Star Wars e Ramayana: relação simbólica

“A Guerra das Estrelas” (Star Wars) é uma das sagas cinematográficas que mais impacto tem tido entre os fãs de cinema de aventura e ficção-científica.

Darth Vader. Flickr

Desde que o primeiro filme, “Uma Nova Esperança”, estreou em 1977, uma legião de pessoas ficou agarrada à história e, ao longo destes 43 anos, nunca mais deixou de acompanhar a saga.

Analisando à distância, ficamos com a ideia de que George Lucas, o criador desta história, tinha noção da fórmula ganhadora que se encontrava nas suas mãos. Porém, não era assim. No ano de estreia de “Uma Nova Esperança”, o realizador Steven Spielberg, grande amigo de Lucas, ia estrear “Encontros Imediatos do Terceiro Grau”, um filme de ficção-científica.

Perante esta concorrência, Lucas estava inseguro quanto ao sucesso da sua película. Curiosamente, Spielberg encontrava-se no polo oposto, pois tinha mais confiança no sucesso do filme do amigo e, por isso, aceitou um acordo que este lhe propôs: cada um deles receberia 2,5% dos lucros do filme do outro.

Não restam dúvidas sobre quem foi o grande ganhador. “Uma Nova Esperança” foi um retumbante sucesso e ainda hoje Spielberg ganha dinheiro à custa do acordo feito.

O que faz com que esta saga tenha tanto impacto nas pessoas ao ponto de ter sido criada toda uma panóplia de merchandising, spin-offs e centenas de livros e BDs ao longo de mais de quatro décadas? A resposta talvez esteja no facto da saga tocar em questões que desde sempre estiveram presentes no inconsciente humano. Se analisarmos a história poderemos ver elementos como a superação da dúvida e do medo, a oposição entre a ganância e a compaixão, a ação heroica ou a importância da lealdade.

Todas estas questões foram expressas ao longo da história humana através dos mitos das diversas civilizações. E foi através da leitura dos estudos sobre mitologia comparada de Joseph Campbell que George Lucas, como ele próprio confessa, tomou contacto com os mitos universais, retirando daí vários elementos para a construção dos seus personagens.

Uma das fontes de inspiração foi, certamente, a milenar saga da Índia Antiga: o Ramayana1. Existem vários pontos em comum entre as duas narrativas, que serão analisados de seguida.

O Ramayana é um dos épicos mais importantes da tradição oriental e narra a história do príncipe Rama, de Ayodhya, um personagem que tinha nascido com um propósito bem definido: pôr termo ao reinado despótico do malvado rei de Lanka, Ravana. Rama era apresentado como um guerreiro destemido, puro, valoroso e com um grande sentimento de compaixão.

Rama. Creative Commons

Na moderna saga Star Wars, Luke Skywalker também era alguém especial, filho de um Jedi que deveria ser o responsável por restabelecer o equilíbrio na Força, uma energia que percorria todo o universo e todos os seres, fonte de vida de toda a manifestação e que os Cavaleiros Jedi conseguiam canalizar. No entanto, esse Jedi não cumpriu com aquilo a que parecia predestinado, pois terminou por se deixar dominar pelo medo e pela raiva e escolher o caminho do mal.

Desconhecedor do seu passado, Luke é representado como um jovem sonhador e ávido de aventura. Ao contrário de Rama que fora educado dentro da tradição guerreira, Luke tinha que ser iniciado nessa via, mas nele existia a possibilidade de terminar com a maldade de Darth Vader, a face visível do tirânico Império Galáctico. Também era puro e valoroso, características que se vão cimentando à medida que a aventura se desenrola e o herói vai erradicando de si a insegurança e os medos.

Luke Skywalker. Flickr

Porém, tal como aparece em muitas narrativas mitológicas, antes de iniciarem as suas respetivas missões, ambos personagens tiveram que ser instruídos por Mestres, que lhes iriam facultar o conhecimento sobre as suas capacidades mais ocultas, conceder-lhes armas mágicas para os ajudar no combate contra o Mal e ensinar-lhes como as manejar convenientemente.

Rama recebeu instrução do sábio Vishwamitra, que o ensinou a utilizar as forças que iam além das suas capacidades físicas. Através da recitação de mantras Rama aprendeu a potenciar o poder letal das suas flechas. Foi deste sábio que o herói recebeu o armamento que poderia utilizar no combate contra o pérfido Ravana e os seus aliados.

Luke recebeu a sua primeira formação com Obi-Wan Kenobi (mais tarde teria a instrução de Yoda), um dos últimos Mestres Jedi sobreviventes após o extermínio promovido pelo Imperador Palpatine, líder máximo do malvado Império Galáctico. Obi-Wan ensinou o jovem herói a utilizar o sabre de luz, a arma por excelência de um Cavaleiro Jedi, e a tomar contacto com a misteriosa Força. Tal como ocorria com Rama, Luke não devia confiar somente nas suas capacidades físicas e técnicas mas aprender a controlar o seu mundo psíquico (sede das emoções e da razão) de modo a que a sua consciência pudesse entrar na sua dimensão mais subtil e extrair a sua força daí.

A figura do Mestre é extremamente importante porque é quem ajuda o herói a perceber a sua verdadeira natureza. Tal como um jardineiro vai cortando as ervas daninhas e trata convenientemente da terra para que as plantas tenham o ambiente adequado para o seu desenvolvimento, também o Mestre vai ajudando o seu discípulo a ir identificando não só as suas debilidades, para as poder erradicar, mas também as suas forças, para que as possa potenciar. Este é o primeiro impulso que o herói necessita, a constituição da sua identidade.

Outro ponto comum é o da aventura de ambos os personagens ter como elemento de ignição o rapto de duas princesas: o de Sita, no Ramayana; e o de Leia, em Star Wars.

No primeiro caso, Sita, esposa de Rama, é raptada por Ravana, que tinha ficado encantado com a sua beleza e quis tomá-la como esposa. Com a princesa nos seus braços, o pérfido governante parte no seu carro alado rumo aos seus domínios, na ilha de Lanka. Os gritos de Sita são ouvidos por Jatayu, uma enorme ave divina, que tenta impedir o rapto. Porém, os seus esforços são infrutíferos, pois Ravana consegue fugir após lhe ter cortado as asas. Agonizando, Jatayu é encontrado por Rama e relata-lhe o rapto.

Sita. Public Domain

No segundo caso, a princesa Leia, encontrando-se em viagem, vê a sua nave abordada pela de Darth Vader e é feita prisioneira por este. Porém, antes de ser aprisionada, Leia consegue enviar o simpático robot R2-D2 com uma mensagem de ajuda para Obi-Wan Kenobi, um antigo Jedi. A cápsula onde o robot parte, na companhia de outro, C3PO, aterra no planeta Tatooine, onde ambos acabam por ser comprados pelo tio de Luke Skywalker. Ao estar a verificar a condição dos androides, Luke depara-se com a gravação feita por Leia. Após algumas peripécias, Luke e os dois androides acabam por encontrar-se com Obi-Wan, que ouve o pedido de ajuda. 

Os raptos das princesas obrigam os heróis a saírem do seu lar, do seu mundo conhecido, obrigando-os a dar o salto para o desconhecido. É o abandono da zona de conforto, onde todos sabemos como as coisas são e sabemos como lidar com as circunstâncias. Sair desta zona é difícil, como se pode ver pela reação de Luke Skywalker quando é convidado por Obi-Wan para vir com ele resgatar a princesa. O jovem afirma que não pode, que tem trabalhos na quinta e não podia abandonar os seus tios, que o tinham criado desde criança. Esta cena demonstra a resistência que existe em cortar os vínculos estabelecidos. O lar, a família, a ocupação laboral são elementos que parecem justificar a sua existência e embora ele sonhasse em ser piloto da Academia, o que lhe iria permitir viajar por muitas galáxias e estar no centro de muitos episódios aventureiros, no momento em que a oportunidade se apresenta, ele hesita. Somente quando retorna à quinta do seu tio e constata que os seus familiares foram mortos pelas tropas imperiais é que se decide a agir, porém, movido pela raiva originada pela dor da perda dos seus familiares e não pelo sentido de missão ou por um súbito arrebatamento de coragem.

Embora a presença do Mestre seja importante, os heróis também necessitam de um apoio próximo, de alguém em quem possam depositar parte do seu fardo e auxilia-los nos momentos de maior dificuldade. Assim, todo o herói tem companheiros de jornada com quem partilharão as alegrias e tristezas do caminho que têm de seguir.

No caso de Rama ele conta com o apoio do seu irmão Lakshman e de Hanuman, da tribo dos vanaras, o povo-macaco. Ambos são fiéis seguidores de Rama, mostrando uma total dedicação à causa do seu príncipe. 

Lakshman é o protótipo do irmão, leal e sempre presente. Isto pode-se constatar no episódio da condenação de Rama ao exílio. Lakshman não quis permanecer no palácio e imediatamente se disponibilizou para acompanhar o seu irmão para a floresta onde este iria cumprir a pena. Lakshman é, também, o conselheiro e neste caso simboliza a inteligência, a capacidade de discernir, ajudando o herói em diversas situações a tomar a decisão mais acertada. O seu papel de protetor também é relevante, pois não só protege Rama mas, também, a esposa deste, Sita. Foi por não ter respeitado as indicações de Laskhman de não ultrapassar o sulco de proteção que ele tinha traçado em volta da casa onde viviam que Sita foi raptada por Ravana.

Hanuman é o símbolo do perfeito devoto, daquele que tendo encontrado o seu Mestre, lhe dedica o seu Amor incondicional. Está sempre disponível para as mais diversas necessidades, quer seja o combate como a busca de uma erva que cura e, apesar das suas elevadas qualidades guerreiras, é muito humilde. 

Hanuman mostrando Rama e Sita no Seu coração. Public Domain

É com estes valorosos companheiros que Rama parte para resgatar Sita. 

Por seu lado, Luke Skywalker contará com o apoio de um contrabandista, Han Solo, e do seu companheiro wookie, o peludo Chewbacca. O primeiro é similar a Lakshman na inteligência que possui, o que lhe possibilita encontrar a melhor solução mesmo nas situações mais complicadas. No início, Han somente se disponibiliza a ajudar o herói por dinheiro, mas ao longo da aventura o seu egoísmo vai-se diluindo para dar passagem à sua parte mais generosa e altruísta, terminando por fazer com que se junte à causa de combater o Império e impor a Justiça na galáxia. De um contrabandista que pensava somente em dinheiro, acaba por torna-se um companheiro leal com o qual se pode contar em qualquer momento.

Chewbacca é o exemplo de parceiro leal, com uma dedicação incondicional e um enorme coração, sempre pronto a proteger aqueles que considera seus amigos. Foi ele que, juntamente com um amigo seu, tinha salvado o Mestre Yoda, décadas atrás, quando foi dada a Ordem 66 de extermínio de todos os Jedi, durante a Guerra dos Clones. É tenaz e corajoso, não se furtando a qualquer combate.

Chewbacca. Pixabay

Os vilões são ambos poderosos e temíveis. Ravana era tão maléfico e o seu poder tão grande que causava instabilidade no mundo dos deuses e no mundo dos humanos. A própria natureza curvava-se perante a sua vontade. Ninguém ousava confrontar a sua cruel e tirânica governação. Ravana é o símbolo das pessoas que mesmo tendo conhecimento e, consequentemente, o poder, se deixam corromper pela ganância, pelo egoísmo e pelo desejo. Ele caiu na rede de Tamas2, a inércia, a não-ação. Quem segue o caminho do conhecimento deve continuamente procurar eliminar as suas impurezas, de modo a que elas não contaminem a mente e esta possa livremente elevar-se em busca da compreensão da natureza humana, das leis da Natureza e da própria Vida que percorre todo o Universo. Quando esse combate não é travado, tal como a erva daninha que vai crescendo num jardim, também os defeitos e vícios vão ganhando espaço no interior do ser humano. Manchado pelas impurezas Ravana torna-se um ser destrutivo, deixando-se inebriar pelos seus desejos, e fazendo tudo aquilo que estes lhe ordenarem. O que ele quisesse, simplesmente tomava.

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Ravana. Rei de Lanka. Creative Commons

Este desejo de posse foi aquilo que formou o maléfico Darth Vader, de Star Wars. Tal como Ravana, também ele tinha conhecimento e poder, mas movido pelo medo de perder a sua amada, deixou-se seduzir pelo lado negro da Força, com a promessa de que iria conhecer os segredos da imortalidade e que ambos poderiam viver juntos para sempre. O desejo de posse (ter a pessoa amada sempre a seu lado) fez surgir o medo da perda; do medo surgiu a raiva e, consequentemente, a queda para o lado do Mal. Tendo perdido a esperança e a capacidade de amar, Vader torna-se um ser tirânico ao serviço do Império Galáctico, não se coibindo de matar ou torturar utilizando os seus conhecimentos da Força. Ele torna-se um lord Sith, a contraparte negativa dos cavaleiros Jedi.

A jornada do herói, o rapto da princesa, a educação do Mestre, os leais companheiros e o tirânico vilão, são elementos comuns entre estas duas histórias épicas.

Lucas mergulhou nas mitologias clássicas e com os dados ali recolhidos desenvolveu os seus personagens. Ele próprio afirmou que a mitologia ajudava a compreender os motores internos das ações humanas e considerava-a, por isso, como uma espécie da arqueologia psicológica3.

Talvez tenha sido devido a todo este enquadramento que a primeira trilogia de Star Wars, (“Episódio IV – Uma Nova Esperança”, “Episódio V – O Império Contra-ataca” e “Episódio VI – O Regresso de Jedi”) tenha tido um impacto tão forte nas pessoas, pois toda a história foi assente em ensinamentos milenares, passados de geração em geração, e que perpetuavam verdades sobre a humanidade: a importância da vivência das virtudes, a superação dos defeitos, o cultivo da parte mais nobre do ser humano, as tentações constantes que procuram mergulhar a consciência humana no lado mais obscuro de si próprio, o esforço necessário para que a dimensão superior humana possa ser mantida. Estas são lições que se mantêm a sua essência mas que se vão transformando externamente assumindo a forma de mitos tão diferentes como o Ramayana, a Ilíada, o Mito de Gilgamesh ou, na nossa época, Star Wars.

Notas:

1 – Para saber mais sobre o Ramayana remeto para meu artigo «Ramayana: a lenda do príncipe Rama», em https://revistapandava.pt/ramayana.
2 – Uma das três qualidades da matéria no Hinduísmo, juntamente com Rajas (ação impulsiva) e Sattva (harmonia).
3 – Entrevista a Bill Bradley no dia 07 de Março de 2012, na SirusXM Radio.

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