Sobre a natureza dos deuses védicos: os Adityas

aditias

Apesar de existirem vários deuses que ao longo do Rigveda vão recebendo o epíteto de aditya, este é aplicado, tradicionalmente, apenas a três deuses: Mitra, Varuna e Aryaman, que serão, como veremos, úteis na nossa compreensão de qualquer trindade.

O deus Mitra é definido pelo seu nome, mitra, que tem como primeiro significado «aliança», expressando o acordo entre duas partes, bem com a relação que envolve obrigações mútuas e recíprocas. No Rigveda, mitra é usado para tratados de paz, contractos de casamento e juramentos sacrificiais feitos entre os homens e os deuses. A palavra mitra refere também o «aliado», aquele com quem é estabelecida aliança ou o mediador dessa mesma aliança. Podemos compreender, assim, Mitra como o deus das alianças, aquele que protege as alianças entre os homens e que castiga quem as violar. Nos hinos mais tardios dos Vedas, Mitra tornar-se-á num deus aliado, que ajuda todos os homens, vistos como aliados, e que medeia o conflito, tornando-se num deus pacífico.

Mitra e o touro. Licença Creative Commons.

O deus Varuna estará relacionado com o vrata, «mandamento» e «autoridade», representando a ordem vertical que desce. Varuna é representado como rei do mundo dos homens através da autoridade do seu mandamento, mas também é o rei do mundo natural, governando as águas e as chuvas. O governo de Varuna sobre a natureza e sobre os homens permite a compreensão de que as leis de um se aplicam aos outros. Sendo a verdade (rita) aquilo que governa as acções do universo, a ordem ritual e as regras de comportamento, Varuna converte-se no deus que governa a obediência a esta mesma verdade. Nos textos tardios dos Vedas, Varuna aparece como o deus que ata e que aprisiona, tornando-se num deus terrível, associado à má sorte e às doenças. Aqui, torna-se também num deus das águas e passa a habitá-las, especialmente o oceano.

Escultura do Deus Varuna no templo Rajarani em Orissa (India). Licença Creative Commons.

Aryaman deriva de ari, «outro <como nós>» (e não «inimigo», como virá a ser compreendido mais tarde) e arya, «nobre» e «civilizado» (tal como no grego aristos). Como tal, Aryaman subentende «costume» e «civilização». Aryaman é o deus, ou princípio, que governa aqueles que são civilizados e o deus que protege a cultura védica. Aryaman pode ser usado como «costume», mas também como «aliado por costume», «compatriota», semelhante ao airyaman avéstico, que designa aquele que partilha dos mesmos costumes. Aryaman castiga aqueles que não agem em conformidade com os costumes e recompensa quem o faz. Está também especialmente relacionado com a organização familiar e com a casa, onde os costumes têm um papel fundamental.

Deus Aryaman. Imagem tirada do site Prakash Jyotisa.

Estes três deuses estão relacionados entre si por serem os guardiões dos princípios fundamentais que organizam e governam uma sociedade, uma vez que as actividades dos homens são governadas pelas alianças e pactos feitos entre eles, pelos mandamentos daqueles que assumem posições de autoridade e pelos costumes transmitidos de geração em geração. Como tal, Mitra, Varuna e Aryaman são os deuses das alianças, dos mandamentos e dos costumes, que se complementam entre si.

O epíteto aditya, que caracteriza os três deuses, pode ser um matronímico que os define como «descendentes de Aditi», mas também um adjectivo construído sobre aditi, com o sentido de «inocência», «isenção de culpa», etc. Se esta interpretação do nome for correcta, Aditi torna-se na deusa da inocência, e os Adityas naqueles que trazem, garantem e protegem essa mesma inocência. A deusa Aditi protege, assim, os inocentes, aqueles que não podem ser culpabilizados. Nos textos tardios dos Vedas, Aditi aproxima-se do conceito de maternidade e torna-se na mãe dos deuses e dos homens.

Tendo em conta que os Adityas são a expressão celeste dos reis terrenos, aqueles que protegem a ordem social, o epíteto deverá ser compreendido como «inocentes» e «protectores da inocência», transformando-os numa espécie de juízes celestes.

Quando outros deuses são chamados de Adityas, provavelmente, isto deve-se ao facto de estarem a assumir as suas funções de protectores da inocência, ou as características específicas de Mitra, Varuna ou Aryaman.

Mais tarde, os Adityas, no seu uso plural, vão expressar um conjunto de deuses, recorrentemente ao lado de outros grupos, especialmente os Rudras e os Vasus, perfazendo, no seu conjunto, trinta e três deuses (~ as trinta e três vértebras da coluna divididas em cervicais, torácicas e lombares), e no singular vai representar o sol, por representar o imparável caminho da verdade e expressar a sua presença.

Estes três deuses representam, no seu conjunto, uma das mais arcaicas expressões de uma trindade e de um triplo logos solar, onde Varuna ocupa o lugar da Vontade que se expressa em Lei (mandamento e autoridade), Mitra ocupa o lugar do Amor-Sabedoria que se converte em Energia-Vida (a aliança entendida em todas as suas possibilidades), e Aryaman ocupa o lugar da Inteligência que se converte em Forma (costume e civilização).

Por outro lado, seguindo a mesma leitura, Varuna é o aspecto vertical (mandamento), Mitra o horizontal (aliança) e Aryaman a transmissão desta cruz primeira, aquilo que põe a roda em movimento (costume).

1 comentário

Deixe um comentário