Um Acesso à Realidade – “Reencontrar a nossa Identidade em uma pausa”

"Parem o mundo, que eu quero sair!". Quantas vezes ao longo das nossas vidas fomos capazes de pensar ou sentir isto, seja de uma forma mais ou menos consciente.

LEI DA RETA AÇÃO

“Se cada um considera a si mesmo como é, pode ver que está relacionado por todos os lados. É uma unidade dentro de uma rede de relacionamentos, um ponto pelo qual muitas linhas se cruzam. É um ponto (vermelho) sobre uma esfera, em torno do qual e através do qual passam uma infinidade de círculos. Os círculos que rodeiam o ponto podem ser considerados ambientais (azuis); os que intercetam o ponto como círculos de relações de consciência ou de vida (amarelos).”

 

– “Parem o mundo, que eu quero sair!”. Quantas vezes ao longo das nossas vidas fomos capazes de pensar ou sentir isto, seja de uma forma mais ou menos consciente. O que não podíamos imaginar, pelo menos muitos de nós, foi aquilo que aconteceu numa questão de dias. O mundo parou. Podemos pensar que foi por causa da pandemia produzida pelo coronavírus SARS-CoV-2 ou também porque o nosso subconsciente coletivo estava a clamar por isso. Ou talvez os dois? Ou seja, a pandemia, com sua paragem, pode ser vista como uma resposta da mesma natureza à necessidade interna e urgente da humanidade de encontrar sua identidade.

De qualquer forma, o mundo parou. E tem sido uma paragem sem precedentes de todo o ritmo frenético e consumista que temos adotado por muitas décadas. “Sair” de forma tão abrupta do ciclo da nossa rotina diária agitada, para a maioria de nós por pura inércia, tem sido como um duro golpe seco. Em seguida, sentimo-nos atordoados, cansados, inquietos, zangados, desolados…. Podemos sentir-nos perdidos. Se assim o é, devemos observar essa situação crítica, tranquilizar-nos e respirar profundamente. Temos de reconhecer que a desconexão com parte do mundo exterior, precisamente por estar a parar, convida-nos a refletir mais tranquilamente sobre nós mesmos e, portanto, sobre a direção ou o significado das nossas vidas. Se estamos serenos o suficiente e somos sinceros connosco mesmos, do fundo do coração, podemos sentir como se estivéssemos longe de casa por muito tempo e gostaríamos de voltar. Com este sentimento consciente, esta pergunta vem à mente: – Onde se encontra minha casa? Nesse instante, espontânea e inesperadamente, Sri Ram chega até nós e, afavelmente, aponta-nos para esse caminho de reencontrar nossa casa.

O mais importante é “conhecer-se a si mesmo”. Ninguém nos pode levar até lá. É um caminho que cada um de nós tem de percorrer com seus próprios pés. Entretanto, adianto que há alguns acompanhantes. Um deles, especialmente agradável, imprevisto e um guia subtil. E também, em um dado momento, um certo meio de transporte para buscar-nos.

Antes de começarmos esta viagem, Sri Ram diz-nos para contemplarmos o que nos rodeia para que possamos tomar o caminho na direção e com o vento apropriado. E é assim que vamos fazer. Constatamos, juntamente com seus argumentos, que o mundo exterior, o objetivo, é ilusório. E que o subjetivo, é o real. Perceber a realidade é um ato puramente subjetivo de nossa consciência.

Estamos habituados a ver as coisas voltados para o exterior. Examinamos os factos que ocorrem no mundo objetivo, a partir de nossa perceção sensorial, e os analisamos com os nossos pensamentos. “Parece” que o objetivo é a única realidade e o subjetivo é o ilusório. Fica também implicitamente estabelecido que somente pode ter o alcance da realidade as experiências que todos partilhamos. Mas estas premissas não são verdadeiras.

Estrelas. Pixabay

A realidade que observamos, pelas nossas perceções, são meras aparências. À luz do dia não se pode ver as estrelas, mesmo que brilhem como sóis ininterruptamente. Não as vemos como realmente são. O sol parece estar a mover-se, mas também é uma ilusão, uma vez que é a terra que gira, mesmo que nos pareça o contrário. Inclusive a perceção sensorial da matéria: flores, luzes… Não é tão sólida como pensamos. “Há um vazio na matéria”. Há muito mais espaços sem matéria do que com ela. A matéria, no conjunto do universo, é atípica. Sri Ram propõe que se escolha um ponto aleatório, tanto no macrocosmo (estrelas, planetas…) como no microcosmo (átomos, protões, eletrões…) e ensina-nos que há imensas possibilidades de que este ponto, antes de encontrar matéria, se encontre num espaço interestelar ou interatómico. “O universo é subtil” e a matéria só aparece em raras ocasiões. Com isso, o mundo objetivo da matéria não é tão real como parece. 

Certamente, alguém pode continuar a pensar que tudo o que é matéria é mais real do que qualquer outra coisa na nossa mente. Mas a nossa própria experiência ensina-nos que há sentimentos ou pensamentos que, por sua intensidade ou persistência, podem dar-nos a impressão de serem ainda mais reais do que esta realidade . 

Qualquer conhecimento que obtenhamos de algum fenómeno da natureza, embora percebível por muitos, o fazemos através das nossas mentes; é um ato puramente subjetivo. Para conhecer a realidade, temos de olhar para dentro de nós. E ainda mais. Uma experiência não precisa de ser partilhada para ser real. Por exemplo, a experiência de um místico. Também a experiência de ouvir música ou contemplar uma obra de arte não é a mesma para todos. Há uma série de sentimentos, sensações ou mesmo energias desconhecidas, como o movimento do espírito, dependendo de nossas próprias situações vividas, portanto subjetivas, que dificilmente poderiam ser iguais em cada um de nós. Por outro lado, o fato de ser uma experiência única, de um único indivíduo, por si só, não pode classificá-la como não real ou irreal. Porque é real para nós, e sem ela, estaríamos a perder muitas das nuances mais essenciais e reais de nossa existência.

A realidade, queiramos ou não, é psicológica, subjetiva. A própria ciência, como explica Sri Ram, ultrapassou o conceito onde a matéria é a única realidade e a nossa mente um substituto, para propor que ambas, matéria e mente, estão entremeadas e, há relativamente pouco tempo, é que começa a estabelecer que há um predomínio do mental.

Agora que conhecemos o rumo de nossa viagem, para nosso interior, devemos seguir o conselho de Sri Ram para chegar a nossa casa: “conhece-te a ti mesmo”. Para este fim, desde o primeiro trecho da estrada estaremos acompanhados pela nossa mente. Temos de perceber muito bem a sua natureza, para que nos sirva mais como instrumento do que como um obstáculo. Porque, se não a conhecemos bem, ao longo do caminho pode haver mais pedras e pó do que água para nivelá-la e limpá-la. Com ela, temos de quebrar as falsas ideias e fantasias que aparecem diante de nós e que nos fazem girar em círculos viciosos. O que, obviamente, não nos leva a qualquer lugar.

Temos de tirar a nossa mente da sua involução, porque está acorrentada às nossas experiências passadas. Ela permanece na zona de conforto da conveniência e do comodismo quando a deixamos tranquila com as suas falsas crenças. Mas com um exame crítico e honesto, tanto dos nossos pensamentos como de nossas reações às coisas e às pessoas, agita-se de sobremaneira. No que diz respeito aos pensamentos, a mente, em geral, conhece as coisas a partir dos opostos. Conhecemos uma cor, um som, diferenciando-os de outros. Bom. Não há conflito nisto. O que acontece é que esta dualidade, demasiadas vezes, na sua maneira de ser, confunde a nossa visão das coisas. E aqui sim, há um problema. “Existe nas nossas personalidades o conflito de uma constante contradição”. Por um lado, podemos ser frios e distantes, e por outro lado, sensíveis e carinhosos. Com respeito à nossa relação com outras pessoas ou coisas, também é muito desigual. Algumas situações nos repelem irremediavelmente e outras, por outro lado, nos atraem. Temos um fluxo de energias discordantes que agem simultaneamente. E o nosso karma, se isso não fosse pouco, nos impõe uma série de circunstâncias físicas e psicológicas, sujeitas ao passado, que não podemos mudar. Isto deixa qualquer um louco. 

Fluxo. Pixabay

Neste cenário, o início do caminho com a nossa mente é como se estivéssemos num túnel com o teto baixo, longo, sombrio, com um intenso frio seco, ervas daninhas e muito íngreme. Uma pedra de toque, para avançar através desta paisagem inóspita em que nos encontramos, está na compreensão que cada sensação, seja de prazer ou dor nos condiciona, por apego ou medo. Temos de investigar muito bem o que é o “desejo” mais primitivo. Porque a sua maneira de atuar é realmente um foco de contínuo mal-estar. Em primeiro lugar, temos de visualizar o seu mecanismo: um desejo mundano, com maior ou menor intensidade, causa-nos certo prazer para com algo ou alguém; essa sensação une-se à nossa mente como uma cola e a memória nos implora mais e mais para nos lembrarmos dela novamente. Na verdade, esse desejo constante é a causa da dor. Porque dói quando ainda não o alcançamos e continua a doer quando o conseguimos e queremos mais. É como um vício. Não é saudável, nem mesmo satisfatório. Em segundo lugar, devemos evitar reprimi-lo, pois seria ainda pior que se agravasse na sombra e que voltasse contra nós com mais força. O que devemos praticar quando ele chega é contemplá-lo enquanto dure e deixá-lo ir naturalmente, sem nos envolvermos. A verdade é que se está connosco é porque tem algo a ensinar para nossa evolução pessoal. Deve-se ter em conta que este argumento também não significa que tenhamos de abdicar do que é agradável, “pois todas as experiências são agradáveis ou dolorosas em certo grau, e não podemos evitar as experiências”. A todo este processo de desapego consciente e observar o nosso falso ser, podemos chamá-lo de des-ilusão. Como diria Buda, temos de desligar o eu pessoal: eu sou isto, eu sou aquilo… que embora pareça tão real é uma mera aparência, uma vez que mudamos continuamente. Este treino mental e espiritual não é fácil, é um processo interno lento e tedioso, que tem de ser constantemente colocado em relação com o nosso modo de vida, ou seja, na prática.

As escolas antigas consideram que o pior erro que nos mantém na escuridão, exatamente onde estamos, no túnel gelado e escuro, é a distinção que a mente faz entre mim e o outro.  

É menos mau que possamos diluir essa separação paulatinamente, na medida em que utilizamos a nossa forma de viver para fins cada vez menos caprichosos ou egoístas. Assim, podemos obter, de forma diretamente proporcional mais capacidade de amar e dissolver essa dicotomia que tanto nos impede de voltar para casa.

Céu. Pixabay

Portanto, para seguir em frente e encontrar a nossa casa, temos de remover as ervas daninhas do caminho. Ao fazê-lo, vemos que o túnel acaba e aparece, diante de nós, um terreno menos árido e mais plano, ainda frio, mas mais suportável. Há uma estrada de terra estreita. E acima das nossas cabeças, um grande céu noturno, embora nublado. Neste instante, aparece diante de nós um meio de transporte que nos ajudará a chegar em casa. Chama-se Imaginação. A sua aparência é etérea e tem uma energia que incita, com o seu aroma de bem-estar, a entrar no seu interior e a viajar com ela. Sri Ram nos previne para que, antes de concedermos a nossa confiança à imaginação, que a coloquemos em quarentena para investigar o motivo de querer ajudar-nos. Se ela nos quer levar na sua carruagem vaporosa, com energias que vêm de experiências do nosso passado, atendendo a gostos pessoais e antipatias, devemos descartá-la imediatamente, pois não ajuda oferecer ao nosso pensamento tal opacidade. Mais ainda, podemos chamar-lhe de fantasia e simplesmente descer. Não queremos mais nuvens; queremos ver a luz do dia e, à noite, poder contemplar as estrelas, que ainda não vemos. Agora sim, depois de estar com ela, vemos que não é fantasia, mas realmente imaginação. Ela quer sinceramente levar-nos para casa, porque pressentimos que o lugar onde vai levar-nos não tem nada a ver com nossas experiências passadas.

Ela, a imaginação, constrói uma ponte entre a nossa mente e o desconhecido, que se materializa na paisagem desta viagem. “A imaginação amplia a mente, porque nos eleva a níveis superiores e aumenta a nossa sensibilidade” . Capta ideias subtis do não visível e as materializa. “Dá asas à mente.” Ela é superior à própria razão, porque cria e não se limita a registar. Com a imaginação se cria o ideal. Junta-se o material que temos com a parte mais elevada e sensível de nossa inteligência. Se o ideal que criamos são qualidades mais elevadas como a beleza, a pureza, a bondade, mesmo a partir de nossa interpretação colorida, pela nossa forma como indivíduos, aproxima-nos de algo superior e espiritual que não conhecemos, mas que assim, talvez, possamos sentir .

Riacho. Pixabay

A ponte que a nossa imaginação constrói é larga, com pedras claras e escuras. Atravessa um pequeno riacho que vem do topo de uma alta montanha, que se vê de longe. A sua água salpica graciosamente ao passar muito depressa, batendo nas pequenas pedras que ela própria arrasta por sua vez… A noite está magnífica e estrelada. Ao passarmos a ponte, chegamos aos portões de um grande edifício de pedra e mármore. Parece com o que poderia ter sido a primeira biblioteca de Alexandria, com Alexandre o Grande. A sua entrada é guardada por duas enormes esfinges egípcias, com uma policromia tão requintada que não parece deste mundo. Fazemos uma paragem no nosso caminho e entramos. Há um pátio. Nele, um espaço retangular, com musgo verde muito fresco, no interior, um tanque circular, com água quieta e cristalina. E bem no meio ergue-se uma espécie de altar, no qual há uma chama intensa de fogo. Sri Ram explica-nos que representa o ciclo de existência terrena do homem. Este ciclo tem um movimento primeiro de descida e depois de ascensão. Abaixo está a Terra, o musgo, que representa a materialidade. Então a Água, a lagoa, que são os níveis psíquicos. E finalmente, o Fogo, a chama ardente, o mais puro de todos os elementos, que simboliza o Espírito, a Energia Espiritual, o Logos, o Princípio Primeiro, a Vontade da inteligência perfeita manifestar-se (númeno). Primeiro, o homem descende do fogo-água-terra e depois, ascende: terra-água e, finalmente, fogo.

Entramos no interior do edifício. Embora seja muito grande, sentimos abrigados no seu interior. Cheira a incenso. Não há muita luz, mas enxerga-se perfeitamente. Olhamos em volta e verificamos que todas as suas paredes estão cheias de livros. Alguns são tábuas, outros papiros, outros rolos enrolados, outros couros escritos, outros livros manuscritos e muitos outros livros impressos. É como se todo o conhecimento do ser humano ao longo da sua existência estivesse contido naquele espaço sublime. É o lugar onde se reuniam os primeiros Teósofos. Valorizavam a sabedoria antiga, que é uma assimilação filtrada na sua primeira essência, de filosofia, ciência e religião. Podemos chamá-la de filosofia espiritual. São estudados tanto o subjetivo como o objetivo, embora em frequências mais subtis do que as vibrações que afetam os nossos sentidos normais. Ajudam-nos a compreender que temos de estudar as coisas de forma profunda e em primeira pessoa, para que possamos colocá-las em prática. A sabedoria em ação é um ensinamento profundo. De uma certa perspetiva, leva-nos por um atalho. Porque nos mostra verdades sem véu. A cultura (arte, literatura, música, matemáticas…) toca vibrações mais subtis, que nos podem indicar a melodia cósmica para onde ir; embora o nosso progresso seja inexorável, tais ondas são uma espécie de impulso para tal avanço. 

 

Leitura. Pixabay

No centro do interior de tão solene edifício, descendo escadas de mármore branco com veios azuis acinzentados, um grande livro é exibido, desgastado, mas ainda em bom estado, aberto praticamente ao meio. Ao aproximar-nos, embora esteja escrito com sinais que não são conhecidos, podemos compreendê-lo.

Há uma realidade única e absoluta, duradoura, que é um princípio, ordem ou síntese, a causa da harmonia fundamental e profunda de todo o universo. Esta realidade é a própria verdade em si. A Realidade absoluta, é Una, e quando se manifesta surgem os opostos: espírito e matéria, que são intimamente inseparáveis.

Nesse exato momento, um sopro de ar atravessa-nos; é como se escutássemos a vibração de uma nota musical que está em sintonia com as profundezas de nosso ser. E daí vem uma certeza intuitiva de que essa realidade do livro é a nossa casa, e que está dentro de nós. Não temos que procurá-la externamente, num local remoto. Certamente, este é um ato reflexo da nossa mente, que acostumada a continuamente procurar respostas no exterior, passou a crer, erroneamente, que a nossa casa estava distante.

Estas reflexões levam-nos por um momento a duvidar se estamos a sonhar com esse magnífico edifício. A questão é que não parecia um sonho, mas tinha sido tão real como quando estamos acordados. Então, podem os sonhos e a vigília ser a mesma coisa? Na verdade, sim. Mas só quando as nuvens da mente desaparecem e deixam entrar a luz do sol; então, “não há nenhuma ilusão ou engano possível para o olho que percebe. Sono e vigília são a mesma coisa para ele”.

Sem saber exatamente se estivemos ou não naquele edifício, mas sem a dúvida de saber que regressamos a casa, continuamos a nossa jornada. Reparamos como o sol aquece ligeiramente o rosto e nos dá uma energia muito renovada. A paisagem parece mudar por segundos. Milhares de flores florescem, com aromas variados e doces, podemos ouvir o canto dos pássaros, uma brisa suave e delicada nos acaricia. O vento está agora a soprar na direção certa. E continuamos a nossa jornada com a nossa mente e a nossa querida imaginação. A certa altura, perdemos a noção do tempo, desfrutando de cada uma das maravilhas que a natureza nos fornece; observamos que cada planta, cada flor, cada animal que é colocado à nossa frente são realmente belos, diferentes e únicos; e com o tempo os percebemos integrados, como se cada um deles fosse uma das notas que compõem uma grande sinfonia, intuindo que sem as mesmas não existiria tal melodia. 

O sopro de ar que nos atravessou anteriormente o fez novamente. Mas agora sabemos o que é. É um Anjo que, inesperada e celestialmente, veio até nós. Por vezes, se o rastro do vento de uma pessoa está bem orientado, ele sopra a sua luz divina e mostra presságios de futuro contidos no agora. Para nós, como uma intuição, sussurrou-nos intimamente que cada coisa que existe no universo está intimamente relacionada. E o que acontece a uma delas afeta as outras, direta ou indiretamente, de forma recíproca, porque todas as coisas estão intimamente conectadas.

Além de nos relacionarmos com as coisas, nos relacionamos com outros seres humanos em três planos diferentes: pensamentos, sentimentos e ação física. Existem relações ambientais, externas e materiais, típicas do Karma, com um dado tempo, lugar e circunstância, que devem ser aceitos como vierem. E há outros tipos de relações que são de consciência ou de vida. São relações internas, de afinidade, de espírito. São a pura Realidade e manifesta-se como a oportunidade que temos para expressar a nossa qualidade especial como indivíduos.

 

Luz. Pixabay

Estamos muitas vezes em conflito com os outros devido à nossa falta de profundidade e de contacto interno. Cada um de nós está trancado na sua própria concha. Temos que extrapolar as nossas limitações. Com a nossa singularidade (temperamento, sexo, raça, religião, etc.), devemos alcançar o brilho próprio, a nossa melhor versão, que está em nós em forma latente. É quando a lei da relação justa é expressa e o equilíbrio perturbado da natureza é restaurado. Porque essa versão melhorada toca a vibração que melhor sintoniza com as outras. “Todos os opostos são, na verdade, complementares”. E isso é o que dilui a falsa linha de demarcação entre o eu e o outro, que parece separar-nos irremediavelmente. Assim surge o ideal da Fraternidade, que é essencialmente desinteresseira; que abriga com o seu manto muitos outros ideais nobres: Justiça, Liberdade, Cooperação. Portanto, a relação entre os homens e por extensão com todo o cosmos torna-se inegoística. Todos nós, desde esta nova perspetiva, somos Uno e também, separadamente, um “ser sem eu” , Ego divino e imortal, amor puro e relação interior, perfeita e dinâmica.

De acordo com o nosso desenvolvimento subjetivo nesta viagem, uma entrada de puro ser através da nossa consciência que está a despertar, torna-nos mais recetivos e também implica apreciá-lo, cada vez em mais aspetos da nossa vida. Uma pessoa totalmente espiritual é eternamente jovem, no sentido de que o seu ser brilha como uma fonte criadora de vida. E isso dá-lhe uma imagem vital e fresca. Assim, a nossa primeira criação para alcançar este ser puro, depois de termos aplainado o nosso caminho e tirado as ervas daninhas dos nossos falsos mecanismos mentais, consiste em re-criar os pensamentos e atos da nossa vida. É uma autorrealização do ponto de vista de ser como uma fonte de criação.

Agora, o verdadeiro avanço na direção da nossa viagem está em sentir o Interesse Supremo, Amor Universal, onde o não conhecido encontra o conhecido. E é importante que toque no conhecido, para que exista algo que possamos modificar. Querer instalar-se numa pura abstração da Realidade Absoluta, não é lógico, não é dinâmico e não gera progresso. É um beco sem saída. Não obstante, felizmente, este verdadeiro Interesse Universal está dentro de nós, no nosso coração. Se conseguirmos tocá-lo, mesmo que por um instante, desconectando-nos de todo o resto, poderemos extrair desse momento um sentido de unidade, com um valor não perecível que não nos escapará mais. Em outras palavras, perceber a verdade em si mesma, que está no nosso coração, está essencialmente relacionado a colocá-la em ação. Porque “subjetivamente percebemos e objetivamente criamos”.

Fazemos uma última paragem pelo caminho. Se descobrimos que não somos o nosso eu pessoal de emaranhados, emoções, pensamentos e experiências unidos a desejos e temores, que se repetem incessantemente; se lutamos com o coração para livrar pouco a pouco o nosso solo interior das ervas daninhas, desprendendo e desapegando de tudo o que é mutável e ilusório; se insistimos em praticá-lo no nosso dia-a-dia; se tentamos perceber tudo o que nos rodeia, na sua beleza infinita, com as suas diferenças e de forma essencialmente simultânea, como sendo Uno; se nos apagamos e recriamos a nossa vida como se fosse uma obra de arte; se sentimos intensamente no nosso interior o que está sempre presente, a realidade atemporal, o interesse universal, tal como percebemos durante a nossa volta com Sri Ram; então, podemos realmente perguntar: – Quem sou eu? Nesta pergunta há uma transformação. A consciência faz uma reviravolta na sua engrenagem. Nesta paragem da nossa existência, descemos do mundo. E permite-nos discernir e sentir de uma forma, mais intuitiva e criativa. Nesta paragem, brota a nossa própria identidade. Ser sem um Eu. Um “Estar só”. Sri Ram faz-nos uma última e esclarecedora sugestão: convida-nos a investigar o que é a realidade em si, a partir do conceito de “autoconfinamento” de Krishnamurti que, por sua vez, está na mesma linha que os conceitos de “Solidão criativa”, “Ser unitotal” ou “Estar só”. Usa a expressão “autoconfinamento” com dois sentidos diferentes. Um, como uma concha endurecida ou prisão, que se instala numa mente com limitações, sem a possibilidade de sentir vibrações mais subtis. E outro, que é o que nos inspira aqui, “autoconfinamento” enquanto “só comigo mesmo”, um círculo único e completo em total comunhão com o universo.

Sol. Pixabay

Realmente, a nossa intuição procura algo mais, para além da matéria e do mundo exterior que a rodeia, assim como a lua influencia intimamente todos os líquidos da Terra, ela exerce essa atração interior sobre nós e age inexoravelmente. Na maré de pensamentos, sentimentos ou emoções imaginados e vividos, cada vez mais puros, sensíveis e recetivos, a consciência transcende as nossas mentes e atrai o real cada vez para mais perto.

Aqui chegamos ao final de nossa jornada; estamos às margens do imenso mar de cor azul penetrante e, sem pensar nem por um segundo, mergulhamos na cabeça. Rapidamente notamos a sua frescura e respiramos perfeitamente dentro dele. É um espaço interestelar. É uma pausa fora do tempo onde aflora nossa verdadeira identidade. Ser sem amarras, sem corpo, cheio sem conteúdo, alegria indescritível.

Notas:

1 – Esta reflexão é sobre o livro de Sri Ram, Um Acesso à Realidade. Como o texto que li é um PDF e não o livro original (edição Orión, Cidade do México, 1963), para citar vou colocar o título e a página do PDF.

2 – Um Acesso à Realidade, 23. Cada um de nós é um ponto vermelho sobre a superfície da esfera da Realidade Absoluta. E temos dois tipos de relacionamentos. As relações ambientais, externas e materiais, próprias do Karma, com um tempo e lugar determinados, que formam os círculos azuis concêntricos, em torno do nosso ponto vermelho. E também temos outros tipos de relacionamentos, que são de consciência ou vida. São relações internas, de afinidade, espirituais. Os círculos amarelos têm o mesmo raio da circunferência, por ser a própria Realidade, e passam por nós (ponto vermelho).

3 – Uso o termo “subconsciente” porque é o usado por Sri Ram, e em consonância com o sentido que lhe dá Jung. Não deve ser interpretado ou confundido com o significado de “subconsciente” de Freud, porque perderia todo o seu conteúdo.

4 – Um Acesso à Realidade, 3.

5 – Um Acesso à Realidade, 4.

6 – É um facto que a forma como percebemos é, de certa forma, uma realidade da nossa situação atual, mesmo que saibamos que é uma forma de ver parcial. Mas é o que temos agora. No entanto, intuímos que, por trás da aparente realidade, se oculta a verdade.

7 – Um Acesso à Realidade, 42.

8 – Um Acesso à Realidade, 20.

9 – Um Acesso à Realidade, 35.

10 – Um Acesso à Realidade, 36. 

11 – Um Acesso à Realidade, 32.

12 – Um Acesso à Realidade, 32.

13 – Um Acesso à Realidade, 37.

14 – Um Acesso à Realidade, 42.

15 – Podemos contemplar este movimento do ciclo do homem, enquanto humanidade, como parábola, desde a perspetiva da Geometria Sagrada. A curva começa com o ser humano descendo ao mundo material e, então, ascendendo à medida que se eleva ao mundo espiritual. Ou seja, quando completa sua evolução e reencontra sua identidade.

16 – Um Acesso à Realidade, 35.

17 – Um Acesso à Realidade, 29-31.

18 – Um Acesso à Realidade, 16. “O homem espiritual é aquele que cortou completamente com tudo isso”, “transcendeu o estado vigília e vive em um estado de sonho no sentido mais maravilhoso”.

19 – A Acesso para o Realidade, 16. O Anjo é esse agradável e inesperado guia subtil que antecipamos que apareceria no nosso caminho. É revelado pela nossa intuição.

20 – Um Acesso à Realidade, 51.

21 –  Um Acesso à Realidade, 23. É o desenho geométrico que representa a lei da relação justa dos seres humanos, que ilustra esta reflexão. O Uno no múltiplo em sintonia celestial.

22 – Um Acesso à Realidade, 25.

23 – Um Acesso à Realidade, 24.

24 – Um Acesso à Realidade, 26.

25 – Um Acesso à Realidade, 26.

26 –Este processo de recriação segue o processo de des-ilusão, para limpar falsas crenças e atitudes, como explicado acima.

27 – Um Acesso à Realidade, 19.

28 – Um Acesso à Realidade, 20.

29 – Um Acesso à Realidade, 18.

30 – Um Acesso à Realidade, 47. Consiste em chegar a ser o que é, que é, em essência, o mesmo que já era de forma latente; no entanto, agora o é potencialmente.

31 – Um Acesso à Realidade, 55. Sri Ram faz referência a esse termo de Krishnamurti, segundo o ditado, como a chave para compreender o acesso ao que é a verdadeira Realidade, que nos guia e submerge no seu livro. “Certamente, há uma diferença entre esse estado de solidão (loneliness), que implica sentir-se só, solitário (lonely), e o outro estado que envolve ser sozinho, livre, não depender de ninguém (alone). A primeira das solidões é a essência do processo de autoisolamento. Quanto mais conscientes somos de nós mesmos, mais isolados estamos, e a consciência do “eu” é o processo de isolamento. Mas a outra solidão (aloneness) não é isolamento e só existe quando deixa de existir a solidão do isolamento. É um estado onde toda a influência chegou ao fim, tanto a externa quanto a interna, da memória; e somente quando a mente está nesse estado de solidão criativa ela pode conhecer o incorruptível. Mas, para chegar a isso, é preciso compreender a solidão que implica esse processo de isolamento constituído pelo ‘eu’ e as suas atividades. Assim, com a compreensão do ‘eu’, o isolamento começa a terminar e, portanto, o estado de solidão que o isolamento origina acaba” (El amor y la soledad, p. 17).

“Esta unitotalidade não é dolorosa, temida solidão. É a unitotalidade do ser; é incorruptível, rica, completa. Esse tamarindo não tem outra existência além de ser ele mesmo. É assim que é essa totalidade. Estamos só, como o fogo, como a flor, mas não percebemos a nossa pureza e imensidão. Só se pode entrar verdadeiramente em comunhão quando existe unitotalidade. Ser unitotal não é o resultado da negação, do autoisolamento. A unitotalidade é a extinção de todos os motivos, de todas as buscas de desejo, de todos os fins. A unitotalidade não é um produto final da mente. Não se pode desejar ser unitotal. Tal desejo é simplesmente uma fuga da angústia de não ser capaz de comungar” (Comentários sobre o viver, 1ª parte, p. 15).

32 – Um Acesso à Realidade, 55.

33 – Intuição como uma faculdade superior à razão e forma de conhecimento direto para o desconhecido.

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