Preservar todos os ensinamentos e, especialmente, os mais valiosos e peculiares.

b) Fomentar o pensamento aberto e anti-sectário.

c) Afirmar a importância da aplicação prática da Lei no dia a dia.

H.P. Blavatsky e os seus Mestres, em paralelo com o florescimento do Rimé e coincidentes no tempo, também propuseram ideias semelhantes, o pensamento eclético e tolerante, o estudo comparado e a aplicação prática e transformadora na vida. Mera coincidência ou ação oculta dos Mestres?

Publicado na revista Seraphis em maio de 2020

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